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A mostrar mensagens de 2023

A quem nasce pobre só resta o sonho

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  Antes de a questão perfurar a fragilidade inata do silêncio daquele lar, já ele a aguardava, ainda sentado, com uma revista aberta, mas a olhar, sem ouvir, a televisão, notícias, talvez porque sempre as mesmas, desemprego, crise, portas que se fecham, gente com malas a caminho de um qualquer lado, onde tecto sobre a cabeça e um pouco de pão na mesa, e sempre aquele sublimado medo, medo, medo a perpassar por entre as palavras, como se cansara disso, foi talvez quando, por fim, percebeu que tantos caem para necessariamente outros, poucos, muito poucos, se guindarem, uma história que caminha à mesma velocidade que o homem, de repente ( Já estás pronto? ) a voz dela em cada canto da casa, não era difícil, uma salita com vista para um diminuto quarto, num dos lados, um balcão divisor a proclamar o espaço de qualquer coisa relacionada com refeições, a timidez branca de uns escassos electrodomésticos a balbuciar a sua existência por entre os dois únicos bancos altos visíveis, ele lev...
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 ...  a nossa compreensão das coisas é muito limitada, sempre vemos o mundo da ilha de nós... in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã
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Palavras para quê? É um astronauta português!

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  A primeira palavra que o ser-humano aprende, ao contrário do que muitos pensam, é Não. E porquê? Porque é da nossa natureza reagir perante a adversidade, quando, ao longo da vida, se ouve poucas vezes o Não, está potenciado o cenário para a indolência, preguiça, irresponsabilidade, e demais companheiras de curtas viagens… Hoje resolvi contar, nem por acaso, a história de uma personagem que tão pouco contemplada foi com o mágico Não, mais novo de meia-dúzia de irmãos, centrou em si, como habitual neste contexto, todo o mimo e atenção possíveis, com o Não diluído do horizonte, só resta mesmo empurrar a vida com a barriga, que, nem por acaso, se avolumou, de forma proporcional, ao somar das décadas, o liceu ficou por completar, porém, este facto logo sublimado por uma postura muito comum naqueles a quem os livros inclinam a cabeça para o chão do mundo: a arrogância do intelectual de pacotilha! Era vê-lo, rua acima, rua abaixo , com um volume, denso o suficiente, para não passar de...

A ascensão dos medíocres

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  Não me lembro de como e onde tudo começou, no entanto, de repente, percebo-me de caneta na mão, um caderno de linhas aberto à frente, sozinho numa secretária, à minha volta mais secretárias, também ocupadas por uma só figura, era uma sala comprida, para o rectangular, do lado esquerdo, três grandes janelas envidraçadas iluminavam quanto baste todo o espaço, via uma grande ardósia sem qualquer escrito, e um sujeito, com um circunspecto ar professoral, deambulava, de mãos atrás das costas, por entre nós, regresso-me na hesitação compassada de idoso, já me lembro, foi à hora de jantar, meu pai a irromper, casa adentro, um prospecto na mão, a chamar-me, Já viste? Já viste? É a tua grande chance! Eu hesitante entre a sua entusiasmada expressão, os gestos largos, e, só no fim, a perceber-lhe o prospecto, ele a assentar as grandes mãos sobre os meus ombros, sempre que isso sucedia, diante de mim só a palavra responsabilidade , Percebeste? É a tua grande chance! Nisto, a estender-me o ...
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O pântano da alternadeira

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Já ouvi, em tempos, alguém afirmar que as rameiras ajudam à sobrevivência de muitos casamentos, pois, é possível, à luz desta premissa, hoje vamos falar de “O Pântano”, uma conhecida casa-de-alterne, gerida, como é natural nestes contextos, por uma hábil alternadeira, dizem as más-línguas que, há uns anos, soube ardilosamente envolver-se com um velho, de carácter deveras manhoso, dizia-se, por aquelas bandas, que a preparou cuidadosamente para o cargo, era uma mulher baixa, com umas ancas de égua, um rosto de suína deveras desagradável, o cabelo, se assim se podia denominar, uns fios sebosos num constante desalinho, quanto à indumentária, o normal de uma alternadeira, uma efémera tentativa de parecer o que não é, dos pés à cabeça nada lhe assentava condignamente, a rotunda volumetria apenas um desafio para as costuras, não havia dia em que o velho, de carácter deveras manhoso, não fosse visto a entrar na casa-de-alterne, apenas ia para contabilizar os proveitos, há muito que a natur...

O Lou Ferrigno do Areal

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Fui eu, confesso, que o apelidei de Lou Ferrigno , não por acaso, era a antítese paradigmática deste culturista, o aspecto, logo ao primeiro contacto, que dele ressaltava eram as gigantescas favolas , os incisivos-centrais conferiam-lhe uma indesmentível aura de Bugs-Bunny , não me recordo de o ver de boca-fechada, era-lhe, de facto, uma impossibilidade congénita, não sei porquê, mas agora que escrevo estas linhas sobre esta personagem, havia nele uma silenciada ansiedade que lhe estendêssemos uma ou mais cenouras, para logo materializar o porquê daquelas proeminências dentárias, tratava todos por senhor ou senhora, só depois o nome, um aspecto de ruralidade enternecedor, vestígios indeléveis das suas origens, os pais tinham um café, um eufemismo, em larguíssima percentagem, para tasca, era este o caso, é facílimo aferir se estamos perante um café ou uma tasca, se entrarmos, basta atender ao aspecto dos clientes em volta, para quem lá trabalha, se o número de cervejas, ou jolas, conf...
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Gostaria de não cair no vazio da monotonia

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  Há muito que não passava por aquela janela, sem saber muito bem como, hoje fui lá dar, ali fiquei, parado, a olhá-la, por não sei quanto, ainda bem, gosto de desaprender o tempo, cada vez mais, talvez não seja bem isso, porque só se desaprende o tempo quando pousamos a mala do existir, e a janela, hoje, não sei porquê, parece-me mais longe, embora eu no mesmo ponto de antes, a olhá-la, por não sei quanto, de fora, tudo igual, ou talvez não, mas por dentro, de certeza que diferente da minha memória, a janela também hoje uma outra, porque o olhar, de antes, já tão longe, e a distância fê-lo outro, nem sei em que ponto se perdeu, sempre que nos apeamos no caminho, lá vem, despercebidamente, aquela questão, como se os seus passos sob o silêncio de sombras ( E se tudo uma outra coisa? ), é uma pergunta recorrente ( E se tudo uma outra coisa? ), não lhe sei responder, persisto na janela, nisto, um candeeiro da rua relembra-me noite, a janela, no entanto, ainda por iluminar, de repent...

Que pena uma folha conter duas páginas…

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  Do que me lembro melhor, é do quarto, com as duas camas, a da minha mãe do lado da janela, quase sempre com a cortina corrida, em verdade, não me lembro, nem por uma só vez, de abrirmos a janela, só lá ia quando uma ambulância acordava o mundo com a sua dor, de resto, permanecia fechada, quase sempre com a cortina corrida, não sei por quanto tempo ali estive, talvez uns dois anos, talvez uns três, ou mais, não posso precisar, mas foi há tanto, há tanto que minha mãe ainda viva, sei que o prédio tinha três andares, ficava numa dessas ruas de Lisboa que apenas conhecem a sombra, seja manhã ou tarde, o elevador, que tinha uma armação metálica, com porta, bastante trabalhada, em cada andar, nunca o vi funcionar, acho que adormecera entre o segundo e o terceiro andares, restava-nos a escada, é curioso, a minha mãe jamais questionou a senhora velhota, a quem pagava o quarto, pelo adormecimento do elevador, acho que por, de vez em quando, se atrasar com as contas, a tal senhora também...
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Subterfúgio

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  Há uns tempos escrevi que o tempo não existe , a melhor prova disso é a memória, num repente, levanta-se-nos um momento ido, e ali estamos, como se nunca tivéssemos partido , mudado, daí o constrangimento quando nos cruzamos com rostos do passado, esta verdade em nós (ali estamos, como se nunca tivéssemos partido), mas jamais assumida (o tempo não existe), e, do nada, surgem-nos ao caminho episódios que julgávamos idos no rio do esquecimento, há uns dias deparei-me com um, da perplexidade inicial até um sorriso ainda demorou o seu devido tempo (ali estamos, como se nunca tivéssemos partido), andei, durante esse período, a matutar no título desta crónica, primeiramente pensei: “O carro-preto”, já lá iremos; como segunda hipótese: “Ruas desertas na madrugada”; andava pela feliz altura onde o horizonte se povoava de brinquedos, por outras palavras, de sonhos, quem troca um horizonte de sonhos por um de problemas? Pois, o mundo dos adultos é muito aborrecido, já o afirmava em cria...
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  Somos hoje o nada do amanhã. in Anoiteceu
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O sentido das coisas

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  Há perguntas que sempre o irritaram. Mas nenhuma supera aquela que o obriga a pensar-se ( se está bem, como anda, o que tem feito ), talvez porque obrigue a regressar, numa demasiada rapidez, ao agora, exactamente de onde ele parte sempre que possível, todos os dias, antes de regressar a casa, de mãos nos bolsos, passeio fora, lá vai, naquela passada que proclama um indisfarçável fastio pelas coisas do mundo, aquela frase que lhe ouviu há tanto, há tanto que lhe parece numa outra vida, e nós que tantas vezes morremos nesta para regressarmos sempre tão subtraídos, embora uns afirmem que regressamos sempre fortalecidos, tolos, apenas isso, a frase dela Eu não durmo com amigos , tão reveladora, lúcida, transparente, porém, na altura, ele aquém destas inferências, a levar as coisas para bem longe, sinal de que ela era séria, de confiança, responsável, felizmente com princípios e valores, isso é bom, muito bom, Eu não durmo com amigos, ainda hoje ressoa por ele, mas se, por um acaso,...

Adeus à saudade

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  Via-se, agora, diante de si, pelo vidro anoitecido, à sua volta vultos e vultos, alguns de pé, um cheiro a condensação em volta, do seu lado esquerdo, o barulho do saco-de-plástico ininterrupto, prefere nem olhar, a audição já é suficiente para o iminente liquidar da paciência, uma senhora hirta à sua frente, olhar nos sapatos, caminhava pela idade dos desencantos, a compreensão do adeus aos sonhos, no feminino é sempre mais doloroso, não fossem as fadas mulheres, olhou-a e reparou no anelar despido, só a marca se lhe gravara, e talvez não se diluísse, a biografia reflectida nos dedos, o saco-de-plástico sem dar tréguas, opta por um sonoro suspiro, mas insuficiente para a volumetria do barulho, nisto o regresso de um apelo, por tão familiar voz, “Não vás para lá! Ouve, vais arrepender-te! E a segurança, homem, e a segurança… Um vai-e-vem constante, a falta de espaço… Vais arrepender-te! Mas a decisão é tua!”, como tudo na vida, luz e sombras sucedem-se, de outro modo, agora, a...
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... não fosse o amor um jogo, dos mais traiçoeiros possíveis, onde o controle é uma ilusão e a queda a única realidade... in Nascer
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  ... sabia que era contra a leitura, por intuição, a resposta corroborou-o, argumentou que não devemos levar a existência a olhar para baixo, mas sim para as alturas, acrescentou que ler significa não viver... in Nascer

EEEEEEEEiiiiiiiiiiiii

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  Andava no seu quotidiano, entre mesas, a servir, recolher moedas, devolver as necessárias para que boas contas, quando, de repente, ouve um arrastado e quase suplicante “ A… V… C… ” , olha o sujeito, sentado, camisa aberta até ao umbigo, de onde saía uma demasiada proeminência abdominal, numa palidez excessiva, sem saber bem porquê, o seu olhar no umbigo dilatado, tão similar ao da sua mulher, nos últimos meses de gravidez, uma circunferência onde cabia perfeitamente a moeda de maior valor em circulação, daquele exacto ponto não se distinguia se uma gravidez, se descuido alimentar, o arrastado e quase suplicante “ A… V… C… ” repetiu-se, a aflição tomou conta de si e foi lesto em aproximar-se do indivíduo, “Está tudo bem consigo? Quer que chame uma ambulância? Olhe para mim! Responda, por favor…”, neste ponto, o pânico ameaçava dominá-lo, só lhe faltava mesmo, no seu turno, um cliente falecer, o sujeito repetiu “ A… V… C… Tive há uns anos…”, no mesmo tom arrastado e quase supli...

A angústia de se saber que amanhã é 2ª feira

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  Pela teimosa fresta do estore, que esperava pela reparação num amanhã de há dois anos, percebia-se uma manhã cinzenta, ele acordara há algum tempo, mas permanece ainda de olhos fechados, a fruir de uma imobilidade em que o mundo não entra no pensar, ela ainda insistia pelos lados do sono, apesar de já ouvir o aqui, por fim, ele levanta-se, o autoclismo ressoa pela casa, regressa à cama, ela a desistir dos lados do sono e a recebê-lo com satisfação no aqui, trocam umas frases codificadas, numa linguagem construída por anos de diálogos sussurrados ou gritados, assim é a vida a dois, um ténue equilíbrio entre faces encontradas ou nucas distantes, sob os lençóis, reencontram, de forma desapaixonada, talvez até mais mecânica, a vertigem dos sentidos, no entanto, o amadurecido compasso do sentir torna tudo mais satisfatório, é a compreensão do presente, após acordar os filhos, têm um casalinho, ele com dez, ela com oito, o pequeno-almoço, a limpeza da casa, o almoço, ele já sintoniza...