... um café é o centro do mundo, não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros, não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o meu curso...
in Nuvens passeantes pelas águas
Sempre que sexta-feira, fim de
tarde, Despacha-te começa a
repetir-se lá por casa, a voz de minha mãe num volume crescente, os meus nervos
em parelha com a sua volumetria, eu perdida atrás de objectos que insistem, não
sei porquê, em esconder-se de mim quando estou refém da pressa, percorro as
escassas divisões da casa que, em momentos assim, se me afiguram planícies de
horizontes inalcançáveis, uma vez mais Despacha-te,
outra ainda, Despacha-te, nisto a
campainha, apresso-me a atender, já sei que voz me aguardava, Sim, despacha-te, tenho o carro mal
estacionado, meu pai também com o recorrente despacha-te, peguei na mochila que, entretanto, pousara no sofá,
dirigi-me para a porta, antes de a alcançar, a voz de minha mãe antecipa-se, Olha lá, nem te despedes? Não desacelero
o passo, secamente respondo-lhe, Afinal,
não tenho de me despachar? Percebo que fica, nas minhas costas, a ruminar
qualquer coisa, já não me interessa, a porta, o elevador, a rua, o carro do meu
pai em segunda fila, apesar dos inúmeros lugares por ocupar àquela hora,
percebo-lhe impaciência nos dedos, assim que me abeiro da viatura, para abrir a
porta, compreendo-me habitante de uma zona indistinta, uma apátrida, nada
de novo, confesso, mas, desta vez, não sei porquê, sinto as coisas com uma
força que me atomiza ainda mais, talvez pelo despacha-te pronunciado por ambos, ela desejosa da minha partida
por um café agendado, para essa tarde, com aquele senhor do lote três,
divorciado há uns oito anos, educado, bem-falante, ouvi dizer que trabalha num
notário, a ideia de minha mãe com outro homem, que não meu pai, começou a
ganhar terreno no espaço do meu pensar, afinal, praticamente após ter batido,
de uma forma irrepetível, creio que ressoou por todo o bairro, a porta de casa,
para jamais regressar, já lá vão seis anos, parece que foi há uma semana, e
seis anos passaram por todos nós, como dizia, praticamente após ter batido a
porta de casa, aquela brasileira colou-se ao meu pai, dez anos mais nova, mas
com uma agilidade no viver que ele jamais terá, por ali, se alguém batesse uma
porta, de uma forma irrepetível, para que ressoasse em todo o bairro, só podia
ser ela, não a suporto, confesso, porém, reconheço o quão ele anda
apatetadamente feliz, de certa forma, parece que se despediu dos cinquenta e
disse olá, de novo, aos vinte e poucos… Do vestir aos gestos, tudo se alterou,
tornaram-se mais leves e expansivos, só quando ela Amor, a gente não pode adiar por muito mais, né? Cê tá-me ouvindo,
coração? Nesses instantes, ele recupera o cinzentismo que tão bem lhe
conheço, divaga um pouco, mas ela possui uma agilidade no viver que ele jamais
terá, daí que não me admire se, dentro de muito pouco, não for contemplada com
um irmãozinho, ou talvez já tenha sido, assim que me sento, Estava a ver que nunca mais vinhas! Quantas
vezes tenho de repetir para te despachares? Sabes muito bem que esta rua me
deixa nervoso! Nem vou olhar para cima! Já sei que a tua mãe me espia por
detrás do cortinado… Sabes, foi um inferno aquele casamento, um verdadeiro
inferno… Não sei como aguentei tanto tempo! Quando penso nisso, só posso
concluir que estava doido! Onde se viu uma coisa assim? E, até chegarmos à
sua casa, o monólogo prosseguia, sempre neste registo, já não me espantava pela
repetida ausência de uma questão essencial: Como
estás? Mas nunca me conformei com o facto de, nem por um segundo, se deter
para me olhar… Por esta altura, ela já devia andar de volta do espelho, a
aprimorar a maquilhagem, afinal, o café agendado, para essa tarde, com aquele
senhor do lote três, divorciado há uns oito anos, educado, bem-falante, ouvi
dizer que trabalha num notário, numa zona de mim, torço por ela, ainda tenho
presente as lamelas que engoliu nos meses que se seguiram à porta que ressoou
por todo o bairro, nem saía de casa, em verdade, mal se levantava da cama,
assim que chegava da escola, eu assumia o papel de dona de casa, de facto,
aprendi a vida dos adultos nessa altura, teria perto de doze anos, hoje, se me
perguntassem de quem foi a culpa da porta ter ressoado daquela maneira, não
tenho resposta unívoca, afinal, as coisas
são sempre plurais… É factual que ela o asfixiava com exigências, de vária
ordem: a cansada insistência em elevar o nível de vida, uma efectiva
colaboração doméstica, de renunciar aos copos com amigos aos fins-de-semana
para acompanhá-la nos infindáveis passeios por montras e corredores
artificialmente iluminados (logo ele, coitado, com uma infância e juventude de
província, mais propriamente na Beira-Alta, habituado a tactear nuvens e a olhar
distâncias…); a renúncia dela a mais filhos também o frustrou, neste
particular, ele foi persistente, talvez por ser filho único compreendesse, numa
além-teoria, as agruras da solidão, porém, ela irredutível Nem penses nisso! Julgas que, algum dia, voltava a passar por tudo
aquilo outra vez? Ainda tenho as dores gravadas em mim! Sempre ouvi, das
outras mães, falar em dores esquecidas assim que o filho uma realidade, como se
tudo valesse a pena, mas da minha, nada, apenas a memória da dor… Mesmo assim,
eu torço por ela, afinal, o café agendado para esta tarde, entretanto, estamos
quase na rua do meu pai, continua sem se deter, nem por um segundo, para me
olhar, há coisas, na vida, a que nos habituamos, há outras, porém, que só
silenciamos, esta pertence, em definitivo, à segunda categoria, se me
perguntassem o porquê do seu desejo por mais filhos, só perspectivo a ânsia
dele por um filho, sem dúvida, acho que sempre quis um rapaz, em relação à
minha mãe, ele com a sua crónica dificuldade na linguagem dos afectos, ela
queria um apoio permanente, nunca percebeu que ele provinha das alturas,
habituado a tactear nuvens e a olhar distâncias, o tempo foi-lhes fatal, só
acentuou a desamparada solidão que neles sempre viveu, e como os fins-de-semana
eram longos… Parecia que as sombras se imobilizavam e jocosamente nos olhavam
para espelhar infelicidades impronunciadas. Cada um de nós edificou o seu mundo
para conseguir sobreviver, acho que a minha tarefa foi mais facilitada, afinal,
é a vida que nos vai descolorindo os sonhos, se hoje me pedissem para edificar
algo, quanto mais um sonho, não saberia por onde começar, se ao menos o meu pai
se detivesse, nem que fosse por um segundo, para me olhar, pois, eu sei, a sua
crónica dificuldade na linguagem dos afectos, é possível que, em algum momento,
minha mãe se tenha apercebido de que, há muito, ele não se detivesse para a
olhar, nem que fosse por um segundo, é possível… Hoje sei-me uma habitante de
uma zona indistinta, uma apátrida, já não me preocupa assim tanto, acredito que
ajuda a escolher amanhãs, e a quem não se detiver para me olhar demoradamente,
nem ouso pousar a bagagem, prossigo de imediato a marcha, não quero, no
anoitecer da vida, jogar tudo num café agendado para a tarde.
Bem sei que hoje quase não há cestos
de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua
missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas
pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo
ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da
ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e,
raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de
papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir,
parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos
desarrumou as coisas. É mais ou menos assim que me sinto, quando se subtraem ou
se alteram paisagens do passado. Mais doloroso que nos subtraírem o futuro, é
roubarem-nos o passado. Porque aí tiram-nos as certezas: do que foi, ou
julgávamos ter sido… De certa forma, é correcto afirmar que uma frase
silenciada tem como destino um qualquer cesto de papéis da nossa alma. E como o
meu está cheio! Com o tempo, aprendemos o silêncio, é uma aproximação lenta, os
anos passam, nós mudamos, não é o mundo que muda, sempre esta ilusão, e, de
repente, respiramos fundo pela harmonia de nos sabermos em silêncio, o resto
estridente do mundo já numa distância imensa, nós naquele instante de
serenidade, talvez permita vasculhar o cesto de papéis da nossa alma, meu Deus,
o que para aqui vai! Não sabia que ficara tanto por dizer… Baixo-me junto do
cesto, está quase a abarrotar, talvez seja melhor sentar-me, sim, sem dúvida,
começo a vasculhar papéis, enfio o braço quase até ao fundo, retiro daí uma
folha amarfanhada, reparo na evolução da minha caligrafia pelo tempo, afinal,
já em criança silenciava sentires… De repente, não sei de onde veio, irrompe, no
caminho do meu pensar, a imagem daquele cão a examinar passeios anoitecidos
numa minúcia detectivesca, dois passos atrás, em esforço pela trela, ela
seguia-o quase numa devoção religiosa, saíam sempre à mesma hora, via-os da
janela, para mim, sempre a rapariga do cão, não sei porquê, enternecia-me,
havia tanta feminilidade em cada gesto seu, apreciava-lhe a lenta suavidade de
ajeitar os cabelos para trás da orelha, um gesto tão repetido, mas para mim
sempre novo, não me cansava de o rever, as ruas, àquela hora, já iluminadas
pelos lamuriosos candeeiros nocturnos, sabia-lhes a rota, iam até ao final da
praceta, cerca de centena e meia de metros, e regressavam, ela dois passos
atrás, em esforço pela trela, até que, certa noite, um sujeito, à mesma hora, também
com um cão, mas apenas um passo atrás, não se lhe denotava esforço pela trela,
o primeiro contacto foi ao nível do passeio, pararam, olharam-se, por fim,
cheiraram-se, as caudas ininterruptas, como leques, ela, uma vez mais, a
ajeitar os cabelos para trás da orelha, contudo, desta vez, foi célere, como
sempre acontece nestas ocasiões, as palavras trocadas tinham como pano de fundo
os ininterruptos leques abaixo dos joelhos (Não
se preocupe que não morde! É menino ou menina? Ainda é novinho, certo? A minha
também não. É muito meiguinha e sociável. Tenho-a há três anos, foi-me dada com
dois meses…), por norma, é este tipo de frases que se ouvem quando duas ou
mais trelas se imobilizam, com uma ou outra variação, de vacinas, a escalada
dos preços na saúde dos amigos de quatro patas, a biografia do leque pelos
joelhos, algumas dignas de um fado nocturno, e pouco mais, muito pouco mesmo,
porém, não sei porquê, entre aquelas duas trelas imobilizadas sobre lamuriosos
candeeiros nocturnos, percebi, de imediato, que havia muito por dizer, enquanto
ao nível da calçada os farejares se harmonizavam, as trelas assumiram a mesma
direcção, nas noites seguintes, os cerca de cento e cinquenta metros, até ao
final da praceta, passaram a ser cumpridos em diálogo, mais duas solidões que
se extinguiram, reparei, por mais de uma vez, que ela se esquecia de ajeitar os
cabelos para trás da orelha, ficava com a melena a ocultar-lhe parte do rosto,
mas nunca do sorriso.