Há gente que, não sei porquê, parece
que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, como se fossem imunes à
mudança, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a
desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, talvez o tempo tenha
virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais
tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que
não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da
próxima esquina. Talvez haja quem tenha trilhado os dois, e possa avaliar as
paisagens decorrentes… Vinda sei eu lá de onde, a imagem dela, segue-se a da
mãe, magra, muito compenetrada, falava sempre baixinho, ligeiramente acima do
sussurro, o que conferia às suas palavras um relevo substancial, ela, de
laçarotes, uns palmos abaixo, aquém das verdades inolvidáveis sussurradas pela
mãe, que iam de um lamento pelo preço do pão ao exausto reiterar das vantagens
da vida na província, tudo isto, repito, entoado sempre baixinho, eu ouvia-a
fascinado, bebia as suas palavras como se de seculares revelações se tratassem,
Foi pena, sabe, muito direita,
compenetrada, assim iniciava cada prelecção, minha mãe, talvez agrilhoada pelo
seu politicamente correcto, ouvi-a com uma expressão de espanto, como se de uma
primeira vez se tratasse, … Nem imagina!
Lá tínhamos uma vida tão boa! Do que sinto mais falta é da minha hortinha! Não
havia dia em que não pegasse na sachola para a tratar! E o espaço? Sabe,
quantas vezes me perdia com as lonjuras? No frio, a brancura nos montes, com o
calor, chegavam as andorinhas… Vivíamos ritmados pelo tempo. Aqui, às vezes,
até me esqueço em que estação estamos! Para ver o céu, tenho de sair de casa!
Onde já se viu uma coisa assim? Não percebo, de todo, esta gente que troca a
província por isto! Uma coisa lhe garanto: isto não é viver! Se não fosse pelo
meu marido, aceitava lá viver encaixotada… Sinceramente, até sabemos a que
horas cada vizinho vai à casa-de-banho! É lá isto viver? E na rua? Ninguém se
cumprimenta! Pelo contrário, há quem se finja de distraído para o evitar fazer…
Creio que, a certa altura, minha mãe anuía por convicção, afinal, quem pode
resistir a seculares revelações? O marido era carteiro, um daqueles sujeitos
que, para mim, já nasceram idosos, afinal, os adultos sempre me pareceram
velhos, aborrecidos, com umas conversas sonolentas, balizadas entre dinheiro e
crises, a única ponte para o meu mundo chamava-se futebol, de facto, por aqui
transitavam algumas conversas, mas, como dizia, o marido dela só o concebia
sentado num sofá, de jornal na mão ou a sorver atentamente as notícias, neste
particular, a minha imaginação padecia de uma total esterilidade, tal a bonomia
da figura em apreço, também não era muito audível, quando nos cruzávamos nas
escadas, ficava-se por um educado cumprimento, mas entoado baixinho,
ligeiramente acima do sussurro, tal como sua mulher, aquele era, de facto, um
lar de silêncios e de amanhãs há muito conhecidos. A filha, de laçarotes, uns
palmos abaixo, acompanhava-os naquela discrição, limitava-se a sorrir à sua
volta, pouco mais, não vinha para a rua brincar, talvez a mãe nos achasse
barulhentos, de facto, íamos muito para além do sussurro, era uns três anos
mais nova que eu, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, na velhice, é
curioso, uma década é apenas mais um ontem, o tempo altera-nos sem se alterar,
sempre aquele caudal inexorável que, imperceptivelmente, nos leva, leva, leva
para o fim, e nós agarramo-nos a tudo para ocultar esta sempre calada
evidência. Há uns dias via-a na rua, volta e meia, tenho este hábito, está em
mim, já percebi que não há como lhe fugir, e também não o quero, regresso aos
lugares do ontem, sempre desconfiei que talvez eu ainda por lá esteja, queria rever-me, cumprimentar-me, no fundo,
é tão simples, dizer-me para não ter
pressa. A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança, bom, como
dizia, este hábito de regressar aos lugares do ontem, ela descia a rua, nem sei
como a reconheci, sem laçarotes, nem palmos abaixo, longe, muito longe, daquele
discreto silêncio, porém, foi qualquer coisa na sua expressão, talvez o mesmo
sorriso apesar da face mais redonda, sei que não me viu, acho que não me
reconheceria, pois, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, e ela não
descia para brincar connosco, talvez a mãe nos achasse barulhentos, como dizia,
ela ia rua abaixo, na considerável distância de um ar compenetrado, nem
vestígios, por ali, de sussurrar palavras, continuei a olhá-la, pelo
retrovisor, na esperança de que sua mãe, num repente, surgisse, rua abaixo,
atrás dela, pronta a levá-la para casa, afinal, esquecera-se dos laçarotes e,
por aqueles lados, há tanto barulho… Contudo, não sei de onde me chegou esta
ideia, pareceu-me que os seus pais cumpriram o regresso final, possivelmente
repousam, para sempre, voltados para as lonjuras, no frio, a brancura nos
montes, com o calor, chegam as andorinhas.
