Livros do Escritor

Livros do Escritor

domingo, 3 de maio de 2026


 Como é invernoso aquele momento em que nos arrogamos no papel de juízes sobre quem nos colocou a caminhar pela terra…

in Nuvens passeantes pelas águas

segunda-feira, 27 de abril de 2026

A beata maledicente


 

Há figuras que, de tão obscuras, só nos apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto, amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez, estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na sua luz para todo o tipo de vilezas e hipocrisias, nem me alongo a inquisições e afins, por ora, basta-me o exemplo da beata maledicente; pagelas, contas rezadas entre dedos, olhar pregado no altar, assumir a dianteira, em procissões, com o marido, um rotundo idoso, igualmente rato de sacristia, ali vão, com folhas de palmeira na mão, hossanas gritadas, jamais sentidas, secundados por dezenas, dos tais que se infiltraram num ramo mais ortodoxo do catolicismo, tudo num delírio de cantorias e rezas, como se, por desígnio divino, fossem os escolhidos, cruz ao peito e filhos a rodos, dois sinais identitários, sem esquecer as cantorias e os retiros, bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos,” há, sem dúvida, uma lógica subjacente a estes contextos que permite a aproximação destas figuras, tudo somado, o que dali emerge? Uma beata maledicente! Há uns tempos, aproximou-se de um incauto sob o pretexto de alertar para um hipotético perigo, como ela gosta de falar de um pedestal (às vezes, questiono-me de onde provém tanta carência…), num mundo de sombras, qualquer gesto, de aparente bondade, afigura-se positivo, no entanto, o tempo, esse frio e cruel juiz dos factos da vida, desvelou as reais intenções da beata maledicente: ganhar a confiança daquele peão para o manipular no tabuleiro dos seus interesses… Quem diria? Uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade; e, pasme-se, pariu oito vezes, pelo menos… Como é possível?! Se assim são os beatos, imagine-se os satânicos! Como já havia referenciado, esta beata é pródiga em verborreia sobre a existência dos outros, muito canta, com uma folha de palmeira na mãozita, à cabeça das procissões, hossanas, mas a Palavra de Cristo é-lhe uma total incógnita, “Não deves julgar”, um dos mais sublimes mandamentos do Nazareno, não foi, de todo, assimilado por esta criatura, reconhecida pelo seu lodacento rasto, aqui chegados, resta questionar: Será escassez intelectual? Ou simplesmente um carácter torpe? De formação está nas misturas químicas, até aí bem distante do Logos, é vê-la a entrar em reuniões, à porta fechada, por corredores sombrios, para debitar informações colhidas a mais incautos, outra das curiosidades desta personagem, não são muitas, convenhamos, está precisamente no facto de ocultar os grisalhos com que o tempo a presenteou, ao contrário de outros elementos femininos da seita a que pertence, que se orgulham de cada grisalho como se uma bênção, desconheço se chegam a cantar hossanas, com uma folha de palmeira na mãozita, para celebrar a sua chegada, pois, é possível que sim, a beata maledicente gosta de passeios, uma forma de contornar o horário laboral, uma praxis sua de há muito, por estes dias, irá a caminho de Madrid, na companhia de uma Porcachona, imagine-se o conteúdo de tais diálogos: uma verborreia de baixo intelecto com os grunhidos enlameados em dejectos de uma Porcachona: nem restará um santinho no altar aquando do regresso… Até deixo uma sugestão: a beata maledicente levar a sua viola, a Porcachona um microfone para emitir os seus grunhidos, e que dupla promissora teríamos, bom, é melhor deixar a folha de palmeira fora da equação, não vá a Porcachona confundir com um dejecto e prontamente engoli-la… Caro leitor, não permita que estas linhas esmoreçam a sua fé, beatas maledicentes há em todos os cultos, que tenham parido oito vezes talvez não haja assim tantas, com tamanha verborreia, de baixo-intelecto, sobre a existência dos outros, também não, mas bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos.”

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A saudade de um sentir saudoso

 


Quando dei por mim, despia molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui, e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te? Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza, de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo, discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal, viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois, sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar? Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é? Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo… Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite, como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora, uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é porque sei a direcção de cada passo.