Esta noite
Ouço a campainha. Um pânico intruso corre por mim. Instintivamente procuro por horas. Afinal, é o miúdo. Enquanto expiro, o pânico, já longe, a dobrar uma qualquer esquina, numa corrida envergonhada. De mochila às costas, entra em casa, um beijo de fugida na minha face, enquanto lhe passo a mão pelos cabelos, e dirige-se para o seu quarto, hesito em segui-lo, deixo-me estar, pelo menos, ainda há silêncio, já sei que, até amanhã, só vai sair do quarto para jantar, sim, compreendo-o, reparei que, quando entrou, evitou olhar-me e teve um especial cuidado em beijar-me a face direita, como é curioso, sempre tão longe, no seu arquitectado mundo de uma dezena de anos, e simultaneamente tão próximo de uma frialdade intemporal, eu para aqui estou, a ouvi-lo tirar a mochila, de certa forma, no indizível de entre nós, do meu lado, uma vergonha impronunciável, da parte dele, um gesto calado, reparei nisso ontem, quando a porta se abriu e fechou com o estrépito habitual, aquela voz sobrepov...