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A mostrar mensagens de dezembro, 2024

Nuvens passeantes pelas águas

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  Desde criança sempre tive esta coisa de me perder a olhar horizontes, talvez o sonho de além conseguir pousar a bagagem da minha alma, os meus avós tinham um quintal rodeado de muros, quando por ali ficava, de imediato subia uma escada-de-madeira encostada num desses muros, ali ficava, o necessário, a olhar para Leste, hoje sei que essa escada-de-madeira estava encostada ao muro virado para Leste, à noite, pelo vidro da janela, pouco via para além dos muros, uma chaminé ali, o telhado de uma casa acolá, pouco mais, foi então que resolvi pegar numa enxada, apesar de pouco mais de dez anos, senti-me capaz de mudar o mundo, com uma década, o sonho acompanha-nos o respirar, e comecei a escavar o centro do quintal da casa dos meus avós, sabia, de antemão, que logo ecoaria um brado de minha avó, sempre atenta ao acontecer, apesar da dificuldade no manuseio da enxada, pelo comprimento associado ao peso para os bracitos de um miúdo de dez anos, não me demovi de a levantar aos céus para...
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Nocturnos

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Um dos encantos da noite, desde miúdo, reside no fascínio de olhar as janelas iluminadas em volta, como se, por aí, o lar que nunca encontrei entre as paredes onde habitava, como se, por aí, o paraíso que sempre procurei, ou seja, o lugar onde me compreendessem, até hoje o procuro, duvido que o encontre, pelo menos, caída a noite, vou até uma janela e olho as luzes das casas em volta, tudo numa aparente serenidade, a dor do mundo parece ter partido para um lugar demasiado longínquo, onde nem a imaginação a alcança, quando olho as janelas iluminadas em volta, faço-o no melodioso silêncio nocturno, jamais com música, seria supérfluo, basta-me, de facto, o melodioso silêncio nocturno, este meu lado sonhador felizmente ainda não me deixou, se tivesse sucedido, ser-me-ia impossível redigir estas linhas sobre janelas iluminadas em volta, ainda hoje, caída a noite, olho as luzes das casas em redor, a minha atenção demora-se sobretudo onde não vislumbro o écran que tudo devora em redor (Qua...
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Indulgência

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  Dizia-se, por aqueles lados, nunca lhe ouvir um insulto, uma ofensa, um azedume, um grito, uma reprimenda, o timbre sempre discreto, como se um apelo à compreensão e ao serenar, vivia num rés-do-chão, não se lhe conhecia outros paradeiros, com o seu canário, saía de casa apenas para as compras ou a obrigatória Eucaristia-Dominical, pouco mais, se alguém apelasse à sua ajuda, por este ou aquele motivo, nem hesitava, era uma casa modesta, sala, cozinha, quarto e casa-de-banho, para ali se mudaram, ela e o marido , há pouco mais de três décadas, houve quem dissesse que tinham muitas posses, no entanto, o desespero da luta contra o vício do único filho quase lhes levou tudo, até a saúde do marido, partira há dezoito meses, o filho partiu bem antes, há pouco mais de três décadas, tentaram de tudo (clínicas de desintoxicação, mudança de casa para ver se outras companhias, colégios internos, curandeiros de vária ordem, ameaça de deserdar…), cada dia mais magro, pálido, alienado, só se...
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Desolação IV

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  Ele já se inclinava para o regresso, no entanto, ela ainda com o areal, onde uma mãe, num zelo só possível à maternidade, procura o último grão de areia dos pés do filho, este segura um avião de plástico nas mãos, em si talvez o desejo da distância, num último esforço, entrelaça-lhe, com suavidade, os dedos na mão, e tenta erguê-la, para a afastar de um quadro de dor, ela cede, talvez pelo vazio de si, nem meia-dúzia de passos depois, percebe o olhar, uma vez mais, no areal, há vazios, neste caminhar, que levaremos connosco, as minudências acabam por despertar o verbo, concordaram que gente e barulho a mais, quando ontem tudo parecia no seu lugar , é um facto: ontem tudo parecia no seu lugar; ambos sabiam a razão, tantos anos depois, do seu regresso ao local das primeiras férias juntos, esta povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, embora jamais o verbalizassem, em verdade, procuravam compreender se, entre eles, tudo estaria no seu lugar ou se nem vislumbres de quem f...
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Rua das Alfazemas

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  Quem morava na rua das Alfazemas? Todo o mundo ali morava, afinal, numa rua cabem os sonhos vivos e enterrados de cada um de nós, logo após o almoço, ela vinha para a janela, ali ficava até à hora da janta, sabia das rotinas de cada um, mas era um saber-lhe amargo, não era isso que a levava até à janela, mas o que já não encontrava por casa, afinal, numa rua cabem os sonhos vivos e enterrados de cada um de nós… Há quanto tempo ela morava na rua das Alfazemas? Foi depois de, sim, foi depois disso, ainda foram remetentes de outras moradas, talvez duas ou três, até que assentaram na rua das Alfazemas, ele partiu há três anos, mais concretamente trinta e nove meses, foi de madrugada, parece-lhe que foi ontem, de repente, algo a chamá-la para o lado de cá das coisas, o telefone parecia contorcer-se para que ela o viesse silenciar, por ter de se socorrer de um candeeiro para lhe alumiar os passos, lá fora, o mundo ainda uma harmonia de silêncios e sombras, o frio do momento fê-la cob...
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...  reencontrar a praia onde as águas verdes do rio abraçam o mar, sobretudo da parte dele, sempre encontrou ali algo de hipnotizante, o único local com o dom de permanentemente se metamorfosear, ou pela luz, ou pelas areias emergentes aquando da vazante, o seu espírito aquietava-se, como se exorcizasse de si todas as noites somadas neste caminhar... in Desolação III

Desolação III

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  Assim que abriram a porta do quarto, de novo a sensação de imutabilidade, nada se havia alterado, nem o cheiro, um quê a flores-silvestres e a madeira, para trás ficou o varandim, as águas verdes do rio que, pouco mais à frente, abraçam o mar, o ar povoado pelo cântico estival das cigarras, como se um grito da vida, efémero, trágico, mas que o mundo ouve, os olhos dela em tristeza pelo fim anunciado da doçura daquelas águas , entraram dois naquele quarto, saíram três, nada disseram, tudo se gritava entre eles, de novo, o equívoco de ali terem regressado, quantas vezes ele desejou que o pensar se apiedasse de si, jamais, incessante, feroz, nem por um fragmento de tempo o largava, neste ponto, sabia-a mais quieta, tranquila, como se em cadência com o vagar do dia, assim que a porta do quarto se fechou, ele abriu a janela e ficou a contemplar o possível de montes e águas-esverdeadas, ela a desfazer a mala, queria povoar o quarto da sua identidade, ele procurava-se, ela derramava-s...

Não te esqueças de trazer um sonho contigo

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  Assim que ali entrei, depois de folhear três ou quatro revistas, que, de certa forma, reclamavam um merecido descanso, de tão manuseadas serem, além do evidente atestado anacrónico, bastava atentar nas temáticas, não era necessário o preciosismo de verificar devidamente o cabeçalho, espalhadas numa mesa, bem à nossa frente, depois de também percorrer, por mais que um par de vezes, os outros para ali sentados, suficientes para não haver cadeiras vagas, mais elas, é verdade, sinal dos tempos, o feminino aprendeu a determinação, também me olharam, os outros para ali sentados, mais que uma vez, percebi isso, o mais velho devia andar próximo dos quarenta, talvez já tivesse dobrado esse cabo, vinha dentro de um fato habituado a estes cenários, estava sentado muito direito, ao colo uma mala, de couro, coçada em várias partes, também velha viajante destas paisagens, percebia-se-lhe a nervoseira pelo permanente oscilar de joelhos, embora se revestisse de uma expressão imperturbável, com...
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Desolação II

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  Nos arredores da povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, o possível verde de Sul cedia ingloriamente ao cinzentismo dos trolhas, pois, não há quase lugar, no hoje, onde essas patas imundas não cheguem, entre eles, no interior do veículo, apenas silêncio, tentavam reconhecer um vislumbr e do lugar das primeiras férias juntos, como estava difícil, o possível verde de Sul cedia ingloriamente ao cinzentismo dos trolhas, a dificuldade maior residia, sem dúvida,   precisamente no interior do veículo, entre eles, aí, sim, nem vislumbres do que eram aquando das primeiras férias juntos, não por acaso ela procurava suspender o tempo, para reencontrar algo que talvez por ali estivesse entre lençóis, areia e mar, ele talvez nem se recorde de, numa manhã de Domingo, lhe tocar à porta coberto com um frondoso ramo-de-flores, à entrada da povoação caiada de branco debruçada sobre o mar, do lado direito, havia uma tascazita, sombria, com similitudes a filme do faroeste, ele pr...