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A mostrar mensagens de março, 2023

Gostava, um dia, de me sentar à mesa comigo

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Ia, de bola na mão, ao encontro dos outros miúdos da minha rua, após o almoço, tínhamo-nos mudado há pouco para o bairro, esta devia ser a terceira ou quarta vez que jogava à bola com eles, já tinha uma ideia do que eles faziam com uma bola nos pés, há coisas, na vida, que basta olhar, com a bola é assim, soube que tinha de regressar pela voz da minha mãe, que me chamava da janela, já os candeeiros nos lembravam que sempre ali estiveram, e eu com vontade de continuar o jogo, os outros também, um aroma a jantar descia pelas janelas abertas, de facto, o tempo da infância obedece a outros ponteiros, do almoço ao jantar apenas uns pontapés na bola, antes de um último remate, percebi que se combinava um jogo com os miúdos da praceta de baixo, pelo tom moderado das vozes, compreendi que era coisa séria, de facto, poucas coisas superam em relevância um jogo entre as selecções de duas pracetas, claro que me aproximei daquelas vozes contidas, procurei assumir igualmente uma expressão compenetra...
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 ...  devias saber que nos apaixonamos por ideias, mas só amamos pessoas... in Deslumbramento

Cambaleio entre duas ideias

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  Só me apercebi das pedras da calçada, quando o tempo me relembrou o seu excesso, e eu ali, a subir e a descer a rua, há demasiado, resolvo parar à porta do prédio dela, a luz das escadas acesa, talvez alguém vá sair, seria tão bom se o seu rosto, assim nem teria o esforço da campainha, esperar por uma esperança de diálogo, mas não, uma velhota com destino marcado no supermercado mais próximo, munida de um saco de plástico numa mão, há que ser precavido, hoje até os sacos vazios já pesam, na outra, a carteira tão leve que não custa erguê-la à altura do peito, a porta fecha-se após o seu terceiro ou quarto passo, lá vai, passeio fora, só me resta premir um botão pelo seu rosto, há dois dias, a esta mesma hora, ainda me faltavam uns metros para a sua porta, já ela corria ao meu encontro com um rosto solar, dois dias e o mundo outro, como é difícil acreditar que tudo não foi uma ilusão (porém, se o fosse, como aqui teria chegado?), aproximo-me, de novo a luz acesa, também uma luz em ...
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 ...  nada dissemos, os olhares tudo gritaram, compreendi, nesse momento, a insignificância do verbo, aprendi mais sobre o viver nessas dezenas de segundos do que em toda a escolaridade até então.... in Deslumbramento
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  Os factos são estes: as coisas não moram no mundo, mas em nós. in Deslumbramento

Quem mata o sonho, mata a esperança

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  Subiu os cinco ou seis degraus com avidez, a porta encontrava-se aberta, no patamar desaguava aquela luz insípida, prenúncio de auroras distantes, mesmo assim, entrou resoluto, era uma divisão rectangular, uma mesa, ao centro, coberta de revistas anacrónicas, cercada por cadeiras, quase todas ocupadas, por homens e mulheres de idades próximas da sua, também munidos de uma pasta similar à que ele trazia, receberam-no com a indiferença da invisibilidade, como se, de alguma forma, ali não estivesse, é tão estranho, por momentos, ele próprio em dúvidas de ali estar de facto, opta por se sentar, durante uns minutos, receia que um movimento seu quebre a indiferença a que fora votado, como se ousasse romper um veredicto há muito ratificado, à sua volta, apenas incómodo, por si, por todos, por ser, por estar, pelas pastas, pela luz insípida, pela porta que permanece obstinadamente fechada, mas percebe-se gente no interior, timidamente passeia a vista em volta, consigo contou quatorze sen...

Um dia de praia

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  Por fim, chegou o Domingo. Apesar disso, o despertador tocou como se de uma segunda-feira se tratasse. Mas, naquela casa, não se ouviram protestos, ninguém se virou para o outro lado na cama, nada, todos se levantaram em leveza, apesar do cheiro a fritos da véspera, a mãe, quase até à meia-noite, dividida entre dois horizontes, a novela e o fogão, rissóis, croquetes, o marido a protestar pelo cheiro, ela a responder-lhe Quero ver se, quando te der a fome, não te vais chegar a eles, não houve gestos apressados, corridas pela única casa de banho da casa, olhares furtivos para o relógio, pelo contrário, reinou a parcimónia entre eles, pai e filho encarregaram-se de levar tudo para o carro, o guarda-sol, um pequeno frigorífico, bem abastecido de cervejas e refrigerantes, um saco com os inevitáveis tupperwares onde se acondicionavam, entre outros, fatias de bolo, os fritos da véspera, sandes, em pão de forma, de fiambre, queijo, e doce, bolachas, pêssego em calda, um tacho de arroz...
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  Às vezes penso se não devíamos estar mais extenuados. Tanto palco e tão pouca verdade. in Deslumbramento

Deitado na cama a olhar para o tecto

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  Vi-os, pela primeira vez, numa tarde de sol, do quarto que alugara, num segundo andar, naquela travessa da cidade, não sei porquê, mas sustive-me perante um quadro familiar a céu aberto, ela ladeada dos filhos, um em cada mão, a rapariga aí pelos dez, o rapaz mais novo dois ou três anos, é curioso, pareciam familiarizados com o trajecto, a sua vista fresca não se detinha em lateralidades, pelo contrário, seguiam o compasso materno numa devoção incondicional, percebi-lhe, apesar do segundo andar, do passo ligeiro, uma nuvem a caminhar pela face, até que uma esquina os subtraiu do possível que eu já não olho, fiquei suspenso do há pouco, havia nela qualquer coisa que me fazia lembrar de mim, e os miúdos, passos de meninice guiados por uma nuvem sobre uma face, há coisas que não pedem licença para entrar na nossa atenção, geralmente é o que nos falta, apesar do sol na rua convidar a mundos, persisto na compreensão de uma nuvem que se detém sobre uma face, regresso ao leito de onde...