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Pelas costas tudo se diz, tudo se faz…

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  Compreendi, há uns tempos, por estes lados, haver uma geração a viver às custas dos dividendos da anterior – propriedades, imóveis, jóias, quantias herdadas, enfim, tudo o que possua cifra –, por norma, apresentam uma postura arrogante (autênticas figurinhas que gostariam de passar por figurões, mas uma figurinha jamais chegará a figurão, aqui reside o paradoxo), sapientes de algo que os próprios desconhecem na sua infinita ignorância, como se, pela circunstância de nada terem construído, de palpável, com o seu engenho e esforço, por outras palavras, o conceito de trabalho ser-lhes deveras longínquo, uma realidade insondável, horários para cumprir, transportes-públicos, as omnipresentes contas mensais, a verdade que o comum cidadão conhece até ao fel da sua essência, pelo simples facto de não ter o privilégio de um porto-de-abrigo providenciado pelos seus antecedentes, pudessem opinar sobre tudo que julgam ver, assim sendo, sem horário para cumprir, os dias avizinham-se longos e ...

Rua das Açucenas

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  Não regressava, há cerca de seis meses, ali, à rua das Açucenas, mais precisamente ao rés-do-chão, daquele segundo prédio, do lado direito, caminhava a olhar a calçada, pelo seu pensar, a conversa de há pouco, ele tão insistente “Não precisas de ir sozinha, eu arranjo um tempinho e acompanho-te… Bem sei o que a tua avó significava para ti… Não te fará bem regressares só àquela casa… Tantas recordações te esperam… A memória ultrapassa-nos sempre…,” na altura, não ligou muito, era um desafio que teria de enfrentar, tinha isso presente e determinou-se a tal, no entanto, esta frase não a abandonou “ A memória ultrapassa-nos sempre…,” nem parecia dele, pouco dado a tão profundas reflexões, do telemóvel para um écran, de um écran para o telemóvel, a certa altura, ambos se acomodaram à relação, dobrara a meia década, não havia exigências, por exemplo, entre eles, de filhos, de forma alguma se queriam aprisionar a tão exigente projecto, lá se lhes ia o tempo, um bem que ambos gostavam ...
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...  os vazios que acumulamos devem-se essencialmente a duas coisas: o que perdemos ou, mais dilacerante, o que não vivemos por culpa própria... in Silhuetas

Silhuetas

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  Há casais que, à primeira vista, parecem estar fadados ao para sempre, como se imunes a qualquer força de desunião, hoje sei a falácia deste raciocínio, tudo se desmorona sob o céu, até a vida, a memória de uns vizinhos, durante uns tempos, pareciam a ideia caminhante de felicidade, não havia mês em que o fotógrafo lhes batesse, pelo menos, uma vez, à porta, para mais uma sessão de sorridentes eternidades emolduradas, por circunstância esquecida, entrei em casa deles, sobre qualquer mesa, prateleira ou camilha, pontificava uma fotografia do luzente casal, poses ensaiadas, sorrisos plásticos, entreolhares perpetuados, não sei porquê, mas uma ideia, “teatralidade”, desceu-me ao pensar, olhei-os e percebi o abismo entre gestos trocados e as imagens eternizadas sobre mesas, prateleiras ou camilhas, a primeira nota dissonante foi a exasperante lentidão da chegada do primeiro fruto de tão sublime amor, após a lua.de-mel, em destino de postal, como não podia deixar de ser, com fotos, ...
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