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Rua das Açucenas

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  Não regressava, há cerca de seis meses, ali, à rua das Açucenas, mais precisamente ao rés-do-chão, daquele segundo prédio, do lado direito, caminhava a olhar a calçada, pelo seu pensar, a conversa de há pouco, ele tão insistente “Não precisas de ir sozinha, eu arranjo um tempinho e acompanho-te… Bem sei o que a tua avó significava para ti… Não te fará bem regressares só àquela casa… Tantas recordações te esperam… A memória ultrapassa-nos sempre…,” na altura, não ligou muito, era um desafio que teria de enfrentar, tinha isso presente e determinou-se a tal, no entanto, esta frase não a abandonou “ A memória ultrapassa-nos sempre…,” nem parecia dele, pouco dado a tão profundas reflexões, do telemóvel para um écran, de um écran para o telemóvel, a certa altura, ambos se acomodaram à relação, dobrara a meia década, não havia exigências, por exemplo, entre eles, de filhos, de forma alguma se queriam aprisionar a tão exigente projecto, lá se lhes ia o tempo, um bem que ambos gostavam ...
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...  os vazios que acumulamos devem-se essencialmente a duas coisas: o que perdemos ou, mais dilacerante, o que não vivemos por culpa própria... in Silhuetas

Silhuetas

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  Há casais que, à primeira vista, parecem estar fadados ao para sempre, como se imunes a qualquer força de desunião, hoje sei a falácia deste raciocínio, tudo se desmorona sob o céu, até a vida, a memória de uns vizinhos, durante uns tempos, pareciam a ideia caminhante de felicidade, não havia mês em que o fotógrafo lhes batesse, pelo menos, uma vez, à porta, para mais uma sessão de sorridentes eternidades emolduradas, por circunstância esquecida, entrei em casa deles, sobre qualquer mesa, prateleira ou camilha, pontificava uma fotografia do luzente casal, poses ensaiadas, sorrisos plásticos, entreolhares perpetuados, não sei porquê, mas uma ideia, “teatralidade”, desceu-me ao pensar, olhei-os e percebi o abismo entre gestos trocados e as imagens eternizadas sobre mesas, prateleiras ou camilhas, a primeira nota dissonante foi a exasperante lentidão da chegada do primeiro fruto de tão sublime amor, após a lua.de-mel, em destino de postal, como não podia deixar de ser, com fotos, ...
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Os mortos não sonham

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  Sempre que aquela música na rádio, ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali, a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura, já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através do vidro, gentes, passeios, montras esco...