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A mostrar mensagens de setembro, 2024
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  Aqui chegado, creio que só os simples são felizes. in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã

Deste lado de cá do existir

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  Lá íamos nós, num Sábado à tarde, por aquela estrada que eu já nem olhava, talvez por um cansaço demasiado de tanto a percorrer, ou por uma familiaridade indesejada, desde há oito meses que, todos os fins-de-semana, impreterivelmente, percorremos aquela dúzia de quilómetros, para lá, depois de regresso, oito meses disto, nem ousei contestar quando ele insistiu para que a mãe viesse para ao pé de nós, não incentivei, confesso, nem tinha de o fazer, afinal, a mãe é dele, mas também não lhe coloquei quaisquer óbices, remeti-me a um cómodo e impassível silêncio, tratou da papelada toda sem me pedir ajuda, algo raro nele, que nunca saía de casa sem gritar, nem que fosse por uma vez, o meu nome por algo que sempre se lhe escapava, enfim, tenho de reconhecer que é a mãe dele, apenas e só, nunca a tratei por sogra, em verdade, ela nunca soube ir além de ser mãe dele, há coisas fascinantes, parece que nascemos com uma forma e é tão difícil daí sair, a nossa relação sempre se pautou por ...
 

Oração

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  Para quem quiser ler, Vim passar um período a casa do meu filho mais novo, chegados a esta fase da vida é assim, deambulamos pelas casas dos filhos, ora num, ora noutro, embora eu prefira estar na casa da minha filha, mais velha dos três, talvez por estar mais próxima da minha, onde começa o Norte deste outrora país, estava a terminar o jantar, e, de repente, o meu neto mais novo sai da mesa, a minha incredulidade perante a cena emudeceu-me, as palavras demoraram a nascer, virei-me para o meu filho, jamais para a minha nora, lá irei a seu tempo , e “Meu filho, o meu neto sai da mesa sem pedir com licença ?” Ficou tolhido a olhar o prato, só me trouxe ao hoje a imagem da criança que ainda vislumbro, volta e meia, na memória, encolhido, sem encontrar uma justificação para o sucedido, parecia ter sido ele o autor da ofensa, “Deixe lá, minha mãe, deixe lá… São crianças…”, fiquei incrédula perante a atamancada justificação, não me passou despercebido o resvalar da sua atenção para a...
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  ... olhamos a felicidade porque nos projecta para o futuro, queremos revivê-la infinitamente, enquanto o mal nos remete para o passado, ficamos presos à dor lá de trás, daí a importância de uma memória bem arrumada… in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã
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IC-19

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  Deixei de ir à janela, porquê? Só a parede do prédio em frente, nada mais vejo, se estou arrependida? Como não? Atenção: estou arrependida de para aqui ter vindo, não dele, claro que tem os seus defeitos, só nos cemitérios deixamos de os ter, como bem devias saber, bom, mas falávamos dele, continua uma criança, e isso enternece-me, sai para a rua praticamente mascarado: boné – às vezes, em casa, já discuti para o retirar, é já uma extensão de si –, a camisola.de-alças, de onde sobressaem aqueles bracinhos pálidos e descarnados, parecem uns ramos invernosos, ao pescoço, claro, um colar, como não podia deixar de ser a um habitante deste lugar, não te indignes, não vale a pena, é um facto: há toda uma indumentária a cumprir para os habitantes deste lugar! E o colar faz parte sim, quanto mais volumoso e brilhante, melhor, nunca pensaste viver para ouvir isto? Pois, eu também não, muito menos ter-me juntado a um sujeito assim, claro que tem os seus defeitos, só nos cemitérios deixa...
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Valerá a pena?

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  Como anda ele? Uma boa pergunta! Olhe, não sei o que lhe responder, em verdade tudo depende dela… Ao ponto que chegámos, o sorriso do filho nas mãos de uma qualquer… Já lhe tentei explicar, com todos os argumentos possíveis, o óbvio: o facto de ele lhe ter concedido todo o poder da relação! Como é possível? Nunca o vi assim, a suavidade da voz ao melodiar o nome dela, vezes a mais, para o meu gosto, por dia, parece-me, não sei porquê, que nada mais existe para ele nesta vida, tudo, mas tudo de facto, gravita em torno daquela criatura, nada mais vê, só a… Eu nem consigo pronunciar o nome dela! Às vezes acho que lhe lançou um feitiço… Não, não se ria, já vi muita coisa nesta vida! Não, não me parece que isto passe tão cedo! Não, não é uma fase, muito longe disso, repito: eu nunca o vi assim, desta vez sinto que é diferente, não sei como descrever… Intuição de mãe, como lhe queira chamar, a verdade é que ele está diferente, longe dela parece que a vida o abandonou, um boneco velho...
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 ...  olha a janela chovida, observa os veios desenhados pela água caída das alturas, são lágrimas alongadas por uma dor anterior ao sentir... in Pequenos Nadas

Pequenos nadas

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De repente, não sabe de onde, aquela frase diante de si, como se nunca tivesse partido, Realmente, és tão diferente do teu irmão! Não tens nada a ver, nem pareces saído de mim, ouve-a, primeiro, depois, olha-a, com uma nitidez solar, Realmente, és tão diferente do teu irmão! Não tens nada a ver, nem pareces saído de mim, sabia que ela tinha prazer nestas palavras, percebia-se-lhe o gosto, apesar da sua precoce idade, no entanto, dizia-lhe estas coisas sempre a sós, assegurava-se de que ninguém os ouvisse, nessa altura, atribuiu as palavras ao facto de se concentrar em demasia nos jogos de bola, tanto na escola como, na rua, com os vizinhos, enquanto o irmão debruçado sobre livros, concentrado, ponderado nas suas análises sempre que o solicitavam, prestimoso nas lides domésticas, de facto, nada a apontar, talvez fosse início de tarde, era um dia de Inverno, um cinzento constante de manhã à noite, até as sombras se tornavam indistintas no seu duplicar agora entristecido, olha a janela ...

O monopólio da dor

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  Dizem que, com a idade, as pessoas mudam? Que grande mentira! Ela sempre assim foi, que mais lhe posso dizer? Não, não sei a quem puxou, detectei-lhe isto cedo, muito cedo, teria uns quatro anos, a irmã, mais nova dois anos, magoou-se, por qualquer coisa, ela a um canto, num berreiro, dizia ter-se também magoado, não me pergunte como, a verdade é que todos, logo ali, ficámos à sua volta, a irmã, mais nova dois anos, acabou por se remeter ao silêncio, este foi, aos meus olhos, o início do seu monopólio da dor, certa vez, em adolescente, já tínhamos, nessa altura, as nossas acentuadas divergências, lembro-me bem de lhe dizer “Coitado do homem que contigo casar! Então, se tiver a infelicidade de te amar, será um fantoche nas tuas mãos!” Ela não respondeu, também não lhe admitia, ficou a ruminar a minha observação, elucidativo, não acha? Pois, o seu silêncio dava-me razão, e não é que encontrou um homem assim? O início de qualquer relação, como deve saber, é pautado pela teatraliza...