Se me
perguntassem, hoje, se o voltaria a fazer, a minha resposta seria sim. Não há como lhe fugir. Confesso que
me custou depois, e as lágrimas que não caíam, acho que foi a primeira vez que
chorei para dentro, parecia que as lágrimas vinham do mundo para mim… Tudo
começou no final de uma manhã, a campainha, o meu filho a entrar, percebi-lhe,
pelos passos do olhar, que me ia pedir algo, como se fosse o menino que ainda
guardo em mim, primeiro, a olhar à volta, passos lentos na minha direcção, a
voz pausada e serena, quase a soletrar Sabes,
mãe… Começava, sempre que queria algo, assim a frase (Sabes, mãe…), com a voz pausada e serena, neste caso, falou-me da
possibilidade de um negócio qualquer com o meu genro, um café, lá do bairro,
estava para trespassar, não por falta de liquidez, ressalvou logo, apenas o
cansaço e a idade do casal, há anos que o homem dizia aos clientes Estou a ficar fora de prazo! Qualquer dia,
passo isto e regresso à minha terra. Não quero morrer sem cumprir o sonho de
construir uma casita na minha aldeia. E de, pelo menos, eu e a minha patroa
termos uns anos de descanso por lá. A cidade mata-nos. Isto não é vida para
ninguém! Pegamos de sol a sol… E férias, nem vê-las! Sabe há quanto não sabemos
o que é um fim-de-semana? Ocultou-me as últimas cinco frases da sua
argumentação, só muito depois é que as conheci. Acrescentou que seria uma
excelente oportunidade para todos, como isto não está nada fácil de empregos,
assim sendo, precisavam de um avalista para o empréstimo, lembro-me tão bem, a
vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que
nem lá estivemos, neste caso, estava a preparar-me para descascar as batatas do
almoço, ao falar disto quase as sinto ainda em minhas mãos, como se nunca as
tivesse largado, disse-lhe logo que sim, apenas relembrei a minha reforma, que
ia pouco além de quinhentos euros, ele retorquiu que, o avalista, se tratava de
uma mera formalidade bancária, encolhi os ombros, queria simplesmente que eles
encontrassem o seu espaço neste mundo, e, tratando-se do meu genro, que a
família se reencontrasse, bem sei que nunca foram muito próximos, isso, de
certa forma, contribuiu para que ele e a irmã se afastassem um pouco, dói ver
seres, nascidos da nossa carne, caminharem tão afastados, durante uns tempos,
consegui juntá-los à minha mesa… Nessa noite, a campainha, minha filha e meu
genro, já sabiam do meu sim, vinham
agradecer e descansar-me, Não te
preocupes, mãe, que vamos todos arregaçar as mangas. Vai ser um sucesso! Já
temos umas ideias para inovar o espaço, até vamos reformular o conceito… Neste
ponto, eu ficava a olhá-la, nunca percebi se ela falava mesmo assim ou se fazia
de propósito para que não a percebesse, sempre que me alheava de uma conversa,
aprendi a prestar atenção aos gestos e expressões da pessoa, falam sempre muito
mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus
desesperados e calados gritos, confesso a minha preocupação após esta visita
nocturna, minha filha caminhava pelo sonho, arrastando com ela o seu
companheiro, em contraste com o irmão, que se movia pela necessidade, apesar de
todos conhecerem o flagelo do desemprego, partiam de lugares tão distintos,
sonho e necessidade não vivem debaixo do mesmo céu.
Cinco
meses depois, a campainha, também num final de manhã, dessa vez, lavava umas
alfaces para a salada, fechei a torneira, limpei as mãos, meu filho, com um ar
transtornado, pensei a questão mas acabei por não lhe dar voz (Não devias estar a trabalhar?), era
demasiado evidente, ali à porta, a olhar o tapete, sempre que perdia nos jogos
de bola, fazia o mesmo, pois, o menino que ainda guardo em mim, entrou devagar,
sentou-se, falou, falou, não o interrompi, nem o devemos fazer, aprendi, há
muito, que os gestos e expressões falam sempre muito mais que as palavras, por
vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos,
afinal o café não abre portas há três semanas, confessou-me que não tencionam
reabri-lo, primeiro, acusaram-se de, ao final de cada dia, as contas nunca
baterem certo, seguiram-se recriminações por uns trabalharem mais que outros, a
minha filha queria investir para reformular conceitos, o irmão, e bem, achava
prematuro, certa tarde, filho e genro quase de pegavam em frente aos clientes,
avançaram com os papéis para a dissolução da sociedade, neste ponto, ninguém se
lembrou do empréstimo ao banco, continuam a não se lembrar, mesmo que a memória
se refrescasse, nada poderiam fazer, com o tempo, percebi que um avalista é
tudo menos uma formalidade bancária, comecei a receber carta atrás de carta com
uma frequência quase diária, logo eu que só tinha as três ou quatro contas
providenciais a desaguar-me todos os meses na caixa-do-correio, certa tarde, ao
levantar a reforma, dão-me trezentos e poucos euros, a minha indignação de nada
valeu, só duas semanas depois é que me informaram da penhora de um terço da
minha pensão, seguiu-se um panfleto colado na porta, retirei-o, claro, li-o
mais que uma vez, contudo, faltavam-lhe gestos e expressões, falam sempre muito
mais que as palavras, depois, bom, não quero falar disso, nem o vou fazer, a
vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que
nem lá estivemos, não sabia que podiam ser simultâneas, hoje para aqui estou,
num pequeno quarto, em casa do meu filho, quando me convidaram a deixar a minha casa, um homem, de fato, com um papel na
mão, acompanhado de polícias, não quero falar disso, nem o vou fazer,
lembrei-me de, certa vez, alguém dizer Quando
se fala muito em liberdade, é mau sinal, pois, eu a pensar onde estava a
liberdade quando me apontaram a porta da rua da minha própria casa, tive de me
amparar aos móveis para não cair, uma incredulidade raivosa apoderou-se de mim,
concluí que, a partir de agora, só me restavam o sol e a lua, nada mais, não
quero falar disso, nem o vou fazer, várias vezes, enquanto caminhava para fora
da minha casa, ouvi por mais que uma voz A
senhora sente-se bem? Não quer parar na farmácia? É melhor medir essa tensão! Foi
meu filho que serviu de véu quando as lágrimas do mundo correram para mim,
contaram-me, mais tarde, que a irmã estava do outro lado do passeio a assistir,
discreta, que chegou a discutir com a polícia e com o homem do fato, que lhes
gritou Esta casa viu-me nascer! Soube,
uns dias depois, que deixara de ter genro, não posso dizer que o lamente,
talvez ela apareça uma noite destas para jantar, e, se ela aparecer, queria
sossegá-la, dizer-lhe que Dificilmente a
casa que nos viu nascer será a do último adeus…



