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"DESLUMBRAMENTO"

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PEDRO DE SÁ Deslumbramento   Há uma vaga brisa. Mas a minh'alma está com o que vejo menos. Com o paquete que entra, Porque ele está com a Distância, com a Manhã, Com o sentido marítimo desta Hora, Com a doçura dolorosa que sobe em mim como uma náusea, Como um começar a enjoar, mas no espírito. In Ode Marítima Álvaro de Campos ÍNDICE PASSADO PRESENTE FUTURO PASSADO   - Porquê? Consegues explicar-me? O que se passou ao certo? - Explicar? O que há para explicar? As coisas são como são. Para quê, agora, estarmos a teorizar acerca de factos? - Porque o hoje constrói-se no ontem, e não acho correcto seguirmos em frente, sem compreender o acontecer… Não sei, gostava de saber a tua opinião, agora que já passou ta...
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Todas as ruas deviam ter o mesmo nome: Rua dos Sonhos Sepultados . in Deslumbramento

Com a Idade Aprende-se a dizer Adeus

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Desceu a escada na dificuldade própria do acumular do tempo. Uma mão na bengala, a outra numa súplica muda – para quem? Por fim, sentiu o chão do mundo e saiu para a rua. Era crescente a sua distância em relação a tudo o que via. Primeiro, pela ligeira traição do ouvir – embora daí não se importasse, algo de latejante, em si, sussurrava que nada perdia. Em segundo, pelo espectáculo oferecido: uma velocidade contrastante com a sua lenta fragilidade, automóveis no lugar de pessoas, que a obrigavam a odisseias rodopiantes, rostos fechados, num emudecimento obstinado, que a faziam suspirar pelo vazio crescente de espaços outrora ocupados. Iniciou a sua jornada. Ao passar debaixo da sua janela, ouviu o matinal canto do seu pássaro. Olhou para cima, numa retribuição muda de agradecimento, pelo estímulo da familiaridade. Morava no primeiro andar, de um prédio sexagenário. Numa dessas ruas da capital, onde o sol pede permissão para entrar. Era uma casa pequena. Apenas duas assoalh...
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Nunca se esqueça: Nós somos enquanto formos! O eco apanhou-me já o elevador quase no rés-do-chão, e acompanhou-me durante dias, confesso que demorei o meu tempo, sempre o necessário de cada um, a compreender-lhe a essência.  in Harmonia

Uma Mão Estendida para o Nada

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Ali estava ele, sentado na calçada de uma movimentada rua da cidade (Qual?), de mão estendida. Devia ser de tarde. Mas ele há muito desinteressara-se do tempo dos outros. Observava os passantes na ânsia da dádiva. Alguns devolviam-lhe uma certeza que, de alguma forma, conseguira soterrar em si, através de um olhar inflexível. Estes eram sempre os mais apressados. Geralmente, andavam munidos de uma pasta. Transpareciam uma confiança, em cada passo, que o deixava atónito. Como se soubessem, em algum recanto interior, que o destino era um servo submisso à espera das suas instruções no alpendre. E ele, a sentir, simultaneamente, o frio e a dureza da calçada, nutria compaixão por eles. Mas uma compaixão sincera. Como se os olhasse de um cume, e os soubesse na dura inclinação da encosta (...)
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Aproxima-se a hora da partida

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“À noite falamos melhor!”, gritei para o interior escurecido da casa, apesar da manhã no seu auge, ela sempre com os estores corridos ou as cortinas fechadas, desde aquele dia, creio que foi por aí, antes de fechar a porta, ainda insistiu, “Mas pensa bem no assunto! Vê lá se reflectes! Fiquei de lhe dar uma resposta”, repeti “À noite falamos melhor!”, não tive alternativa, fechei a porta, desci as escadas e saí para a luminosidade da manhã, a vista demorou-se a adaptar, baixei o olhar, por uns segundos, antes de iniciar a marcha, como se um rito diário, tal a escuridão onde vivia, enquanto caminhava, o meu pensar regressou, não sei bem porquê, ao seu pedido, havia nele quase um tom de súplica (“Mas pensa bem no assunto! Vê lá se reflectes!”), sem me dar conta, era o que fazia, reflectir no seu pedido...

Anúncio Televisivo: "DESLUMBRAMENTO"

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Talvez no futuro, ele queira contar histórias passadas entre verdes e azuis, de quem olha por janelas, e sonhe alcançar num gesto aquele barco que vai em direcção a Sul. in  Foi no alto de uma colina, que aprendi a olhar o Mundo

Uma janela que não mais se iluminou

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Perdi a conta, nesta vida, às janelas que não mais se iluminaram, sempre me fascinou, da rua, contemplar, ao alto, uma janela iluminada, como se um vestígio do dia na noite infinda, um obstinar de luz perante o inclemente avançar das trevas, e um pressentimento de calor, de partilha, de conforto, no fundo, o essencial do existir, porém, perdemo-nos tanto atrás de menoridades, por vezes, acabamos mesmo por nos perdermos, também eu procuro esta essência (calor, partilha, um pouco de conforto), e sempre, em mim, esta coisa de olhar o passado, de cristalizar o acontecer, afinal, no meu pensar não há passado, presente e futuro, tudo perdura num espaço (sem vozes silenciadas, rostos desvanecidos e gestos apagados)...
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A Incessante Efemeridade das Vagas

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Num entardecer (seria Verão?) ele regressa a casa pela concorrida estrada litoral. Pelos vidros abertos, entra um apelo marítimo. Não lhe resiste. Pára a viatura, descalça-se, e sente a areia antes de a pisar. Afinal, ver é sentir… No ar respira-se fim. Agora, caminha ao sabor da lentidão do momento. Olha à sua volta. Uma criança corre sob o desvelo materno. Ri o riso da infância: sonoro, espontâneo, vivo. À sua direita, uma jovem mulher sentada olha o mar, numa imobilidade pensante. Um rosto de saudade. Alguém que amou? Sim, talvez isso. As mãos nos joelhos. O olhar absorto no horizonte. Sim, ela está longe. Mas a distância advém do tempo. E essa é sempre a mais longínqua. Agora, ela compõe uma madeixa, no gesto possível do feminino, que a brisa descaíra. Ele memoriza-lhe o rosto. Uma beleza serena. A única que demora a vista. Agora, à sua frente, passam dois sujeitos a correr. O indizível do esforço grita-se-lhes no rosto. Talvez percepcionem que a meta seja distante.  ...
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Anoiteceu

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Lar? O que é isso de lar? Quando um prenúncio de regresso pelo mundo anoitecido, um sentir de orfandade aloja-se-me no sentir, ou talvez nunca dali tenha partido, como se fosse um conceito que ignorasse (e não ignoro? Lar? O que é isso de lar?), em verdade, nunca houve, debaixo deste céu, um lugar onde me sentisse em casa, onde regressar me apaziguasse o pensamento, vejo, agora, pressa à minha volta, pelas ruas percebemos o turvar dos céus, enquanto os candeeiros procuram contrariar, alumiando o possível, a ordem natural do acontecer, ouço, ainda sentado diante da minha secretária, “Então, até amanhã…” ou “Não vais para casa?” ainda “Vais ficar a fazer serão?”, malas quase arrancadas do chão, luzes apagadas com ferocidade, casacos vestidos sem olhar (não sei porquê, mas afigurou-se-me o oposto, em tempo e parcimónia, do gesto matinal)...
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LIVROS

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“Imperativo? Imperativo é viver a luz que me resta. Sabe, no fim de tudo, basta o sol pela face para nos sentirmos em paz. É estranho, não acha? O sol pela face… E corremos uma vida inteira atrás de tanta estupidez!” in A estranha ilusão de que vivemos fora do corredor da morte

"DESLUMBRAMENTO"

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Um sino tem voz de alma. in Natal rima com Criança
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A estranha ilusão de que vivemos fora do corredor da morte

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O seu nome pela voz do médico, porta do consultório aberta, com uma folha na mão, lá se levantou, não lhe passou despercebida a crescente dificuldade, tentou disfarçar para o mundo em redor, três ou quatro vultos, pouco mais reteve, há muito deixara de olhar o outro, desde que passou a ver olhos em ecrãs em vez de rostos, foi aí, sem dúvida, que declinou a procura de almas espelhadas em olhares, o médico permaneceu, de folha na mão, sob a ombreira do seu consultório, estendeu-lhe a mão para o cumprimentar e com um afável gesto incitou-o a entrar (…) 
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Natal rima com Criança

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Numa noite ida de província, em vez de pratos, talheres, copos, a mesa povoou-se de cor. Era uma mesa de madeira enegrecida. Talvez pela vizinhança com o lume. Comprida. Mas, nessa noite, era o coração do mundo. A noite estava fria. As mãos estendiam-se para a lareira, enquanto os olhos, ávidos, percorriam o festival de cores sobre a mesa, que encerrava uma indizível promessa de alegria. Adultos cirandavam, numa indiferença inexplicável às cores, falavam e falavam, e ele, teria perto de oito anos, vislumbrava o abismo que o separava daquelas criaturas mais altas, algumas com a cabeça prateada, cheias de certezas, convicções… Tudo uma frágil aparência, porque só o olhar de uma criança apreende o véu desiludido que lhes turva o olhar. Sente-se na pele que esta é uma noite diferente das outras. Porquê? Sim, não se explica, sente-se. E quando as coisas enveredam pela via dos sentimentos, o verbo torna-se supérfluo, porque compreendemos no outro uma essência irmanada. Mas voltemos à cria...

Crónica ao Johnny Weissmuller

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A primeira vez que vi um filme de Tarzan, ainda por cima o verdadeiro, com o supracitado actor que titula esta crónica, foi pela sua mão. Teria uns seis ou sete anos. Irradiava o entusiasmo único da criancice. Ele sorria com benevolência. Foi também a primeira vez que fui ao cinema. Diga-se, em abono da verdade, que entrei nesta arte, dita a sétima, pela porta grande. Nunca, até hoje, uma interpretação me impressionou tanto como a daquela macaca. Aqui lhe deixo a minha homenagem. Ao sairmos, ele disse-me, com um sorriso que só ele podia sorrir: Estavas com sete olhos! Acho que, até hoje, nunca usei esta expressão, de alguma forma sinto que lhe pertence. Não tenho esse direito ( Estavas com sete olhos! ). Daí à natação nem um pequeno passo foi. Bem sei, que ele queria um filho que nadasse como Johnny Weissmuller (…)
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(…) volta e meia detenho-me a olhar pela janela, o silêncio da hora, a estrada vazia num apelo velado à viagem, o mundo dorme, mas eu em tumulto, mais pelo que deixei de viver, alguém lá atrás espera-me, numa madrugada, para reiniciar uma sempre adiada viagem. in Deslumbramento
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Se continuássemos, hoje seríamos um desses casais que se suporta, onde as temáticas de conversa pouco além vão do circunstancial, nem se recordam da última vez que se tocaram, e, o pior de tudo, compreendem-se estranhos presos a um equívoco – náufragos a partilhar o mesmo destroço… Há coisa pior?  in Deslumbramento

A biografia do objecto

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Volta e meia isto acontece, ultimamente com mais frequência, quando saio de uma divisão da casa e apago a luz, fico, da ombreira da porta, a olhar o horizonte escurecido, sobretudo o chão, porque ali persiste uma luz num incessante movimento (afinal, a memória é um eterno presente), a percorrer aquele trajecto octal...
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O adormecer da razão também nos traz a doçura, e podemos despertar num sonho por sonhar, em verdade, o melhor que o mundo tem para nos oferecer… in Eu à procura de mim
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(…) duvido que esta pergunta atormente, no hoje, algum daqueles que foram para a rua, naquele dia, jogar à bola pela última vez com os amigos de infância, acho que pensamentos assim   só no meu espírito encontram espaço, talvez por não perder demasiado em ânsias de me juntar ao “Coro dos Tempos”,   sempre me senti anacrónico face ao correr das coisas, como se habitasse em todos os tempos e simultaneamente em nenhum (…) in A noite do mundo