Livros do Escritor

Livros do Escritor

sábado, 25 de julho de 2026

Os mortos não sonham

 


Sempre que aquela música na rádio, ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali, a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura, já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através do vidro, gentes, passeios, montras esconsas, creio, em verdade, que, assim que os acordes se repercutiam no interior silenciado do carro, ele desacelerava, como se quisesse eternizar o momento, ou talvez fosse apenas uma impressão, fruto de um sentir enciumado, pois, quiçá, num qualquer canto de mim, tacteava por palavras para traduzir esta raiva que, talvez por orgulho, repetidamente insistia em calar, conheci-o ainda com ela, embora, amiúde, ouvisse que as coisas, entre eles, já distantes de dias solares, lembro-me vagamente de os ver, de mão dada, a descer a rua, ele sempre muito direito, quase cerimonioso, com um ar de realizado, parecia olhar o mundo do cume de si, ela, não sei porquê, dava-me a impressão de algo enfadada, enquanto ajeitava o cabelo, olhava à sua volta, como se procurasse uma porta de saída daquele quadro onde a emolduraram, pelo que consta, foi ela a deixá-lo, queixava-se de falta de atenção, tempo, sentia-se sempre em segundo plano na sua vida, tudo por causa do trabalho, ouvi dizer que, certo dia, ela ter-lhe-á dito Tu és obcecado pelo teu maldito trabalho! Ele, coitado, de ombros encolhidos, parece que ainda esboçou uma possível defesa Mas como é que queres, amanhã, que eu sustente um lar? Com sonhos? Depois desta amarga troca de palavras, a relação deles conheceu a noite, e começaram a caminhar em direcções distintas, entretanto, amigos comuns apresentaram-nos, empatizei, de imediato, com ele, gostei da aparente tranquilidade que transparecia, conciliada com uma notória maturidade, trabalhava com números num qualquer departamento financeiro, havia nele qualquer coisa que, nitidamente, transmitia a sensação de que os nossos pais ficariam orgulhosos assim que o conhecessem, como se, em verdade, tal fosse levado em conta, contudo, afagava o sentir, de certa forma, parecia que cumpríamos um sonho plural, e fica sempre bem, além de que, pelas temáticas das conversas, aparentava ser bem mais velho que nós, bolsas, câmbios, divisas, inflacção, crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais, e sempre de gravata… Fascinava-me com as suas gravatas! Como se, de alguma forma, me anunciassem: Bem-vinda ao mundo dos adultos! Certa tarde, acho que os nossos amigos, propositadamente, deixaram-nos sozinhos no café, percebi, às primeiras confidências, e num flagrante contraste com a sua imagem exterior, calça de fazenda, a camisa imaculadamente engomada, e, pois, a gravata, sempre de gravata, quão interiormente estava desarrumado, nem vislumbrava como preencher o vazio que ela lhe deixara, ainda se tratasse de crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, ou mercados internacionais, mas não, apenas o domínio do sentir humano, a certa altura, o seu olhar perdia-se com a entrada do café, como se numa súplica inarticulada por um regresso, porém, manteve a postura e procurou maquilhar súplicas inaudíveis, lentamente fomos mitigando solidões, acho que ele se enternecia com a minha espontaneidade, com a sonoridade do meu riso, tão distante do formalismo opaco da sua gravata, até que, certa tarde, talvez fosse Domingo, a gravata suscitou, lá por casa, os mais rasgados sorrisos no rosto dos meus pais, enquanto o cumprimentavam, olharam-me com um indisfarçável orgulho, só faltava oficializar a união, já que, pelos vistos, o Sim deles estava proclamado, ainda demorou algumas semanas até ao namoro, houve uma altura, confesso, em que a visão da omnipresente gravata me assustou um pouco, olhei, de repente, o futuro e só vislumbrei um contínuo cinzentismo, logo eu que sempre gostei de cor e risos, contudo, há sempre alguém, à nossa volta, incomodado com o som da alegria, no meu caso, uma conhecida, não, nunca a denominei de amiga, e não pensem que é despeito da minha parte, simplesmente nunca a considerei tal, por acaso, estava certa, Sabes que os vi a conversar? Ouvi dizer que ele ainda não a esqueceu… Atenção: não penses que te quero magoar! Apenas que estejas atenta… Mas, pelo que ouvi dizer, ela é que não quis voltar para ele. Há um determinado tipo de gente, não obstante a sua baixeza, que possui uma notória clarividência do mapa da dor, como se uma acuidade onde mais nos magoa, aquilo feriu-me tanto que permaneci impassível e anestesiada, acho que foi o melhor véu para as suas intenções, neste ponto, entreguei-me ao tempo, sem saber bem o porquê, muitas vezes é o mais sensato a fazer nesta coisa da vida, afinal, ninguém arruma melhor o que vive debaixo do céu, só quando aquela música na rádio, ele a assumir um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, ou talvez tudo fosse fruto de um ciúme desordenado, todavia, uma questão sombreava-me os passos, apesar dos mais de dez anos de casamento, dos dois filhos, da omnipresente gravata, da seriedade do seu semblante e gestos, das conversas próprias do mundo dos adultos, onde, felizmente, eu quedava-me somente pela soleira da porta (bolsas, câmbios, divisas, inflacção, crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais…), e se ela não lhe tivesse virado costas? Nesses momentos, sentia-me um resto, uma segunda escolha, actriz secundária de um guião oculto, pois, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, por vezes, na intimidade, a canção a ecoava em mim, abria os olhos para ver se, também nesses momentos, ele com um ar circunspecto, porém, mantinha-se de olhos fechados, talvez a canção só em mim, quem sabe se fruto de um sentir enciumado, houve vezes em que finquei os dedos nos lençóis, como se procurasse ancorar-me ao aqui, na esperança de silenciar uma canção que nunca me pertenceu.

terça-feira, 21 de julho de 2026

Aparência e essência moram em ruas distintas


 

Olhavam-se, desde o primeiro momento, com um certo azedume, só a imperativa educação conseguia aligeirar, vizinhas no mesmo andar, a quase inevitabilidade diária de partilha do único elevador, andariam pela mesma idade, aquele momento na existência onde se percebe que o ocaso está próximo e o amanhecer uma realidade longínqua, uma arranjava-se de forma prática e descontraída, detestava formalidades, a sua profissão não exigia etiqueta, assim sendo, ela adoptou um estilo desportivo, confortável, nunca foi adepta de unhas-pintadas, hoje falar-se de unhas é uma questão virada para o pretérito, o que mais se vê, no quotidiano, são autênticas garras-afiladas saídas dos dedos femininos, que nem sabres prontos a degolar incautos, nunca soube o que é um salto-alto nos seus pés, ainda menos maquilhagem, defendia que a beleza está na espontaneidade e no carácter natural das coisas, o marido seguia-lhe os passos nesta forma de ser, convém para o equilíbrio do lar, pela precoce idade, o filho de ambos aquém de tais escolhas, a outra era, como se depreende pelo azedume aligeirado pela imperativa educação, o oposto, arranjava-se com uma formalidade irrepreensível, de fato ou casaco e saia-comprida, saltos-altos omnipresentes, maquilhagem reflectida pela luz baça do elevador, unhas num vermelho-vivo ou numa côr mais neutra, a condizer com a dos lábios, tudo orquestrado ao pormenor, o penteado indiciava horas e horas de cabeleireiro, o marido também saía diariamente de fato e gravata, embora tão mal lhe assentasse, os ombritos descarnados e estreitos deixavam cair a parte superior do casaco para meio dos bracitos, repetia uma ou duas vezes a saudação do momento (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), a cabeça em ininterruptos movimentos verticais, um autêntico manguinhas-de-alpacas, daquelas figuras que, avistadas de uma certa distância, já antevemos que nos tentarão vender algo, um utilitário em terceira ou quarta mão ou uma cave, toda virada a Norte, quase sem janelas, com um quarto, “E não comente esta oportunidade com ninguém! Ainda sou despedido por lhe fazer este preço! Nem imagina a procura… O sonho de muita gente! Considere-se um privilegiado por ter esta possibilidade!”, a filha, teria a idade do miúdo da frente, talvez um ou dois anos mais velha, um espelho da mãe, desapossada de qualquer espontaneidade da meninice, vestidinhos pindéricos, colares, pulseiras e unhas-pintadas, muito direita, mala-escolar pela mão, jamais mochila, desdém no olhar quando via os da sua idade atrás de uma bola, suados e com um joelho magoado, ao final da tarde, no regresso, quando se reencontravam no elevador, a cena repetia-se, apenas o “Bom-dia…” trocado pelo “Boa-tarde”, em verdade, este azedume delas era bem mais profundo, cada uma espelhava à outra, sem se aperceber, a sua inaptidão, a que se arranjava de forma prática e descontraída gostaria, nem que fosse por uma vez, até num fim-de-semana, de sair vestida com tudo orquestrado ao pormenor, deu por si, em certa ocasião, a vasculhar a sua roupa para ver o que tinha de mais formal, apenas um vestido deveras anacrónico dos tempos de solteira, paciência para cabeleireiro nunca lhe abundou, só o barulho dos secadores e a frivolidade das conversas eram suficientes para a repulsa ao leme das suas emoções, sempre achou, de extrema elegância, uma mulher de saltos-altos, nunca o verbalizou, mas era-lhe uma ideia consolidada desde muito cedo, a da formalidade irrepreensível desejava, há tanto, libertar-se deste espartilho que já lhe asfixiava a alma, a imperativa escolha da indumentária na véspera, o tempo roubado ao sono para maquilhagem e demais adereços, os joelhos e coluna em gritos de socorro pelas demasiadas horas de saltos-altos, o ignorado conceito de espontaneidade, a secura da pele do rosto pelo excesso de maquilhagem, os cabelos quebradiços por tanto manuseio e produtos no cabeleireiro, a consciência de ser uma réplica num contexto, sem quaisquer vestígios da sua individualidade, ela, ao espelho, a questionar-se: “Em que momento me perdi de mim?” E aquela irritante vizinha, de costas voltadas para imperativos de véspera, que tanta inveja lhe suscitava, teria mais ou menos a sua idade, apesar de, perante o seu olhar, lhe parecer mais nova, despida do estatismo da formalidade, o marido também se lhe afigurava mais novo que o seu, limitavam-se a cumprir com os mínimos de educação, não debitavam cumprimentos sonoros e ensaiados (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), como a irritava esse lado exageradamente polido, nunca lhe disse, começava a compreender o facto de certas questões deverem permanecer no verbo do pensar, e tinham um filho, como ela desejou um menino, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval cor-de-rosa… Tem uma linda menina dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, não perspectiva, neste momento, recomeçar os passos da maternidade, a cama apenas um espaço onde repousar as dores de uma existência indesejada, olha-o ali, a seu lado, nem resquícios de uma chama ida, projecta uma realidade distinta na casa em frente, ainda assomos da vertigem da paixão, daí o estilo descontraído, não havia tempo para etiquetas vespertinas, talvez não se enganasse, há muito a vizinha, do estilo descontraído, a falar da filha do casal da frente, como ela desejou uma menina, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval azulinho… Tem um lindo rapagão dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, ele renitente, nesta fase, em recomeçar os passos da paternidade, teriam inclusive de mudar de casa, ali nem espaço para um animal de estimação, no dia seguinte, se, por acaso, se encontrassem no único elevador, emergia a imperativa educação para maquilhar um azedume com os tons da madrugada.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Rio Pranto

 


Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de os saber vivos, é curioso, nunca os viu deterem-se perto de garrotes e seringas vazias, sabiam há muito quais as entradas para a morte, na porta ao lado da pensãozita havia um barbeiro, só abria de tarde, segurava mais tempo o jornal que a tesoura, como tema recorrente a guerra colonial, a mágoa imensa por ter sido obrigado a entregar armas, quando afinal a guerra vencida, nunca se conformou com a fictícia derrota e o antecipado regresso à metrópole, não havia dia em que não se ouvisse, naqueles vinte e poucos metros quadrados, Um dia hei-de lá voltar! Assim que pisei aquela terra, sabia onde pertencia. Sabe, foi como um clique em mim! E a distância das coisas?! Ensina-nos como somos pequenos… Não é como aqui! Acredite, não tem nada a ver! Sabe, lá tudo é em grande! Para onde quer que se olhe, sempre a lonjura. Aqui nem horizonte temos! Vivemos numa estreita faixa entre o mar e os espanhóis! E as cores? O que dizer das cores de lá? Nunca tive alma de poeta, mas se me ajeitasse com palavras, teria feito uns versos àqueles entardeceres… Palavra de honra! E o cheiro daquela terra? Então quando o cacimbo pousa, parece um feitiço… Não adianta! Podia estar aqui o dia todo a falar-lhe de lá, você nunca iria entender. Sabe, só quem lá esteve é que percebe aquilo! É como uma febre que se nos colou à pele! Era comum, à medida que avançava na sua prelecção, elevar a voz, talvez pelo entusiasmo, pela saudade, pela dor de não ter regressado, talvez por tudo, o certo é que África, todas as tardes, ecoava por aqueles passeios. Umas portas mais acima, outro quadrado com vinte e poucos metros quadrados, mas ainda mais obscuro, lá dentro um velhote, que arrastava uma perna, debruçado sobre uma mesa, lia uma revista com as cores da meninice, se atentássemos bem, as prateleiras à volta, em estantes que iam praticamente até ao tecto, estavam pejadas de livros e revistas de heróis e suas aventuras, quase todos ali chegados de outros lares, sinal de que os adeuses à infância se sucediam, por vezes, chegavam-lhe com sacos, depositavam-nos no balcão com gestos nervosos de uma pressa impronunciada, ele retirava um a um, com parcimónia, parecia prestar tributo a cada obra, folheava, sopesava, analisava o estado geral, sempre que uma folha rasgada ou risco, mandava para trás, era um princípio, tinha ali livros da altura em que ainda não sabia ler, dizia que aquele espaço era mais um museu que um negócio, volta e meia, retirava determinada revista, nem precisava de a procurar muito naquele universo de papel, e orgulhosamente proclamava Não a vendo por dinheiro nenhum! Trata-se do número um de uma colecção… E lá esclarecia o porquê, na sua voz rouca e arrastada, de uma manuseada e amarelecida revista, quase decrépita aos nossos olhos, ter um valor tão substancial, havia dias em que não entrava ninguém, mas se atentássemos nos seus gestos e rosto, percebíamos, de imediato, que ele nem dava conta, tal a abnegação com que arrumava, limpava, catalogava, ou simplesmente relia, talvez a vista já o traísse, e pensasse ler o que apenas relembrava, às vezes acontece, olhamos para trás a fim de nos sabermos ainda, havia quem dissesse que tinha o maior espólio da nona arte da capital, talvez do país, mas havia sempre um tom indulgente quando se referiam àquele espaço, que tinha um peculiar cheiro a papel velho, tristemente iluminado, apenas uma lâmpada no tecto que ameaçava fundir-se com insistência, de vinte e poucos metros quadrados, forrado de histórias aos quadradinhos, ele nem respondia, histórias aos quadradinhos, mais que uma vez perguntaram-lhe Nunca leu um livro a sério? Nem respondia, limitava-se a relancear uma expressão de desprezo e nada mais, falava pouco, com os anos, ainda menos, olhava para o amanhã, os jovens do hoje, com uma apreensão constante, era seu costume afirmar que não só perderam a capacidade do sonho como também lhes roubaram a alma, vivem curvados para um rectângulo sem ao menos um porquê, muitas das histórias, que por ali tem, relatam os esforços hercúleos de heróis que jamais se curvaram perante os mais variados perigos, à sua volta só vê uma plural derrota assumida, sem sequer um gesto de resistência riscar os céus da cidade, ao chegar a casa, antes mesmo da chave, o miar da sua única companhia, pois, desde que… Entra e vai logo encher uma malga de leite, um dia, iremos regressar a este solitário, que vive entre histórias aos quadradinhos, malgas de leite, e aprendeu, com a vida, a falar cada vez menos, voltemos à pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, estava naquele quarto há dois ou três dias quando se cruzou com ela na escada, não lhe passou despercebido o facto de coxear ligeiramente da perna direita, talvez cansaço pelo esforço da subida, percebeu-lhe um misto de uma genuína curiosidade, quase infantil, e um cansaço nocturno que lhe sombreava gestos e expressão, havia nela um desamparo tocante, como acontece com quase todos os habitantes nocturnos, compreendeu, quase por intuição, que ela ali pertencia, mas, ao mesmo tempo, pressentia-se-lhe uma desesperada ânsia de partir, ela olhou-o de relance, não disfarçou espanto por um recém-chegado, cruzar-se-iam mais vezes… Aquele desamparo tocante desequilibrou-lhe o sentir, mesmo nessa noite, antes de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo, aquela mulher, já devia avistar os quarenta, coxeava ligeiramente da perna direita, regressar-lhe-ia, por mais que uma vez, ao pensar, há muito que adormecia sem uma respiração a seu lado, sem uma inconsequente conversa de trivialidades, sem o calor de um gesto de afecto, no fundo, sem amor… Desaguou naquela pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, apenas com uma mochila e um saquito de plástico, ele que já dobrara os quarenta e o passado cingia-se a uma mochila e um saquito de plástico, mas por dentro um peso bem maior, daqueles que retardam o sono e obscurecem sonhos, daí, quem sabe, aquela sua premente necessidade de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo… Não demorou muito até que, certa noite, ela sentada àquela mesma mesa, diante dele, a desviar-lhe o copo, porém, a sua mão sôfrega em perseguição, mas ela revelava experiência de ilusionista em ocultá-lo, falaram de trivialidades, e como lhe soube bem, por momentos, ouvir outra voz que não a sua, há tanto que se cansara daqueles ecos dentro de si, não se perguntaram o que faziam, não deixa de ser curioso, ela sempre com um xaile pelos ombros, nalguns pontos desbotado e em ameaça de ruína, percebeu-lhe campo nos gestos e fala, ela orgulhava-se disso, não escondia o desejo de, um dia, regressar à terra, como se lá os problemas não encontrassem uma porta de entrada, pois, havia nela um desamparo tocante, haveria outras noites assim, partilhavam uma cerveja e um prego no pão, soube que ela tinha um filho num internato, andaria pelos dez anos, ela apreciou a sua persistência com a temática do filho, mas nunca enveredou pela identidade paterna, de novo, a intuição a ditar-lhe a direcção do verbo, talvez nem ela soubesse tal resposta, em verdade, ele já ouvira uns rumores acerca do seu ganha-pão, era mais discreta que aqueles vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, a idade também já era outra, e o fruto do ofício tinha um destino de dez anos, num colégio, que, assim que a via, lhe corria para os braços e lhe açucarava o sentir, até que partiu dela a sugestão, certa noite, após regressarem da cerveja e do prego no pão, a porta do quarto aberta, Não queres entrar? Ele ainda hesitou, talvez algum eco gritasse dentro de si, contudo, reequilibrou-se e respondeu Sabes, não ando boa companhia… É melhor ficar para outra altura. Até amanhã! Seguiu para o seu quarto, ficava no andar de cima, os degraus denunciavam o esforço da subida, ela ficou, por mais um pouco, à porta, hesitante entre a admiração pela decência do seu gesto e o despeito pela recusa, pois, o orgulho feminino, um dos primeiros inquilinos da terra, porém, a sua decisão brotou de uma outra fonte, que, no momento, ela não descortinou, os tais rumores acerca do seu ganha-pão, assim que fechou a porta do quarto, cuja única luz, nesse momento, provinha do anúncio néon exterior, PENSÃO, em letras verticais amarelas, com uma seta, em baixo, na direcção da entrada, sentou-se pesadamente na cama, olhou o chão, tacos de madeira cansados por inúmeras e apressadas visitas, o que restava de um tapete, nem a cor original se conseguia decifrar, por um lado, inclinou-se a aceitar o convite e entrar, afinal, havia nela um desamparo tocante, por outro, aqueles tortuosos rumores, se por ali houvesse alguma verdade, seria ele mais um número do velho e triste ofício? Por muitas voltas que desse, não conseguia aportar em nenhuma certeza…

 


 


 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Alfazema

 


Não se recorda do momento exacto, não foi há tanto assim, um café, com as colegas, na pausa para o almoço, e a dolorosa certeza, de que a mentira está ao leme do acontecer, a crescer-lhe, com ela eram quatro, à mesa, falavam de planos para as férias, de início, até por uma curiosidade inconfessada, optou por ouvi-las, a primeira nota dissonante que observou foi o entusiasmo suscitado pela temática, as três não indiciavam existência para além do trabalho, talvez a primeira vez, tanto quanto se lembra, de um assunto, fora do contexto de papéis por preencher, carimbar, reuniões, mais reuniões, estatísticas, impressões de documentos, ser tema de conversa, até se admirou, falavam de destinos sonhados com a confiança de quem pede uma bica, até se inclinou para ouvir melhor, queria silenciar a incredulidade que a dominava, quem, de início, se mostrou mais efusiva, foi uma, de origens rurais, embora batalhe, no quotidiano, de forma incessante, para ocultar essa génese de hortas, sacholas, carros-de-bois e piedosos terços rezados com devoção, um casamento de montra, era a última, dia-após-dia, a abandonar o escritório, não se lhe denotava um resquício de saudades do lar, apesar de uma filha em tão precoce idade escolar, até lhe relataram que, antes do lar, dia-após-dia, parava pelo ginásio, a flacidez das carnes não o indiciava, um apeadeiro onde se demorar de um indesejado regresso, ouviu também relatos do ar psicótico do marido dela, não se pode dar crédito a tudo o que se ouve, não é verdade? Se houver algo de verdade nestas narrativas, a sua obsessão, diária, em ser a última a sair, fica esclarecida, mas uma imperativa questão emerge: E a filha? Quem lhe acompanha os passos? Ela continuou a debitar lugares-comuns, num português rasteirinho, condizente com a figura, do sofrível penteado, que imobilizava fios-capilares aparentemente queimados, à indumentária, o flagrante desarranjo de uma fuga à ruralidade, há muito a sua paciência findara para esta figura, bem como para as outras duas, a sua presença àquela mesa, após a hora de almoço, deveu-se apenas a um factor: educação, nada mais; a frustração chegou ao ponto de alguém entregar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar? Para onde caminhamos? Em que momento se esqueceram simplesmente de ser? Quase não a reconheceu, ali sentada, àquela mesa, a debitar destinos sonhados, com uma irrepreensível segurança, qualquer incauto que a ouvisse teria muita dificuldade em acreditar no facto de, diariamente, consagrar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar! Algo muito errado ali se passava, começou a sentir distância face às demais, quem, de seguida, tomou a palavra, em verdade, há muito virou costas a contextos laborais, de certa forma, foi-lhe imposto, por sua vontade seria outra a consagrar o seu ócio ao lugar onde foi obrigada a estar, sempre que as outras duas saem do lugar, que agora lhe foi vedado, ela corre ao seu encontro, desde que dela se lembra, uma memória com mais de duas décadas, sabe-a viúva, o pudor não lhe possibilitou entrar pelos porquês, coisa rara por estes dias, o pudor, vistas daqui as coisas, nunca lhe vislumbrou tristeza pelo rosto, daqueles casos em que o contacto mais estimula a repulsa, uma qualquer estranha força, nitidamente invisível para os demais, aproximava estas três figuras, ela nem a distância já sentia, era uma estrangeira àquela mesa, destino escolhido, seguiram-se os hotéis, datas, percebeu que as três iam juntas, uma, na aparência, casada e com uma filha menor, a outra viúva e reformada, por fim, claro, faltava a divorciada, uma sujeita baixa, anafada, com um semblante que transparecia a total amargura daquela alma, há divórcios que nem precisam de justificação, os complexos manifestam-se de plurais formas, no caso da anafada dava-lhe para uma oratória de pacotilha, nem todos possuem a necessária clarividência para desconstruir o vazio daquelas mal formuladas frases, a saloia, por exemplo, anuía a cada sílaba cuspida pela gorda, não é muito salutar a sensação de nos sentirmos estrangeiros, no entanto, face àquele contexto, ela considerou esse sentir como uma manifestação de salubridade mental, volvidos quarenta e três minutos, compreendeu que se manteve em silêncio, curioso o facto de nem uma hipotética frase lhe atravessar o espírito para intervir, de si para si prometeu escudar-se em todas as desculpas possíveis para jamais se sentar, de novo, a uma mesa com estas sujeitas, tanto falavam de destinos de férias, as tais que consagravam o seu ócio ao lugar onde eram obrigadas a estar, mas não lhe perguntaram pelo seu, talvez pela realidade do seu casamento, a rapidez diária da sua partida de um lugar onde era obrigada a estar, havia outro aspecto a diferenciá-la e muito daquele contexto: ela simplesmente recusava-se a cair no esquecimento de ser.