Livros do Escritor

Livros do Escritor

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A consciência olha-nos sempre de uma janela alta

 


Um entardecer de Verão, não sei porquê, traz consigo um sentir de promessa, talvez por se alongar no gesto de adeus, talvez pelo calor que brota do solo rumo ao céu anoitecido, talvez pela lentidão cansada dos nossos gestos, talvez por nos termos esquecido de como saber olhar as coisas, acho que é mais por aqui, afinal, desde há muito que me sinto estrangeiro em terras longínquas, à minha volta o absurdo impera, enquanto, em mim, a apatia ganha terreno… Estacionei o carro no possível de sombra, apesar de, no horizonte, já vislumbrar a face da noite, aquela mancha verde, que rodeava o edifício branco, agora ainda mais branco pela recente pintura, sabia-me bem ao olhar e ao pensar, pois, só sentimos pelo que temos de menos, enquanto me encaminhava para a larga entrada, olhei a sua janela, no primeiro piso, não a vi, nem sequer a sua mão em saudações, talvez estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, agora que penso nisso, de facto, doze metros quadrados! Quase toda a sua vida numa quinta, ia para além de um hectare, a casa enorme, dois pisos, perto de uma dezena de quartos, um legado dos pais, enquanto criança só no Verão enchia, tios, primos, mais primos que, de tão distantes, mantinha-se o pudor desta familiaridade, em adulta, só com os netos um vislumbre de Verões passados… Os netos não são o futuro, mas sim o ansiado regresso ao passado, com eles reaprende-se a olhar as coisas antes do derradeiro adeus. Uns no início da caminhada, outros no fim, daí a compreensão, daí a empatia. Entre eles, os esquecidos na sua desamparada distracção, limitam-se a somar subtraídos dias, sem memória do início, e sem consciência do fim que corre ao seu encontro, uma corrida silenciosa, furtiva, discreta, por lugares sombreados muito para além de um pensar quotidiano. No fim, fica-nos sempre, de cada um que se cruza connosco, nesta coisa chamada viver, pelo menos a imagem que se cola a uma impressão, depois, claro, cada um tece os seus juízos, para mim, ela permanece intemporalmente naquela infinita varanda (só uma criança compreende o infinito), mão em saudações para o nosso carro que se aproximava, e um sorriso que nos ensinava o que é regressar.

Agora, doze metros quadrados! Como pode ali caber uma vida? E logo a sua! De uma infinita varanda (só uma criança compreende o infinito) para uma janelinha despida (nem sequer a sua mão em saudações), cumprimento a recepcionista, que também tinha outras funções, há lugares assim, onde assimilamos as regras sem direito a réplica, como um quadro que nos é apresentado, sem vislumbre de esboço, ou aceitamos ou simplesmente partimos, mas a necessidade… Neste caso, permanece no primeiro-andar, talvez estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, que possibilidade de escolha se apresenta aos oitenta e cinco anos? Subo os dois lanços de escada, depois, o corredor, comprido, muito comprido, o chão a reflectir as luzes do tecto, tudo numa limpeza quase a raiar a impessoalidade, um silêncio de fim sobre as coisas, como se a vida tivesse partido para outras paragens, aqui e ali um quadro, insuficientes para disfarçar aquela melancolia respirável, bato ao de leve na porta, as molas da cama traduzem o esforço de se erguer, talvez estivesse absorta com um livro, talvez olhasse, da varanda de si, o que lá vai, talvez, a porta abre-se com um sorriso que nos ensina o que é regressar. E eu já não sou o eu de hoje, mas o de ontem, quando, pela janela do banco de trás, via a sua mão em saudações para o nosso carro que se aproximava, é curioso, nesse indefinível instante, ela também não a de hoje, mas a de ontem, por fim, tudo se dilui e regressamos à incómoda e fria circunstância do hoje, para restabelecer a familiaridade sempre aquelas frases impressas num sempre desbotado guião, Então, como tem passado? Essa saúde, como vai? Não se tem esquecido de tomar a medicação, certo? Quando, em verdade, queria perguntar-lhe o porquê de não ter visto a sua mão em saudações à janela. E que saudades de lhe ver a mão em saudações para um carro que se aproximava, e aquele sorriso que nos ensinava a regressar, a velha esquivou-se, como sempre, habilmente àquele desbotado guião, nunca teve paciência para teatralizações, optou pela cadeira e indicou-me um banco, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, olhou-me, neste ponto, não sei se sentia desconforto ou serenidade, partir não podia, o seu olhar ia longe, Ainda não te decidiste, pois não, meu filho? Às vezes, tinha a impressão de que não a visitava, pelo contrário, acho que me vinha ver, pensei em responder-lhe (Como sabe, Avó?), mas era uma resposta cansada, um regresso desnecessário à meninice, de facto, não, não me havia decidido, sentia-me tão perdido, ela continuava a olhar-me, acrescentou, Sabes, és dos poucos que ainda se lembra do caminho até aqui. Não censuro os teus irmãos, não penses isso, até compreendo, nunca há tempo para nada nisso a que vocês chamam vida… O que diria minha filha se vos visse? Nem um casamento sobreviveu! A sua voz apenas eco do seu pensar, apesar da idade, mantinha a sua inalterável postura, Às vezes, penso, para que é que se casam? Sabes, isto de viver é uma enorme canseira. No fundo, andamos para aqui, dez, vinte, de repente, quarenta, num ligeiro salto já estamos nos sessenta, um piscar de olhos, e vão oitenta e cinco anos, pois é… O problema é que, grande parte do tempo, fugimos da vida, arranjamos todo e qualquer subterfúgio para não olhar a vida nos olhos. Não, não me perguntes porquê. Isto acontece e ponto. Já deves ter consciência disto, certo? Como se fosse uma evidência desacreditada… Olhar a vida nos olhos! Ainda me lembro, a primeira vez, do alto daquela varanda, em que vi o teu avô. Sabes, não penses que foi assim há tanto, para mim, foi ontem. A vida é isto: nós e o tempo; cada um com o seu; no fim, o que resta é a memória, como cinzas a testemunhar um calor desaparecido… Não te demores a decidir, o tempo é um viajante apressado, e sempre a nossa angústia de não lhe sabermos o destino. Se não me arrependo de nada? Meu Deus, só os tolos dizem que não, repara, hoje as pernas pouco vão além deste quartito, ao menos, estas árvores em volta acalmam-me o pensar (nisto, levantou-se e foi até à janela), sabes, gostava de ter fugido menos da vida, e como conheci gente bem mais veloz… Mas respondo por mim. É estranho, olho-me dentro desta carcaça, por vezes não me reconheço ao espelho, porque no pensar continuo a menina que, do alto daquela varanda, viu ontem o teu avô pela primeira vez.


 

domingo, 3 de maio de 2026


 Como é invernoso aquele momento em que nos arrogamos no papel de juízes sobre quem nos colocou a caminhar pela terra…

in Nuvens passeantes pelas águas

segunda-feira, 27 de abril de 2026

A beata maledicente


 

Há figuras que, de tão obscuras, só nos apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto, amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez, estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na sua luz para todo o tipo de vilezas e hipocrisias, nem me alongo a inquisições e afins, por ora, basta-me o exemplo da beata maledicente; pagelas, contas rezadas entre dedos, olhar pregado no altar, assumir a dianteira, em procissões, com o marido, um rotundo idoso, igualmente rato de sacristia, ali vão, com folhas de palmeira na mão, hossanas gritadas, jamais sentidas, secundados por dezenas, dos tais que se infiltraram num ramo mais ortodoxo do catolicismo, tudo num delírio de cantorias e rezas, como se, por desígnio divino, fossem os escolhidos, cruz ao peito e filhos a rodos, dois sinais identitários, sem esquecer as cantorias e os retiros, bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos,” há, sem dúvida, uma lógica subjacente a estes contextos que permite a aproximação destas figuras, tudo somado, o que dali emerge? Uma beata maledicente! Há uns tempos, aproximou-se de um incauto sob o pretexto de alertar para um hipotético perigo, como ela gosta de falar de um pedestal (às vezes, questiono-me de onde provém tanta carência…), num mundo de sombras, qualquer gesto, de aparente bondade, afigura-se positivo, no entanto, o tempo, esse frio e cruel juiz dos factos da vida, desvelou as reais intenções da beata maledicente: ganhar a confiança daquele peão para o manipular no tabuleiro dos seus interesses… Quem diria? Uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade; e, pasme-se, pariu oito vezes, pelo menos… Como é possível?! Se assim são os beatos, imagine-se os satânicos! Como já havia referenciado, esta beata é pródiga em verborreia sobre a existência dos outros, muito canta, com uma folha de palmeira na mãozita, à cabeça das procissões, hossanas, mas a Palavra de Cristo é-lhe uma total incógnita, “Não deves julgar”, um dos mais sublimes mandamentos do Nazareno, não foi, de todo, assimilado por esta criatura, reconhecida pelo seu lodacento rasto, aqui chegados, resta questionar: Será escassez intelectual? Ou simplesmente um carácter torpe? De formação está nas misturas químicas, até aí bem distante do Logos, é vê-la a entrar em reuniões, à porta fechada, por corredores sombrios, para debitar informações colhidas a mais incautos, outra das curiosidades desta personagem, não são muitas, convenhamos, está precisamente no facto de ocultar os grisalhos com que o tempo a presenteou, ao contrário de outros elementos femininos da seita a que pertence, que se orgulham de cada grisalho como se uma bênção, desconheço se chegam a cantar hossanas, com uma folha de palmeira na mãozita, para celebrar a sua chegada, pois, é possível que sim, a beata maledicente gosta de passeios, uma forma de contornar o horário laboral, uma praxis sua de há muito, por estes dias, irá a caminho de Madrid, na companhia de uma Porcachona, imagine-se o conteúdo de tais diálogos: uma verborreia de baixo intelecto com os grunhidos enlameados em dejectos de uma Porcachona: nem restará um santinho no altar aquando do regresso… Até deixo uma sugestão: a beata maledicente levar a sua viola, a Porcachona um microfone para emitir os seus grunhidos, e que dupla promissora teríamos, bom, é melhor deixar a folha de palmeira fora da equação, não vá a Porcachona confundir com um dejecto e prontamente engoli-la… Caro leitor, não permita que estas linhas esmoreçam a sua fé, beatas maledicentes há em todos os cultos, que tenham parido oito vezes talvez não haja assim tantas, com tamanha verborreia, de baixo-intelecto, sobre a existência dos outros, também não, mas bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos.”

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A saudade de um sentir saudoso

 


Quando dei por mim, despia molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui, e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te? Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza, de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo, discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal, viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois, sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar? Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é? Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo… Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite, como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora, uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é porque sei a direcção de cada passo.

sábado, 18 de abril de 2026



 ... quanto mais se corre atrás de palavras, à mesa, maior é a dor escondida nos silêncios…

in Nuvens passeantes pelas águas