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Rua do Sol

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  Hoje vi-o, passeio fora, orgulhoso, com uma bicicleta pela mão, notava-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, percebi, de imediato, o destinatário, a essa hora olharia o quadro, verde, diante de si, talvez com uma frase para decompor ou uma conta de multiplicar, uma mão suportava os sonhos que lhe enchiam o pensar, enquanto a outra (com um lápis? Uma caneta?) fingia interesse pelo que se passava no quadro, àquela hora (aproximava-se o regresso a qualquer coisa de nome lar) as escassas refeições do dia empurravam-no para um sono crescente, andava por aqui há pouco mais de meia dúzia de anos, contudo, aprendera que o encolher do estômago é proporcional ao alargar dos sonhos, nisto uma frase estridente fá-lo regressar-se e estremecer Perceberam, meninos? Ele a formular uma surda questão para si Perceber o quê? Os sapatos que, de tão apertados, mal lhe permitiam caminhar, quanto mais correr atrás de uma bola, as calças que se cobriam de remendos, o casaco anacrónico que insi...

Pelas costas tudo se diz, tudo se faz…

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  Compreendi, há uns tempos, por estes lados, haver uma geração a viver às custas dos dividendos da anterior – propriedades, imóveis, jóias, quantias herdadas, enfim, tudo o que possua cifra –, por norma, apresentam uma postura arrogante (autênticas figurinhas que gostariam de passar por figurões, mas uma figurinha jamais chegará a figurão, aqui reside o paradoxo), sapientes de algo que os próprios desconhecem na sua infinita ignorância, como se, pela circunstância de nada terem construído, de palpável, com o seu engenho e esforço, por outras palavras, o conceito de trabalho ser-lhes deveras longínquo, uma realidade insondável, horários para cumprir, transportes-públicos, as omnipresentes contas mensais, a verdade que o comum cidadão conhece até ao fel da sua essência, pelo simples facto de não ter o privilégio de um porto-de-abrigo providenciado pelos seus antecedentes, pudessem opinar sobre tudo que julgam ver, assim sendo, sem horário para cumprir, os dias avizinham-se longos e ...

Rua das Açucenas

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  Não regressava, há cerca de seis meses, ali, à rua das Açucenas, mais precisamente ao rés-do-chão, daquele segundo prédio, do lado direito, caminhava a olhar a calçada, pelo seu pensar, a conversa de há pouco, ele tão insistente “Não precisas de ir sozinha, eu arranjo um tempinho e acompanho-te… Bem sei o que a tua avó significava para ti… Não te fará bem regressares só àquela casa… Tantas recordações te esperam… A memória ultrapassa-nos sempre…,” na altura, não ligou muito, era um desafio que teria de enfrentar, tinha isso presente e determinou-se a tal, no entanto, esta frase não a abandonou “ A memória ultrapassa-nos sempre…,” nem parecia dele, pouco dado a tão profundas reflexões, do telemóvel para um écran, de um écran para o telemóvel, a certa altura, ambos se acomodaram à relação, dobrara a meia década, não havia exigências, por exemplo, entre eles, de filhos, de forma alguma se queriam aprisionar a tão exigente projecto, lá se lhes ia o tempo, um bem que ambos gostavam ...
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...  os vazios que acumulamos devem-se essencialmente a duas coisas: o que perdemos ou, mais dilacerante, o que não vivemos por culpa própria... in Silhuetas