Livros do Escritor

Livros do Escritor

terça-feira, 14 de julho de 2026

Alfazema

 


Não se recorda do momento exacto, não foi há tanto assim, um café, com as colegas, na pausa para o almoço, e a dolorosa certeza, de que a mentira está ao leme do acontecer, a crescer-lhe, com ela eram quatro, à mesa, falavam de planos para as férias, de início, até por uma curiosidade inconfessada, optou por ouvi-las, a primeira nota dissonante que observou foi o entusiasmo suscitado pela temática, as três não indiciavam existência para além do trabalho, talvez a primeira vez, tanto quanto se lembra, de um assunto, fora do contexto de papéis por preencher, carimbar, reuniões, mais reuniões, estatísticas, impressões de documentos, ser tema de conversa, até se admirou, falavam de destinos sonhados com a confiança de quem pede uma bica, até se inclinou para ouvir melhor, queria silenciar a incredulidade que a dominava, quem, de início, se mostrou mais efusiva, foi uma, de origens rurais, embora batalhe, no quotidiano, de forma incessante, para ocultar essa génese de hortas, sacholas, carros-de-bois e piedosos terços rezados com devoção, um casamento de montra, era a última, dia-após-dia, a abandonar o escritório, não se lhe denotava um resquício de saudades do lar, apesar de uma filha em tão precoce idade escolar, até lhe relataram que, antes do lar, dia-após-dia, parava pelo ginásio, a flacidez das carnes não o indiciava, um apeadeiro onde se demorar de um indesejado regresso, ouviu também relatos do ar psicótico do marido dela, não se pode dar crédito a tudo o que se ouve, não é verdade? Se houver algo de verdade nestas narrativas, a sua obsessão, diária, em ser a última a sair, fica esclarecida, mas uma imperativa questão emerge: E a filha? Quem lhe acompanha os passos? Ela continuou a debitar lugares-comuns, num português rasteirinho, condizente com a figura, do sofrível penteado, que imobilizava fios-capilares aparentemente queimados, à indumentária, o flagrante desarranjo de uma fuga à ruralidade, há muito a sua paciência findara para esta figura, bem como para as outras duas, a sua presença àquela mesa, após a hora de almoço, deveu-se apenas a um factor: educação, nada mais; a frustração chegou ao ponto de alguém entregar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar? Para onde caminhamos? Em que momento se esqueceram simplesmente de ser? Quase não a reconheceu, ali sentada, àquela mesa, a debitar destinos sonhados, com uma irrepreensível segurança, qualquer incauto que a ouvisse teria muita dificuldade em acreditar no facto de, diariamente, consagrar o seu ócio ao lugar onde é obrigada a estar! Algo muito errado ali se passava, começou a sentir distância face às demais, quem, de seguida, tomou a palavra, em verdade, há muito virou costas a contextos laborais, de certa forma, foi-lhe imposto, por sua vontade seria outra a consagrar o seu ócio ao lugar onde foi obrigada a estar, sempre que as outras duas saem do lugar, que agora lhe foi vedado, ela corre ao seu encontro, desde que dela se lembra, uma memória com mais de duas décadas, sabe-a viúva, o pudor não lhe possibilitou entrar pelos porquês, coisa rara por estes dias, o pudor, vistas daqui as coisas, nunca lhe vislumbrou tristeza pelo rosto, daqueles casos em que o contacto mais estimula a repulsa, uma qualquer estranha força, nitidamente invisível para os demais, aproximava estas três figuras, ela nem a distância já sentia, era uma estrangeira àquela mesa, destino escolhido, seguiram-se os hotéis, datas, percebeu que as três iam juntas, uma, na aparência, casada e com uma filha menor, a outra viúva e reformada, por fim, claro, faltava a divorciada, uma sujeita baixa, anafada, com um semblante que transparecia a total amargura daquela alma, há divórcios que nem precisam de justificação, os complexos manifestam-se de plurais formas, no caso da anafada dava-lhe para uma oratória de pacotilha, nem todos possuem a necessária clarividência para desconstruir o vazio daquelas mal formuladas frases, a saloia, por exemplo, anuía a cada sílaba cuspida pela gorda, não é muito salutar a sensação de nos sentirmos estrangeiros, no entanto, face àquele contexto, ela considerou esse sentir como uma manifestação de salubridade mental, volvidos quarenta e três minutos, compreendeu que se manteve em silêncio, curioso o facto de nem uma hipotética frase lhe atravessar o espírito para intervir, de si para si prometeu escudar-se em todas as desculpas possíveis para jamais se sentar, de novo, a uma mesa com estas sujeitas, tanto falavam de destinos de férias, as tais que consagravam o seu ócio ao lugar onde eram obrigadas a estar, mas não lhe perguntaram pelo seu, talvez pela realidade do seu casamento, a rapidez diária da sua partida de um lugar onde era obrigada a estar, havia outro aspecto a diferenciá-la e muito daquele contexto: ela simplesmente recusava-se a cair no esquecimento de ser.

sábado, 11 de julho de 2026

O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde

 


Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar, de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, num esforço palpável e evidente, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, religiosamente cumpríamos o café, e aos Sábados também, servia para sairmos de casa e ajudava na digestão, apesar de ficar somente a umas dezenas de metros da nossa porta, no regresso, sobretudo Domingo à tarde, havia um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, uso o plural propositadamente, porque tenho a certeza de que este sentir de derrota era partilhado por ambos, a nossa passada no regresso a casa, Domingo à tarde, era desesperançada, lenta, reticente, sabíamos que já nada esperávamos de novo nesta coisa chamada viver, a mim, esperava-me a tábua de engomar, ao menos voltada para a televisão, a ele, o sofá com o jornal dobrado, nunca o conseguia finalizar numa manhã, até à janta, por ali ficávamos, a certa altura, sei que a cabeça dele começaria a pender, a pender, cada vez mais, até que a respiração se adensava, nessa altura, eu logo a baixar o volume da televisão, não o queria incomodar, coitado, pelo menos, assim o esperava, em algum momento estaria longe das agruras do trabalho, das contas que sempre aportam mensalmente na caixa-do-correio, das hesitações do miúdo com o curso que escolheu, deste sentir de derrota partilhado por ambos em Domingos à tarde, pois, isto prolongou-se até que, no meu reflexo ao espelho, o cabelo com sinais invernosos, o dele não tanto, talvez por escassear, pois, como dizia, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, ele Precisamos de conversar, percebi, de imediato, numa qualquer parte de mim, que tudo iria mudar, à medida que ele falava, falava, eu partira para longe, já não o ouvia, talvez por lhe saber a mensagem, Sabes, é muito difícil o que te tenho para dizer. Acredita-me que o é! Nem sei bem por onde começar… (Neste ponto, só queria saber se ele demoraria a despejar o que eu há muito sabia). Dizemos o que queremos ser, mas só somos o que fazemos. O meu pai muito repetia: “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E acrescentava de imediato: “Homem?! É lá isso um homem??? É mais um rato!!!” Creio, sinceramente, que me fui desapaixonando dele, assim que a porta de casa se fechou e iniciámos aquele estar a dois dentro de paredes, pareceu-me que, afinal, ali estava um estranho a quem nada tinha para comunicar, como se as palavras tivessem partido de mim para um local inatingível, não, em verdade, acho que foi antes, após o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, como se me questionasse Afinal, é só isto? Seguiu-se aquela semana nas termas, os meus sogros sempre com a conversa das termas, Faz bem à saúde! Vocês vão ver! Vêm de lá fresquinhos, ainda mais novos, e, Deus permita, já com um herdeiro providenciado, eu, abismada, ouvia-os sem sequer esboçar uma resposta, limitava-me a esconder atrás de um polido sorriso, mas a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção… Acho, em verdade, que contribuí sobremaneira para o Precisamos de conversar, o naufrágio de um lar nunca é singular, desde o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, e deixei-me ir, apenas, ele O que achas? Eu Como quiseres. Escolhe tu. Ele O que te parece? Eu O que decidires, para mim, está bem. Assim foi, do candeeiro de sala ao local de férias, até o nome do miúdo, deixei que ele escolhesse, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, desde o início, aquela semana nas termas, após o Sim diante do altar, ele procurava-me polidamente, neste particular, sempre muito respeitoso, correspondia pela curiosidade de saber como é, contudo, no fim, aquela sensação nunca de mim partia Afinal, é só isto? Ele cumpria, quase mecanicamente, pois, o naufrágio de um lar nunca é singular, eu em apatia, depois, água a escorrer no bidé, sabão, regresso aos lençóis para o repouso pelo dia que virá, ainda me passava a mão pelos cabelos, nesse ponto, já me fingia adormecida, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, as procuras nocturnas dele tornaram-se esparsas, de certa forma, agradecia, por volta dos nossos dois anos daquele estar a dois dentro de paredes, o nome de uma colega de trabalho surgiu lá por casa, não me escapou a alteração com que foi entoado, mas não me importou, em verdade, senti-me reconciliada, por fim, talvez alguém viesse ocupar o lugar que lhe estava destinado, e assim retomar a harmonia das coisas, porém, foi mais ou menos por estes dias, o nome da colega ainda pairava lá por casa, entoado musicalmente, a minha natureza mensal por se cumprir, no mês seguinte sucedeu o mesmo, farmácia, teste, consulta, médico, reconfirmado, minha mãe numa felicidade transparecida até aos olhos, meu pai emocionado, continha a alegria numa divisão de si muito bem fechada (como o percebia!), é-nos mais fácil compreender espelhos, após uma exaustiva insistência de meus pais, contei-lhe, por fim, nessa noite, ocultei o facto de estar já no segundo mês, bem como, para não lhe ferir a susceptibilidade, o conhecimento prévio dos meus progenitores, ele sentou-se, mais concretamente, deixou-se cair, respirou fundo, não sem antes esticar as pernas, olhou a televisão sem olhar o que por ali se passava, pôs-se a beliscar a bochecha direita, tinha este hábito sempre que a vida o obrigava a pensá-la, murmurava qualquer coisa que, para mim, era indecifrável, mas havia um traço na sua expressão de uma felicidade irreprimível, fui até à cozinha terminar algo, há sempre qualquer coisa fora do lugar dentro de uma casa, percebi-lhe os passos atrás de mim, os braços a envolverem-me, e segredou-me, repetidamente, na linguagem do sentir, Estou tão feliz… Estou tão feliz… Estou tão feliz… Senti-me reconfortada, confesso, mas aquela sensação, de que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, há muito se alojara numa qualquer divisão de mim, pelo menos, durante uns tempos, não houve nomes de colegas entoados musicalmente lá por casa, a gravidez prosseguia em paralelo com a minha indiferença face a tudo, cumpria cada tarefa numa frieza autómata, houve momentos (e como foram plurais, meu Deus!) em que ele tentou desfazer equívocos de papéis errados, por outras palavras, ele foi até onde a paciência lhe permitiu para diluir esta minha apatia, contudo, foi lesto a compreender o malogro dos seus esforços. O parto, ao menos a anestesia, devia haver outra que calasse as dores do depois, a criança (como gritava!), a enfermeira, insuportável, Pegue-lhe, mulher! É seu filho! Os pais dele em histeria, à minha volta e do miúdo, a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, eu em apatia, a uma distância das coisas que me equilibrava, neste ponto, face à insistência da enfermeira (Pegue-lhe, mulher! É seu filho!) que, pareceu-me, assumia laivos coléricos, deixei-me ir, iniciei-me na arte de representar, peguei na criança, deformei o rosto com um sorriso plástico, respondia por monossílabos ou em anuências, e, de repente, tudo à minha volta mudou, já não era uma estranha, passei a ser aceite pelos demais, até ele passou a direccionar-me frases despojadas de quaisquer cifras ou barreiras, por uns tempos, não destoávamos de qualquer outro lar, cada um cumpria o papel que lhe estava reservado antes de sequer ser, pois, a harmonia das coisas, porém, fui eu que acusei o esforço exigido pela representação, comecei a caminhar na minha direcção, a distância, a apatia, por fim, regressei-me, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, duas décadas, houve quatro ou cinco nomes de colegas entoados, com alguma insistência, melodiosamente, até que, nesse Domingo de tarde, ele Precisamos de conversar… No fundo, já o esperava, não compreendo como foi possível ele ter esperado tanto? Duas décadas de um tremendo equívoco! Confesso a minha admiração por alguns traços do seu carácter, era asseado e polido naqueles momentos, a esmerada dedicação ao filho, jamais nos levantou a voz, acho que, em certa medida, lhe foi conveniente a minha apatia, no fundo, talvez nunca tenha verdadeiramente deixado o lar paterno, sempre aquela gargalhada escancarada e indecorosa, assim secundava cada frase do pai, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, algo que revoltava o meu, aquela notória subserviência dele, “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E agora, neste Domingo à tarde, após o almoço, regressamos do café, um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, ele Precisamos de conversar… Eu pensei, espera, espera só mais um pouco, talvez se ele olhasse lá para fora, visse que a noite já pousava a mala.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Vamos à vida, porque a morte é certa


 

Nunca gostei de frases-feitas, daquelas máximas com o seu carácter irredutível, a pairar como uma sentença, uma inevitabilidade, daí a minha resistência, na manhã da vida era recorrente ouvir a frase em epígrafe, sobretudo após o términus do almoço, era dita com entusiasmo e simultaneamente resignação (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), talvez por, na altura, a sola dos meus sapatos estar quase incólume – apesar disso, em certos pontos denotava-se a rugosidade de alguns solos percorridos, a manhã da existência não é assim tão luminosa, tudo depende da capacidade de reconhecer sombras –, não encontrava argumentos para rebater tão lacónica máxima (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), hoje prontamente questionaria: O que é isso da vida? Das múltiplas respostas lidas e estudadas, confesso que nenhuma me satisfez, de facto, ninguém, até hoje, respondeu ao que é a vida, mas sim à sua perspectiva de a viver, realidades bem distintas, pouco me importa como os outros a vivem, eu continuo em busca da minha perspectiva, que tanto se foi alterando com o tempo, em verdade, ainda não a encontrei, se invejo os que têm uma pronta resposta para oferecer? Nada, têm a sola dos sapatos tão gasta quanto eu na manhã da vida, o caminho, de forma subtil, muda-nos as paisagens interiores, há uns dias encontrei, num contexto distinto, uns vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, no entanto, brilha como poucos na garagem, a inépcia dele para a condução é gritante, para estacionar vai à frente, vem atrás, mais uma vez, vai à frente, vem atrás, outra ainda, vai à frente, vem atrás, ela já de fora, a supervisionar tão delicada manobra, quando o meu sistema-nervoso tem o infortúnio de com eles se cruzar, sobretudo na garagem, em convulsão, não por antipatizar, mas por lhes reconhecer uma resignação face à existência que me é uma flagrante antítese, a lentidão estende-se-lhes dos gestos às palavras, um semi-sorriso omnipresente no rosto, tudo grita, tudo cala, dali não virá qualquer gesto de irreverência ou profecia face ao acontecer, somente lugares-comuns, o comezinho do quotidiano, os inevitáveis envelopes que, mês após mês, aportam na caixa-do-correio, o minguar dos sacos em contraste com o engordar da conta no super-mercado, a singularidade destas figuras reside precisamente no automóvel, quase tão velho quanto eles, contudo, repito, brilha como poucos na garagem, até os interiores se mantêm quase imaculados, e saem, todos os dias, pelo menos, duas vezes, sempre juntos, com o tempo, os casais vão-se assemelhando, dos gestos estende-se até à aparência, um estranho fenómeno pouco discutido, há na sua aparência, sem dúvida, uma quase irmandade, paixão não lhes consigo descortinar, nem sequer cinzas, percebo nela um certo ascendente, apesar de só ele assumir o volante, não obstante a total ausência de vocação, só o roda mediante as coordenadas ditadas por ela, sublinho não ser pelo facto da idade que não lhes encontro resquícios paixão, há casais onde essa centelha tremeluz até à despedida final, denominam-se “histórias de amor,” e não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor”, aqui chegado, regressa-me a questão: O que é isso da vida? Por muito que me custe, só posso responder invertendo a questão: “O que não é viver?” Tem sido este o caminho até aqui percorrido, no hoje, pela maioria, sob a vertigem da ilusão, na efemeridade de um artificial palco, todos procuram expor dias solarengos, luminosas risadas, paisagens oníricas, até o que está no prato (em termos de estupidez, atingimos os subterrâneos), com longos planos de filmagem, ângulos próximos, para granjear admiração e a ideia de bolsos fartos, bilhetes com destinos longínquos, poses artificiais que, a qualquer inteligência, com o mínimo de fulgor, apenas suscitam compaixão ou risadas, tudo, que nem ovelhas, a caminho do espectáculo mais propalado, fotos e mais fotos à porta, ninguém concebe ficar de fora, o sentir de pertença, tristes ovelhas a exibir o ferrete do dono sob a forma de uma pulseirita que lhes abre as portas do redil, tudo num delírio quotidiano que, no fundo, responde não a uma questão, mas a um desejo: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Por ali a Dor não encontra porta-de-entrada, se a pressentem, logo excluem, atiram para bem longe, a Dor jamais entra nesta equação: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Só que caminhar é sofrer, nada é mais doloroso que despertar, como invejo os tolinhos, são bem mais felizes, ainda não concluí se os meus vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, representam, pois, a máscara, sempre a máscara, para calar suspeitas de se aperceberem dos perigosos redis do hoje, ou se, por outro lado, não tiveram a audácia de questionar algo essencial: O que é isso da vida? Não posso apresentar uma conclusão, seria falacioso, por conseguinte, nada ético, não os concebo num redil, basta atentar nas quase três décadas de idade da sua viatura, não correram, em histeria, por um último modelo acabado de ser publicitado de todas as formas possíveis, pelo contrário, permanecem impassíveis, na sua bonomia, às influências exteriores, porém, eu não o imagino a tomá-la nos braços, inclinar-lhe o corpo ligeiramente para trás, aproximar os seus lábios dos dela, murmurar-lhe palavras de amor, e, por fim, beijá-la sem amanhãs – não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor” – pois, não consigo, a sua apatia liquida o germinar de qualquer ideário desta índole, na minha memória perduram dois ou três momentos que, com a maior das facilidades, respondem a essa perturbadora questão (O que é isso da vida?), quantos se podem gabar de, na memória, guardar tais respostas ? Confesso desconhecer, talvez por isso não ceda a delírios quotidianos e cultive um desprezo visceral para com os múltiplos redis do hoje.

sábado, 4 de julho de 2026


A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança...

in Saudades do futuro

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Saudades do futuro

 


Há gente que, não sei porquê, parece que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, como se fossem imunes à mudança, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, talvez o tempo tenha virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da próxima esquina. Talvez haja quem tenha trilhado os dois, e possa avaliar as paisagens decorrentes… Vinda sei eu lá de onde, a imagem dela, segue-se a da mãe, magra, muito compenetrada, falava sempre baixinho, ligeiramente acima do sussurro, o que conferia às suas palavras um relevo substancial, ela, de laçarotes, uns palmos abaixo, aquém das verdades inolvidáveis sussurradas pela mãe, que iam de um lamento pelo preço do pão ao exausto reiterar das vantagens da vida na província, tudo isto, repito, entoado sempre baixinho, eu ouvia-a fascinado, bebia as suas palavras como se de seculares revelações se tratassem, Foi pena, sabe, muito direita, compenetrada, assim iniciava cada prelecção, minha mãe, talvez agrilhoada pelo seu politicamente correcto, ouvi-a com uma expressão de espanto, como se de uma primeira vez se tratasse, … Nem imagina! Lá tínhamos uma vida tão boa! Do que sinto mais falta é da minha hortinha! Não havia dia em que não pegasse na sachola para a tratar! E o espaço? Sabe, quantas vezes me perdia com as lonjuras? No frio, a brancura nos montes, com o calor, chegavam as andorinhas… Vivíamos ritmados pelo tempo. Aqui, às vezes, até me esqueço em que estação estamos! Para ver o céu, tenho de sair de casa! Onde já se viu uma coisa assim? Não percebo, de todo, esta gente que troca a província por isto! Uma coisa lhe garanto: isto não é viver! Se não fosse pelo meu marido, aceitava lá viver encaixotada… Sinceramente, até sabemos a que horas cada vizinho vai à casa-de-banho! É lá isto viver? E na rua? Ninguém se cumprimenta! Pelo contrário, há quem se finja de distraído para o evitar fazer… Creio que, a certa altura, minha mãe anuía por convicção, afinal, quem pode resistir a seculares revelações? O marido era carteiro, um daqueles sujeitos que, para mim, já nasceram idosos, afinal, os adultos sempre me pareceram velhos, aborrecidos, com umas conversas sonolentas, balizadas entre dinheiro e crises, a única ponte para o meu mundo chamava-se futebol, de facto, por aqui transitavam algumas conversas, mas, como dizia, o marido dela só o concebia sentado num sofá, de jornal na mão ou a sorver atentamente as notícias, neste particular, a minha imaginação padecia de uma total esterilidade, tal a bonomia da figura em apreço, também não era muito audível, quando nos cruzávamos nas escadas, ficava-se por um educado cumprimento, mas entoado baixinho, ligeiramente acima do sussurro, tal como sua mulher, aquele era, de facto, um lar de silêncios e de amanhãs há muito conhecidos. A filha, de laçarotes, uns palmos abaixo, acompanhava-os naquela discrição, limitava-se a sorrir à sua volta, pouco mais, não vinha para a rua brincar, talvez a mãe nos achasse barulhentos, de facto, íamos muito para além do sussurro, era uns três anos mais nova que eu, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, na velhice, é curioso, uma década é apenas mais um ontem, o tempo altera-nos sem se alterar, sempre aquele caudal inexorável que, imperceptivelmente, nos leva, leva, leva para o fim, e nós agarramo-nos a tudo para ocultar esta sempre calada evidência. Há uns dias via-a na rua, volta e meia, tenho este hábito, está em mim, já percebi que não há como lhe fugir, e também não o quero, regresso aos lugares do ontem, sempre desconfiei que talvez eu ainda por lá esteja, queria rever-me, cumprimentar-me, no fundo, é tão simples, dizer-me para não ter pressa. A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança, bom, como dizia, este hábito de regressar aos lugares do ontem, ela descia a rua, nem sei como a reconheci, sem laçarotes, nem palmos abaixo, longe, muito longe, daquele discreto silêncio, porém, foi qualquer coisa na sua expressão, talvez o mesmo sorriso apesar da face mais redonda, sei que não me viu, acho que não me reconheceria, pois, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, e ela não descia para brincar connosco, talvez a mãe nos achasse barulhentos, como dizia, ela ia rua abaixo, na considerável distância de um ar compenetrado, nem vestígios, por ali, de sussurrar palavras, continuei a olhá-la, pelo retrovisor, na esperança de que sua mãe, num repente, surgisse, rua abaixo, atrás dela, pronta a levá-la para casa, afinal, esquecera-se dos laçarotes e, por aqueles lados, há tanto barulho… Contudo, não sei de onde me chegou esta ideia, pareceu-me que os seus pais cumpriram o regresso final, possivelmente repousam, para sempre, voltados para as lonjuras, no frio, a brancura nos montes, com o calor, chegam as andorinhas.