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Mensagens
A mostrar mensagens de julho, 2026
Os mortos não sonham
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Sempre que aquela música na rádio, ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali, a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura, já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através do vidro, gentes, passeios, montras esco...
Aparência e essência moram em ruas distintas
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Olhavam-se, desde o primeiro momento, com um certo azedume, só a imperativa educação conseguia aligeirar, vizinhas no mesmo andar, a quase inevitabilidade diária de partilha do único elevador, andariam pela mesma idade, aquele momento na existência onde se percebe que o ocaso está próximo e o amanhecer uma realidade longínqua, uma arranjava-se de forma prática e descontraída, detestava formalidades, a sua profissão não exigia etiqueta, assim sendo, ela adoptou um estilo desportivo, confortável, nunca foi adepta de unhas-pintadas, hoje falar-se de unhas é uma questão virada para o pretérito, o que mais se vê, no quotidiano, são autênticas garras-afiladas saídas dos dedos femininos, que nem sabres prontos a degolar incautos, nunca soube o que é um salto-alto nos seus pés, ainda menos maquilhagem, defendia que a beleza está na espontaneidade e no carácter natural das coisas, o marido seguia-lhe os passos nesta forma de ser, convém para o equilíbrio do lar, pela precoce idade, o fi...
Rio Pranto
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Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de os saber vivos, é curi...
Alfazema
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Não se recorda do momento exacto, não foi há tanto assim, um café, com as colegas, na pausa para o almoço, e a dolorosa certeza, de que a mentira está ao leme do acontecer, a crescer-lhe, com ela eram quatro, à mesa, falavam de planos para as férias, de início, até por uma curiosidade inconfessada, optou por ouvi-las, a primeira nota dissonante que observou foi o entusiasmo suscitado pela temática, as três não indiciavam existência para além do trabalho, talvez a primeira vez, tanto quanto se lembra, de um assunto, fora do contexto de papéis por preencher, carimbar, reuniões, mais reuniões, estatísticas, impressões de documentos, ser tema de conversa, até se admirou, falavam de destinos sonhados com a confiança de quem pede uma bica, até se inclinou para ouvir melhor, queria silenciar a incredulidade que a dominava, quem, de início, se mostrou mais efusiva, foi uma, de origens rurais, embora batalhe, no quotidiano, de forma incessante, para ocultar essa génese de hortas, sachol...
O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde
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Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar , de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, num esforço palpável e evidente, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, religiosamente cumpríamos o café, e aos Sábados também, servia para sairmos de casa e ajudava na digestão, apesar de ficar somente a umas dezenas de metros da nossa porta, no regresso, sobretudo Domingo à tarde, havia um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, uso o plural propositadamente, porque tenho a certeza de que este sentir de derrota era partilhado por ambos, a nossa passada no regresso a casa, Domingo à tarde, era desesperançada, lenta, reticent...
Vamos à vida, porque a morte é certa
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Nunca gostei de frases-feitas, daquelas máximas com o seu carácter irredutível, a pairar como uma sentença, uma inevitabilidade, daí a minha resistência, na manhã da vida era recorrente ouvir a frase em epígrafe, sobretudo após o términus do almoço, era dita com entusiasmo e simultaneamente resignação (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), talvez por, na altura, a sola dos meus sapatos estar quase incólume – apesar disso, em certos pontos denotava-se a rugosidade de alguns solos percorridos, a manhã da existência não é assim tão luminosa, tudo depende da capacidade de reconhecer sombras –, não encontrava argumentos para rebater tão lacónica máxima (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), hoje prontamente questionaria: O que é isso da vida? Das múltiplas respostas lidas e estudadas, confesso que nenhuma me satisfez, de facto, ninguém, até hoje, respondeu ao que é a vida, mas sim à sua perspectiva de a viver, realidades bem distintas, pouco me importa como os outros a vivem, ...
Saudades do futuro
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Há gente que, não sei porquê, parece que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, como se fossem imunes à mudança, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, talvez o tempo tenha virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da próxima esquina. Talvez haja quem tenha trilhado os dois, e possa avaliar as paisagens decorrentes… Vinda sei eu lá de onde, a imagem dela, segue-se a da mãe, magra, muito compenetrada, falava sempre baixinho, ligeiramente acima do sussurro, o que conferia às suas palavras um relevo substancial, ela, de laçarotes, uns palmos abaixo, aquém das verdades inolvidáveis sussurradas pela mãe, que iam de um lamento pelo preço do pão ao exausto reiterar das vantagens da vida na província, t...