Inicio a compreensão do tempo: só importa o que, no fim, perdura em nós…
A pedido de muitos leitores, irei hoje esclarecer por onde andam estas funestas personagens e seus párias, desde já, como é evidente, não caminham por lugares muito ensolarados, não fossem personagens obscuras, a montante destas linhas pontifica um imperativo ético – de alertar incautos que se venham a cruzar com estas sinistras figuras –, bem como satisfazer a curiosidade dos leitores, de outro modo, confesso que nem uma sílaba gizaria, quanto às últimas da porcachona, parece que anda a grunhir muito pelas costas, o bugs bunny (recordam-se?) também caiu nesse erro, e a coisa correu-lhe mal, quase ficava com uma cenourita entalada algures, por conseguinte, é salutar para a porcachona (grunhe baixinho, muito baixinho, porcachona) e sua pocilga que ponham o único neurónio em movimento para não terminarem entalados algures pelos caminhos do mundo, fica o conselho, seria igualmente positivo que andasse com o focinho mais sorridente, quem nasce divorciado da beleza, pelo menos, que sorria, se a este aspecto somarmos as toneladas acumuladas com os anos, nada resta, em verdade, para um homem, a porcachona, de facto, é o primeiro passo para a homossexualidade, quem, no seu perfeito juízo, lhe pegaria? Se, por exemplo, sucedesse a tragédia de me deparar com a porcachona despida, lesto seria a cobri-la, creio que o trauma de tal imagem até induziria impotência, meu Deus, os estragos que a porcachona pode causar – arrepiante!!! Os complexos pelo baixíssimo intelecto – elevadas só a maledicência e a cobardia, ah, e as toneladas, claro, as toneladas – levam-na a grunhir alto perante os demais, só um acéfalo conseguia ouvir um grunhido até ao fim, quanto mais um conjunto, entre o seu público acéfalo está o nosso tintim, pois, esse mesmo, de caminhar bamboleante, a reprimida homossexualidade, talvez um dia alguém lhe dê o desejado beliscão nas nalgas, e fique corado de tanta felicidade, a camisa larga o suficiente para ocultar o crescente barrigão, os três pentelhos brancos no cocuruto, e a barbita pálida, quiçá inspirado no velho da Longa Vida, a abolacharem ainda mais a esférica carantonha, o caminho destes dois tamanhos frustrados inevitavelmente acabaria por se cruzar, é ver a porcachona grunhir, grunhir e grunhir, e o tintim, atrás dela, em hossanas, confrangedor, se ao menos a porcachona lhe desse o ambicionado beliscão nas nádegas bamboleantes, não podia cair-lhe em cima, coitadinho do tintim, nem um segundo resistia, embora fosse um severo meio de desbloquear a reprimida homossexualidade, quem sabe, à vista de um avanço da porcachona, o tintim procurasse o tão desejado colo onde pousar as suas nádegas bamboleantes, por ali pululam outras sinistras figuras conhecidas, a ratazana, agora sem bandolete, outro drama, a rainha do pedaço, com os óculos no cimo da tola, julga que, com esse artefacto, espanta as rugas em crescendo, a obesa de nome azeiteira, o pombo-correio do lugar, até chegou do sul, veja-se bem, para se sentar cada uma precisa, no mínimo, de duas cadeiras, tal a dimensão das nalgas, a menopausa é uma coisa tramada, uma questão transversal, ao atentar no focinho destas aberrações, é: Qual foi a última vez que tactearam os céus? Se é que algum desgraçado lá as conduziu… Se houve, foi há muito, há demasiado, tais as expressões cinzentas, azedas, até masculinizadas, a menopausa é uma coisa tramada, crescem para todos os lados, no entanto, o intelecto subsiste minúsculo, grandessíssimas FRUSTRADAS estas aberrações andantes, até suscita dó ouvir o exíguo vocabulário, onde a muleta “prontos” surge, de forma salvífica, a pontuar-lhes as boçalidades emitidas, frustradas físicas e intelectualmente: a coisa só podia descambar em complexos estampados no focinho e nos gestos; por ali cirandam, em torno da porcachona, o tintim, com o seu estrogéneo em alta, em coscuvilhices ora com uma, ora com outra, apesar de incessantemente o seu olhar, maroto e ardente, procurar um matulão que lhe dê o tão ansiado beliscão nas nádegas bamboleantes, se as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS ansiassem por um beliscão, só se requisitassem uma retroescavadora, com a dimensão daquelas nalgas seria a única possibilidade de sentirem algo, há uns dias até mandaram uma menopausa, outra aberração, bem adiantada, cuja carantonha parecia um mapa de estradas, tal a profusão de rugas, dar um recadito mal-amanhado, o interlocutor, da aberração rugosa, deixou-a sozinha a debitar alarvidades, não fosse a burra-enrugada, com um pouco de atenção, julgar-se gente, por ali também pontifica o manguinhas-de-alpacas, de casaquinho de bombazina, com penteado à primeira-comunhão, esse pouco aparece entre as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS, embora cumpra qualquer coordenada por ali emitida, esse é uma figurinha rasteirinha, estéril, frases ocas e deveras superficiais, apesar da falsidade, suada por cada poro, não passar despercebida a quem sabe olhar o mundo há muito, sem qualquer conteúdo, basta atentar no anacronismo da indumentária e de lhe perdurar o penteado com que saiu de casa para a primeira-comunhão, caros leitores, espero que a vossa curiosidade, com estas linhas, sempre públicas, quem nasce com Coluna-Vertebral não sabe rastejar, fique saciada sobre o paradeiro da porcachona, tintim e seus párias, genuínas aberrações caminhantes pelo mundo.
A maior parte do tempo esquecemo-nos de viver
o presente, preocupações, sonhos por realizar, cansaço, a voragem do dia-a-dia,
enfim, o drama da vida contemporânea, no entanto, só quando um facto,
iniludível e dramático, se anuncia no amanhã, é que fincamos os pés no
presente, saboreando cada instante, como se o futuro apenas uma ilusão, há
décadas que ocupava, através de um subaluguer, uma salita, se assim se pode
denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, quase inteiramente
ocupada por uma marquesa, onde mitigava dores articulares, endireitava colunas
e derramava o seu “saber”, bom,
este último conceito é, sem qualquer dúvida, bastante controverso, não por acaso era
conhecido como o Mestre, havia quem, de facto, se deitasse na marquesa só para
ouvir as suas histórias, únicas, inolvidáveis, dignas de figurar em qualquer
compêndio de actos de bravura, as más-línguas, como é evidente, escarneciam e
questionavam a sua veracidade, pura inveja, nada mais, quem, no seu perfeito
juízo, ousava colocar em causa a palavra do Mestre? Desde a travessia do Tejo,
na foz, debaixo de água em apneia, às incursões aéreas, em território inimigo,
durante a guerra colonial, enquanto piloto, ou realizar elevações, durante uma
tarde inteira, para gáudio dos espectadores que se avolumaram com o decorrer
das horas, tudo em palmas e espanto perante aquele titã descido dos céus, sem
esquecer os múltiplos corações despedaçados e suspirantes que foi deixando à
sua passagem, a verdade é que muitas chegavam cambaleantes e curvadas, num
dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de
uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, se alguém,
má-língua ou não, ousa escarnecer e questionar a veracidade destes factos, estou
cá eu para categoricamente os asseverar, quando algo lhe desagradava, com a sua
voz arrastada e cavernosa, invocava um camarada de armas, “Cheira mal…
Cheira muito mal…”, certo dia foi
confrontado com a notícia de que a sua marquesa teria de abandonar a divisão,
de oito metros quadrados, numa cave, pensou “Cheira mal… Cheira muito
mal…”, mas não verbalizou, o espaço ia
para trespasse, ironia do destino seria também para mitigar dores articulares e
endireitar colunas, inferiu, desde logo, que os seus préstimos seriam mais do
que imprescindíveis, como podem testemunhar as dezenas, perdão, centenas, que chegavam
cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se
por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a
correr escada acima, continuou os seus afazeres, na salita, de oito metros
quadrados, quase totalmente preenchida com a marquesa, a questão do
encerramento do espaço não era tema de conversa, de forma tácita foi remetida
para o silêncio, mediante quem se deitava na marquesa escolhia o tema das suas
narrativas, ora a incansável história da travessia em apneia, ora enumerava os
milhares de livros lidos, o pai detentor de uma biblioteca só com rival na de
Alexandria, se alguém mais ousado colocasse uma questão específica sobre
determinado autor, fungava uma vez, duas, ainda uma terceira, e sua voz
arrastada e cavernosa logo “Esta contractura tem de ser debelada…,” quem, perante este alerta, “Esta
contractura tem de ser debelada…,” ousaria
lembrar-se de um autor e das suas obras? A atenção, de imediato, focada na
génese das tão incómodas dores, se, desde cedo, o Mestre se viu perante tão
rica e sumptuosa biblioteca, é natural o seu vastíssimo conhecimento, só o seu
pai detinha seis licenciaturas, quatro mestrados e três doutoramentos, ou
quatro doutoramentos, três mestrados, pois, talvez fosse por aí, os seus três
irmãos todos engenheiros destacadíssimos em diferentes áreas, ele simplesmente
o Mestre, tudo estava dito, nem uma sílaba a mais, já antevendo crises
climáticas e numa medida deveras ecológica, passou a realizar a sua higiene nos
balneários daquele espaço, escusava assim de gastar água em casa, o ambiente
não podia estar mais grato, o tempo, esse estranho que incessantemente nos
ilude, passou, até que, sempre mais cedo que o expectável, o dono do espaço alerta-o de que, no
dia seguinte, teriam de retirar tudo, uma fungadela, duas, ainda uma terceira,
e “Cheira mal… Cheira muito mal…”, à
sua frente apenas vislumbrou um conformado e sofrido encolher de ombros, como
décadas se evolam num instante?! Na manhã seguinte, alguns curiosos se avolumaram
à porta a assistir à retirada das mobílias e para um derradeiro adeus, a
verdade é que, desde sempre, se ilumina uma luz interior aquando da desgraça
alheia, o homem e os seus paradoxos, começou cedo o trabalho, a manhã já ia
alta quando só faltava retirar a marquesa da salita, se assim se pode denominar
uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, bateram à porta, como
resposta “Cheira mal… Cheira muito mal…”, uma segunda vez, como resposta, de novo, “Cheira mal… Cheira muito
mal…”, dez minutos, vinte, chamaram o
antigo arrendatário para intervir, a porta permanecia fechada, uma hora, uma
hora e meia, perante tal intransigência, viram-se forçados a arrombá-la, incrédulos
ficaram perante o cenário encontrado: o Mestre amarrara-se à marquesa; houve
gritos, súplicas, a notícia subiu mais rápido as escadas do que as pacientes do
Mestre, na rua já comentavam, a multidão duplicou à porta, uns minutos depois,
triplicou, tudo numa crescente ansiedade para ver o desfecho, uma hora depois,
dois indivíduos saíram com a marquesa onde permanecia o Mestre amarrado, houve
palmas, gritos, choro, clamor, incentivos, aclamações, o povo num frenesim à
vista do Mestre amarrado à marquesa, só quando a agitação serenou um pouco, a
marquesa foi colocada, uns metros acima da porta, no passeio, o povo, de
imediato, acorreu, um jovem aproximou-se e disse algo, o Mestre, ainda amarrado
à marquesa, olhou-o e, com notória assertividade, disse-lhe: “Oh jovem, a
falar com o Mestre, com as mãos nos bolsos?!”
O mais curioso de tudo é que fomos lá juntos, quase parecia uma segunda lua-de-mel, os preparativos, passaportes, a escolha do fim-de-semana, os miúdos com a minha mãe, a viagem, assim que aterrámos, uma chuva miudinha omnipresente, pelo rosto, pelas roupas, ele “Já estou com saudades do nosso sol”, limitei-me à ternura de lhe dar a mão, assim silenciava angústias, ele, como sempre fazia, segurou-a num sentir feito gesto, após o aeroporto, a chegada ao hotel, a chave, elevador, o quarto (talvez alguém se tivesse esquecido de um sonho na almofada, não sei porquê, mas sempre desejei encontrar, nem que fosse por uma vez, um sonho abandonado. Tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo!), por fim, abrir malas, só depois, muito depois, um passeio já sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava. Há uns meses, sem nada me dizer, não sei se por afirmação pessoal, se por gozo, aventura, candidatou-se a uma vaga numa empresa de construção no exterior, que oferecia, entre muitas e vantajosas condições, o quádruplo do vencimento, disse-me, depois, que tropeçou no anúncio, contudo, contactaram-no, de imediato, para uma entrevista, da incredulidade inicial passou para um genuíno interesse, nesta fase, começamos a ver-nos dentro do quadro, foi enquanto se descalçava, não escolheu o momento ao acaso, que deixou no ar “Sabes que recebi uma proposta de trabalho do exterior?” Repara como ele colocou a questão… Ocultou apenas os seguintes factos: a candidatura foi de sua iniciativa, sabia das vantajosas condições de trabalho, como auferir o quádruplo do actual ordenado, partiu de uma carência de afirmação, e mais importante que tudo: já se via como parte integrante do quadro; não, não era um mero espectador, olhava-se já como personagem: e aqui reside a diferença entre equívocos e factos… Confesso que, na altura, não dei o devido relevo à sua questão, pois, não escolheu o momento ao acaso, ocupada que estava com o quotidiano, acho que lhe respondi “Olha que bom! Alguém que nos dê o devido valor”, a resposta saiu-me assim, quase como se fosse um cumprimento, uma exigência da educação, se fosse mais atenta, se não desse tanto de mim ao quotidiano, teria reparado que ele levara o triplo do tempo para se descalçar, que a frase lhe saíra a custo, numa naturalidade demasiada que apenas ocultava a teatralidade da situação, que permaneceu sentado de costas, nem ousou virar o rosto, que deu um longo suspiro enquanto lhe respondia com o cumprimento, se fosse mais atenta conheceria, há muito, a diferença entre equívocos e factos.
Como
dizia, pois, o passeio sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas
novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos
apresentava, a chuva miudinha não se esquecia de nós, conferia às coisas uma
imaterialidade de sonho, parecia que não pisávamos o chão do mundo, quase como
se pairássemos sobre as coisas, apenas o frio líquido no rosto nos devolvia à
nossa circunstância, um vulto ou outro, com o familiar guarda-chuva, protector
de almas, sobre a cabeça, cruzava-se connosco na irrealidade daquele cenário
nocturno, com pontos luminosos difusos e contorcidos pela cortina de água,
regressámos, partiu de mim, eu não era personagem daquele cenário, tinha a alma
desprotegida, chovia-me nas minhas dores, ele, pelo contrário, percebi que não
se importava de continuar, só aquando dos primeiros esboços de regresso é que
lhe compreendi contrariedade, já era um caminhante imaterial daquele sonho, sem
eu saber, talvez algo lhe protegesse a alma. Foi sem surpresa que, no dia
seguinte, após a entrevista, me anunciou ter aceitado a oferta de emprego, de
novo, cada um caminhava pelas suas paisagens interiores… O resto, já sabes,
passados dois meses, regressou, desta vez para ficar, àquela omnipresente chuva
miudinha, agora que penso nisso, é curioso, parecia já lhe conhecer os
contornos do rosto, ao contrário de mim, ele nunca fechava os olhos, como se
lhe conhecesse o gosto, e os miúdos, quando contámos, abraçaram-se-lhe ao
pescoço, aqueles lugares onde as palavras não entram, percebes, não é…? Nesses
dois meses reaprendemos o namoro. Sabes aqueles objectos que procuramos
incessantemente, depois, quando a sua existência há muito ignoramos, num
repente, surgem diante de nós, como se nunca tivessem dali partido? Pois, assim
foi com aquele estar do namoro, uma ânsia por alguém que encerra em si o
Sentido, de um momento para o outro, apesar dos filhos, das fiéis contas na
caixa-do-correio, dos anos de permeio, dos silêncios obstinados, das noites de
omoplatas, ali estava, no tapete de entrada, como se nunca tivesse partido,
renovámos juras de amor, ele “Aos fins-de-semana regresso. Estamos no século
XXI! São só duas horas de avião! E a qualidade de vida que vamos garantir aos
miúdos, já viste? E quando eu não puder vir, vão vocês ter comigo. Certamente,
ainda vamos estar mais horas juntos,” enquanto ele falava, não sei porquê,
surgiu-me a imagem da omnipresente chuva miudinha que parecia familiarizada com
os contornos do seu rosto, os miúdos não o acompanharam até ao aeroporto,
preferi que ficassem com a minha mãe, fomos só nós, uma mala bastou para se
levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso,
aguardámos sentados pelo voo, descansei
o pensar no seu ombro, enquanto ele calendarizava o futuro de regressos e
partidas, e eu que sempre senti uma repulsa visceral por estes lugares de
gestos efémeros que se suspendem num para sempre, até que uma voz mecânica
anunciou a partida, caminhei a seu lado até onde me fui permitido, não ousei
falar, o sentir desarrumado estender-se-ia à minha frágil voz, e no meu céu
interior, naquele momento, uma omnipresente chuva miudinha, essa sim conhecia
os contornos do meu rosto, abraçámo-nos durante o necessário de um sentir feito
gesto, quando me regressei, ele já ia para além de efémeros gestos que se
suspendem num para sempre, antes da derradeira porta, olhou para trás, o seu
rosto estava como há dois meses, parecia dizer-me “Já estou com saudades do
nosso sol”, o meu olhar desceu à mala que bastou para se levar, não percebi se
indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, é que há tantas coisas
largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo.