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Distância

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  O outro surge-nos, na maioria das vezes, de forma indirecta, ou seja, pela boca de quem nos rodeia, neste aspecto, confesso a minha independência de espírito, registo a informação, mas aguardo o necessário para retirar as minhas ilacções, felizmente nem sempre coincidentes com as bocas alheias, neste caso há uma ambivalência, a seu tempo lá iremos, ela despedia-se do Outono da vida, uma fase, desconheço a razão, em que quase tudo se releva e compreende, se há insistentes atrasos no trabalho (“Coitada! Já trabalhou que chegue! Quando chegar à idade dela, estarei bem pior… Temos de compreender. Muito bem está ela!”), se zarpa bastas vezes mais cedo (“Não quis dizer, mas deve ir ao médico… Talvez alterar a medicação… Algum problema que quis guardar para si… É muito discreta…”), certo é que alguém cumpriria o seu papel, quando apanhava gente manhosa, como este mundo é pródigo nesta espécie, os problemas multiplicavam-se-lhe, e ninguém escapa, na sua caminhada, a cruzar-se com estes...
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Rua do Sol

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  Hoje vi-o, passeio fora, orgulhoso, com uma bicicleta pela mão, notava-se-lhe o tempo, mas, ainda assim, apresentável, percebi, de imediato, o destinatário, a essa hora olharia o quadro, verde, diante de si, talvez com uma frase para decompor ou uma conta de multiplicar, uma mão suportava os sonhos que lhe enchiam o pensar, enquanto a outra (com um lápis? Uma caneta?) fingia interesse pelo que se passava no quadro, àquela hora (aproximava-se o regresso a qualquer coisa de nome lar) as escassas refeições do dia empurravam-no para um sono crescente, andava por aqui há pouco mais de meia dúzia de anos, contudo, aprendera que o encolher do estômago é proporcional ao alargar dos sonhos, nisto uma frase estridente fá-lo regressar-se e estremecer Perceberam, meninos? Ele a formular uma surda questão para si Perceber o quê? Os sapatos que, de tão apertados, mal lhe permitiam caminhar, quanto mais correr atrás de uma bola, as calças que se cobriam de remendos, o casaco anacrónico que insi...

Pelas costas tudo se diz, tudo se faz…

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  Compreendi, há uns tempos, por estes lados, haver uma geração a viver às custas dos dividendos da anterior – propriedades, imóveis, jóias, quantias herdadas, enfim, tudo o que possua cifra –, por norma, apresentam uma postura arrogante (autênticas figurinhas que gostariam de passar por figurões, mas uma figurinha jamais chegará a figurão, aqui reside o paradoxo), sapientes de algo que os próprios desconhecem na sua infinita ignorância, como se, pela circunstância de nada terem construído, de palpável, com o seu engenho e esforço, por outras palavras, o conceito de trabalho ser-lhes deveras longínquo, uma realidade insondável, horários para cumprir, transportes-públicos, as omnipresentes contas mensais, a verdade que o comum cidadão conhece até ao fel da sua essência, pelo simples facto de não ter o privilégio de um porto-de-abrigo providenciado pelos seus antecedentes, pudessem opinar sobre tudo que julgam ver, assim sendo, sem horário para cumprir, os dias avizinham-se longos e ...