Tudo começa no imperceptível que não iluminamos, aquelas coisas que só emergem com a luz do presente feito passado, como aquele dia em particular, ela sempre na pressa (de quê?), emprego, compras, filhos, uma conta esquecida por pagar, a ordem de corte já no segundo aviso, tinha chegado a casa, acho que se lembra deste pormenor, pois voltou a sair na pressa (de quê?), e, já dentro do carro, a chave a demorar-se, ainda se baixou, a ignição sob o alcance do olhar, mas não do gesto, o tempo a esfumar-se, os nervos em crescendo, o olhar cansado de desenhar o gesto, mas a chave a acompanhar as ondas hesitantes da mão, por fim, capitula, sai do carro, regressa a casa, telefona ao marido, não lhe conta o sucedido, apenas lhe relembra uma pressa (de quê) que não pôde cumprir, foi para o quarto, baixou o estore, antes abriu o pequeno armário que destinou aos medicamentos na casa de banho, havia-os para todos os destinos, optou, desta vez, pelo do sono, e assim foi, até o marido lhe rele...