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Mensagens
A mostrar mensagens de dezembro, 2020
O céu não tem lugar na terra
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Hoje nada foi como havia sido. Não houve batalhas com o relógio, nem pressas, nem aquelas corridas olímpicas e a medalha do transporte desejado, tudo um torvelinho e, quando sombras extenuadas na calçada, projectadas por sorumbáticos candeeiros, o mundo sobre os ombros. E ainda os filhos para ir buscar à escola, a correr à sua frente, ela no espanto daquela demasiada energia, como se a súbita liberdade fosse vitamínica, ela a arrastar-se atrás deles, as advertências entrecortadas com a carência de fôlego, a distância a crescer, por fim, um berro imobilizador. Segue-se a janta, ele aparece uns minutos antes, não há perguntas, ela prefere-o entre copos (talvez demasiados) e amigos, que de volta aos braços daquela, com rosto de brisas e cintura de Verão, que o ausentou uns meses de casa. Sim, por ali andou, ela chegou a recear… Mas o lar prevaleceu… Grande ilusão! No fundo, ela conhece a verdade, mas soterrou-a para voltar a caminhar. Quantas verdades jazem a nossos pés? Foi ela que se ...
Há noites em que os móveis gritam
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Há dias assim. Em que, na sombra de um corredor, a luz de uma memória. E eu passado, sim, o incómodo presente, como algures uma dor que inquieta, latejante, a doçura do ido, talvez por compreender que não a saboreei, ando sem me aperceber, ora num lugar, já noutro, os cenários diferem, mas eu comigo, como se uma praga, sento-me, no cadeirão em frente, senta-se-me o pensar, olha-me, os ombros curvam-se-me, e agora? Lá fora, um outro cenário, mas, diante de mim, naquele cadeirão, aquelas ideias, quase orgânicas, afundam-se-me olhos adentro, como se aguardassem o mais ténue movimento para me seguirem. Alguém se me dirige, naqueles cumprimentos que, de tão forçados, quase ecoa um debitar calórico pelos ares, ouço frases de calçada, surpreendo-me no mesmo registo, como se, é isso, eu um outro, corro atrás da esterilidade linguística, afinal, eu não sou isso, mas algo se lança aos meus pés, eu por terra, continuo num automatismo de passeios, é verdade, estou derrotado. Neste momento,...
Não saias do meu horizonte
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Sempre que ele chegava a casa, no cumprimento da oração diária, via-a absorta, a olhar para o nada de uma parede, sentada à secretária. Diante dela, um caderno de linhas aberto, algumas folhas já escritas, ele a anunciar-se ( Já cheguei! ), ela a sorrir-lhe da distância, mas permanecia imóvel, de caneta na mão. Lá fora, a luz numa diagonal crescente, ele a regressar da cozinha, com dois copos na mão, a convidá-la para a varanda, ela acede, segue-o num prolongar demasiado de movimentos, ainda um último olhar para a caneta. Agora, cada um na sua cadeira, lado a lado, ele a olhar para as ruas, em movimento de regresso, ela com o indistinto do horizonte, como se aí repousasse de alguma forma, sim, notava-se-lhe alguma leveza neste momento, ele também se apercebeu disso, encetou um diálogo de circunstância, a ausência de palavras potencia os ecos do mundo, ela respondia em monossílabos cortantes, e, de novo, a perder-se nas lonjuras. No fundo, ainda estava com a mesa, e a olhar através da c...