FINITUDES
Livros do Escritor
sábado, 14 de fevereiro de 2026
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
terça-feira, 10 de fevereiro de 2026
O homem do sorriso triste
Todos os anos é a mesma coisa, após as férias,
aí vem ela, naquele seu jeito acelerado, com os meus dois netos, o meu filho
sempre cinco a seis passos atrás, entra e senta-se sem o mínimo de um
providencial com licença, nunca me
habituei a isto, nem quero tal coisa, houve quem já me dissesse Não ligue! Ignore, que é o melhor que faz…
Esta geração é assim! Que se há-de fazer? A isto, eu respondo Educação desconhece idades ou gerações.
Simplesmente, ou se tem ou não, repito, nunca me habituei a isto, nem quero
tal coisa, mas, como dizia, ela já sentada, os miúdos ainda no corredor, o meu
filho, coitado, a fechar a porta de casa, a relatar-me as férias, para melhor
ilustrar o vazio das suas palavras, socorre-se do rectângulo do hoje, a forma
do indicador aterrar na superfície envidraçada confere-lhe, confesso, uma
ilusória noção de elegância, que, em verdade, nem ela nem os seu desengonçados
gestos possuem, contudo, na aparência tudo é sempre uma outra coisa, e ela,
coitadita, de dedo em riste, puxa imagem daqui, empurra outra para acolá, como
se eu, alguma vez, com os anos que tenho desta desgraçada estadia neste
estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é,
esperamos bem que sim, ficasse pela superfície das coisas, o irritante e
incansável indicador fazia-se acompanhar da sua inqualificável voz Já viu? Esta tirámos de propósito para si.
Esta praia fica mesmo em frente ao hotel. É fantástica, não acha? E os seus
netos ficaram tão bem… Entretanto, os miúdos entram, a voz dela cessa, por
pouco, bem sei, cumprimentam-me e logo se vão sentar, denoto que nem o esforço
de abrir uma porta de diálogo, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal
coisa, por fim, o meu filho, ainda por cima único, tanto que eu e o pai
sonhámos para ele, cumprimenta-me com pudor sempre que na presença dela, há
tanto que li estas entrelinhas, ainda namoravam, e ela já lhe atirava à cara És mesmo um menino da mamã! Isto parece
que se lhe interiorizou, desde então, este pudor de gestos e palavras, como se
um espartilho, olho-o e percebo-lhe uma sombra pousada no rosto, não,
acreditem, não é coisa de mãe, muito menos um delírio de velha, há muito que o
meu filho, ainda por cima único, vive com uma sombra pousada no rosto, nem de
propósito, quase de seguida, a boçal atira Já
viu? O seu filho é que fica sempre cá com uma cara… Sinceramente! Vira-se
para ele e acrescenta Não és nada
fotogénico! Aqui quase lhe respondia, mas, num último instante, consegui
segurar a frase que me deixava (Se não é
feliz, não pode ter boa cara!), confesso desconhecer o porquê de me ter
calado, talvez essa fala pertencesse a uma outra voz, sim, talvez seja por aí,
afinal, não foi para mim que ela se virou (Não
és nada fotogénico!) … Teria de ser ele a afastar a sombra pousada no seu
rosto, há coisas que já são uma nossa pretérita pertença, como se estivessem
largadas no mundo à espera da nossa passagem, este momento aguardou por ele,
sempre ali esteve, de todas as formas possíveis, o eco ainda se arrastou pelos
ares da tarde (Não és nada fotogénico!),
ele impassível, parecia habitar outro contexto, a sombra pousada no seu rosto
vencia-o sempre, reparei que, nos momentos seguintes, evitou o meu olhar, nada
de novo, quantas vezes, desde que ele abriu a porta da nossa casa à boçal, isto
se repetiu? Tanto que eu e o pai sonhámos para ele! Ainda me lembro, pelos seus
últimos dias, o meu querido marido, em esforço, a articular Mulher: vê se metes algum juízo na cabeça do
nosso Fernandinho! Aquela mulher nem para um bode serve! E, pouco dias
depois, partiu… Com este desgosto, é certo, mas que fazer? Abrimos a porta do
mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar, para
mim, a tarde já vai alta, relembro a janta que tenho de fazer, ela percebe o
toque, que eu sei, embora se faça desentendida, mudo de estratégia E agora que as férias acabaram, vai procurar
trabalho? Ou acha que não vale a pena? Já conheço a sequência desta cena,
os movimentos aceleram-se-lhe, enquanto procura desconversar, as feições
endurecem, empurra os miúdos para a porta, por fim, pelo rosto do meu filho,
leio-lhe uma censura inarticulada pela minha última frase: nem sombras, nem
ecos, nem fotogenia: apenas uma reprovação silenciada pelo gesto feito frase.
Entretanto, a boçal já a chamar o elevador, os miúdos nem um adeus, pois, nunca me habituei a isto,
nem quero tal coisa, por mim, já vão tarde, afinal, as pontes só ligam margens
possíveis, e eu estou cansada, tão cansada, desta desgraçada estadia neste
estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é,
esperamos bem que sim, que agradeço a paz restituída, vou à janela, vejo-os lá
em baixo, a boçal à frente, depois os miúdos, ele para o fim, cinco a seis
passos atrás, naquele seu modo de andar desarticulado, sorrio para mim à vista
disso, quase o revejo de sapatos ortopédicos, mochila às costas, a caminho da
primária, parece que foi há bocado e, afinal, aconteceu numa outra vida,
suspiro longamente enquanto um pensamento regressa-me abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que
sombras querem repousar…
sábado, 7 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026
Adeus, Shane
Sempre
que me falam de cinema, é a cena final, deste maravilhoso filme, que me povoa,
não sei porquê, ou talvez saiba, afinal, não há questões sem resposta, teria os
meus doze anos quando, lá por casa, meu pai Tens
de ver este filme! Ouvi-o e, de imediato, assenti, regra geral, sempre que
meu pai (Tens de ver este filme!),
acertava, neste caso, foi mais além… Não, não vou relatar pormenorizadamente a
história, enaltecer as interpretações, realçar o tom crepuscular de todo o
filme, bem como o sublimado triângulo amoroso, a magistral banda sonora, nada
disso, vou simplesmente centrar-me no efeito que, após ouvir o lamento daquele
miúdo (Adeus, Shane), teria mais ou
menos a minha idade, aquele serão provocou em mim. De facto, há coisas, nesta
vida, que nos espelham a geografia da alma, uma pessoa, um livro, um filme, uma
música, até uma paisagem, nessa noite, oscilei entre o miúdo que era e o herói
que partia ao crepúsculo, após cumprir a sua promessa (De não haver mais armas no vale…), sim, Shane era um homem de
palavra, desconhecia o nim, hoje, já
adulto, quase tudo é gente do nim, em
todos os sectores desta apalermada sociedade, do profissional ao lúdico, é
curioso, se alguém chamar o outro de palerma, poder-se-á considerar ofensivo,
mas poucos se importam de fazer figuras aparvalhadas, desde assistir, por vezes
boquiabertos, a autênticos dejectos televisivos, a aderir entusiasmadamente a
todas as modas subterraneamente chegadas, como “caçar” bonequinhos imaginários,
entre outros feitos dignos de causar a repulsa dos nossos avós, creio que,
neste cenário, Shane jamais se apearia, continuaria a sua marcha rumo a um
lugar digno de si, por estes lados, já ninguém olha o outro nos olhos, ainda
menos os inimigos, que sempre existem, estão identificados, e este é o melhor
dos mundos para eles se mobilizarem, tudo permanece numa anestesia de delírio e
fúteis risos, estou a escrever isto com a profunda convicção de que nem meia
dúzia conhece Shane, George Stevens
ou Alan Ladd, pouco me importa, sou um afortunado, é tudo o que posso dizer,
porque, num serão de há muito, alguém me disse Tens de ver este filme! Só havia dois canais, pôr para trás ou para
a frente era ficção científica, daí que a nossa atenção sorvesse cada pormenor
no seu irrepetível carácter, talvez por isso fôssemos mais atentos, talvez por
isso não abraçássemos tanto a preguiça, findo o filme, nessa noite dos meus
doze anos, permaneci sentado a arrumar sentimentos, e como precisava de arrumar
sentimentos, gosto de filmes assim, que me desarrumem por dentro, são cada vez
mais raros, hoje ou despertam bocejos ou atentam a inteligência na sua
desmesurada estupidez, enfim, lá aparece um ou outro que vale a pena, ou
talvez, no meu caso, seja uma outra coisa, a ausência de uma voz que me diga Tens de ver este filme! Como compreendi
aquele miúdo que gritava para a noite Volta,
Shane! Quantas vezes, numa vida, queríamos que as coisas tivessem a cor do
nosso sentir? Ali, naquele espaço de uma despedida, a vida foi-me apresentada,
nada foi como devia, talvez por compreender, num canto cá de mim, que tudo não
podia ser de outra forma, a última fala de Shane é um quase sumido, mas num tom
sem réplica, Adeus, pequeno Joe, após
perceber que cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe
pode fugir, assim sendo, tinha de partir, nos dias seguintes, claro que rodei o
meu revólver de fulminantes à Shane, creio que, agora mesmo, se o
reencontrasse, voltaria a fazê-lo, uma das grandes lições deste magistral filme
é exactamente essa: cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não
lhe pode fugir. No que me concerne, a cada dia, vou descobrindo um pouco mais
dessa minha fôrma, por isso, há uns tempos, escrevi: Para onde vou, levo-me comigo… Daí que não consiga articular nins… Daí que também não os compreenda…
Se algum dia me sentir só com as minhas convicções, sempre posso ligar a
televisão, agarrar num certo dvd, ouvir o eco de uma voz (Tens de ver este filme!), e rever Shane, e quando, no final, assistir à sua partida, rumo às
montanhas anoitecidas, resta-me acompanhar o miúdo no seu grito final: Adeus, Shane!



