FINITUDES
Livros do Escritor
domingo, 7 de junho de 2026
sábado, 30 de maio de 2026
Carne-podre aos cães e às cadelas
Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Porcachona, não estava há muitos anos no canil, no entanto, destacara-se, de múltiplas formas, na serventia aos seus amos, foi lesta a abocanhar a carne putrefacta, essa cadela até os ossos engolia, nada lhe escapava, por algum motivo muitos questionam se anda ou rebola, o segundo pedaço de carne-podre caiu ao lado de um rafeiro conhecido por Tintim, esse tem muitos anos de canil, apesar da rafeirice, é um mamífero delicado, e, pelo que se constata, um fiel servidor das ordens dos seus donos, abocanhou a podridão que lhe coubera, ao contrário da cadela Porcachona, com delicadeza, até as varejeiras que cobriam o despojo se sentiram honradas, o terceiro pedaço de podridão foi parar ao lado de um rafeiro de nome Manguinhas, esse ladrava muito nas costas dos donos, porém, na sua frente é vê-lo a abanar a cauda e a rebolar para seu deleite, quem não se enterneceria com tal submissão?! Este rafeiro já avoluma uns anitos neste canil, sempre com o mesmo registo, ladra alto dentro de portas, mas assim que se abrem, é ver-lhe a cauda em movimentos-horizontais e a rebolar, o quarto pedaço de carne-podre caiu próximo de uma cadela Zarolha, tem poucos anos de canil, registe-se a meteórica ascensão, assim que os donos lhe decretam uma ordem, é vê-la a cumprir escrupulosamente, em correrias pelo canil a ladrar para os demais, gosta, pelo que se vê, de rafeiros velhos e obesos, e também gane muito nas costas alheias, nada de novo neste canil, o pedaço de carne-podre seguinte, o quinto, caiu em frente a uma cadela velha, não obstante o carácter rafeiro, uns laivos de cadela de raça inglesa, apenas isso, uns laivos (que fazer?), olhou o a carne-podre como se um não assunto, embora salivasse por todos os lados, não tardaria muito a retalhá-la, a sua volumetria assim o exigia, outra fiel servidora dos donos do canil, a sexta putrefacção quase atingia uma cadela que tinha uma coleira com uma cruzinha, de início ainda questionaram a possibilidade de donos, um logro, uma digníssima rafeira, assim que algum incidente pelo canil, é vê-la em correrias a ladrar à procura dos donos, talvez seja das cadelas que mais quilómetros por ali soma, um descanso para os seus amos, nada por aqueles lados ocorreria sem que esta cadela prontamente não lhes noticiasse, muitos outros cães e cadelas acabaram por receber o seu putrefacto naco, escusado será referir que muitas varejeiras foram engolidas por estes rafeiros, estão habituados a engolir o que os dignos vomitam, assim se sobrevive neste canil, o sétimo pedaço de carne-podre calhou a uma cadela que ladra sobre quem desconhece por inteiro, há múltiplas por ali, a providência aconselha cuidado, infelizmente, por estes dias, é dos fenómenos mais pródigos, cães e cadelas a ladrar sobre desconhecidos, coitaditos, entre portas todos ladram alto, agora se tiverem o infortúnio de estas se abrirem… Os donos olham estes rafeiros com júbilo, cumpriram o que lhes foi ordenado, mereceram o naco-podre, não fossem estes, outros haveria na ânsia de um lugar com cobertura, mais próximo da comida, entre outras regalias, e os passeios, claro, como estes cães e cadelas gostam de passear pelos campos adjacentes, para quem ignora como se gere um canil de rafeiros, aqui vos deixo este manual de instruções, quanto às varejeiras, como por estes dias se diz: “um infeliz dano-colateral”, nada que perturbe a digestão desta matilha rafeira.
terça-feira, 26 de maio de 2026
Ali onde não há ontem nem amanhã
sexta-feira, 22 de maio de 2026
quarta-feira, 20 de maio de 2026
segunda-feira, 18 de maio de 2026
quinta-feira, 14 de maio de 2026
O manguinhas-de-alpacas
Hoje regresso a esta figurinha, no fundo,
bem ou mal, todos conhecemos um manguinhas-de-alpacas, as próximas linhas
corroboram este facto, as últimas desta figurinha é que, através de uma lista
única (veja-se bem o arrojo, lista única…), se candidatou a um lugarzito onde
obterá mais visibilidade, todo o manguinhas-de-alpacas deseja palco, é-lhes
inato, para o efeito, até convidou o nosso conhecido tintim, pois, esse mesmo,
o que tanto se bamboleia a andar e muito anseia por um beliscão nas nalgas,
quiçá seja desta com o manguinhas, em tempos dúbios, nada como piscar o olho a
todos os sectores do eleitorado, não vá haver entre os votantes mais
homossexualidades reprimidas, pelo que se avizinha, o manguinhas tem via-aberta
para o ambicionado lugarzito onde, por fim, obterá mais visibilidade, talvez,
desse modo, prestem a devida atenção às suas sempre sapientes palavras, é
vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, como se dali adviessem
verdades seculares há tanto ansiadas, mas o que se pode esperar de uma
figurinha, com penteado de primeira-comunhão, casaquinho de bombazina (e eu que
sempre me enterneço ao ouvir este termo, bombazina, logo se me levantam imagens
de infância…), com um discurso atamancado, pejado de lugares-comuns, de onde as
ideias há muito partiram? Se é que algum dia por ali pousaram… Se podia ser
vendedor de viaturas em final de existência? Qual a dúvida?! Com o seu
casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa
pelo verbo, o rosto em solenidade, “Digo-lhe uma coisa, tem aqui
um carrito para a vida! Não duvide, para a vida! Venha, venha, sente-se ao
volante, inspire, sinta a máquina, já viu, este carrito respira novo…,” quem ousaria colocar em causa tais verdades
seculares?! Se podia ser vendedor imobiliário? Qual a dúvida?! Vendia, num
ápice, um rés-do-chão todo virado a Norte, numa zona de frequência duvidosa,
pejado de infiltrações, como se de um Éden se tratasse, com o seu casaquinho de
bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o
rosto em solenidade, “Confesso-vos uma coisa: hoje é a quinta visita que
faço a este imóvel! Nem imaginam: a procura, nesta zona, tem sido galopante…
Dificilmente encontram, no mercado, uma casa assim: com tão boa relação:
qualidade/preço… Excelente disposição solar, boas áreas, próxima de serviços e
transportes, já percebi que, daqui amanhã, virá um herdeiro… Acreditem, as
escolas, aqui da zona, são conceituadíssimas!”, quem ousaria colocar em causa tais verdades seculares?! Se podia ser
pastor de uma seita religiosa? Qual a dúvida? Convertia, em segundos, o mais
acérrimo descrente, com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de
primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Irmão,
ouve-me, aproximamo-nos do fim, não duvides, dias de incerteza e de névoas, só
a luz de Cristo nos pode guiar, ainda há tempo para te arrependeres e
regressares ao caminho da salvação… Não coloques objecções, simplesmente
arrepende-te da dúvida e aceita Cristo como teu Salvador,” neste ponto seria profícua a ajuda da beata-maledicente, sim, essa
mesma, a parideira de difamações pelas costas, cada uma lá encontra a sua forma
de parir, é-lhe mais confortável pelas costas, e que grande parideira ali está…
Se podia ser vendedor talhante? Qual a dúvida?! Com o seu casaquinho de
bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o
rosto em solenidade, a vender carne-podre como ninguém, “Oh freguês, já viu
este naco do lombo? Tem aqui uma peça da melhor qualidade! Se quiser, até lhe
faço um desconto, fica entre nós… Deixe-se estar, que a preparo já… Digo-lhe
uma coisa, quando chegar a casa, ponha logo no forno, tem um manjar garantido
para toda a família… Não duvide: é de comer e chorar por mais…”, pois, a questão devia ser invertida: O que
não podia ser o manguinhas-de-alpacas? Praticamente tudo o que envolvesse honestidade,
seriedade, frontalidade e resquícios de inteligência… É pedir muito? Por estes
dias, alguma dúvida?! Não por acaso, estas figurinhas, no hoje, pululam como nunca, cientes da
sua mediocridade procuram, de todas as formas, maquilhá-la, nem que, para o
efeito, recorram a um casaquinho de bombazina, ao penteado de
primeira-comunhão, e, ao puxar pelo verbo, o rosto em solenidade, apenas
saem frases sofríveis que espelham o diminuto intelecto de um eterno
manguinhas-de-alpacas.


