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A mostrar mensagens de fevereiro, 2023
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  Há algo mais verdadeiro que uma lágrima salgada? in Deslumbramento
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...  em breve teríamos de regressar à nossa circunstância, silenciaste-me com um beijo, apontaste o horizonte, uma vez mais os teus dedos pelo rosto, a dúvida se eram lágrimas ou chuva a demarcar-me os contornos, o mundo iluminava-se, pouco mais foi dito, eu estava certa, ambos sabíamos, se tudo pudesse ser uma outra coisa, talvez aí o Ideal e o Ser se encontrassem, e não houvesse lugares neste mundo com tantos sonhos enterrados. in Deslumbramento

Será que Deus gosta de finais felizes?

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  Então, o que decidiste? A questão saiu-lhe ansiosa, ele percebeu de imediato o erro, as palavras atropelavam-se numa sonoridade acidentada, como se não permitisse réplica, ela, do outro lado, só respiração, passados uns momentos, Não estás mesmo interessado, pois não? Uma resposta tornada questão, um golpe sempre difícil de responder, parece que somos desarmados e, de repente, atacados com as armas que há pouco empunhávamos, ele olha à volta, na esperança de uma ideia que responda, mas, não sabe se pela hora, apenas a monotonia de um cansado cenário que já nem se olha, gente apressada passeio fora, com expressões veladas por um terror silenciado, isto só sucede quando o amanhã tem a cor da noite, a sinfonia mecânica do infatigável vai e vem de viaturas, conduzidas por sombras imóveis, numa aparente indiferença pelas emoções que, algures no caminho, lhes caíram do bolso, lojas vazias que derramam, nos passeios, um contido soluçar pelo ontem, a passada dele, agora, a encontrar o ...
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  ...   como se tudo no mundo encontrasse o Sentido, pelo menos eu encontrara, as estrelas na terra, o deslumbramento, a hora entardecida, o inebriar do teu perfume, o astro a mergulhar nas águas, o meu ressuscitar, afinal, só renasce quem estava morto. in Deslumbramento

Se ao menos me tivesses deixado ver a cor da tua alma…

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  Não me lembro de termos discutido por esses dias, não, julgo que não, até andavas calmo, se bem me lembro, então, o que te levou a… Cheguei mais cedo nesse dia, parece que há um fado a ditar uma surpresa sempre que nos antecipamos, é bem verdade, como se desafiássemos, pelo nosso adiantamento, a sequência natural do acontecer, a porta só no trinco, eras tão cioso pela segurança, nunca de esquecias de dar duas voltas, às vezes, já no elevador, voltavas atrás, destrancavas e repetias as duas voltas, sempre em apneia, mas com um esgar vitorioso, eu a reter o elevador, algures entre a preocupação (não sei porquê, mas num canto cá meu, questionava se seria um comportamento inteiramente ajustado) e o orgulho (enchias o peito de ar, como se de um cerimonial se tratasse), às vezes, o vizinho do quarto andar, impaciente pela espera, aos murros à porta do elevador, mas tu não te ficavas Vamos a ter calminha, muita calminha , logo vi que estavas em casa, estranhei pela hora, geralmente, p...

Queria um pouco do ontem no hoje

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  Tudo começa no imperceptível que não iluminamos, aquelas coisas que só emergem com a luz do presente feito passado, como aquele dia em particular, ela sempre na pressa (de quê?), emprego, compras, filhos, uma conta esquecida por pagar, a ordem de corte já no segundo aviso, tinha chegado a casa, acho que se lembra deste pormenor, pois voltou a sair na pressa (de quê?), e, já dentro do carro, a chave a demorar-se, ainda se baixou, a ignição sob o alcance do olhar, mas não do gesto, o tempo a esfumar-se, os nervos em crescendo, o olhar cansado de desenhar o gesto, mas a chave a acompanhar as ondas hesitantes da mão, por fim, capitula, sai do carro, regressa a casa, telefona ao marido, não lhe conta o sucedido, apenas lhe relembra uma pressa (de quê) que não pôde cumprir, foi para o quarto, baixou o estore, antes abriu o pequeno armário que destinou aos medicamentos na casa de banho, havia-os para todos os destinos, optou, desta vez, pelo do sono, e assim foi, até o marido lhe rele...
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Sabes que vivemos as coisas com intensidades diferentes, quando, por acaso, se encontram, chama-se magia.     in Deslumbramento
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  No fim, no fim, se contares dois ou três momentos de felicidade, dá-te por satisfeito. in Deslumbramento
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 ... como era possível um homem e uma mulher, que um dia trocaram juras de amor, tornarem-se duas desilusões naufragadas num sofá... in Deslumbramento

Para onde vou, levo-me comigo

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  Algo me despertou, como se uma urgência, de qualquer coisa, nunca chegada, percebo-lhe a ausência, não sei se do vazio devolvido pelos lençóis, se pela moldura iluminada da porta da casa de banho em frente, procuro as horas nos números vermelhos tremeluzentes da mesa-de-cabeceira, aproxima-se o jantar, ela regressa, aprecio-lhe a silhueta enquanto os seus dedos tacteiam pelo interruptor, anicha-se, de novo, a meu lado, Tens de ir, não é? Não esperava já a questão, pensei que, antes, falasse de qualquer outra coisa, não sei bem o quê, mas a questão persiste, suspensa, entre nós, como se, ao mínimo movimento falso, desabasse, não há qualquer fuga, ela bem o sabia, opto pela temeridade, Sim, não é nada de novo, pois não? Já viste as horas? Percebo-lhe a surpresa pela entoação assertiva, ou talvez por não ter uma resposta pronta para tal, a cada descida das pálpebras uma possibilidade de resposta, por fim, E isto vai durar até quando? Quantas vidas se repetem numa vida, de novo, es...
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 ...  a brisa vespertina não enlevou somente o virar de páginas sob frondosas ramagens, aproximou lábios sedentos, e foi inteiro em cada gesto, em cada palavra, no fundo, condensou o universo no seu sentir, mas o outro é sempre uma construção nossa, ele guindou-a aos céus, das alturas ela devolveu-o à terra... in Deslumbramento

A alma reflecte-se num espelho d´água

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Uma omnipresente ausência

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  Há coisas que só se dizem quando o mundo já uma sombra imensa. Não posso afirmar que mo tenham dito directamente, pelo contrário, ouvi-o no acaso de uns passos com outro destino, o de cumprir com os imperativos da natureza, talvez julgassem que a casa já dormisse, daí o emergir de frases com a cor do silêncio, por um sono demasiado, não foi tanto a frase que me imobilizou a atenção, mas sim o tom que a iluminou, regra geral, o que nos detém, perante o abismo do que nos dizem, é a luz das palavras e não os caracteres que lhes dão corpo, foi minha mãe que a proferiu, assim que a sua voz se diluiu, uma porta fechou-se, quantas portas o futuro nos encerra, enquanto nós na vã efemeridade de aprisionar o presente, meu pai não replicou, lembro-me bem deste pormenor, quase os vislumbrava suspensos na luz difusa desta frase que se extinguia, quem sabe se demasiado cedo, como um ocaso invernal, mas tudo tem um tempo para se iluminar, e os passos da luz fariam o seu percurso até esta minh...