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Nuvens passeantes pelas águas

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  Desde criança sempre tive esta coisa de me perder a olhar horizontes, talvez o sonho de além conseguir pousar a bagagem da minha alma, os meus avós tinham um quintal rodeado de muros, quando por ali ficava, de imediato subia uma escada-de-madeira encostada num desses muros, ali ficava, o necessário, a olhar para Leste, hoje sei que essa escada-de-madeira estava encostada ao muro virado para Leste, à noite, pelo vidro da janela, pouco via para além dos muros, uma chaminé ali, o telhado de uma casa acolá, pouco mais, foi então que resolvi pegar numa enxada, apesar de pouco mais de dez anos, senti-me capaz de mudar o mundo, com uma década, o sonho acompanha-nos o respirar, e comecei a escavar o centro do quintal da casa dos meus avós, sabia, de antemão, que logo ecoaria um brado de minha avó, sempre atenta ao acontecer, apesar da dificuldade no manuseio da enxada, pelo comprimento associado ao peso para os bracitos de um miúdo de dez anos, não me demovi de a levantar aos céus para...
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Nocturnos

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Um dos encantos da noite, desde miúdo, reside no fascínio de olhar as janelas iluminadas em volta, como se, por aí, o lar que nunca encontrei entre as paredes onde habitava, como se, por aí, o paraíso que sempre procurei, ou seja, o lugar onde me compreendessem, até hoje o procuro, duvido que o encontre, pelo menos, caída a noite, vou até uma janela e olho as luzes das casas em volta, tudo numa aparente serenidade, a dor do mundo parece ter partido para um lugar demasiado longínquo, onde nem a imaginação a alcança, quando olho as janelas iluminadas em volta, faço-o no melodioso silêncio nocturno, jamais com música, seria supérfluo, basta-me, de facto, o melodioso silêncio nocturno, este meu lado sonhador felizmente ainda não me deixou, se tivesse sucedido, ser-me-ia impossível redigir estas linhas sobre janelas iluminadas em volta, ainda hoje, caída a noite, olho as luzes das casas em redor, a minha atenção demora-se sobretudo onde não vislumbro o écran que tudo devora em redor (Qua...
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Indulgência

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  Dizia-se, por aqueles lados, nunca lhe ouvir um insulto, uma ofensa, um azedume, um grito, uma reprimenda, o timbre sempre discreto, como se um apelo à compreensão e ao serenar, vivia num rés-do-chão, não se lhe conhecia outros paradeiros, com o seu canário, saía de casa apenas para as compras ou a obrigatória Eucaristia-Dominical, pouco mais, se alguém apelasse à sua ajuda, por este ou aquele motivo, nem hesitava, era uma casa modesta, sala, cozinha, quarto e casa-de-banho, para ali se mudaram, ela e o marido , há pouco mais de três décadas, houve quem dissesse que tinham muitas posses, no entanto, o desespero da luta contra o vício do único filho quase lhes levou tudo, até a saúde do marido, partira há dezoito meses, o filho partiu bem antes, há pouco mais de três décadas, tentaram de tudo (clínicas de desintoxicação, mudança de casa para ver se outras companhias, colégios internos, curandeiros de vária ordem, ameaça de deserdar…), cada dia mais magro, pálido, alienado, só se...
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Desolação IV

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  Ele já se inclinava para o regresso, no entanto, ela ainda com o areal, onde uma mãe, num zelo só possível à maternidade, procura o último grão de areia dos pés do filho, este segura um avião de plástico nas mãos, em si talvez o desejo da distância, num último esforço, entrelaça-lhe, com suavidade, os dedos na mão, e tenta erguê-la, para a afastar de um quadro de dor, ela cede, talvez pelo vazio de si, nem meia-dúzia de passos depois, percebe o olhar, uma vez mais, no areal, há vazios, neste caminhar, que levaremos connosco, as minudências acabam por despertar o verbo, concordaram que gente e barulho a mais, quando ontem tudo parecia no seu lugar , é um facto: ontem tudo parecia no seu lugar; ambos sabiam a razão, tantos anos depois, do seu regresso ao local das primeiras férias juntos, esta povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, embora jamais o verbalizassem, em verdade, procuravam compreender se, entre eles, tudo estaria no seu lugar ou se nem vislumbres de quem f...
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Rua das Alfazemas

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  Quem morava na rua das Alfazemas? Todo o mundo ali morava, afinal, numa rua cabem os sonhos vivos e enterrados de cada um de nós, logo após o almoço, ela vinha para a janela, ali ficava até à hora da janta, sabia das rotinas de cada um, mas era um saber-lhe amargo, não era isso que a levava até à janela, mas o que já não encontrava por casa, afinal, numa rua cabem os sonhos vivos e enterrados de cada um de nós… Há quanto tempo ela morava na rua das Alfazemas? Foi depois de, sim, foi depois disso, ainda foram remetentes de outras moradas, talvez duas ou três, até que assentaram na rua das Alfazemas, ele partiu há três anos, mais concretamente trinta e nove meses, foi de madrugada, parece-lhe que foi ontem, de repente, algo a chamá-la para o lado de cá das coisas, o telefone parecia contorcer-se para que ela o viesse silenciar, por ter de se socorrer de um candeeiro para lhe alumiar os passos, lá fora, o mundo ainda uma harmonia de silêncios e sombras, o frio do momento fê-la cob...
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...  reencontrar a praia onde as águas verdes do rio abraçam o mar, sobretudo da parte dele, sempre encontrou ali algo de hipnotizante, o único local com o dom de permanentemente se metamorfosear, ou pela luz, ou pelas areias emergentes aquando da vazante, o seu espírito aquietava-se, como se exorcizasse de si todas as noites somadas neste caminhar... in Desolação III

Desolação III

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  Assim que abriram a porta do quarto, de novo a sensação de imutabilidade, nada se havia alterado, nem o cheiro, um quê a flores-silvestres e a madeira, para trás ficou o varandim, as águas verdes do rio que, pouco mais à frente, abraçam o mar, o ar povoado pelo cântico estival das cigarras, como se um grito da vida, efémero, trágico, mas que o mundo ouve, os olhos dela em tristeza pelo fim anunciado da doçura daquelas águas , entraram dois naquele quarto, saíram três, nada disseram, tudo se gritava entre eles, de novo, o equívoco de ali terem regressado, quantas vezes ele desejou que o pensar se apiedasse de si, jamais, incessante, feroz, nem por um fragmento de tempo o largava, neste ponto, sabia-a mais quieta, tranquila, como se em cadência com o vagar do dia, assim que a porta do quarto se fechou, ele abriu a janela e ficou a contemplar o possível de montes e águas-esverdeadas, ela a desfazer a mala, queria povoar o quarto da sua identidade, ele procurava-se, ela derramava-s...

Não te esqueças de trazer um sonho contigo

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  Assim que ali entrei, depois de folhear três ou quatro revistas, que, de certa forma, reclamavam um merecido descanso, de tão manuseadas serem, além do evidente atestado anacrónico, bastava atentar nas temáticas, não era necessário o preciosismo de verificar devidamente o cabeçalho, espalhadas numa mesa, bem à nossa frente, depois de também percorrer, por mais que um par de vezes, os outros para ali sentados, suficientes para não haver cadeiras vagas, mais elas, é verdade, sinal dos tempos, o feminino aprendeu a determinação, também me olharam, os outros para ali sentados, mais que uma vez, percebi isso, o mais velho devia andar próximo dos quarenta, talvez já tivesse dobrado esse cabo, vinha dentro de um fato habituado a estes cenários, estava sentado muito direito, ao colo uma mala, de couro, coçada em várias partes, também velha viajante destas paisagens, percebia-se-lhe a nervoseira pelo permanente oscilar de joelhos, embora se revestisse de uma expressão imperturbável, com...
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Desolação II

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  Nos arredores da povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, o possível verde de Sul cedia ingloriamente ao cinzentismo dos trolhas, pois, não há quase lugar, no hoje, onde essas patas imundas não cheguem, entre eles, no interior do veículo, apenas silêncio, tentavam reconhecer um vislumbr e do lugar das primeiras férias juntos, como estava difícil, o possível verde de Sul cedia ingloriamente ao cinzentismo dos trolhas, a dificuldade maior residia, sem dúvida,   precisamente no interior do veículo, entre eles, aí, sim, nem vislumbres do que eram aquando das primeiras férias juntos, não por acaso ela procurava suspender o tempo, para reencontrar algo que talvez por ali estivesse entre lençóis, areia e mar, ele talvez nem se recorde de, numa manhã de Domingo, lhe tocar à porta coberto com um frondoso ramo-de-flores, à entrada da povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, do lado direito, havia uma tascazita, sombria, com similitudes a filme do faroeste, ele pr...
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Desolação I

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  Há muito ela falava, com insistência, em regressar ao local das primeiras férias juntos, de início, ele relativizou, talvez mais um capricho, a nostalgia batera-lhe à porta, reacender o que inexoravelmente o tempo diluiu, a insistência, no entanto, mantinha-se, “Fomos tão felizes lá! Era tudo mais simples… Lembra-te: durante esses dias, nem precisávamos do carro para nada! Era só descer a rua e estávamos na praia… Já reparaste: não enfrentávamos o caos do aeroporto, horas e horas de espera, passaportes, documentos e mais documentos, malas, avião, basta uma hora de carro e ali estamos!,” uns instantes de silêncio e recomeçava, “Fomos tão felizes lá… Era tudo mais simples…,” ainda apelou ao que se economizava, ele que nunca lidou muito bem com a claustrofobia de estar, horas e horas, dentro de um cilindro, que mais parece imóvel nas alturas, lentamente a, por fim, ouvi-la, de outra forma, a dar-lhe a devida razão, tão raro nestes últimos tempos, “Fomos tão felizes lá… Era tudo...
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Ontem cruzei-me com um estranho na rua…

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  Não sei se cheguei a dormir, andei por ali, entre o cá e o lá, entre o estar ao leme do meu pensar e o abandonar-me aos caprichos do sono, que mais não faz do que levantar a carpete da nossa consciência, ora me virava para um lado, ora para outro, ele, a meu lado, nem se mexia, apenas a respiração, num compasso pesado, indiciava os caminhos, pelo menos, do sono, não sei se abrira as portas do sonho, nunca mo dissera, olhei as luzes vermelhas em cima da minha mesa-de-cabeceira, para ver se podia prolongar a esperança de me abandonar, nem que fosse por mais um pouco, aos caprichos do lado de lá, percebi que me restavam vinte e oito minutos até que as luzes começassem a tremeluzir e o aparelho a gritar numa urgência de ave caída, resolvi levantar-me, não, não valia a pena insistir, ora me virava para um lado, ora para outro, e o sono uma repetida miragem de Verão, saí do quarto, também não valia a pena acordá-lo, afinal, sai de casa quatro horas depois, vesti-me na sala como sempr...

Deus também erra?

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  Ensinaram-me, em criança, que Deus é perfeito, o mal é resultado do livre-arbítrio do homem, sempre tive estas duas premissas bem presentes, até que, há uns dias, alguém, durante o relato de um episódio biográfico, a dada altura afirma: “Deus também erra”;   a frase ecoou por cada canto do meu ser ( “Deus também erra”), em verdade, tirando a perspectiva teológica, eu não tinha como contrariar esta evidência ( “Deus também erra”), quem, nos seus passos pelo aqui, não queria, num dado momento, tudo fosse uma outra coisa? E o amanhecer confrontado (ou será resignado?) com o mesmo tão indesejado do ontem, um velho aforismo dita que “Não há ateus na hora da morte,” concordo plenamente, a morte acompanha-me a cada passo, porque, há muito, não a temo, em verdade, só a receei durante a infância, no entanto, houve em mim uma mudança, desconheço a sua génese, facto é que desde a adolescência me sinto pronto para a acolher, num certo momento até já lhe senti o calor, a morte não é f...

Quando ainda fôlego para uma derradeira súplica…

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  Ao passar, diante daquele edifício branco, com uma cruz ao alto, a imagem da mãe, nos últimos tempos reduzida a um ténue articulado de ossos, envolta num manto negro, a ali entrar, todas as tardes, numa discrição condizente com as vestes, de imediato o respeito conduzia-lhe os joelhos ao chão, assim ficava, a passar aquelas pedras por entre os dedos, enquanto os lábios pediam que as alturas se lembrassem, nem que fosse um pouco, de nós que para aqui andamos, todas as tardes de uma vida, neste ponto, afastou-se da mãe, tal como em muitos outros, nunca foi apologista de discretos mantos negros como vestes, nem de joelhos no chão, mas, hoje em particular, gostaria que alguém se lembrasse, nem que fosse um pouco, de nós que para aqui andamos, parou, percebeu a porta aberta, o mundo mergulhado na tarde da vida, cada um cumpria com o seu destino de horas e afazeres, deixou-se ali estar por uns instantes, contou os degraus até à porta aberta, daquele edifício branco, com uma cruz ao a...
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  ... assim vão os dois, amparados, rumo à única janela iluminada da noite, para trás fica o molhe, onde uma gaivota assiste,   de um certo banco, à serenidade de um fim. in Serenidade
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Serenidade

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  Caminhavam desencontrados, embora na mesma direcção, o extremo do molhe, onde um banco para assistir ao nascer da noite, ele numa passada vagarosa, hesitante , como se aguardasse ela, primeiro, no banco, a segurança de se saber esperado, uma desavença (o quê?)   fê-los caminhar desencontrados , tantas são as fontes da discórdia, ela parou a meio, virada para Oeste, olhos nas águas, a brisa entardecida ondulou-lhe uma melena, ele fingiu não reparar, não asfixiava palavras, mas sentires, o orgulho a nortear-lhe os passos, daí o caminhar desencontrado, os olhos dela nas águas, nenhum pousava o orgulho, há poucas coisas piores do que morrer de amor por dentro em troca da esterilidade do orgulho exterior, calar o sentir para suster a altivez, num repente, após levantar os olhos da água, ela regressa, passa por ele como se lhe invisível fosse, compreende-se-lhe um vislumbre de a seguir, talvez o orgulho, num derradeiro instante, o imobilizasse, em desespero olha o extremo do mol...