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A mostrar mensagens de maio, 2018
A singularidade de um gesto de amor
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Há uns dias deparei-me com uma evidência: há gestos que se me tornaram impossíveis por se terem consubstanciado em palavra. Foi numa noite que ameaçava chuva, havia dúvidas, demasiadas talvez, no ar, da minha parte, dela também, entretanto, um jantar, vários convidados, fiquei de a ir buscar a casa, nessa altura uma chuva miudinha turvava horizontes, logo aproximava as coisas, à hora marcada, eu à porta dela, como combinado, um toque para o telefone anunciava a minha chegada, ela a descer, havia uma distância, próxima da altivez, na sua voz e gestos que me agradava profundamente, denotei-a assim que entrou no carro, como sempre, eu com melodias do ontem, ainda hoje não sei se lhe agradavam, embora música, para mim, fosse um veículo para me evadir da minha circunstância e regressar a lugares do ontem onde, afinal, compreendo hoje o que é isso da felicidade, porque é sempre retrospectiva (...)
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Creio que, a certa altura, escrevia para não enlouquecer. Seja lá o que isso for da loucura! Com os meus oitenta e dois anos na terra dos homens continuo sem saber o que é a loucura! Mas, sim, ele abriu uma porta, como todos que escrevem – repare: eu disse: escrevem, e não escrevinham, creio que entendeu –, daí as vozes, a quem a caneta cegamente obedece, percebia-se tão bem quando ele estava imbuído num livro, um pouco como quem está a viver uma enormíssima paixão: distante, feliz, absorto, com pressa em regressar, antes que o perca… in Harmonia
Incessante Efemeridade das Vagas por Pedro de Sá
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Foi no alto de uma colina, que aprendi a olhar o mundo Pedro de Sá
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Um dia perfeito
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A vida são dias e dias que se atropelam numa voracidade crescente, até que, sem aviso, chega aquele, o fatal, em que tudo cessa. Assim sendo, quantos perduram em nós? A quantos regressamos para nos aquecerem o sentir? Pois, andava eu para aqui, com estas e outras questões, quando me dei conta do deserto de respostas, se quisesse levantar um dia na memória, confesso a minha inaptidão, momentos sim, embora, nestes últimos tempos, alimente o espírito somente de dois ou três, de facto, até espiritualmente me tornei dietético, como dizia, dois, três, quatro momentos, mas eu queria trazer um dia ao hoje, inteiro, cintilante, incontornável, um dia que valesse por uma vida. Se pensar bem, pois, sim, talvez, sim, esse mesmo, ainda no namoro, porque o casamento é um fim, e a beleza acompanha sempre o passo, nunca o sofá (o que há de sublime num sujeito sentado no sofá diante de uma televisão?), há uns dias ela falara num piquenique, a princípio, eu renitente, nunca fui adepto de me sentar...
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(...) ficámos, por instantes, a olhar o horizonte em silêncio, o astro já mergulhara nas águas, de um lado as estrelas multiplicavam-se como se ecos de sonhos por sonhar, do outro ainda vestígios de luz, talvez o dia já caminhasse estrada fora, mas olhasse para trás uma última vez, tudo estava em serenidade, das águas aos céus, os corações humanos pertencem a uma outra realidade, o meu em harmonia com as águas, o dela, neste momento, não sei, o seu olhar, no entanto, sempre naquele resquício de luz lá no horizonte, talvez já não tivesse sonhos por sonhar (...) in Harmonia