Livros do Escritor

Livros do Escritor

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Rio Pranto

 


Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de os saber vivos, é curioso, nunca os viu deterem-se perto de garrotes e seringas vazias, sabiam há muito quais as entradas para a morte, na porta ao lado da pensãozita havia um barbeiro, só abria de tarde, segurava mais tempo o jornal que a tesoura, como tema recorrente a guerra colonial, a mágoa imensa por ter sido obrigado a entregar armas, quando afinal a guerra vencida, nunca se conformou com a fictícia derrota e o antecipado regresso à metrópole, não havia dia em que não se ouvisse, naqueles vinte e poucos metros quadrados, Um dia hei-de lá voltar! Assim que pisei aquela terra, sabia onde pertencia. Sabe, foi como um clique em mim! E a distância das coisas?! Ensina-nos como somos pequenos… Não é como aqui! Acredite, não tem nada a ver! Sabe, lá tudo é em grande! Para onde quer que se olhe, sempre a lonjura. Aqui nem horizonte temos! Vivemos numa estreita faixa entre o mar e os espanhóis! E as cores? O que dizer das cores de lá? Nunca tive alma de poeta, mas se me ajeitasse com palavras, teria feito uns versos àqueles entardeceres… Palavra de honra! E o cheiro daquela terra? Então quando o cacimbo pousa, parece um feitiço… Não adianta! Podia estar aqui o dia todo a falar-lhe de lá, você nunca iria entender. Sabe, só quem lá esteve é que percebe aquilo! É como uma febre que se nos colou à pele! Era comum, à medida que avançava na sua prelecção, elevar a voz, talvez pelo entusiasmo, pela saudade, pela dor de não ter regressado, talvez por tudo, o certo é que África, todas as tardes, ecoava por aqueles passeios. Umas portas mais acima, outro quadrado com vinte e poucos metros quadrados, mas ainda mais obscuro, lá dentro um velhote, que arrastava uma perna, debruçado sobre uma mesa, lia uma revista com as cores da meninice, se atentássemos bem, as prateleiras à volta, em estantes que iam praticamente até ao tecto, estavam pejadas de livros e revistas de heróis e suas aventuras, quase todos ali chegados de outros lares, sinal de que os adeuses à infância se sucediam, por vezes, chegavam-lhe com sacos, depositavam-nos no balcão com gestos nervosos de uma pressa impronunciada, ele retirava um a um, com parcimónia, parecia prestar tributo a cada obra, folheava, sopesava, analisava o estado geral, sempre que uma folha rasgada ou risco, mandava para trás, era um princípio, tinha ali livros da altura em que ainda não sabia ler, dizia que aquele espaço era mais um museu que um negócio, volta e meia, retirava determinada revista, nem precisava de a procurar muito naquele universo de papel, e orgulhosamente proclamava Não a vendo por dinheiro nenhum! Trata-se do número um de uma colecção… E lá esclarecia o porquê, na sua voz rouca e arrastada, de uma manuseada e amarelecida revista, quase decrépita aos nossos olhos, ter um valor tão substancial, havia dias em que não entrava ninguém, mas se atentássemos nos seus gestos e rosto, percebíamos, de imediato, que ele nem dava conta, tal a abnegação com que arrumava, limpava, catalogava, ou simplesmente relia, talvez a vista já o traísse, e pensasse ler o que apenas relembrava, às vezes acontece, olhamos para trás a fim de nos sabermos ainda, havia quem dissesse que tinha o maior espólio da nona arte da capital, talvez do país, mas havia sempre um tom indulgente quando se referiam àquele espaço, que tinha um peculiar cheiro a papel velho, tristemente iluminado, apenas uma lâmpada no tecto que ameaçava fundir-se com insistência, de vinte e poucos metros quadrados, forrado de histórias aos quadradinhos, ele nem respondia, histórias aos quadradinhos, mais que uma vez perguntaram-lhe Nunca leu um livro a sério? Nem respondia, limitava-se a relancear uma expressão de desprezo e nada mais, falava pouco, com os anos, ainda menos, olhava para o amanhã, os jovens do hoje, com uma apreensão constante, era seu costume afirmar que não só perderam a capacidade do sonho como também lhes roubaram a alma, vivem curvados para um rectângulo sem ao menos um porquê, muitas das histórias, que por ali tem, relatam os esforços hercúleos de heróis que jamais se curvaram perante os mais variados perigos, à sua volta só vê uma plural derrota assumida, sem sequer um gesto de resistência riscar os céus da cidade, ao chegar a casa, antes mesmo da chave, o miar da sua única companhia, pois, desde que… Entra e vai logo encher uma malga de leite, um dia, iremos regressar a este solitário, que vive entre histórias aos quadradinhos, malgas de leite, e aprendeu, com a vida, a falar cada vez menos, voltemos à pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, estava naquele quarto há dois ou três dias quando se cruzou com ela na escada, não lhe passou despercebido o facto de coxear ligeiramente da perna direita, talvez cansaço pelo esforço da subida, percebeu-lhe um misto de uma genuína curiosidade, quase infantil, e um cansaço nocturno que lhe sombreava gestos e expressão, havia nela um desamparo tocante, como acontece com quase todos os habitantes nocturnos, compreendeu, quase por intuição, que ela ali pertencia, mas, ao mesmo tempo, pressentia-se-lhe uma desesperada ânsia de partir, ela olhou-o de relance, não disfarçou espanto por um recém-chegado, cruzar-se-iam mais vezes… Aquele desamparo tocante desequilibrou-lhe o sentir, mesmo nessa noite, antes de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo, aquela mulher, já devia avistar os quarenta, coxeava ligeiramente da perna direita, regressar-lhe-ia, por mais que uma vez, ao pensar, há muito que adormecia sem uma respiração a seu lado, sem uma inconsequente conversa de trivialidades, sem o calor de um gesto de afecto, no fundo, sem amor… Desaguou naquela pensãozita esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar, apenas com uma mochila e um saquito de plástico, ele que já dobrara os quarenta e o passado cingia-se a uma mochila e um saquito de plástico, mas por dentro um peso bem maior, daqueles que retardam o sono e obscurecem sonhos, daí, quem sabe, aquela sua premente necessidade de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo… Não demorou muito até que, certa noite, ela sentada àquela mesma mesa, diante dele, a desviar-lhe o copo, porém, a sua mão sôfrega em perseguição, mas ela revelava experiência de ilusionista em ocultá-lo, falaram de trivialidades, e como lhe soube bem, por momentos, ouvir outra voz que não a sua, há tanto que se cansara daqueles ecos dentro de si, não se perguntaram o que faziam, não deixa de ser curioso, ela sempre com um xaile pelos ombros, nalguns pontos desbotado e em ameaça de ruína, percebeu-lhe campo nos gestos e fala, ela orgulhava-se disso, não escondia o desejo de, um dia, regressar à terra, como se lá os problemas não encontrassem uma porta de entrada, pois, havia nela um desamparo tocante, haveria outras noites assim, partilhavam uma cerveja e um prego no pão, soube que ela tinha um filho num internato, andaria pelos dez anos, ela apreciou a sua persistência com a temática do filho, mas nunca enveredou pela identidade paterna, de novo, a intuição a ditar-lhe a direcção do verbo, talvez nem ela soubesse tal resposta, em verdade, ele já ouvira uns rumores acerca do seu ganha-pão, era mais discreta que aqueles vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que sombreavam estradas, a idade também já era outra, e o fruto do ofício tinha um destino de dez anos, num colégio, que, assim que a via, lhe corria para os braços e lhe açucarava o sentir, até que partiu dela a sugestão, certa noite, após regressarem da cerveja e do prego no pão, a porta do quarto aberta, Não queres entrar? Ele ainda hesitou, talvez algum eco gritasse dentro de si, contudo, reequilibrou-se e respondeu Sabes, não ando boa companhia… É melhor ficar para outra altura. Até amanhã! Seguiu para o seu quarto, ficava no andar de cima, os degraus denunciavam o esforço da subida, ela ficou, por mais um pouco, à porta, hesitante entre a admiração pela decência do seu gesto e o despeito pela recusa, pois, o orgulho feminino, um dos primeiros inquilinos da terra, porém, a sua decisão brotou de uma outra fonte, que, no momento, ela não descortinou, os tais rumores acerca do seu ganha-pão, assim que fechou a porta do quarto, cuja única luz, nesse momento, provinha do anúncio néon exterior, PENSÃO, em letras verticais amarelas, com uma seta, em baixo, na direcção da entrada, sentou-se pesadamente na cama, olhou o chão, tacos de madeira cansados por inúmeras e apressadas visitas, o que restava de um tapete, nem a cor original se conseguia decifrar, por um lado, inclinou-se a aceitar o convite e entrar, afinal, havia nela um desamparo tocante, por outro, aqueles tortuosos rumores, se por ali houvesse alguma verdade, seria ele mais um número do velho e triste ofício? Por muitas voltas que desse, não conseguia aportar em nenhuma certeza…

 


 


 

terça-feira, 14 de julho de 2026

Alfazema

 


Não se recorda do momento exacto, não foi há tanto assim, um café, com as colegas, na pausa para o almoço, e a dolorosa certeza, de que a mentira está ao leme do acontecer, a crescer-lhe, com ela eram quatro, à mesa, falavam de planos para as férias, de início, até por uma curiosidade inconfessada, optou por ouvi-las, a primeira nota dissonante que observou foi o entusiasmo suscitado pela temática, as três não indiciavam existência para além do trabalho, talvez a primeira vez, tanto quanto se lembra, de um assunto, fora do contexto de papéis por preencher, carimbar, reuniões, mais reuniões, estatísticas, impressões de documentos, ser tema de conversa, até se admirou, falavam de destinos sonhados com a confiança de quem pede uma bica, até se inclinou para ouvir melhor, queria silenciar a incredulidade que a dominava, quem, de início, se mostrou mais efusiva, foi uma, de origens rurais, embora batalhe, no quotidiano, de forma incessante, para ocultar essa génese de hortas, sacholas, carros-de-bois e piedosos terços rezados com devoção, um casamento de montra, era a última, dia-após-dia, a abandonar o escritório, não se lhe denotava um resquício de saudades do lar, apesar de uma filha em tão precoce idade escolar, até lhe relataram que, antes do lar, dia-após-dia, parava pelo ginásio, a flacidez das carnes não o indiciava, um apeadeiro onde se demorar de um indesejado regresso, ouviu também relatos do ar psicótico do marido dela, não se pode dar crédito a tudo o que se ouve, não é verdade? Se houver algo de verdade nestas narrativas, a sua obsessão, diária, em ser a última a sair, fica esclarecida, mas uma imperativa questão emerge: E a filha? Quem lhe acompanha os passos? Ela continuou a debitar lugares-comuns, num português rasteirinho, condizente com a figura, do sofrível penteado, que imobilizava fios-capilares aparentemente queimados, à indumentária, o flagrante desarranjo de uma fuga à ruralidade, há muito a sua paciência findara para esta figura, bem como para as outras duas, a sua presença àquela mesa, após a hora de almoço, deveu-se apenas a um factor: educação, nada mais; a frustração chegou ao ponto de alguém entregar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar? Para onde caminhamos? Em que momento se esqueceram simplesmente de ser? Quase não a reconheceu, ali sentada, àquela mesa, a debitar destinos sonhados, com uma irrepreensível segurança, qualquer incauto que a ouvisse teria muita dificuldade em acreditar no facto de, diariamente, consagrar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar! Algo muito errado ali se passava, começou a sentir distância face às demais, quem, de seguida, tomou a palavra, em verdade, há muito virou costas a contextos laborais, de certa forma, foi-lhe imposto, por sua vontade seria outra a consagrar o seu ócio ao lugar onde foi obrigada a estar, sempre que as outras duas saem do lugar, que agora lhe foi vedado, ela corre ao seu encontro, desde que dela se lembra, uma memória com mais de duas décadas, sabe-a viúva, o pudor não lhe possibilitou entrar pelos porquês, coisa rara por estes dias, o pudor, vistas daqui as coisas, nunca lhe vislumbrou tristeza pelo rosto, daqueles casos em que o contacto mais estimula a repulsa, uma qualquer estranha força, nitidamente invisível para os demais, aproximava estas três figuras, ela nem a distância já sentia, era uma estrangeira àquela mesa, destino escolhido, seguiram-se os hotéis, datas, percebeu que as três iam juntas, uma, na aparência, casada e com uma filha menor, a outra viúva e reformada, por fim, claro, faltava a divorciada, uma sujeita baixa, anafada, com um semblante que transparecia a total amargura daquela alma, há divórcios que nem precisam de justificação, os complexos manifestam-se de plurais formas, no caso da anafada dava-lhe para uma oratória de pacotilha, nem todos possuem a necessária clarividência para desconstruir o vazio daquelas mal formuladas frases, a saloia, por exemplo, anuía a cada sílaba cuspida pela gorda, não é muito salutar a sensação de nos sentirmos estrangeiros, no entanto, face àquele contexto, ela considerou esse sentir como uma manifestação de salubridade mental, volvidos quarenta e três minutos, compreendeu que se manteve em silêncio, curioso o facto de nem uma hipotética frase lhe atravessar o espírito para intervir, de si para si prometeu escudar-se em todas as desculpas possíveis para jamais se sentar, de novo, a uma mesa com estas sujeitas, tanto falavam de destinos de férias, as tais que consagravam o seu ócio ao lugar onde eram obrigadas a estar, mas não lhe perguntaram pelo seu, talvez pela realidade do seu casamento, a rapidez diária da sua partida de um lugar onde era obrigada a estar, havia outro aspecto a diferenciá-la e muito daquele contexto: ela simplesmente recusava-se a cair no esquecimento de ser.

sábado, 11 de julho de 2026

O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde

 


Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar, de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, num esforço palpável e evidente, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, religiosamente cumpríamos o café, e aos Sábados também, servia para sairmos de casa e ajudava na digestão, apesar de ficar somente a umas dezenas de metros da nossa porta, no regresso, sobretudo Domingo à tarde, havia um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, uso o plural propositadamente, porque tenho a certeza de que este sentir de derrota era partilhado por ambos, a nossa passada no regresso a casa, Domingo à tarde, era desesperançada, lenta, reticente, sabíamos que já nada esperávamos de novo nesta coisa chamada viver, a mim, esperava-me a tábua de engomar, ao menos voltada para a televisão, a ele, o sofá com o jornal dobrado, nunca o conseguia finalizar numa manhã, até à janta, por ali ficávamos, a certa altura, sei que a cabeça dele começaria a pender, a pender, cada vez mais, até que a respiração se adensava, nessa altura, eu logo a baixar o volume da televisão, não o queria incomodar, coitado, pelo menos, assim o esperava, em algum momento estaria longe das agruras do trabalho, das contas que sempre aportam mensalmente na caixa-do-correio, das hesitações do miúdo com o curso que escolheu, deste sentir de derrota partilhado por ambos em Domingos à tarde, pois, isto prolongou-se até que, no meu reflexo ao espelho, o cabelo com sinais invernosos, o dele não tanto, talvez por escassear, pois, como dizia, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, ele Precisamos de conversar, percebi, de imediato, numa qualquer parte de mim, que tudo iria mudar, à medida que ele falava, falava, eu partira para longe, já não o ouvia, talvez por lhe saber a mensagem, Sabes, é muito difícil o que te tenho para dizer. Acredita-me que o é! Nem sei bem por onde começar… (Neste ponto, só queria saber se ele demoraria a despejar o que eu há muito sabia). Dizemos o que queremos ser, mas só somos o que fazemos. O meu pai muito repetia: “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E acrescentava de imediato: “Homem?! É lá isso um homem??? É mais um rato!!!” Creio, sinceramente, que me fui desapaixonando dele, assim que a porta de casa se fechou e iniciámos aquele estar a dois dentro de paredes, pareceu-me que, afinal, ali estava um estranho a quem nada tinha para comunicar, como se as palavras tivessem partido de mim para um local inatingível, não, em verdade, acho que foi antes, após o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, como se me questionasse Afinal, é só isto? Seguiu-se aquela semana nas termas, os meus sogros sempre com a conversa das termas, Faz bem à saúde! Vocês vão ver! Vêm de lá fresquinhos, ainda mais novos, e, Deus permita, já com um herdeiro providenciado, eu, abismada, ouvia-os sem sequer esboçar uma resposta, limitava-me a esconder atrás de um polido sorriso, mas a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção… Acho, em verdade, que contribuí sobremaneira para o Precisamos de conversar, o naufrágio de um lar nunca é singular, desde o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, e deixei-me ir, apenas, ele O que achas? Eu Como quiseres. Escolhe tu. Ele O que te parece? Eu O que decidires, para mim, está bem. Assim foi, do candeeiro de sala ao local de férias, até o nome do miúdo, deixei que ele escolhesse, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, desde o início, aquela semana nas termas, após o Sim diante do altar, ele procurava-me polidamente, neste particular, sempre muito respeitoso, correspondia pela curiosidade de saber como é, contudo, no fim, aquela sensação nunca de mim partia Afinal, é só isto? Ele cumpria, quase mecanicamente, pois, o naufrágio de um lar nunca é singular, eu em apatia, depois, água a escorrer no bidé, sabão, regresso aos lençóis para o repouso pelo dia que virá, ainda me passava a mão pelos cabelos, nesse ponto, já me fingia adormecida, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, as procuras nocturnas dele tornaram-se esparsas, de certa forma, agradecia, por volta dos nossos dois anos daquele estar a dois dentro de paredes, o nome de uma colega de trabalho surgiu lá por casa, não me escapou a alteração com que foi entoado, mas não me importou, em verdade, senti-me reconciliada, por fim, talvez alguém viesse ocupar o lugar que lhe estava destinado, e assim retomar a harmonia das coisas, porém, foi mais ou menos por estes dias, o nome da colega ainda pairava lá por casa, entoado musicalmente, a minha natureza mensal por se cumprir, no mês seguinte sucedeu o mesmo, farmácia, teste, consulta, médico, reconfirmado, minha mãe numa felicidade transparecida até aos olhos, meu pai emocionado, continha a alegria numa divisão de si muito bem fechada (como o percebia!), é-nos mais fácil compreender espelhos, após uma exaustiva insistência de meus pais, contei-lhe, por fim, nessa noite, ocultei o facto de estar já no segundo mês, bem como, para não lhe ferir a susceptibilidade, o conhecimento prévio dos meus progenitores, ele sentou-se, mais concretamente, deixou-se cair, respirou fundo, não sem antes esticar as pernas, olhou a televisão sem olhar o que por ali se passava, pôs-se a beliscar a bochecha direita, tinha este hábito sempre que a vida o obrigava a pensá-la, murmurava qualquer coisa que, para mim, era indecifrável, mas havia um traço na sua expressão de uma felicidade irreprimível, fui até à cozinha terminar algo, há sempre qualquer coisa fora do lugar dentro de uma casa, percebi-lhe os passos atrás de mim, os braços a envolverem-me, e segredou-me, repetidamente, na linguagem do sentir, Estou tão feliz… Estou tão feliz… Estou tão feliz… Senti-me reconfortada, confesso, mas aquela sensação, de que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, há muito se alojara numa qualquer divisão de mim, pelo menos, durante uns tempos, não houve nomes de colegas entoados musicalmente lá por casa, a gravidez prosseguia em paralelo com a minha indiferença face a tudo, cumpria cada tarefa numa frieza autómata, houve momentos (e como foram plurais, meu Deus!) em que ele tentou desfazer equívocos de papéis errados, por outras palavras, ele foi até onde a paciência lhe permitiu para diluir esta minha apatia, contudo, foi lesto a compreender o malogro dos seus esforços. O parto, ao menos a anestesia, devia haver outra que calasse as dores do depois, a criança (como gritava!), a enfermeira, insuportável, Pegue-lhe, mulher! É seu filho! Os pais dele em histeria, à minha volta e do miúdo, a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, eu em apatia, a uma distância das coisas que me equilibrava, neste ponto, face à insistência da enfermeira (Pegue-lhe, mulher! É seu filho!) que, pareceu-me, assumia laivos coléricos, deixei-me ir, iniciei-me na arte de representar, peguei na criança, deformei o rosto com um sorriso plástico, respondia por monossílabos ou em anuências, e, de repente, tudo à minha volta mudou, já não era uma estranha, passei a ser aceite pelos demais, até ele passou a direccionar-me frases despojadas de quaisquer cifras ou barreiras, por uns tempos, não destoávamos de qualquer outro lar, cada um cumpria o papel que lhe estava reservado antes de sequer ser, pois, a harmonia das coisas, porém, fui eu que acusei o esforço exigido pela representação, comecei a caminhar na minha direcção, a distância, a apatia, por fim, regressei-me, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, duas décadas, houve quatro ou cinco nomes de colegas entoados, com alguma insistência, melodiosamente, até que, nesse Domingo de tarde, ele Precisamos de conversar… No fundo, já o esperava, não compreendo como foi possível ele ter esperado tanto? Duas décadas de um tremendo equívoco! Confesso a minha admiração por alguns traços do seu carácter, era asseado e polido naqueles momentos, a esmerada dedicação ao filho, jamais nos levantou a voz, acho que, em certa medida, lhe foi conveniente a minha apatia, no fundo, talvez nunca tenha verdadeiramente deixado o lar paterno, sempre aquela gargalhada escancarada e indecorosa, assim secundava cada frase do pai, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, algo que revoltava o meu, aquela notória subserviência dele, “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E agora, neste Domingo à tarde, após o almoço, regressamos do café, um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, ele Precisamos de conversar… Eu pensei, espera, espera só mais um pouco, talvez se ele olhasse lá para fora, visse que a noite já pousava a mala.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Vamos à vida, porque a morte é certa


 

Nunca gostei de frases-feitas, daquelas máximas com o seu carácter irredutível, a pairar como uma sentença, uma inevitabilidade, daí a minha resistência, na manhã da vida era recorrente ouvir a frase em epígrafe, sobretudo após o términus do almoço, era dita com entusiasmo e simultaneamente resignação (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), talvez por, na altura, a sola dos meus sapatos estar quase incólume – apesar disso, em certos pontos denotava-se a rugosidade de alguns solos percorridos, a manhã da existência não é assim tão luminosa, tudo depende da capacidade de reconhecer sombras –, não encontrava argumentos para rebater tão lacónica máxima (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), hoje prontamente questionaria: O que é isso da vida? Das múltiplas respostas lidas e estudadas, confesso que nenhuma me satisfez, de facto, ninguém, até hoje, respondeu ao que é a vida, mas sim à sua perspectiva de a viver, realidades bem distintas, pouco me importa como os outros a vivem, eu continuo em busca da minha perspectiva, que tanto se foi alterando com o tempo, em verdade, ainda não a encontrei, se invejo os que têm uma pronta resposta para oferecer? Nada, têm a sola dos sapatos tão gasta quanto eu na manhã da vida, o caminho, de forma subtil, muda-nos as paisagens interiores, há uns dias encontrei, num contexto distinto, uns vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, no entanto, brilha como poucos na garagem, a inépcia dele para a condução é gritante, para estacionar vai à frente, vem atrás, mais uma vez, vai à frente, vem atrás, outra ainda, vai à frente, vem atrás, ela já de fora, a supervisionar tão delicada manobra, quando o meu sistema-nervoso tem o infortúnio de com eles se cruzar, sobretudo na garagem, em convulsão, não por antipatizar, mas por lhes reconhecer uma resignação face à existência que me é uma flagrante antítese, a lentidão estende-se-lhes dos gestos às palavras, um semi-sorriso omnipresente no rosto, tudo grita, tudo cala, dali não virá qualquer gesto de irreverência ou profecia face ao acontecer, somente lugares-comuns, o comezinho do quotidiano, os inevitáveis envelopes que, mês após mês, aportam na caixa-do-correio, o minguar dos sacos em contraste com o engordar da conta no super-mercado, a singularidade destas figuras reside precisamente no automóvel, quase tão velho quanto eles, contudo, repito, brilha como poucos na garagem, até os interiores se mantêm quase imaculados, e saem, todos os dias, pelo menos, duas vezes, sempre juntos, com o tempo, os casais vão-se assemelhando, dos gestos estende-se até à aparência, um estranho fenómeno pouco discutido, há na sua aparência, sem dúvida, uma quase irmandade, paixão não lhes consigo descortinar, nem sequer cinzas, percebo nela um certo ascendente, apesar de só ele assumir o volante, não obstante a total ausência de vocação, só o roda mediante as coordenadas ditadas por ela, sublinho não ser pelo facto da idade que não lhes encontro resquícios paixão, há casais onde essa centelha tremeluz até à despedida final, denominam-se “histórias de amor,” e não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor”, aqui chegado, regressa-me a questão: O que é isso da vida? Por muito que me custe, só posso responder invertendo a questão: “O que não é viver?” Tem sido este o caminho até aqui percorrido, no hoje, pela maioria, sob a vertigem da ilusão, na efemeridade de um artificial palco, todos procuram expor dias solarengos, luminosas risadas, paisagens oníricas, até o que está no prato (em termos de estupidez, atingimos os subterrâneos), com longos planos de filmagem, ângulos próximos, para granjear admiração e a ideia de bolsos fartos, bilhetes com destinos longínquos, poses artificiais que, a qualquer inteligência, com o mínimo de fulgor, apenas suscitam compaixão ou risadas, tudo, que nem ovelhas, a caminho do espectáculo mais propalado, fotos e mais fotos à porta, ninguém concebe ficar de fora, o sentir de pertença, tristes ovelhas a exibir o ferrete do dono sob a forma de uma pulseirita que lhes abre as portas do redil, tudo num delírio quotidiano que, no fundo, responde não a uma questão, mas a um desejo: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Por ali a Dor não encontra porta-de-entrada, se a pressentem, logo excluem, atiram para bem longe, a Dor jamais entra nesta equação: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Só que caminhar é sofrer, nada é mais doloroso que despertar, como invejo os tolinhos, são bem mais felizes, ainda não concluí se os meus vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, representam, pois, a máscara, sempre a máscara, para calar suspeitas de se aperceberem dos perigosos redis do hoje, ou se, por outro lado, não tiveram a audácia de questionar algo essencial: O que é isso da vida? Não posso apresentar uma conclusão, seria falacioso, por conseguinte, nada ético, não os concebo num redil, basta atentar nas quase três décadas de idade da sua viatura, não correram, em histeria, por um último modelo acabado de ser publicitado de todas as formas possíveis, pelo contrário, permanecem impassíveis, na sua bonomia, às influências exteriores, porém, eu não o imagino a tomá-la nos braços, inclinar-lhe o corpo ligeiramente para trás, aproximar os seus lábios dos dela, murmurar-lhe palavras de amor, e, por fim, beijá-la sem amanhãs – não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor” – pois, não consigo, a sua apatia liquida o germinar de qualquer ideário desta índole, na minha memória perduram dois ou três momentos que, com a maior das facilidades, respondem a essa perturbadora questão (O que é isso da vida?), quantos se podem gabar de, na memória, guardar tais respostas ? Confesso desconhecer, talvez por isso não ceda a delírios quotidianos e cultive um desprezo visceral para com os múltiplos redis do hoje.