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A mostrar mensagens de setembro, 2022

Esta noite

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  Ouço a campainha. Um pânico intruso corre por mim. Instintivamente procuro por horas. Afinal, é o miúdo. Enquanto expiro, o pânico, já longe, a dobrar uma qualquer esquina, numa corrida envergonhada. De mochila às costas, entra em casa, um beijo de fugida na minha face, enquanto lhe passo a mão pelos cabelos, e dirige-se para o seu quarto, hesito em segui-lo, deixo-me estar, pelo menos, ainda há silêncio, já sei que, até amanhã, só vai sair do quarto para jantar, sim, compreendo-o, reparei que, quando entrou, evitou olhar-me e teve um especial cuidado em beijar-me a face direita, como é curioso, sempre tão longe, no seu arquitectado mundo de uma dezena de anos, e simultaneamente tão próximo de uma frialdade intemporal, eu para aqui estou, a ouvi-lo tirar a mochila, de certa forma, no indizível de entre nós, do meu lado, uma vergonha impronunciável, da parte dele, um gesto calado, reparei nisso ontem, quando a porta se abriu e fechou com o estrépito habitual, aquela voz sobrepov...

Goza, goza…

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Quando pensamos em alguém, com o decorrer do tempo, mesmo se já tiver partido, só há um aspecto que se mantém inalterado: a voz! Até o rosto se vai desvanecendo, desvanecendo, daí a pertinência das fotos, para nos recordarmos, para reavivar certezas, porém, a voz subsiste na memória, no sentir, como certas frases que, só com aquela sonoridade, fazem sentido, é comum pensarmos, afirmar é mais raro, que alguém só podia ter aquele timbre de voz, como se o seu pensar só assim pudesse ser expressado, a tudo isto não se pode, como é óbvio, dissociar a aparência, a partir desta premissa, vou hoje trazer à cena uma figura em que voz e físico residem, literalmente, nos antípodas, ao telefone ouvimos uma voz cavernosa, arrastada, gutural, como um viajante chegado da mais longuíssima jornada, uma voz onde o conceito de temor não encontrasse entrada, contudo, a personagem tem um metro e sessenta, vai pouco além dos cinquenta quilos, calça o trinta e oito, de facto, após se falar ao telefone, esper...

Está bem, está…

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  Hoje vou falar de uma figura que facilmente poderia ser a verdadeira fonte-de-inspiração para a personagem Wally – a quem não acho qualquer graça, confesso – alguém que, de facto, encontramos nos lugares mais recônditos, mas já lá vamos, um dos erros mais comuns, quando conhecemos alguém, é perguntar qual a sua profissão, como se a actividade de sustento definisse o sujeito, nada mais errado, eu, por exemplo, sou tudo menos a minha profissão, e era o que mais me faltava confundir a minha ontologia com a forma-de-sustento, todavia, por muito que tenhamos estas directrizes presentes, lá me vi a colocar a malograda questão quando o conheci (atenção: esta pergunta coloca-se, quase sempre, a um amigo comum, nunca ao próprio), a resposta deixou-me atónito: “Sinceramente, não sei o que faz! Já o vi a realizar os mais diversos trabalhos!”, extraordinário, pensei logo na rigidez da minha postura, devolvida por um qualquer espelho, em contraste com volatilidade daquele autêntico camaleão...

Uma pessoa seriíssima

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  Um dos aspectos que ressalta, logo ao primeiro contacto, é a sua imaculada educação, segue-se-lhe o afável trato, observador, bom-ouvinte, dominava muitíssimo bem aquele peculiar malabarismo-social de falar de si sem dizer muito, no entanto, todos, à sua volta, pareciam satisfeitos com o que de si comunicava, mas, em verdade, não procurava saber muito dos outros, apenas o que lhe quisessem transmitir, a sua elevada gentileza, que se estendia aos gestos e linguagem, indiciavam outra bagagem-cultural, pois, a ilusão da aparência, velho engano, contudo, um ouvinte perspicaz, sabia, de antemão, o que se lhe ia dizer, vivemos tempos onde a educação parece, cada vez mais, um anacronismo, nada é por acaso, repito, nada é por acaso, há quem tenha muito interesse na derrocada dos valores-essenciais, porém, ele esmerava-se em gestos de perfeita educação, por vezes, olhavam-no com estranheza, quem se habitua à rudeza, estranha o polimento, na altura em que mais comunicámos, fazia-se acomp...

Olhei para trás e sorri...

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  Enquanto julgava que aprendia a viver, afinal aprendia a morrer.         O nosso corpo está debaixo do céu, e o céu fica debaixo do espírito. Leonardo da Vinci     Índice Nascer ………………………………………………………………    Viver …………………………………………………………………    Morrer ……………………………………………………………….        Nascer   I Despertou… Respirou fundo, não por resignação, mas para se iludir, como se detivesse algum controle. Como se o acto de inspirar o remetesse para si mesmo, para espaços há muito conhecidos. Fechou os olhos. Sempre inspirou de olhos fechados. Nunca soube porquê. Ela ainda dormia. Olhou-a. Sorriu. Sorria ao vê-la dormir. Talvez por um rosto adormecido ser um rosto sem sombras. O tempo tinha passado. Esta certeza partia do rosto dos outros, nunca do seu. Com os anos aprendeu a afastar-se dos espelhos. Costumava afirmar que cada um nasce com a idade que tem. Agradava-lhe esta ideia. Sempre quis crescer depressa, mas envelhec...