in Nuvens passeantes pelas águas
FINITUDES
Livros do Escritor
terça-feira, 3 de fevereiro de 2026
sábado, 31 de janeiro de 2026
sexta-feira, 30 de janeiro de 2026
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026
Hoje o mundo cheira a terra molhada
Uma das coisas mais penosas, que ainda tenho
de cumprir, é ter de passar duas semanas, durante o Verão, em casa do meu
filho, se me pedissem para caracterizar essas duas semanas, suplício é a
primeira palavra que me surge, com uma nitidez irrepreensível, pois, como
dizia, duas semanas, durante o Verão, nem sei quando isto começou ao certo,
julgo que tenha sido depois de o meu marido… Uma punhalada que sinto, com
renovado vigor, cada vez que o seu rosto, nome, sentir, voz, gestos, sorrir,
ideias, se levantam na minha memória, porque, neste espaço do ontem, também uma
parte significativa de mim jaz, e se ergue, a seu lado, para de novo se diluir
sob a pesada evidência do ido… Mas, de novo, as tais duas semanas, que me fazem
deixar a minha casa, na minha querida terra que me apresentou o mundo, que tão
bem conhece o sal do meu rosto, corre pelo pão de cada dia, pela dor de ser, e
tão bem que lá estou, com as minhas coisas, os meus afazeres, a fiel companhia
dos meus vizinhos, salvo alguns que infelizmente já partiram ao encontro do
Criador, com o tempo, vamo-nos despindo de rostos, até que o espaço do viver se
torna na aridez de uma noite infinda, como compreendo os velhos largados em
lares, vivem num limbo, sem ontem, porque subtraído por incontáveis lamelas de calmantes
e analgésicos, sem amanhã, por já sentirem a fria carícia dos dedos da morte
pelo rosto, sem hoje, por uma visita que sempre se espera embora nunca chegue,
um acto de fé praticado com uma abnegação sem direito a réplica, porém, com um
resultado previamente sabido, como compreendo os velhos largados em lares,
regresso, contudo, a essas duas semanas, e o que me custa! O meu hoje cabe numa
mala, fossem duas ou quatro semanas, apesar de alguma dificuldade, sobretudo de
equilíbrio, consigo levá-la, é curioso, há uns anos, havia logo dois ou três
cavalheiros que se ofereciam para me levar a mala quando subia para o comboio,
agora, mais velha, nem um braço se estende na minha direcção, de facto, até a
educação querem que passe de moda… À minha espera, na estação da capital, como
sempre, filho, nora e neto. É o meu único filho, sempre fomos muito próximos
até que, certa tarde, pelo telefone, me disse, pela primeira vez, o nome dela,
logo aí, instantaneamente, sinto-o a recuar um passo, desde então, em relação a
mim, abraçou a distância, não sei porquê, na presença dela sinto-o nervoso,
parece sentir-se intimidado com quaisquer manifestações de ternura comigo, sua
mãe… Houve quem dissesse que eram coisas da minha cabeça, que estava a ficar
senil, ciúmes de mãe, por aí fora, mas não, não eram coisas da minha cabeça,
eram coisas do meu coração, e o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o,
poucos percebem isto, o ver, sempre o ver, mas as coisas revelam-se-nos de uma
outra forma, é quando nos sentamos a ouvi-las que as compreendemos, talvez
sejam os meus cabelos brancos a falar no meu lugar, é possível, porém, não me
demovo desta minha convicção, o meu filho não é o mesmo desde que aquela mulher
entrou na sua vida… E que dizer da artificialidade dos gestos dela? Tudo numa
plasticidade excessiva, digna de palco, às vezes, aquelas vozes ecoam por mim, que são coisas da minha cabeça, que estava a
ficar senil, ciúmes de mãe, por aí fora, pois, não sei, ou talvez saiba,
afinal, o coração não olha o mundo, o coração tacteia-o. Não posso afirmar que
sejam descuidados comigo, longe disso, antes de descer da carruagem, já a minha
mala pela mão do meu filho, ela segura-me num braço durante os degraus, o meu
neto cumprimenta-me de imediato, anda pelos oito anos, moram num prédio
tristonho nos arredores, só cimento e carros, tantas vezes insisti que me
cansei (Meu filho, isto não é vida para
ninguém! Por que não voltas para ao pé de nós?), ele ria-se, ela já não, a
expressão endurecia-se com um traço de desprezo, tudo se jogava naquele espaço
inarticulado do silêncio, em que tanto nos dizemos, em que tanto nos gritamos,
se aí me demorasse creio que logo ensurdeceria de vez, ocupam um sexto-andar,
capituladas as formalidades iniciais, quando se esquecem as máscaras pelos caminhos
poeirentos deste mundo, o miúdo revela-se um pequeno tirano, a sua frase mais
corrente (Eu quero… Eu queria…)
deixa-me com a estranha sensação de estrangeira em terras afinal tão
longínquas, quando levanto os olhos para ver a reacção do meu filho, só
encontro uma expressão envergonhada, como alguém que ciosamente procurou
ocultar um fracasso, não intervenho, quedo-me, da minha varanda, a contemplar a
imagem de minha mãe lá longe, num ido de há muito, e, no fundo, de há tão
pouco, a sua voz a soletrar-me, numa dicção irrepreensível de tão musical, A menina nunca se esqueça: se faz favor! Quanta
saudade, meu Deus! Percebo o aval materno às investidas do pequeno tirano, com
aquela expressão plástica, indiciadora de que vai tudo tão mal, mas tão mal,
que realmente só resta o plástico, regresso à minha varanda, são só duas
semanas, passa rápido, quando der por mim, estarei no comboio de regresso à
minha querida terra que me apresentou o mundo, pode ser que um dia, talvez não
muito longe, o meu filho tropece numa máscara caída e compreenda que tudo cabe
numa mala.
domingo, 18 de janeiro de 2026
sábado, 17 de janeiro de 2026
Quem te anoitece os dias?
Quando
menos esperamos, num acaso do destino, de manhã ou de tarde, até de noite, em
escassos segundos, a vida relembra-nos que nunca estivemos ao leme de nada, é
estranho, às vezes, sinto-lhe prazer nesse jogo de forças, como se nos
espelhasse a real insignificância de sermos, comigo aconteceu há umas semanas,
estava nas compras, nem costumo ir àquela superfície que apela a pernas e
paciência, nunca gostei da desumanidade desses espaços, contudo, tinha o miúdo
na natação, que ali fica perto, algum tempo ainda, um jantar para fazer, resolvi
entrar, como dizia, nunca gostei da desumanidade desses espaços, tudo numa
artificialidade excessiva, do brilho do chão ao sorriso plástico dos
empregados, percebi-a ao fundo de um corredor, estaria a cerca de cinquenta
metros, era a zona da decoração doméstica, de um lado, quadros, bibelôs,
molduras, velas, umas perfumadas, outras coloridas, caixas, caixinhas, do
outro, tolhas, turcos, lençóis, capas de colchão, tudo numa espiral de cores e
tamanhos, pela silhueta percebi o fundamento do que se dizia, de facto já se
notava, até ia bem adiantada, segurava uma moldura e consagrava-lhe uma ternura
atenciosa, percebia-se-lhe o destinatário, mantive-me onde estava, ela longe da
minha presença por ali, continuei a observá-la, pois, a silhueta, nisto, eu não
via o que olhava, mas sim o que pensava, e eu era números, e uma questão
inarticulada e sofrida nascia, numa dolorosa lentidão, pelo meu pensar…
Não
sei porquê, mas olhava para ela, ao fundo do corredor, estaria para aí a uns
cinquenta metros, e a imagem dele por ali, de uma outra forma, até para me
organizar, não conseguia dissociá-los, já me acusaram de tanta coisa, por causa
destas minhas ideias, várias amigas repetidamente (Mas tu és doida? Já viste aos anos que vocês são casados? Que
disparate! Vai-te curar, mulher! Continua com essas coisas, continua, que ainda
arranjas o teu divórcio… Olha que sinceramente, o teu marido é um santo… Só
ele, para aturar esses devaneios… Dá valor ao que tens, e deixa-te de
parvoíces…), de certa forma, percebia-lhes a boa-vontade, o que já não é
mau por estes dias, quando tudo se apaixonou pela divisão, talvez para assim se
engrandecerem, no entanto, não sei porquê, hoje, a contemplar aquela silhueta,
a cerca de cinquenta metros, a imagem dele por ali, não sei como explicar, bem
sei que estamos juntos há quase dez anos, sob as leis do céu e dos homens, bem
sei que o nosso filho, faltam três semanas para fazer oito anos, está na
natação, fica aqui perto, sei de tudo isto, mas… A primeira vez que falei
nestas coisas, em verdade, foi quando consegui, com palavras, dar corpo a uma
angústia que me povoava há demasiado, minha mãe não estranhou, embora o
disfarçasse, lembro-me tão bem, a luz de um Outono ainda Verão lá fora pintava
a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo que se prolonga na
despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no lugar de palavras, era
Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos, comecei por, a olhar um ponto
indeterminado, fingindo arrumar algo, lhe dizer Acho que ele ainda gosta da… Nunca lhe consegui verbalizar o nome,
não sei porquê, ou talvez saiba, ainda de pé, minha mãe fixou-me, percebeu o
esforço de cada sílaba, era uma mulher que apreciava o esforço de compor em
palavras o que, afinal, somos… Retorquiu, Desculpa,
mas estás a falar de quem ao certo? Percebi, de imediato, que trazia
distância às coisas, afinal, no horizonte tudo se torna relativo, A mãe sabe muito bem de quem estou a falar:
do meu marido e da sua primeira... Após esta frase, deixei o ponto
indeterminado e desci o meu olhar ao seu rosto, não havia, por ali, sinais de
cansaço que é comum encontrarmos naqueles que conhecem este mundo há tanto,
não, nada disso, havia apenas uma serena ironia, no fundo, talvez fosse a opção
encontrada para se levantar em cada amanhecer, eu continuo em busca da minha,
daí esta dificuldade em compor palavras para ilustrar angústias de há muito, Deixa-te de rodeios! Porquê isso agora? Onde
foste buscar tal coisa? A voz adensava-se-lhe, era nítido, as sílabas
tornavam-se mais pausadas, levantei o meu olhar do seu rosto em busca de um
porto de abrigo, longe de recriminações surdas e de críticas inarticuladas, Um dia destes, hás-de conseguir destruir o
teu casamento, ouve bem o que te digo! Ele há-de cansar-se de tanta estupidez!
Casou-se contigo há dez anos e, mesmo assim, continuas com essas parvoíces… O
que queres mais dele? Diz-me! Sabes, és daquelas pessoas que só adensa a
sombra… Sempre tiveste um lado invernoso bem latente em ti, desde criança. É
curioso, agora que falo nisso, lembro-me tão bem, no Verão tornavas-te
taciturna, em monólogos à sombra, enquanto todos em risos e correrias à volta
do lago, lembras-te? Pois… Cuidado, é tudo o que te posso dizer. Compreendi
o que me queria dizer, era o expectável, o tom condescendente e pedagógico
mantinha-se, por vezes, não sei se me reconfortava ou se me exasperava, por
isso, avancei Ela está grávida! E,
fazendo as contas, ajusta-se àquele período em que ele saiu de casa… Quando
discutimos por causa de… Pois, ela desconhecia essa zanga, arrependimento e
alívio passaram por mim após este desabafo, mas já era tarde, a frase já não me
pertencia, agora era do domínio daquela realidade (a luz de um Outono ainda
Verão lá fora pintava a tarde da cidade, concedia-lhe a tonalidade de um tempo
que se prolonga na despedida, como um diálogo que se alimenta de olhares no
lugar de palavras, era Sábado, ele saíra para o futebol com os amigos), ela
preferiu sentar-se, o tempo nunca se esquece de nós, embora façamos tudo para o
ignorar, ele é o nosso mais fiel companheiro de viagem e, a qualquer altura,
quando menos esperamos, relembra-nos a sua presença, repetiu, várias vezes, a
frase para si mesma Ela está grávida! Ela
está grávida! Ela está grávida! Levantou-se, tomou a direcção da porta da
rua, secundei-a, antes de sair, olhou-me, uma vez mais, como a criança que fui,
só mais tarde compreendi que os pais olham os filhos com todas as idades, só
mais tarde, tão tarde, e disse-me Minha
filha, quando ele chegar casa, abraça-o e repousa o teu rosto no seu peito. Se
estiveres bem atenta, todas as dúvidas serão esclarecidas. Sabes, isto de viver
não é assim tão complicado, mas só percebemos isso quando o olhar desce sobre a
terra.



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