Ainda
não tinha tirado a chave do bolso, já o cheiro da comida por todo o lado, e
barulho de panelas, louça, quase instintivamente olho o relógio, pouco passava
das dezassete, contudo, ela nisto, passou-me, confesso, a ideia de virar costas
e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de
memórias, há quanto me foge um momento assim? Talvez há demasiado… Regresso-me
e já a chave a cumprir-se, logo ela Até
que enfim! Mas não sabes que dia é
hoje? Não fiques para aí parado! Tira o casaco e vem ajudar-me… Anda!
Despacha-te! Não te esqueças que, daqui a nada, tens de ir buscar os miúdos à
escola… Ela debitou mais frases, muitas mais, não, não lhe ouvi um Boa tarde, nem sequer um singelo Como estás? Ou então Como foi o teu dia? Nada! Só me ficou o Despacha-te! Eu, que ainda há pouco, pensava em virar costas e sentar-me
placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, a
verdade é que chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na
corrente, não resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer
gritamos por socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, há quem conteste esta
opção, está no seu direito, porém, não me parece muito avisado, sobretudo em
termos de saúde, qualquer tentativa de resistir a esta corrente é malogro
certo… Ela estava num estado muito próximo da histeria, ora se virava para o
fogão, ora a aprumar as louças e talheres do repasto vespertino, ora em mim
para mais ordens e instruções, opto por ir buscar os miúdos à escola, assim que
uma brisa entardecida pelo meu rosto, inspiro o momento, quase me senti numa
esplanada na companhia de um cigarro e de memórias. Quando regressei com os
miúdos (não sei porquê, mas sempre que a porta de casa diante de mim, um sentir
de derrota invade-me. Sempre assim foi. Não sei de onde provém, como se ali me
aguardasse, apenas e só… Às vezes, penso que talvez a minha morada seja noutras
paragens, daí a minha genuína estranheza por este regressar, que talvez não passe,
afinal, de um apeadeiro nesta minha caminhada…), ainda o cheiro da comida por
todo o lado, mas o barulho de panelas, louça, cessara, antes de entrarmos,
relembrei-lhes calma e ponderação, afinal, aproximava-se a hora do tão ansiado
jantar, reparei na mesa já posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, na
sala, ouvi a água a correr, ela no duche, em cima da cama, dispusera a sua
indumentária, não sei porquê, mas aquelas peças de roupa, despidas da sua
antropomorfia, enterneceram-me, talvez por serem uma extensão de si mesma,
fiquei a olhá-las, e apesar de a água continuar a ouvir-se, de lhe perceber
cada gesto ao lavar-se, primeiro, sempre, o cabelo, só depois o corpo,
pareceu-me que ela já habitava as roupas, ou talvez fosse o contrário, por fim,
saiu, compreendi que a minha calma a irritava, atirou logo Não te vais arranjar? Já viste as horas? Espero que tenhas dito aos
miúdos que não os quero na sala… Anuí a tudo, pois, a verdade é que
chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na corrente, não
resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer gritamos por
socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, percebi que ela optara por uma
discrição elegante em termos de roupa, pormenores que ainda lhe apreciava, às
vezes, não sei porquê, quando me debruçava sobre nós, de longe, quem sabe se de
uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, surgia-me a imagem de
dois náufragos, num bote, algures em mar-alto, condenados a entenderem-se se
almejam a sobrevivência, procedeu, antes da hora das visitas, a uma última e
minuciosa vistoria a cada canto da casa, enquanto isso, ocupei-me das bebidas,
pouco antes das vinte, a campainha, convidara dois colegas e respectivos
cônjuges, se me questionassem o porquê, ao certo, deste jantar, não saberia o
que responder, não se comemorava nada, não havia quaisquer motivos de gratidão,
saudade ainda menos, mas, o que é certo, é que o elevador já no nosso patamar,
o colega e a mulher a saírem, fui que abri a porta, ela, de rompante, postou-se
a meu lado, olhei-a com discrição, percebi-lhe o esforço por uma expressão de
simpatia, tantos anos a amanhecer e anoitecer a seu lado, que melhor garantia
no desvelar de uma artificialidade demasiada numa expressão? A artificialidade,
regra geral, caminha próxima da hostilidade, neste caso, compreendi que se
direccionava à mulher do colega, talvez o facto de ser mais nova e atraente
constituísse motivo mais que suficiente. Por um brevíssimo instante, antes da
formalidade dos cumprimentos, creio que todos compreendemos a frieza do palco
sobre o qual caminhávamos. O silêncio evidenciava ainda mais as hostilidades
contidas, assim, decidi-me por um sonoro cumprimento, eles retribuíram, percebi
que a mulher do colega, mais nova e atraente, entrou com uma relutância felina,
como se sopesasse cada gesto em território hostil, entraram para a sala,
acompanhei-os, sob o manto da discrição, captaram cada pormenor, a mesa já
posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, a louça que ainda estamos a
pagar pelo visa, as cadeiras encostadas a uma parede, para ser um jantar às
modernas, cada um vai-se servindo e come de prato na mão, assim uma coisa
inovadora de partilha de ideias, confesso que desconheço onde ela vai beber
estes novos ritos, apenas sou confrontado com os factos (ela, para mim,
limita-se a dizer laconicamente: Mas não
sabes que agora é assim que se faz? Já não se recebe ninguém sentado à mesa!
Estás mesmo ultrapassado!), enquanto debitava estes ditames de pacotilha, a
sua voz assumia aquela particular entoação algures situada entre um
cabeleireiro e o café em frente onde vão secar o verniz das unhas, já me
habituara a estes momentos, obedeciam a um guião cansado, cada gesto e sílaba
numa cadência de tão ontem, e eu entre o sorrir e um grito alucinado, do chão
aos vidros da janela, tudo num brilho exemplar, por momentos, confesso,
cheguei-me a questionar se esta era a minha casa, tal a ordem, tal a
impessoalidade que descera sobre as coisas… Nada disto claramente escapou à
mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me
lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de
juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho!
Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos
assim reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a
campainha, de novo, pela casa…




