Mensagens

A mostrar mensagens de fevereiro, 2020

A face demorada da tarde

Imagem
Voltar lá? Nem pensar! Para quê? Acabou? Acabou! Uma página que se fecha. Uma página com mais de quarenta anos! Quando ali comecei a trabalhar, nem casada era, hoje, os meus filhos já divorciados são, nesse aspecto não defraudaram os pais… O quê? Não sabia que eu era divorciada? Pensei que soubesse… Não é uma coisa que se ande para aí a anunciar ou de que se vanglorie, uma história cansada, embora, claro, nunca esperamos que nos suceda, infelizmente bateu-me à porta, uma mulher mais nova, bem mais nova, ele, tolinho, em passos de cachorro tonto lá foi, sabe, creio que chega uma altura, na vida de um casal, mais nos homens, de facto, em que lamentam subterraneamente contemplar o rosto macilento do outro por ser um genuíno espelho do seu, daí a sedução por aragens frescas, não sei se me faço entender, como descobri? É tão simples! Às vezes interrogo-me como há tanta mulher que se deixa enganar, ou talvez prefiram olhar para o lado, creio que seja isso, basta reencontrar no ros...
Imagem

Só te conto os meus desejos, se dermos as mãos

Imagem
Ela saía do trabalho por volta das cinco da tarde. Ele lá estava, do outro lado da rua, dentro do carro. Sorriam-se. Ela atravessava com uma cautela de garota devidamente avisada. Ao entrar no carro, segurava com a mão direita o cabelo, como se este pudesse ficar esquecido. Davam um beijo tímido, que servia mais para recompor a familiaridade, do que de cumprimento. À pergunta Como correu o teu dia?, ela encetava logo uma descrição, demasiado exaustiva para ser deste mundo, do seu desinteressantíssimo quotidiano laboral. Todos os dias, ele arrependia-se da questão, mas esta sempre surgia, há falta de qualquer outra coisa para dizer. E assim, ele iniciava a marcha, grato por qualquer obstáculo que lhe fizesse redobrar a atenção (um súbito peão desavisado, a inesperada travagem do carro à frente, o enervante vermelho que sempre cai quando quase lá se chega, um buzinar algures), para o afastar de um segundo cenário de trabalho que, de tanto o conhecer, é quase seu. Por fim, já...
Imagem
O que é a vida senão o tempo em movimento? in A eternidade é uma tarde de infância
Imagem
Imagem

Quando uma Enxada mergulha na Terra, o homem ergue-se um pouco para o Céu

Imagem
Terminada a refeição, levanta-se da imemorial mesa de madeira, esvazia o resto escarlate do copo, limpa a boca com as costas da mão, coloca a boina na cabeça, e sai para o quintal. Aí, observa o frenesim das aves domésticas pelas sobras do almoço, que a mulher, numa paciência benévola, distribuía. Olhou-a. Dos traços que demoravam o seu olhar, agora apenas vestígios. Mas ainda assim, o seu olhar naquele rosto. Apercebia-se de que o tempo esbatia a luz daquele olhar. No fundo, a de todos os olhares. Seria o tempo? Ou as esquinas da vida? Pega na bicicleta, e grita-lhe do portão Vou andando , quando, em verdade, lhe queria dizer outras coisas, com outras palavras… Quantas palavras ficam por dizer na vida? E ele no portão, já em cima da bicicleta, e ela rodeada de asas estridentes, ainda mais restos do almoço, e ele apenas queria dizer-lhe que sim , se fosse hoje voltaria a pronunciar um sim diante do sacerdote, tudo, com ela, valeu a pena. Pedala com a indolência de um início de ta...
Imagem
… em breve teríamos de regressar à nossa circunstância, silenciaste-me com um beijo, apontaste o horizonte, uma vez mais os teus dedos pelo rosto, a dúvida se eram lágrimas ou chuva a demarcar-me os contornos, o mundo iluminava-se, pouco mais foi dito, eu estava certa, ambos sabíamos, se tudo pudesse ser uma outra coisa, talvez aí o Ideal e o Ser se encontrassem, e não houvesse lugares neste mundo com tantos sonhos enterrados. in Deslumbramento
Imagem

Só se Aprende ao Olhar para Cima

Imagem
Ela estava deitada há algum tempo. Quanto? Não sabe. Talvez tivesse dormido um pouco. O que a despertou? As dores? Sim. Não, o barulho. Mas também as dores. Talvez tudo somado. E sempre um vai e vem constante de batas brancas. Outros deitados como ela entravam em salas, de portas de saloon, em velocidades de cenários de asfalto. E ela permanecia ali, encostada a uma parede, com um gotejar, provindo das alturas, ininterrupto braço adentro. O movimento não cessava. Tenta levantar um pouco a cabeça, para compreender melhor o espaço. Logo uma mão sorridente trata de a serenar de encontro à almofada. Ouve um expressivo acalme-se, está quase, e ela, numa resignação indefesa, de regresso à horizontalidade branca. De repente, uma dor excruciante brota-lhe dos estigmas. Uma dor de fogo, no fundo, uma dor de raiz. Apercebe-se, agora, da sua imobilidade. Afinal, já ali tinha estado. Aquando da primeira estigmatização. E, por ali, não queriam mais cordeiros sacrificiais. Sim, esta foi ...

A eternidade é uma tarde de infância

Imagem
Dizem que o tempo acelera com o decorrer da vida, não sei se é verdade, talvez a verdade resida noutro lado, não é o acelerar do tempo, mas a nossa crescente desatenção para as coisas, lembro-me, como se há pouco, que, na meninice, passava muito tempo, nas mais diversas brincadeiras, em contacto com a terra, desde corridas de carrinhos, aos inolvidáveis jogos das escondidas, onde se buscava, com avidez, o lugar mais recôndito em escassos segundos, até às batalhas de canudos, artilhados de acordo com os limites da imaginação, ou os jogos de berlindes, transversal a todas as brincadeiras o sentir a terra, foi aí que, de facto, aprendi a ouvir o respirar do mundo... 
Imagem
Imagem
Imagem
Imagem
Imagem
Imagem