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Desencanto II

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  A viagem longe do seu fim, ela continua perdida algures entre pensar e sentir, neste momento a imagem da pastelaria, do outro lado da rua, após levantar o estore, ficava, por um pouco, a olhá-la, chamava-se “Primavera”, apesar de só no Verão a visitarem, devolvia-lhe familiaridade, um desses lugares que sempre nos pareceu esperar, tão distante das confeitarias da sua terra, onde a vista se perde na infinidade dos artigos expostos enquanto, na proporcionalidade, o apetite diminui, uma questão levantou-se-lhe, embora rapidamente se diluísse, “Quando, por acaso, ele levantava o estore, alguma vez se perdeu a olhar, do outro lado da rua, a pastelaria?” Essencial um casal olhar na mesma direcção, quando sucede o contrário, a distância começa a ser irrecuperável, no banco traseiro o barulho dos miúdos recomeça, nunca quis ser mãe, as coisas aconteceram, compreendeu, no devido tempo, que a vida nos engole no seu tumultuoso caudal, de pouco adianta bracejar, desde que se colocou a ques...
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A beata maledicente II

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  Hoje levantou-se-me a lembrança de uma história que, na juventude, um amigo contou, havia, na rua onde ele morava, uma cadela que se fartava de parir, ao ponto de, segundo a sua descrição, enquanto deambulava pela rua, as crias já lhe caíam de forma natural, não fui o único receptor, na altura, ficámos entre a incredulidade, um esgar de riso e simultaneamente de horror, duas emoções, na aparência, tão antagónicas, não foi acaso iniciar a narrativa com esta reminiscência, ao saber da farta actividade parideira da beata maledicente, foi a imagem, da cadela a parir, ao longo da rua, que me surgiu, embora, aqui, faça uma ressalva significativa: é tão mais digno o animal! Se, porventura, o leitor tiver presente a anterior crónica sobre esta figura tétrica, lembrar-se-á de que a sua principal actividade consiste na maledicência, sobretudo num contexto familiar, onde se sinta à vontade para debitar boçalidades, temperadas com o seu peculiar toque beatífico, é capaz de caluniar indivíd...

A validação da alternadeira

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  Após o período de férias, mais que merecido num bordel, todos regressam aos seus postos de trabalho, sorridentes e felizes, há que angariar mais clientes, zelar pelo seu espaço e morder pelas costas (que mais resta a estes invertebrados cobardes?), foi vê-los, um a um, entrar com a máscara da felicidade, alguns, por ignorados motivos, nem o sol viram, como é o caso do tintim, a bichona partiu de férias roliça e pálida, regressou igual, ao contrário das outras, onde, mal ou bem, lá se descortinou uns fortuitos encontros com o sol, a palidez desta bicha, como é óbvio, levantou algumas questões, tudo comentado, de forma natural, nas suas costas, ninguém lhe queria ferir susceptibilidades, é uma bicha deveras sensível, e de língua afiada nas costas alheias, previsível, bichona que se preze tem de ser ágil com a língua, a seu lado chegou a porcachona, a porca-mor do pântano, uma das predilectas da alternadeira, não há imundície a que esta se furte, chafurda como poucas naquele lamaçal...

Desencanto

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  Para ela, regressar, desde que se lembra, sempre uma aura de derrota, se lhe pedissem para explicar, nem uma sílaba emitiria, talvez por senti-lo nas funduras do ser, onde o verbo nem à porta ousa bater, como agora, descortinava-lhe um sorriso, apatetado, no rosto, os filhos, atrás, em tumulto, não olhava a estrada, perdida no labirinto dos seus pensamentos, em verdade, do sentir, uma notória tristeza ameaçava submergi-la, desde o início, da viagem, ali só o seu corpo, não que desejasse continuar a estadia, a partir de certa altura, aquela rotina – casa, praia, casa, praia, casa, praia…   – causou-lhe um enjoo que, em determinada ocasião, fê-la abrir a torneira e correr água fria sobre os pulsos, ouvira em algum lado este conselho, pelo menos, permitia-lhe, por uns minutos, abstrair-se do estatismo diário, há mais de uma década assim eram as férias, um apartamento, não disfarçava o tempo, alugado, a Sul, a distância da praia exigia automóvel, de certa forma, ela não descor...
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