Por ruas desertas anoitecidas, guio
num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia,
resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é),
nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de
nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância
daquela frase (Nunca pensei que isto
algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca
sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa…
Nunca pensei…), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto
sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas
anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros,
e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim
despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer
coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o regresso
ao lar, a janela que se fecha, a luz que se acende, e uma aparente harmonia
restituída… Até quando?
Olhava a colher trémula, receoso,
contudo, a sua abnegação persistia, diariamente, com a sopa do almoço, com o
doce de pêssego ao lanche, a sopa vespertina, o xarope para a tosse, ela
limitava-se a entreabrir os lábios, sem sequer emitir um som, quanto mais uma
palavra, sorvia na distância, pois há muito partira. Foi numa certa manhã, ela
a queixar-se de dores de cabeça, ele a relativizar, afinal, já habitavam o
Inverno da vida, viviam da magra reforma dele, emissário de desgraças e de tão
poucas graças durante a vida, em determinadas ocasiões, quando a missiva impunha
assinatura do destinatário, nem ousava tocar, preferia escrevinhar que ninguém
atendeu, pelo peso do envelope aprendera a saber-lhe o conteúdo, e cansara-se
de ver rostos desesperados, e quanto mais olhava a terra, sob o peso do saco
dos desencontros alheios, mais colocava a cruz ao lado de Ninguém atendeu… É curioso, as cartas passavam por ele seladas, no
entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história
que o tocou particularmente, sempre soube o porquê, talvez por isso nunca a
tivesse partilhado com ela. É natural, a aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, só assim sobreviveram àquela tarde em que a campainha
num pânico súbito, a contrastar com a indolência da tarde domingueira, ele num
regresso forçado da sesta à sua circunstância, de sofá e jornal caído na
carpete, ela também a desviar os olhos da televisão para a porta, embora o
coração… Pois, o coração nos seus monólogos de profeta, farol do sentir, a
sussurrar-lhe que o filho caído no alcatrão da estrada, correra por uma bola,
apesar da tentativa de travagem, por demais documentada no pavimento, tudo
infrutífero, o murmúrio insistente: É
isto que se passa! É isto que te vão dizer! Prepara-te! Ela num assomo de
esperança Tens a certeza? A resposta
pronta Lamento! Nessa tarde, foi ele
que calou a dissonante campainha, foi ele que recebeu a notícia, foi ele que
ficou lívido e emudecido sob a ombreira da porta, ela nem se levantou,
permanecia de olhar fixo numa moldura que lhe devolvia um sorriso do filho…
A aprendizagem das dores é a
aprendizagem do silêncio, chegou tarde e partiu-lhes tão cedo, a vida é isto:
uma soma de incompreensões! Como dizia há pouco, as cartas passavam por ele
seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve
uma história que o tocou particularmente, semanas após ter deixado a cruz ao
lado de Ninguém atendeu, o
destinatário era um casal jovem, ela em dificuldades com os degraus, já teria
dobrado o sétimo mês, o rapaz sempre diligente a seu lado, deixou os estudos
para assumir as expensas desta nova fase da vida, de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, ouvia-se dizer que deixaram o interior
para fugir às más-línguas, e também ao desacordo das famílias na sua união,
seguiram-se envelopes gordos, até que, numa certa manhã, os viu com três malas,
pousadas, à porta do prédio, o bebé ao colo da mãe, andaria pelos dois meses,
antes de depositar as cartas, parou junto deles, Bom dia! Estão de partida? Ambos responderam com uma silenciosa
expressão de derrota, ele não soube o que retorquir, era uma manhã fria, o bebé
soltava espirros regulares, por fim, apenas lhe restou uma questão, a mais
franca possível, Têm para onde ir? O
rapaz Temos de regressar à terra. Levantou
os olhos, sempre de mãos nos bolsos, ele que de obras a biscates abraçava
prontamente todas as possibilidades, encolheu os ombros, e acrescentou Sabe, o que mais me dói é que nem um berço
ainda consegui comprar para o meu filho… Esta frase ressoou-lhe por muito nem um berço ainda consegui comprar para o
meu filho… De novo, aquela evidência: a vida é isto: uma soma de
incompreensões.
De vez em quando, apesar de hoje a
colher trémula na sua mão, da partida dela para uma incompreensão distante, ele
insiste numa frase do ontem As amoras
sabem a Agosto… Por momentos, os lábios dela suavizam-se, como se uma
memória se erguesse na paisagem de si, ele de novo As amoras sabem a Agosto… E tudo talvez seja uma outra coisa.
Por ruas desertas anoitecidas, guio num
sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve
colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), em cada
janela uma história, umas vão a meio, outras já se contaram, a vida é isto: uma
soma de incompreensões, com algumas certezas a que nos agarramos, para assim
nos sabermos (quantas vezes nos largamos no mundo?), e nesta rua deserta
anoitecida, uma frase levanta-se em mim de um ontem tão ontem As amoras sabem a Agosto…



