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A mostrar mensagens de abril, 2021
Descem estrelas, levantam-se sonhos
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Hoje vê o mundo por detrás de um balcão. Já o observara de outras formas. Ainda se recorda dessas outras faces do viver. Mas não é um saudosista. Sempre proferiu, bem alto, que O passado não existe . Logo que terminava a frase, sentia um olhar sobre si, apenas desgostoso, nada mais, sem qualquer vislumbre de censura, numa incredulidade muda, sim, a sua avó, num canto da sala, o terço na mão, vestida de saudade, a ruminar Ave-Marias entrecortadas por Pais-nossos, uma manta cinzenta sobre os joelhos, e aquele interminável monólogo, pautado pelo arrastar de pedrinhas brancas, encadeadas por uma corrente dourada, sempre sussurrado, de certa forma, descia sobre ele um sentir de respeito que o emudecia, afinal, Talvez o passado existisse, nem que fosse murmurado por contas que nos preenchem os dedos. Há quanto tempo as contas brancas, encadeadas por uma corrente dourada, no fundo de uma qualquer gaveta? Há quanto não ouvia sussurros daquele canto da sala? E onde pára a manta cinzenta...
Caiu a noite, e eu não percebi o dia
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Ouve o toque da campainha. Hoje, sem saber porquê, soou-lhe demasiado estridente. Como se a acordassem de si. Onde estaria? Quantas vezes nos batem à porta na vida? Nunca saberemos esta resposta, porque a surdez habita a circunstância. Tal como a cegueira… Ela a arrastar os chinelos (que idade teriam?) pela tijoleira, ele na sala (talvez tivesse desligado o aparelho), sempre com as notícias, para relembrar a existência de um mundo que já não lhe pertence, ela ainda não destrancara a porta, e, de novo, a campainha, agora cá em cima, já se percebe o barulho, assim que uma fresta do patamar na tijoleira, os netos num galope, casa adentro, ela em perplexidade, a equilibrar um sorriso, a filha num rosto de pressa, Está tudo bem, mãe? Venho buscá-los aí por volta das nove. Dá-lhes também de jantar! Não, não posso entrar… Estou cheia de pressa! Logo falamos. Adeus! Ela fecha a porta, com a lentidão do espanto. Onde se perderam? Em que momento se olhavam sem se reconhecerem? Hoje é Dom...
Quero desacelerar o passo a teu lado
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Onde tudo começou? Qual o ponto exacto de onde parti? De mãos nos bolsos, caminho por ruas de outras idades. E revejo-me por ali, sem me ver. Há lugares que nos demoram o olhar, talvez por guardarem um sonho já não nosso, mas que nos habitou tempo suficiente para o reconhecermos. Um pouco como uma esperança que entretanto se evolou, embora o nosso olhar para sempre numa certa direcção. Como se uma melodia dali ecoasse e nós numa imobilidade extasiada. E sempre uma distância entre nós e as coisas. No fundo, não uma distância, mas o tempo: o único que desconhece a palavra regresso . Caminho com rostos em mim, talvez por isso o gosto por certos sítios. Não pelo espaço, mas pelo tempo das faces que os habitaram. Tenho de escrever, ainda hoje, uma carta! A quem? Não sei… Apenas a certeza de que Tenho de escrever, ainda hoje, uma carta! Como se uma necessidade de sentido, para os dias acumulados. Continuo a caminhada. Olho as coisas, mas tudo tão longe, quase como se constituíssem uma ...