Livros do Escritor

Livros do Escritor

terça-feira, 21 de julho de 2026

Aparência e essência moram em ruas distintas


 

Olhavam-se, desde o primeiro momento, com um certo azedume, só a imperativa educação conseguia aligeirar, vizinhas no mesmo andar, a quase inevitabilidade diária de partilha do único elevador, andariam pela mesma idade, aquele momento na existência onde se percebe que o ocaso está próximo e o amanhecer uma realidade longínqua, uma arranjava-se de forma prática e descontraída, detestava formalidades, a sua profissão não exigia etiqueta, assim sendo, ela adoptou um estilo desportivo, confortável, nunca foi adepta de unhas-pintadas, hoje falar-se de unhas é uma questão virada para o pretérito, o que mais se vê, no quotidiano, são autênticas garras-afiladas saídas dos dedos femininos, que nem sabres prontos a degolar incautos, nunca soube o que é um salto-alto nos seus pés, ainda menos maquilhagem, defendia que a beleza está na espontaneidade e no carácter natural das coisas, o marido seguia-lhe os passos nesta forma de ser, convém para o equilíbrio do lar, pela precoce idade, o filho de ambos aquém de tais escolhas, a outra era, como se depreende pelo azedume aligeirado pela imperativa educação, o oposto, arranjava-se com uma formalidade irrepreensível, de fato ou casaco e saia-comprida, saltos-altos omnipresentes, maquilhagem reflectida pela luz baça do elevador, unhas num vermelho-vivo ou numa côr mais neutra, a condizer com a dos lábios, tudo orquestrado ao pormenor, o penteado indiciava horas e horas de cabeleireiro, o marido também saía diariamente de fato e gravata, embora tão mal lhe assentasse, os ombritos descarnados e estreitos deixavam cair a parte superior do casaco para meio dos bracitos, repetia uma ou duas vezes a saudação do momento (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), a cabeça em ininterruptos movimentos verticais, um autêntico manguinhas-de-alpacas, daquelas figuras que, avistadas de uma certa distância, já antevemos que nos tentarão vender algo, um utilitário em terceira ou quarta mão ou uma cave, toda virada a Norte, quase sem janelas, com um quarto, “E não comente esta oportunidade com ninguém! Ainda sou despedido por lhe fazer este preço! Nem imagina a procura… O sonho de muita gente! Considere-se um privilegiado por ter esta possibilidade!”, a filha, teria a idade do miúdo da frente, talvez um ou dois anos mais velha, um espelho da mãe, desapossada de qualquer espontaneidade da meninice, vestidinhos pindéricos, colares, pulseiras e unhas-pintadas, muito direita, mala-escolar pela mão, jamais mochila, desdém no olhar quando via os da sua idade atrás de uma bola, suados e com um joelho magoado, ao final da tarde, no regresso, quando se reencontravam no elevador, a cena repetia-se, apenas o “Bom-dia…” trocado pelo “Boa-tarde”, em verdade, este azedume delas era bem mais profundo, cada uma espelhava à outra, sem se aperceber, a sua inaptidão, a que se arranjava de forma prática e descontraída gostaria, nem que fosse por uma vez, até num fim-de-semana, de sair vestida com tudo orquestrado ao pormenor, deu por si, em certa ocasião, a vasculhar a sua roupa para ver o que tinha de mais formal, apenas um vestido deveras anacrónico dos tempos de solteira, paciência para cabeleireiro nunca lhe abundou, só o barulho dos secadores e a frivolidade das conversas eram suficientes para a repulsa ao leme das suas emoções, sempre achou, de extrema elegância, uma mulher de saltos-altos, nunca o verbalizou, mas era-lhe uma ideia consolidada desde muito cedo, a da formalidade irrepreensível desejava, há tanto, libertar-se deste espartilho que já lhe asfixiava a alma, a imperativa escolha da indumentária na véspera, o tempo roubado ao sono para maquilhagem e demais adereços, os joelhos e coluna em gritos de socorro pelas demasiadas horas de saltos-altos, o ignorado conceito de espontaneidade, a secura da pele do rosto pelo excesso de maquilhagem, os cabelos quebradiços por tanto manuseio e produtos no cabeleireiro, a consciência de ser uma réplica num contexto, sem quaisquer vestígios da sua individualidade, ela, ao espelho, a questionar-se: “Em que momento me perdi de mim?” E aquela irritante vizinha, de costas voltadas para imperativos de véspera, que tanta inveja lhe suscitava, teria mais ou menos a sua idade, apesar de, perante o seu olhar, lhe parecer mais nova, despida do estatismo da formalidade, o marido também se lhe afigurava mais novo que o seu, limitavam-se a cumprir com os mínimos de educação, não debitavam cumprimentos sonoros e ensaiados (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), como a irritava esse lado exageradamente polido, nunca lhe disse, começava a compreender o facto de certas questões deverem permanecer no verbo do pensar, e tinham um filho, como ela desejou um menino, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval cor-de-rosa… Tem uma linda menina dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, não perspectiva, neste momento, recomeçar os passos da maternidade, a cama apenas um espaço onde repousar as dores de uma existência indesejada, olha-o ali, a seu lado, nem resquícios de uma chama ida, projecta uma realidade distinta na casa em frente, ainda assomos da vertigem da paixão, daí o estilo descontraído, não havia tempo para etiquetas vespertinas, talvez não se enganasse, há muito a vizinha, do estilo descontraído, a falar da filha do casal da frente, como ela desejou uma menina, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval azulinho… Tem um lindo rapagão dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, ele renitente, nesta fase, em recomeçar os passos da paternidade, teriam inclusive de mudar de casa, ali nem espaço para um animal de estimação, no dia seguinte, se, por acaso, se encontrassem no único elevador, emergia a imperativa educação para maquilhar um azedume com os tons da madrugada.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Rio Pranto

 


Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de os saber vivos, é curioso, nunca os viu deterem-se perto de garrotes e seringas vazias, sabiam há muito quais as entradas para a morte, na porta ao lado da pensãozita havia um barbeiro, só abria de tarde, segurava mais tempo o jornal que a tesoura, como tema recorrente a guerra colonial, a mágoa imensa por ter sido obrigado a entregar armas, quando afinal a guerra vencida, nunca se conformou com a fictícia derrota e o antecipado regresso à metrópole, não havia dia em que não se ouvisse, naqueles vinte e poucos metros quadrados, Um dia hei-de lá voltar! Assim que pisei aquela terra, sabia onde pertencia. Sabe, foi como um clique em mim! E a distância das coisas?! Ensina-nos como somos pequenos… Não é como aqui! Acredite, não tem nada a ver! Sabe, lá tudo é em grande! Para onde quer que se olhe, sempre a lonjura. Aqui nem horizonte temos! Vivemos numa estreita faixa entre o mar e os espanhóis! E as cores? O que dizer das cores de lá? Nunca tive alma de poeta, mas se me ajeitasse com palavras, teria feito uns versos àqueles entardeceres… Palavra de honra! E o cheiro daquela terra? Então quando o cacimbo pousa, parece um feitiço… Não adianta! Podia estar aqui o dia todo a falar-lhe de lá, você nunca iria entender. Sabe, só quem lá esteve é que percebe aquilo! É como uma febre que se nos colou à pele! Era comum, à medida que avançava na sua prelecção, elevar a voz, talvez pelo entusiasmo, pela saudade, pela dor de não ter regressado, talvez por tudo, o certo é que África, todas as tardes, ecoava por aqueles passeios. Umas portas mais acima, outro quadrado com vinte e poucos metros quadrados, mas ainda mais obscuro, lá dentro um velhote, que arrastava uma perna, debruçado sobre uma mesa, lia uma revista com as cores da meninice, se atentássemos bem, as prateleiras à volta, em estantes que iam praticamente até ao tecto, estavam pejadas de livros e revistas de heróis e suas aventuras, quase todos ali chegados de outros lares, sinal de que os adeuses à infância se sucediam, por vezes, chegavam-lhe com sacos, depositavam-nos no balcão com gestos nervosos de uma pressa impronunciada, ele retirava um a um, com parcimónia, parecia prestar tributo a cada obra, folheava, sopesava, analisava o estado geral, sempre que uma folha rasgada ou risco, mandava para trás, era um princípio, tinha ali livros da altura em que ainda não sabia ler, dizia que aquele espaço era mais um museu que um negócio, volta e meia, retirava determinada revista, nem precisava de a procurar muito naquele universo de papel, e orgulhosamente proclamava Não a vendo por dinheiro nenhum! Trata-se do número um de uma colecção… E lá esclarecia o porquê, na sua voz rouca e arrastada, de uma manuseada e amarelecida revista, quase decrépita aos nossos olhos, ter um valor tão substancial, havia dias em que não entrava ninguém, mas se atentássemos nos seus gestos e rosto, percebíamos, de imediato, que ele nem dava conta, tal a abnegação com que arrumava, limpava, catalogava, ou simplesmente relia, talvez a vista já o traísse, e pensasse ler o que apenas relembrava, às vezes acontece, olhamos para trás a fim de nos sabermos ainda, havia quem dissesse que tinha o maior espólio da nona arte da capital, talvez do país, mas havia sempre um tom indulgente quando se referiam àquele espaço, que tinha um peculiar cheiro a papel velho, tristemente iluminado, apenas uma lâmpada no tecto que ameaçava fundir-se com insistência, de vinte e poucos metros quadrados, forrado de histórias aos quadradinhos, ele nem respondia, histórias aos quadradinhos, mais que uma vez perguntaram-lhe Nunca leu um livro a sério? Nem respondia, limitava-se a relancear uma expressão de desprezo e nada mais, falava pouco, com os anos, ainda menos, olhava para o amanhã, os jovens do hoje, com uma apreensão constante, era seu costume afirmar que não só perderam a capacidade do sonho como também lhes roubaram a alma, vivem curvados para um rectângulo sem ao menos um porquê, muitas das histórias, que por ali tem, relatam os esforços hercúleos de heróis que jamais se curvaram perante os mais variados perigos, à sua volta só vê uma plural derrota assumida, sem sequer um gesto de resistência riscar os céus da cidade, ao chegar a casa, antes mesmo da chave, o miar da sua única companhia, pois, desde que… Entra e vai logo encher uma malga de leite, um dia, iremos regressar a este solitário, que vive entre histórias aos quadradinhos, malgas de leite, e aprendeu, com a vida, a falar cada vez menos, voltemos à pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, estava naquele quarto há dois ou três dias quando se cruzou com ela na escada, não lhe passou despercebido o facto de coxear ligeiramente da perna direita, talvez cansaço pelo esforço da subida, percebeu-lhe um misto de uma genuína curiosidade, quase infantil, e um cansaço nocturno que lhe sombreava gestos e expressão, havia nela um desamparo tocante, como acontece com quase todos os habitantes nocturnos, compreendeu, quase por intuição, que ela ali pertencia, mas, ao mesmo tempo, pressentia-se-lhe uma desesperada ânsia de partir, ela olhou-o de relance, não disfarçou espanto por um recém-chegado, cruzar-se-iam mais vezes… Aquele desamparo tocante desequilibrou-lhe o sentir, mesmo nessa noite, antes de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo, aquela mulher, já devia avistar os quarenta, coxeava ligeiramente da perna direita, regressar-lhe-ia, por mais que uma vez, ao pensar, há muito que adormecia sem uma respiração a seu lado, sem uma inconsequente conversa de trivialidades, sem o calor de um gesto de afecto, no fundo, sem amor… Desaguou naquela pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, apenas com uma mochila e um saquito de plástico, ele que já dobrara os quarenta e o passado cingia-se a uma mochila e um saquito de plástico, mas por dentro um peso bem maior, daqueles que retardam o sono e obscurecem sonhos, daí, quem sabe, aquela sua premente necessidade de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo… Não demorou muito até que, certa noite, ela sentada àquela mesma mesa, diante dele, a desviar-lhe o copo, porém, a sua mão sôfrega em perseguição, mas ela revelava experiência de ilusionista em ocultá-lo, falaram de trivialidades, e como lhe soube bem, por momentos, ouvir outra voz que não a sua, há tanto que se cansara daqueles ecos dentro de si, não se perguntaram o que faziam, não deixa de ser curioso, ela sempre com um xaile pelos ombros, nalguns pontos desbotado e em ameaça de ruína, percebeu-lhe campo nos gestos e fala, ela orgulhava-se disso, não escondia o desejo de, um dia, regressar à terra, como se lá os problemas não encontrassem uma porta de entrada, pois, havia nela um desamparo tocante, haveria outras noites assim, partilhavam uma cerveja e um prego no pão, soube que ela tinha um filho num internato, andaria pelos dez anos, ela apreciou a sua persistência com a temática do filho, mas nunca enveredou pela identidade paterna, de novo, a intuição a ditar-lhe a direcção do verbo, talvez nem ela soubesse tal resposta, em verdade, ele já ouvira uns rumores acerca do seu ganha-pão, era mais discreta que aqueles vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, a idade também já era outra, e o fruto do ofício tinha um destino de dez anos, num colégio, que, assim que a via, lhe corria para os braços e lhe açucarava o sentir, até que partiu dela a sugestão, certa noite, após regressarem da cerveja e do prego no pão, a porta do quarto aberta, Não queres entrar? Ele ainda hesitou, talvez algum eco gritasse dentro de si, contudo, reequilibrou-se e respondeu Sabes, não ando boa companhia… É melhor ficar para outra altura. Até amanhã! Seguiu para o seu quarto, ficava no andar de cima, os degraus denunciavam o esforço da subida, ela ficou, por mais um pouco, à porta, hesitante entre a admiração pela decência do seu gesto e o despeito pela recusa, pois, o orgulho feminino, um dos primeiros inquilinos da terra, porém, a sua decisão brotou de uma outra fonte, que, no momento, ela não descortinou, os tais rumores acerca do seu ganha-pão, assim que fechou a porta do quarto, cuja única luz, nesse momento, provinha do anúncio néon exterior, PENSÃO, em letras verticais amarelas, com uma seta, em baixo, na direcção da entrada, sentou-se pesadamente na cama, olhou o chão, tacos de madeira cansados por inúmeras e apressadas visitas, o que restava de um tapete, nem a cor original se conseguia decifrar, por um lado, inclinou-se a aceitar o convite e entrar, afinal, havia nela um desamparo tocante, por outro, aqueles tortuosos rumores, se por ali houvesse alguma verdade, seria ele mais um número do velho e triste ofício? Por muitas voltas que desse, não conseguia aportar em nenhuma certeza…

 


 


 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Alfazema

 


Não se recorda do momento exacto, não foi há tanto assim, um café, com as colegas, na pausa para o almoço, e a dolorosa certeza, de que a mentira está ao leme do acontecer, a crescer-lhe, com ela eram quatro, à mesa, falavam de planos para as férias, de início, até por uma curiosidade inconfessada, optou por ouvi-las, a primeira nota dissonante que observou foi o entusiasmo suscitado pela temática, as três não indiciavam existência para além do trabalho, talvez a primeira vez, tanto quanto se lembra, de um assunto, fora do contexto de papéis por preencher, carimbar, reuniões, mais reuniões, estatísticas, impressões de documentos, ser tema de conversa, até se admirou, falavam de destinos sonhados com a confiança de quem pede uma bica, até se inclinou para ouvir melhor, queria silenciar a incredulidade que a dominava, quem, de início, se mostrou mais efusiva, foi uma, de origens rurais, embora batalhe, no quotidiano, de forma incessante, para ocultar essa génese de hortas, sacholas, carros-de-bois e piedosos terços rezados com devoção, um casamento de montra, era a última, dia-após-dia, a abandonar o escritório, não se lhe denotava um resquício de saudades do lar, apesar de uma filha em tão precoce idade escolar, até lhe relataram que, antes do lar, dia-após-dia, parava pelo ginásio, a flacidez das carnes não o indiciava, um apeadeiro onde se demorar de um indesejado regresso, ouviu também relatos do ar psicótico do marido dela, não se pode dar crédito a tudo o que se ouve, não é verdade? Se houver algo de verdade nestas narrativas, a sua obsessão, diária, em ser a última a sair, fica esclarecida, mas uma imperativa questão emerge: E a filha? Quem lhe acompanha os passos? Ela continuou a debitar lugares-comuns, num português rasteirinho, condizente com a figura, do sofrível penteado, que imobilizava fios-capilares aparentemente queimados, à indumentária, o flagrante desarranjo de uma fuga à ruralidade, há muito a sua paciência findara para esta figura, bem como para as outras duas, a sua presença àquela mesa, após a hora de almoço, deveu-se apenas a um factor: educação, nada mais; a frustração chegou ao ponto de alguém entregar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar? Para onde caminhamos? Em que momento se esqueceram simplesmente de ser? Quase não a reconheceu, ali sentada, àquela mesa, a debitar destinos sonhados, com uma irrepreensível segurança, qualquer incauto que a ouvisse teria muita dificuldade em acreditar no facto de, diariamente, consagrar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar! Algo muito errado ali se passava, começou a sentir distância face às demais, quem, de seguida, tomou a palavra, em verdade, há muito virou costas a contextos laborais, de certa forma, foi-lhe imposto, por sua vontade seria outra a consagrar o seu ócio ao lugar onde foi obrigada a estar, sempre que as outras duas saem do lugar, que agora lhe foi vedado, ela corre ao seu encontro, desde que dela se lembra, uma memória com mais de duas décadas, sabe-a viúva, o pudor não lhe possibilitou entrar pelos porquês, coisa rara por estes dias, o pudor, vistas daqui as coisas, nunca lhe vislumbrou tristeza pelo rosto, daqueles casos em que o contacto mais estimula a repulsa, uma qualquer estranha força, nitidamente invisível para os demais, aproximava estas três figuras, ela nem a distância já sentia, era uma estrangeira àquela mesa, destino escolhido, seguiram-se os hotéis, datas, percebeu que as três iam juntas, uma, na aparência, casada e com uma filha menor, a outra viúva e reformada, por fim, claro, faltava a divorciada, uma sujeita baixa, anafada, com um semblante que transparecia a total amargura daquela alma, há divórcios que nem precisam de justificação, os complexos manifestam-se de plurais formas, no caso da anafada dava-lhe para uma oratória de pacotilha, nem todos possuem a necessária clarividência para desconstruir o vazio daquelas mal formuladas frases, a saloia, por exemplo, anuía a cada sílaba cuspida pela gorda, não é muito salutar a sensação de nos sentirmos estrangeiros, no entanto, face àquele contexto, ela considerou esse sentir como uma manifestação de salubridade mental, volvidos quarenta e três minutos, compreendeu que se manteve em silêncio, curioso o facto de nem uma hipotética frase lhe atravessar o espírito para intervir, de si para si prometeu escudar-se em todas as desculpas possíveis para jamais se sentar, de novo, a uma mesa com estas sujeitas, tanto falavam de destinos de férias, as tais que consagravam o seu ócio ao lugar onde eram obrigadas a estar, mas não lhe perguntaram pelo seu, talvez pela realidade do seu casamento, a rapidez diária da sua partida de um lugar onde era obrigada a estar, havia outro aspecto a diferenciá-la e muito daquele contexto: ela simplesmente recusava-se a cair no esquecimento de ser.