Mensagens

A mostrar mensagens de julho, 2024

É preciso andar para a frente…

Imagem
Um dia destes, nas notícias, relatavam um acidente, com vítimas mortais, durante um evento, para contextualizar, a jornalista lá resolveu entrevistar alguns dos participantes, retive os lugares-comuns e a boçalidade final de um : “Pois, é lamentável, muito triste, mesmo muito triste, não devia ter acontecido, mas é preciso andar para a frente ,” o meu pensar sentou-se aquando e depois de ouvir (“… mas é preciso andar para a frente”), o que mais feriu os ouvidos, para não falar do sentir, foi, talvez, a naturalidade da entoação, onde se denotava algum entusiasmo, como se remetesse o sucedido para um lugar bem pretérito, onde nem a memória já conseguisse alcançar, sei há muito que, quando daqui partirmos, continuamos a respirar na memória daqueles que nos amam, no entanto, ao saber da partida de três seres-humanos, o boçal ardilosamente colocou o ênfase no futuro, desvalorizando por completo o presente que, no fundo, é um constante passado, enfim, a verdade é que, a cada dia, me revej...
Imagem
 
Imagem
  ... quando começasse a vislumbrar o infinito, entre a ideia de ti e a tua realidade, talvez morresse de remorsos pelo que abandonei… in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã

"Marketering"

Imagem
  Há uns tempos escrevi: “ Aqui chegado, creio que só os simples são felizes”; a personagem que hoje vou abordar enquadra-se, de forma paradigmática, neste contexto, ficara muito aquém da escolaridade mínima – se bem que a escola jamais meça inteligências, apenas trabalho –, por conseguinte, vivia sob a asa dos pais, que eram donos de uma oficina, cedo aprendeu aquele sublime léxico (bielas, pistom, escape, correia-de-transmissão, pastilhas-de-travão…) digno de qualquer profuso pensador, em verdade quem lhe estendia mais a asa era a mãe que, como para os livros prematuramente revelou total inépcia, logo o colocou na oficina, havia que providenciar a sucessão, e como o léxico era vasto (bielas, pistom, escape, correia-de-transmissão, pastilhas-de-travão…) tinha de apreendê-lo o mais cedo possível, o pai era mais exigente e afastado, todo o cabelo lhe fugira para o lábio-superior, e como se orgulhava daquela vasta bigodaça, certa tarde, não me recordo o motivo, tive de lhes bate...
Imagem
  ,,, a inteligência é uma maldição, talvez por iluminar a mediocridade, o mais próspero deste mundo... in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã

Esparsos

Imagem
  Viver é subtrair o futuro e adicionar passado, por muitas teorias contrárias, deste facto ninguém me demove, e é no passado que respiram alguns vultos que hoje vão ocupar estas linhas, em verdade, há muito o mereciam, é sabido que o tempo é o melhor juiz: dissipa todas as dúvidas de quem nos guiou para a luz ou procurou anoitecer-nos o viver; há quem faça a apologia de não haver acasos nesta coisa do viver, já caminhei mais distante desta máxima, se todos, com quem nos cruzamos, desempenham um papel na nossa caminhada, naturalmente o oposto também sucede, eu sempre fui detentor de um lado melancólico de olhar o ido, talvez por aí resida a génese deste hábito de juntar palavras, de lhes dar musicalidade, construir enredos, contar histórias, as personagens que, de seguida, vou iluminar, ainda hoje me fazem sorrir, não é tudo, porém nos antípodas de ser o pouco, demasiados ficam tão aquém deste desígnio, frequentávamos o mesmo espaço desportivo com a intenção de sermos os futuros ...

Capitulação

Imagem
  Os serões pouco divergiam, ele, no sofá, de rosto oculto, pelo jornal, para que ela não percebesse a chegada do sono, por seu turno, ela num ávido e galopante tricotar, uma ferocidade crescente, o olhar absorvido pela trama da telenovela com aquele peculiar sotaque de terras além-mar, volta e meia, resmungava- lhe “Não me digas que já estás a dormir! Acorda, homem! Vê bem ao ponto que chegaste…”, com tanto barulho, lá se vê forçado a regressar à sua circunstância, ao metálico embater das agulhas e ao rectângulo onde se desenrola uma trama com aquele peculiar sotaque de terras além-mar, olha-a da distância do seu sono, imensa por sinal, as mãos frenéticas, num ávido e galopante tricotar, uma ferocidade crescente, o olhar absorvido pela trama da telenovela com aquele peculiar sotaque de terras além-mar, por momentos, breves mesmo, pensou regressar ao seu sono, mas receou aquele brado de novo “Não me digas que já estás a dormir! Acorda, homem! Vê bem ao ponto que chegaste…” , ass...
Imagem
  ... aqueles braços que se estendem para um berço como ramagens, num dia de Verão, a ofertarem a paz de uma revigorante sombra... in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã
Imagem
 

“Não plecisa de ajuda”

Imagem
  Ainda por aqui a imagem da primeira vez que o vi, ninguém lhe podia ficar indiferente, realizava, num contexto propício a tal, um exercício cujo movimento ficava a meio, e a seguir outro, mais outro, todos os movimentos pela metade, ou talvez fosse uma outra coisa, pois, a verdade é esta, percebi, assim que o vi, estar na presença de um verdadeiro Ninja, claro que executava os movimentos correctamente, a nossa visão é que estava sempre aquém da sua velocidade, a realidade era esta, sim, sem dúvida, chama-se Yang, o nosso Ninja, quando algum incauto o procurava corrigir, o nosso herói, de poucas falas como todos os grandes ícones do mundo da acção, limitava-se a responder, de forma quase sumida, “Não plecisa de ajuda ”, elementar, conciso, pragmático, como um Ninja conseguiria explicar, a um simples mortal, que o olhar comum está aquém da sua velocidade de movimentos? Levantou-se-me logo, vinda da memória, a canção do genérico de uma série de infância, nem por acaso sobre herói...

Lembras-te de quando…

Imagem
  Lembras-te de quando, já se percebia que o frio, lá fora, pousara as malas, tu a chegares-te para juntinho de mim, a sugerires ternamente Não me queres aquecer os pés, meados de um Outubro ido, talvez Novembro, num Sábado de manhã, porventura Domingo, ficávamos, não sei se te lembras, sempre até mais tarde deitados, a repor sonos, depois de uma semana de loucos, custava-me tanto acordar cedo, menos do que a ti, bem sei, mas custava-me à mesma, levantar apenas uma ponta do lençol e logo a punhalada daquele frio da madrugada, que apenas acentuava um sonho interrompido, enquanto, ainda sentado na cama, a procurar os chinelos, de olhos fechados, com os pés no soalho escurecido, debruço-me sobre questões que sempre viajaram comigo, o Sentido de tudo isto, o porquê de abraçar a contragosto o frio da madrugada, virar costas a um sonho interrompido que me olha, numa súplica de abandonado, da almofada que ainda ostenta a minha efígie, uma dezena de minutos depois, mais ou menos, apareci...
Imagem
  O nosso cansaço das coisas é proporcional às ilusões que carregamos. in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã
Imagem
  ... nem a mais singular e minúscula fibra-muscular estava imune a esta dor que me consumia corpo e alma, e assim relembrei a maldição de estar apaixonado: simultaneamente o melhor e o pior do mundo ! in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã