Olhavam-se, desde o primeiro momento, com
um certo azedume, só a imperativa educação conseguia aligeirar, vizinhas no mesmo
andar, a quase inevitabilidade diária de partilha do único elevador, andariam
pela mesma idade, aquele momento na existência onde se percebe que o ocaso está
próximo e o amanhecer uma realidade longínqua, uma arranjava-se de forma
prática e descontraída, detestava formalidades, a sua profissão não exigia
etiqueta, assim sendo, ela adoptou um estilo desportivo, confortável, nunca foi
adepta de unhas-pintadas, hoje falar-se de unhas é uma questão virada para o
pretérito, o que mais se vê, no quotidiano, são autênticas garras-afiladas
saídas dos dedos femininos, que nem sabres prontos a degolar incautos, nunca
soube o que é um salto-alto nos seus pés, ainda menos maquilhagem, defendia que
a beleza está na espontaneidade e no carácter natural das coisas, o marido
seguia-lhe os passos nesta forma de ser, convém para o equilíbrio do lar, pela
precoce idade, o filho de ambos aquém de tais escolhas, a outra era, como se
depreende pelo azedume aligeirado pela imperativa educação, o oposto,
arranjava-se com uma formalidade irrepreensível, de fato ou casaco e
saia-comprida, saltos-altos omnipresentes, maquilhagem reflectida pela luz baça
do elevador, unhas num vermelho-vivo ou numa côr mais neutra, a condizer com a
dos lábios, tudo orquestrado ao pormenor, o penteado indiciava horas e horas de
cabeleireiro, o marido também saía diariamente de fato e gravata, embora tão
mal lhe assentasse, os ombritos descarnados e estreitos deixavam cair a parte
superior do casaco para meio dos bracitos, repetia uma ou duas vezes a saudação
do momento (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito
boa-tarde… Boa-tarde…”), a cabeça em
ininterruptos movimentos verticais, um autêntico manguinhas-de-alpacas,
daquelas figuras que, avistadas de uma certa distância, já antevemos que nos
tentarão vender algo, um utilitário em terceira ou quarta mão ou uma cave, toda
virada a Norte, quase sem janelas, com um quarto, “E não comente esta
oportunidade com ninguém! Ainda sou despedido por lhe fazer este preço! Nem
imagina a procura… O sonho de muita gente! Considere-se um privilegiado por ter
esta possibilidade!”, a filha, teria a
idade do miúdo da frente, talvez um ou dois anos mais velha, um espelho da mãe, desapossada de qualquer
espontaneidade da meninice, vestidinhos pindéricos, colares, pulseiras e
unhas-pintadas, muito direita, mala-escolar pela mão, jamais mochila, desdém no
olhar quando via os da sua idade atrás de uma bola, suados e com um joelho
magoado, ao final da tarde, no regresso, quando se reencontravam no elevador, a
cena repetia-se, apenas o “Bom-dia…” trocado
pelo “Boa-tarde”, em verdade, este
azedume delas era bem mais profundo, cada uma espelhava à outra, sem se
aperceber, a sua inaptidão, a que se arranjava de forma prática e descontraída
gostaria, nem que fosse por uma vez, até num fim-de-semana, de sair vestida com
tudo orquestrado ao pormenor, deu por si, em certa ocasião, a vasculhar a sua
roupa para ver o que tinha de mais formal, apenas um vestido deveras anacrónico
dos tempos de solteira, paciência para cabeleireiro nunca lhe abundou, só o
barulho dos secadores e a frivolidade das conversas eram suficientes para a
repulsa ao leme das suas emoções, sempre achou, de extrema elegância, uma
mulher de saltos-altos, nunca o verbalizou, mas era-lhe uma ideia consolidada
desde muito cedo, a da formalidade irrepreensível desejava, há tanto,
libertar-se deste espartilho que já lhe asfixiava a alma, a imperativa escolha da
indumentária na véspera, o tempo roubado ao sono para maquilhagem e demais
adereços, os joelhos e coluna em gritos de socorro pelas demasiadas horas de
saltos-altos, o ignorado conceito de espontaneidade, a secura da pele do rosto
pelo excesso de maquilhagem, os cabelos quebradiços por tanto manuseio e
produtos no cabeleireiro, a consciência de ser uma réplica num contexto, sem
quaisquer vestígios da sua individualidade, ela, ao espelho, a questionar-se: “Em
que momento me perdi de mim?” E aquela
irritante vizinha, de costas voltadas para imperativos de véspera, que tanta
inveja lhe suscitava, teria mais ou menos a sua idade, apesar de, perante o seu
olhar, lhe parecer mais nova, despida do estatismo da formalidade, o marido
também se lhe afigurava mais novo que o seu, limitavam-se a cumprir com os mínimos
de educação, não debitavam cumprimentos sonoros e ensaiados (“Ora muito
bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), como a irritava esse lado exageradamente polido, nunca lhe disse, começava
a compreender o facto de certas questões deverem permanecer no verbo do pensar,
e tinham um filho, como ela desejou um menino, quando lhe disseram “Espero
que tenha um belo enxoval cor-de-rosa… Tem uma linda menina dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão
outonal, não perspectiva, neste momento, recomeçar os passos da maternidade, a
cama apenas um espaço onde repousar as dores de uma existência indesejada, olha-o ali,
a seu lado, nem resquícios de uma chama ida, projecta uma realidade distinta na
casa em frente, ainda assomos da vertigem da paixão, daí o estilo descontraído,
não havia tempo para etiquetas vespertinas, talvez não se enganasse, há muito a
vizinha, do estilo descontraído, a falar da filha do casal da frente, como ela
desejou uma menina, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval
azulinho… Tem um lindo rapagão dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, ele renitente,
nesta fase, em recomeçar os passos da paternidade, teriam inclusive de mudar de
casa, ali nem espaço para um animal de estimação, no dia seguinte, se, por
acaso, se encontrassem no único elevador, emergia a imperativa educação para
maquilhar um azedume com os tons da madrugada.
FINITUDES
Livros do Escritor
terça-feira, 21 de julho de 2026
Aparência e essência moram em ruas distintas
segunda-feira, 20 de julho de 2026
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Rio Pranto
Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era
verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o
caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida
complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases
complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa
travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele
lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da
recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos
espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que
sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos
que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez
em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente
cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de
os saber vivos, é curioso, nunca os viu deterem-se perto de garrotes e seringas
vazias, sabiam há muito quais as entradas para a morte, na porta ao lado da
pensãozita havia um barbeiro, só abria de tarde, segurava mais tempo o jornal
que a tesoura, como tema recorrente a guerra colonial, a mágoa imensa por ter
sido obrigado a entregar armas, quando afinal a guerra vencida, nunca se
conformou com a fictícia derrota e o antecipado regresso à metrópole, não havia
dia em que não se ouvisse, naqueles vinte e poucos metros quadrados, Um dia hei-de lá voltar! Assim que pisei
aquela terra, sabia onde pertencia. Sabe, foi como um clique em mim! E a
distância das coisas?! Ensina-nos como somos pequenos… Não é como aqui!
Acredite, não tem nada a ver! Sabe, lá tudo é em grande! Para onde quer que se
olhe, sempre a lonjura. Aqui nem horizonte temos! Vivemos numa estreita faixa
entre o mar e os espanhóis! E as cores? O que dizer das cores de lá? Nunca tive
alma de poeta, mas se me ajeitasse com palavras, teria feito uns versos àqueles
entardeceres… Palavra de honra! E o cheiro daquela terra? Então quando o
cacimbo pousa, parece um feitiço… Não adianta! Podia estar aqui o dia todo a
falar-lhe de lá, você nunca iria entender. Sabe, só quem lá esteve é que
percebe aquilo! É como uma febre que se nos colou à pele! Era comum, à
medida que avançava na sua prelecção, elevar a voz, talvez pelo entusiasmo,
pela saudade, pela dor de não ter regressado, talvez por tudo, o certo é que
África, todas as tardes, ecoava por aqueles passeios. Umas portas mais acima,
outro quadrado com vinte e poucos metros quadrados, mas ainda mais obscuro, lá
dentro um velhote, que arrastava uma perna, debruçado sobre uma mesa, lia uma
revista com as cores da meninice, se atentássemos bem, as prateleiras à volta,
em estantes que iam praticamente até ao tecto, estavam pejadas de livros e
revistas de heróis e suas aventuras, quase todos ali chegados de outros lares,
sinal de que os adeuses à infância se sucediam, por vezes, chegavam-lhe com
sacos, depositavam-nos no balcão com gestos nervosos de uma pressa
impronunciada, ele retirava um a um, com parcimónia, parecia prestar tributo a
cada obra, folheava, sopesava, analisava o estado geral, sempre que uma folha
rasgada ou risco, mandava para trás, era um princípio, tinha ali livros da
altura em que ainda não sabia ler, dizia que aquele espaço era mais um museu
que um negócio, volta e meia, retirava determinada revista, nem precisava de a
procurar muito naquele universo de papel, e orgulhosamente proclamava Não a vendo por dinheiro nenhum! Trata-se do
número um de uma colecção… E lá esclarecia o porquê, na sua voz rouca e
arrastada, de uma manuseada e amarelecida revista, quase decrépita aos nossos
olhos, ter um valor tão substancial, havia dias em que não entrava ninguém, mas
se atentássemos nos seus gestos e rosto, percebíamos, de imediato, que ele nem
dava conta, tal a abnegação com que arrumava, limpava, catalogava, ou
simplesmente relia, talvez a vista já o traísse, e pensasse ler o que apenas
relembrava, às vezes acontece, olhamos para trás a fim de nos sabermos ainda,
havia quem dissesse que tinha o maior espólio da nona arte da capital, talvez
do país, mas havia sempre um tom indulgente quando se referiam àquele espaço,
que tinha um peculiar cheiro a papel velho, tristemente iluminado, apenas uma
lâmpada no tecto que ameaçava fundir-se com insistência, de vinte e poucos
metros quadrados, forrado de histórias
aos quadradinhos, ele nem respondia, histórias
aos quadradinhos, mais que uma vez perguntaram-lhe Nunca leu um livro a sério? Nem respondia, limitava-se a relancear
uma expressão de desprezo e nada mais, falava pouco, com os anos, ainda menos,
olhava para o amanhã, os jovens do hoje, com uma apreensão constante, era seu
costume afirmar que não só perderam a capacidade do sonho como também lhes
roubaram a alma, vivem curvados para um rectângulo sem ao menos um porquê, muitas das histórias, que por
ali tem, relatam os esforços hercúleos de heróis que jamais se curvaram perante
os mais variados perigos, à sua volta só vê uma plural derrota assumida, sem
sequer um gesto de resistência riscar os céus da cidade, ao chegar a casa,
antes mesmo da chave, o miar da sua única companhia, pois, desde que… Entra e vai
logo encher uma malga de leite, um dia, iremos regressar a este solitário, que
vive entre histórias aos quadradinhos, malgas de leite, e aprendeu, com a vida,
a falar cada vez menos, voltemos à pensãozita esconsa, metida numa travessa
onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar,
estava naquele quarto há dois ou três dias quando se cruzou com ela na escada,
não lhe passou despercebido o facto de coxear ligeiramente da perna direita,
talvez cansaço pelo esforço da subida, percebeu-lhe um misto de uma genuína
curiosidade, quase infantil, e um cansaço nocturno que lhe sombreava gestos e
expressão, havia nela um desamparo tocante, como acontece com quase todos os
habitantes nocturnos, compreendeu, quase por intuição, que ela ali pertencia, mas,
ao mesmo tempo, pressentia-se-lhe uma desesperada ânsia de partir, ela olhou-o
de relance, não disfarçou espanto por um recém-chegado, cruzar-se-iam mais
vezes… Aquele desamparo tocante desequilibrou-lhe o sentir, mesmo nessa noite,
antes de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo, aquela mulher,
já devia avistar os quarenta, coxeava ligeiramente da perna direita,
regressar-lhe-ia, por mais que uma vez, ao pensar, há muito que adormecia sem
uma respiração a seu lado, sem uma inconsequente conversa de trivialidades, sem
o calor de um gesto de afecto, no fundo, sem amor… Desaguou naquela pensãozita
esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar
de sombras por aquele lugar, apenas com uma mochila e um saquito de plástico,
ele que já dobrara os quarenta e o passado cingia-se a uma mochila e um saquito
de plástico, mas por dentro um peso bem maior, daqueles que retardam o sono e
obscurecem sonhos, daí, quem sabe, aquela sua premente necessidade de devolver
transparência múltiplas vezes ao mesmo copo… Não demorou muito até que, certa
noite, ela sentada àquela mesma mesa, diante dele, a desviar-lhe o copo, porém,
a sua mão sôfrega em perseguição, mas ela revelava experiência de ilusionista
em ocultá-lo, falaram de trivialidades, e como lhe soube bem, por momentos,
ouvir outra voz que não a sua, há tanto que se cansara daqueles ecos dentro de
si, não se perguntaram o que faziam, não deixa de ser curioso, ela sempre com
um xaile pelos ombros, nalguns pontos desbotado e em ameaça de ruína,
percebeu-lhe campo nos gestos e fala, ela orgulhava-se disso, não escondia o
desejo de, um dia, regressar à terra, como se lá os problemas não encontrassem
uma porta de entrada, pois, havia nela um desamparo tocante, haveria outras
noites assim, partilhavam uma cerveja e um prego no pão, soube que ela tinha um
filho num internato, andaria pelos dez anos, ela apreciou a sua persistência
com a temática do filho, mas nunca enveredou pela identidade paterna, de novo,
a intuição a ditar-lhe a direcção do verbo, talvez nem ela soubesse tal
resposta, em verdade, ele já ouvira uns rumores acerca do seu ganha-pão, era mais discreta que aqueles
vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que
sombreavam estradas, a idade também já era outra, e o fruto do ofício tinha um
destino de dez anos, num colégio, que, assim que a via, lhe corria para os
braços e lhe açucarava o sentir, até que partiu dela a sugestão, certa noite,
após regressarem da cerveja e do prego no pão, a porta do quarto aberta, Não queres entrar? Ele ainda hesitou,
talvez algum eco gritasse dentro de si, contudo, reequilibrou-se e respondeu Sabes, não ando boa companhia… É melhor
ficar para outra altura. Até amanhã! Seguiu para o seu quarto, ficava no
andar de cima, os degraus denunciavam o esforço da subida, ela ficou, por mais
um pouco, à porta, hesitante entre a admiração pela decência do seu gesto e o
despeito pela recusa, pois, o orgulho feminino, um dos primeiros inquilinos da
terra, porém, a sua decisão brotou de uma outra fonte, que, no momento, ela não
descortinou, os tais rumores acerca do seu ganha-pão,
assim que fechou a porta do quarto, cuja única luz, nesse momento, provinha do
anúncio néon exterior, PENSÃO, em
letras verticais amarelas, com uma seta, em baixo, na direcção da entrada,
sentou-se pesadamente na cama, olhou o chão, tacos de madeira cansados por
inúmeras e apressadas visitas, o que restava de um tapete, nem a cor original
se conseguia decifrar, por um lado, inclinou-se a aceitar o convite e entrar,
afinal, havia nela um desamparo tocante, por outro, aqueles tortuosos rumores,
se por ali houvesse alguma verdade, seria ele mais um número do velho e triste
ofício? Por muitas voltas que desse, não conseguia aportar em nenhuma certeza…
terça-feira, 14 de julho de 2026
Alfazema
Não se recorda do momento exacto, não foi
há tanto assim, um café, com as colegas, na pausa para o almoço, e a dolorosa
certeza, de que a mentira está ao leme do acontecer, a crescer-lhe, com ela
eram quatro, à mesa, falavam de planos para as férias, de início, até por uma
curiosidade inconfessada, optou por ouvi-las, a primeira nota dissonante que
observou foi o entusiasmo suscitado pela temática, as três não indiciavam
existência para além do trabalho, talvez a primeira vez, tanto quanto se
lembra, de um assunto, fora do contexto de papéis por preencher, carimbar,
reuniões, mais reuniões, estatísticas, impressões de documentos, ser tema de
conversa, até se admirou, falavam de destinos sonhados com a confiança de quem
pede uma bica, até se inclinou para ouvir melhor, queria silenciar a
incredulidade que a dominava, quem, de início, se mostrou mais efusiva, foi
uma, de origens rurais, embora batalhe, no quotidiano, de forma incessante,
para ocultar essa génese de hortas, sacholas, carros-de-bois e piedosos terços
rezados com devoção, um casamento de montra, era a última, dia-após-dia, a
abandonar o escritório, não se lhe denotava um resquício de saudades do lar,
apesar de uma filha em tão precoce idade escolar, até lhe relataram que, antes do
lar, dia-após-dia, parava pelo ginásio, a flacidez das carnes não o indiciava,
um apeadeiro onde se demorar de um indesejado regresso, ouviu também relatos do
ar psicótico do marido dela, não se pode dar crédito a tudo o que se ouve, não
é verdade? Se houver algo de verdade nestas narrativas, a sua obsessão, diária,
em ser a última a sair, fica esclarecida, mas uma imperativa questão emerge: E
a filha? Quem lhe acompanha os passos? Ela continuou a debitar lugares-comuns,
num português rasteirinho, condizente com a figura, do sofrível penteado, que imobilizava
fios-capilares aparentemente queimados, à indumentária, o flagrante desarranjo
de uma fuga à ruralidade, há muito a sua paciência findara para esta figura,
bem como para as outras duas, a sua presença àquela mesa, após a hora de almoço,
deveu-se apenas a um factor: educação, nada mais; a frustração chegou ao ponto
de alguém entregar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar? Para onde
caminhamos? Em que momento se esqueceram simplesmente de ser? Quase não a
reconheceu, ali sentada, àquela mesa, a debitar destinos sonhados, com uma
irrepreensível segurança, qualquer incauto que a ouvisse teria muita
dificuldade em acreditar no facto de, diariamente, consagrar o seu ócio ao
lugar onde é obrigada a estar! Algo muito errado ali se passava, começou a sentir
distância face às demais, quem, de seguida, tomou a palavra, em verdade, há
muito virou costas a contextos laborais, de certa forma, foi-lhe imposto, por
sua vontade seria outra a consagrar o seu ócio ao lugar onde foi obrigada a
estar, sempre que as outras duas saem do lugar, que agora lhe foi vedado, ela
corre ao seu encontro, desde que dela se lembra, uma memória com mais de duas
décadas, sabe-a viúva, o pudor não lhe possibilitou entrar pelos porquês, coisa
rara por estes dias, o pudor, vistas daqui as coisas, nunca lhe vislumbrou
tristeza pelo rosto, daqueles casos em que o contacto mais estimula a repulsa,
uma qualquer estranha força, nitidamente invisível para os demais, aproximava
estas três figuras, ela nem a distância já sentia, era uma estrangeira àquela
mesa, destino escolhido, seguiram-se os hotéis, datas, percebeu que as três iam
juntas, uma, na aparência, casada e com uma filha menor, a outra viúva e
reformada, por fim, claro, faltava a divorciada, uma sujeita baixa, anafada,
com um semblante que transparecia a total amargura daquela alma, há divórcios
que nem precisam de justificação, os complexos manifestam-se de plurais formas,
no caso da anafada dava-lhe para uma oratória de pacotilha, nem todos possuem a
necessária clarividência para desconstruir o vazio daquelas mal formuladas
frases, a saloia, por exemplo, anuía a cada sílaba cuspida pela gorda, não é
muito salutar a sensação de nos sentirmos estrangeiros, no entanto, face àquele
contexto, ela considerou esse sentir como uma manifestação de salubridade mental,
volvidos quarenta e três minutos, compreendeu que se manteve em silêncio,
curioso o facto de nem uma hipotética frase lhe atravessar o espírito para
intervir, de si para si prometeu escudar-se em todas as desculpas possíveis
para jamais se sentar, de novo, a uma mesa com estas sujeitas, tanto falavam de
destinos de férias, as tais que consagravam o seu ócio ao lugar onde eram
obrigadas a estar, mas não lhe perguntaram pelo seu, talvez pela realidade do
seu casamento, a rapidez diária da sua partida de um lugar onde era obrigada a
estar, havia outro aspecto a diferenciá-la e muito daquele contexto: ela
simplesmente recusava-se a cair no esquecimento de ser.

