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A mostrar mensagens de janeiro, 2023
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  ... não olhas as coisas com a distância, o tempo, o que tínhamos, acredita, não sobrevivia ao desgaste dos dias, perder-se-ia em semanas, no máximo em um ou dois meses. - És profeta? - Não, sou mulher. - Lembro-me tão bem, cheguei a escrever-te, espero que te lembres: “Prefiro perder-me por ti, do que perder-te de mim”… in Deslumbramento

Vou comprar cigarros e já volto

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  É tão estranho. Não te chorei, foi-te chorando. Depois da tua partida, foi-me apresentada a tua ausência. E, como sempre acontece, fomo-nos, primeiramente, conhecendo e, no fim, por acaso, tornámo-nos boas amigas. O pior é os miúdos. Ainda por cima, em idades tão difíceis. Creio que não haja idades fáceis para se perceber que um rosto já olha noutra direcção. E quando tudo começou? Tudo se inicia quando dois olhares se demoram. Foi a irmã dele que nos apresentou, nem amigas éramos, apenas boas conhecidas, um dia, já nem me lembro do porquê, fui a casa dela, ele ia a sair, logo me senti devolvida à terra, nem era particularmente bonito, mas tinha qualquer coisa, confesso que, nessa altura, também andava em baixo, terminara um namoro de dois anos, tornara-se insustentável, mais do que uma vez, apanhara-o de volta dos pertences dos meus pais, ainda lhe apresentei uma opção, mas ele exercera a escolha há muito, eu entre o luto, da relação terminada, e o despeito, de ter sido trocad...

Adeus, Shane

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Um suspiro é uma interrogação escondida atrás da porta

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  Sempre que chego à margem do passeio, a minha mão ergue-se em busca de uma mais alta, firme, segura, que me levava até ao outro lado, sem antes proclamar Temos sempre de olhar para um lado e para outro, só então atravessamos, a frase acompanhada de gestos largos e expressões de seriedade, eu, sempre que na margem de um passeio, receoso daquela seriedade, talvez me observasse cada movimento, para ver se eu olho para um lado e para outro, e só depois atravesso, todavia, hoje, apesar da teimosia em erguer a minha mão, antes de atravessar, já não encontro uma mais alta, firme, segura, embora a sinta num lugar de mim, e ouça as recomendações no ouvir de agora, havia uma rua da cidade, que atravessava no regresso a casa, que, apesar da mão, das recomendações, o meu olhar já me esperava na margem oposta, no frio, na forma de castanhas, no calor, em gelados, quando ali desaguava, insistia com a mão mais alta, firme, segura, ou por aquele calor numa estranha forma de fruta que, por instan...
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... ainda ontem, ao telefone, falava-lhe de natais por nascer e de aniversários por cumprir, os braços lívidos ajudaram-no a pousar o telefone, percebeu-lhes a dificuldade, afinal, ninguém ilumina um universo para assistir ao seu sono. in Os anjos não caminham

Hoje refaço dezoito anos

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  Conheci-o há uns largos meses. Bom, é melhor ser mais específica e iniciar este relato convenientemente. Há um quiosque, em frente ao meu prédio, do outro lado da rua, onde me abasteço, há anos suficientes para já não saber desde quando, de revistas e jornais. Mais revistas, confesso, para desgraças já me chega a vida. Moro num primeiro-andar, um humilde apartamentozito, embora com uma renda bem estridente, na companhia do meu gato Popov, e de um periquito, que nunca baptizei, não sei porquê, mas com o gato ainda converso, sobretudo naquelas noites em que o vento ressoa lá fora, e eu para ali, balizada entre o sofá e a novela, ele ao meu colo, de vez em quando levanta-me o olhar, como se me dissesse Está tudo bem, afinal, é o meu único calor, e o vento, lá fora, a amainar, mas regresso ao quiosque, onde me abasteço, há anos suficientes para já não saber desde quando, de revistas e jornais, sempre ali encontrei o rosto do senhor Ramiro, é curioso, nunca me pareceu alterar-se, como...

Os anjos não caminham

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  Caminhava atrás daquela figura de branco (ou seria de negro?), sem perceber quem lhe ordenava os passos, por aqueles longos corredores, que se lhe afiguravam ainda mais obscuros, ela a ordenar-lhe que se sentasse, ele numa obediência infantil, pelo menos da infância que foi sua, a figura de branco (ou seria de negro?) ressurge, segura, numa mão, um copo de plástico com água, na outra, um pequeno cilindro colorido, diz-lhe, num tom doce, compreensivo, mas, simultaneamente, sem espaço para réplicas, é curioso como uma frase, em certas vozes, possui uma miríade de significações, Tome. Engula de uma só vez , cumpre com o imperativo, Vai ser melhor para si, e para os seus, vai ver. Daqui a uns minutos, venho buscá-lo, deixa-se estar, ali sentado, a olhar, não a parede em frente, que tinha um panfleto qualquer suspenso a fita-cola, talvez a chamar a atenção para a relevância da higiene oral, sombras de pensamentos, ou de sentires, uma indolência ganhava terreno nas suas raízes, olhava,...