Livros do Escritor

Livros do Escritor

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Se regressar, espero lá nos encontrarmos

 


Não sei porquê, de repente, o meu olhar em lentos passos pelo seu rosto àquela hora, devia a tarde estar no auge, ou talvez já caminhasse um adeus, ele sentado à janela, na cadeira do costume, sempre com a rua, ou talvez não, pousei o que me ocupava o momento (e penso que mais vezes devia ter pousado o que tanto me ocupou os momentos…), enterneci-me com a expressão que ostentava, o menino do ontem e o velho do hoje num duelo para ver quem ocupava mais espaço naquele rosto, não se apercebeu de que pousara o que me ocupava o momento para o olhar, a luz de adeus do exterior, não sei porquê, inclinava as coisas a favor do menino do ontem, os cabelos de prata tornavam-se dourados, os sulcos da vida impressos na face tornavam-se difusos no jogo de sombras daquela hora, aproximei-me, não se apercebeu, sempre a rua, talvez aí procurasse o menino do ontem, estendi-lhe a mão e encaminhei-o para dentro, a dificuldade em se levantar acentuava-se, ainda há uns dias, a nossa mais velha A mãe tem de se mentalizar o que é melhor para todos. Qualquer dia, dá cabo da sua saúde também… Isto assim é que não pode continuar! Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Desde cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem, talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, dessa janela, via-a às cavalitas do pai, a insistir, nas manhãs de escola, quase em birra, para que fosse o pai a levá-la à escola, e aquela noite, antes de jantar, eu sabia de antemão do que se tratava, a campainha, disse-lhe para descer e ajudar o pai com as compras, lá em baixo deparou-se com um carro novo, assim que a viu, o pai atirou-lhe as chaves, ela entre a incredulidade e uma alegria irreprimível, quase o sufocou com um daqueles abraços sem amanhã. A irmã, bem mais nova, não se conteve Quando for mais velha, também vou ter um, não é? Não tardámos com o Sim. Veio numa fase em que, de certa forma, já estávamos acomodados, a sua chegada fez-nos despertar para a existência, como se revivêssemos um período há muito ido. Mas a mais velha, talvez pelas exigências da idade, ou do temperamento, exigia-nos mais cuidados. Sempre que pensava nas diferenças entre elas, a imagem da minha vizinha com os dedos estendidos e a frase recorrente a ilustrar Pois é, os filhos são como os dedos da mão, têm a mesma origem, mas são todos diferentes. Nunca se esqueça disto! Anos depois, a mais velha, claro, exigia-nos mais cuidados, trocou o curso por um súbito casamento e uma maternidade quase imposta, não gostámos da sua escolha, mas sabíamos, de antemão, que, neste particular, escolher estava além do nosso jardim, respeitámos, claro, embora isso não quisesse dizer que aceitássemos, certa noite, levou o sujeito lá a casa, teria mais uns dez anos que ela, um divórcio às costas, dois filhos reféns desse outrora lar, sobrevivia pelo ramo imobiliário, denotava-se pelo discurso tiques de vendedor, assim que o vi, confesso, desagradou-me, o mesmo sucedeu com o pai, bastou darmos as mãos, enquanto eles entravam, para nos percebermos… Desde o fato profusamente coçado, à pasta de gel que reflectia candeeiros, aos despojos de acne de uma juventude sofrível que lhe pontuavam o rosto, à artificialidade dos gestos e modos que indiciavam somente um carácter sem chão, de facto, não, não gostámos da sua escolha, ainda hoje, quando, num acaso da vida, regresso a estes momentos, não é difícil, basta olhar o rosto do meu neto, questiono o que levou minha filha a olhar aquele sujeito, o miúdo, coitado, sempre o mantivemos fora desta arena de sentires desordenados, embora lhe reconhecesse, em certos traços de carácter, a herança paterna, talvez na verbosidade, muitas vezes, de assuntos onde estava tão aquém… O curso esfumou-se, o filho ficou, o sujeito partiu, foi reflectir candeeiros para outras paragens, o resultado expectável, não houve censuras, recriminações, nada, quando a campainha soou mais pesada, parecia anunciar o filho e as malas que ela trazia, o pai limitou-se a abrir-lhe a porta com uma expressão ternurenta, preferiu calar-se a dizer algo desajustado, eu não consegui, assim que as malas e o miúdo sob a luz do candeeiro da entrada, não me contive Pois… Pois, de falta de aviso não te podes queixar… Estava escrito! Só não viu, quem não quis, não ousou ripostar, no fundo, ela sabia de que lado estava a razão, e apesar de orgulhosa, a sobrevivência impunha-se. A irmã não se manifestou, estava naquela fase da vida em que a manhã compreende que se torna tarde. Não se seguiram tempos fáceis, porém, ela não permitiu que o miúdo se tornasse em mais uma despesa nossa, empregou-se, apesar da insistência paterna para que retomasse o curso, respondia laconicamente Agora é impossível! Tenho um filho. E sou eu que tenho de lhe pôr o pão de cada dia na mesa. Tínhamos orgulho pela assumpção da responsabilidade, contudo, havia em nós simultaneamente uma dor inconfessada pelo curso abandonado e por uma existência inconclusa: sempre que a olhávamos, víamos duas pessoas: a real e a sonhada; a que é, e a que podia ter sido. Ela também o sentia, daí a pressa constante, nos gestos e palavras, sempre que na nossa presença. É sabido que, pelo menos, vivemos duas vidas: a pensada e a vivida. Somos plurais, é um facto. Foi o pai que a fez reaprender a lentidão dos gestos e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita conveniência…

Desde cedo, percebi a proximidade entre palavras e lâminas, quase lhes sinto uma certa consanguinidade, por uns momentos, detive-me a olhá-la pelo lado do ontem, talvez por saber que ajuda a suavizar as coisas, mas não, pelo contrário, como é que ela ousa Acha que o pai daria pela diferença, nesta fase, de estar em casa ou num lar? Sinceramente, devia poupar-se… Depois de, numa outra vida, foi tão ontem que assim me parece, com uma infinita paciência o pai tê-la feito reaprender a lentidão dos gestos e palavras, quando se aproximou do neto, lhe aligeirou, com o seu saber, o fardo de existir, e, por fim, fê-la sorrir, como um caminho que, sem saber muito bem porquê, nos esquecemos ou deixámos de usar por uma qualquer súbita conveniência… Hoje vejo uma sombra do homem que foi, mas, pelo menos uma vez por dia, através de um olhar, um gesto, um sorriso, a sombra dilui-se e ele ressurge, como se não houvesse ontem, como se nunca tivesse partido, e isso para mim é mais que suficiente.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026


 

... a absoluta consciência de a felicidade ser uma ilusão, por ser passageira do passado… Todos a procuram no amanhã, porém a sua morada é no ontem!

in Nuvens passeantes pelas águas

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Só tenho o sol e a lua

 


Se me perguntassem, hoje, se o voltaria a fazer, a minha resposta seria sim. Não há como lhe fugir. Confesso que me custou depois, e as lágrimas que não caíam, acho que foi a primeira vez que chorei para dentro, parecia que as lágrimas vinham do mundo para mim… Tudo começou no final de uma manhã, a campainha, o meu filho a entrar, percebi-lhe, pelos passos do olhar, que me ia pedir algo, como se fosse o menino que ainda guardo em mim, primeiro, a olhar à volta, passos lentos na minha direcção, a voz pausada e serena, quase a soletrar Sabes, mãe… Começava, sempre que queria algo, assim a frase (Sabes, mãe…), com a voz pausada e serena, neste caso, falou-me da possibilidade de um negócio qualquer com o meu genro, um café, lá do bairro, estava para trespassar, não por falta de liquidez, ressalvou logo, apenas o cansaço e a idade do casal, há anos que o homem dizia aos clientes Estou a ficar fora de prazo! Qualquer dia, passo isto e regresso à minha terra. Não quero morrer sem cumprir o sonho de construir uma casita na minha aldeia. E de, pelo menos, eu e a minha patroa termos uns anos de descanso por lá. A cidade mata-nos. Isto não é vida para ninguém! Pegamos de sol a sol… E férias, nem vê-las! Sabe há quanto não sabemos o que é um fim-de-semana? Ocultou-me as últimas cinco frases da sua argumentação, só muito depois é que as conheci. Acrescentou que seria uma excelente oportunidade para todos, como isto não está nada fácil de empregos, assim sendo, precisavam de um avalista para o empréstimo, lembro-me tão bem, a vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que nem lá estivemos, neste caso, estava a preparar-me para descascar as batatas do almoço, ao falar disto quase as sinto ainda em minhas mãos, como se nunca as tivesse largado, disse-lhe logo que sim, apenas relembrei a minha reforma, que ia pouco além de quinhentos euros, ele retorquiu que, o avalista, se tratava de uma mera formalidade bancária, encolhi os ombros, queria simplesmente que eles encontrassem o seu espaço neste mundo, e, tratando-se do meu genro, que a família se reencontrasse, bem sei que nunca foram muito próximos, isso, de certa forma, contribuiu para que ele e a irmã se afastassem um pouco, dói ver seres, nascidos da nossa carne, caminharem tão afastados, durante uns tempos, consegui juntá-los à minha mesa… Nessa noite, a campainha, minha filha e meu genro, já sabiam do meu sim, vinham agradecer e descansar-me, Não te preocupes, mãe, que vamos todos arregaçar as mangas. Vai ser um sucesso! Já temos umas ideias para inovar o espaço, até vamos reformular o conceito… Neste ponto, eu ficava a olhá-la, nunca percebi se ela falava mesmo assim ou se fazia de propósito para que não a percebesse, sempre que me alheava de uma conversa, aprendi a prestar atenção aos gestos e expressões da pessoa, falam sempre muito mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos, confesso a minha preocupação após esta visita nocturna, minha filha caminhava pelo sonho, arrastando com ela o seu companheiro, em contraste com o irmão, que se movia pela necessidade, apesar de todos conhecerem o flagelo do desemprego, partiam de lugares tão distintos, sonho e necessidade não vivem debaixo do mesmo céu.

Cinco meses depois, a campainha, também num final de manhã, dessa vez, lavava umas alfaces para a salada, fechei a torneira, limpei as mãos, meu filho, com um ar transtornado, pensei a questão mas acabei por não lhe dar voz (Não devias estar a trabalhar?), era demasiado evidente, ali à porta, a olhar o tapete, sempre que perdia nos jogos de bola, fazia o mesmo, pois, o menino que ainda guardo em mim, entrou devagar, sentou-se, falou, falou, não o interrompi, nem o devemos fazer, aprendi, há muito, que os gestos e expressões falam sempre muito mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos, afinal o café não abre portas há três semanas, confessou-me que não tencionam reabri-lo, primeiro, acusaram-se de, ao final de cada dia, as contas nunca baterem certo, seguiram-se recriminações por uns trabalharem mais que outros, a minha filha queria investir para reformular conceitos, o irmão, e bem, achava prematuro, certa tarde, filho e genro quase de pegavam em frente aos clientes, avançaram com os papéis para a dissolução da sociedade, neste ponto, ninguém se lembrou do empréstimo ao banco, continuam a não se lembrar, mesmo que a memória se refrescasse, nada poderiam fazer, com o tempo, percebi que um avalista é tudo menos uma formalidade bancária, comecei a receber carta atrás de carta com uma frequência quase diária, logo eu que só tinha as três ou quatro contas providenciais a desaguar-me todos os meses na caixa-do-correio, certa tarde, ao levantar a reforma, dão-me trezentos e poucos euros, a minha indignação de nada valeu, só duas semanas depois é que me informaram da penhora de um terço da minha pensão, seguiu-se um panfleto colado na porta, retirei-o, claro, li-o mais que uma vez, contudo, faltavam-lhe gestos e expressões, falam sempre muito mais que as palavras, depois, bom, não quero falar disso, nem o vou fazer, a vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que nem lá estivemos, não sabia que podiam ser simultâneas, hoje para aqui estou, num pequeno quarto, em casa do meu filho, quando me convidaram a deixar a minha casa, um homem, de fato, com um papel na mão, acompanhado de polícias, não quero falar disso, nem o vou fazer, lembrei-me de, certa vez, alguém dizer Quando se fala muito em liberdade, é mau sinal, pois, eu a pensar onde estava a liberdade quando me apontaram a porta da rua da minha própria casa, tive de me amparar aos móveis para não cair, uma incredulidade raivosa apoderou-se de mim, concluí que, a partir de agora, só me restavam o sol e a lua, nada mais, não quero falar disso, nem o vou fazer, várias vezes, enquanto caminhava para fora da minha casa, ouvi por mais que uma voz A senhora sente-se bem? Não quer parar na farmácia? É melhor medir essa tensão! Foi meu filho que serviu de véu quando as lágrimas do mundo correram para mim, contaram-me, mais tarde, que a irmã estava do outro lado do passeio a assistir, discreta, que chegou a discutir com a polícia e com o homem do fato, que lhes gritou Esta casa viu-me nascer! Soube, uns dias depois, que deixara de ter genro, não posso dizer que o lamente, talvez ela apareça uma noite destas para jantar, e, se ela aparecer, queria sossegá-la, dizer-lhe que Dificilmente a casa que nos viu nascer será a do último adeus…

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026


 

... nós, juntos, brilhávamos em demasia – até o mundo parecia invejar-nos…

in Nuvens passeantes pelas águas