Livros do Escritor

Livros do Escritor

terça-feira, 24 de março de 2026

Que horas serão quando me for embora?

 


Ainda não tinha tirado a chave do bolso, já o cheiro da comida por todo o lado, e barulho de panelas, louça, quase instintivamente olho o relógio, pouco passava das dezassete, contudo, ela nisto, passou-me, confesso, a ideia de virar costas e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, há quanto me foge um momento assim? Talvez há demasiado… Regresso-me e já a chave a cumprir-se, logo ela Até que enfim! Mas não sabes que dia é hoje? Não fiques para aí parado! Tira o casaco e vem ajudar-me… Anda! Despacha-te! Não te esqueças que, daqui a nada, tens de ir buscar os miúdos à escola… Ela debitou mais frases, muitas mais, não, não lhe ouvi um Boa tarde, nem sequer um singelo Como estás? Ou então Como foi o teu dia? Nada! Só me ficou o Despacha-te! Eu, que ainda há pouco, pensava em virar costas e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, a verdade é que chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na corrente, não resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer gritamos por socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, há quem conteste esta opção, está no seu direito, porém, não me parece muito avisado, sobretudo em termos de saúde, qualquer tentativa de resistir a esta corrente é malogro certo… Ela estava num estado muito próximo da histeria, ora se virava para o fogão, ora a aprumar as louças e talheres do repasto vespertino, ora em mim para mais ordens e instruções, opto por ir buscar os miúdos à escola, assim que uma brisa entardecida pelo meu rosto, inspiro o momento, quase me senti numa esplanada na companhia de um cigarro e de memórias. Quando regressei com os miúdos (não sei porquê, mas sempre que a porta de casa diante de mim, um sentir de derrota invade-me. Sempre assim foi. Não sei de onde provém, como se ali me aguardasse, apenas e só… Às vezes, penso que talvez a minha morada seja noutras paragens, daí a minha genuína estranheza por este regressar, que talvez não passe, afinal, de um apeadeiro nesta minha caminhada…), ainda o cheiro da comida por todo o lado, mas o barulho de panelas, louça, cessara, antes de entrarmos, relembrei-lhes calma e ponderação, afinal, aproximava-se a hora do tão ansiado jantar, reparei na mesa já posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, na sala, ouvi a água a correr, ela no duche, em cima da cama, dispusera a sua indumentária, não sei porquê, mas aquelas peças de roupa, despidas da sua antropomorfia, enterneceram-me, talvez por serem uma extensão de si mesma, fiquei a olhá-las, e apesar de a água continuar a ouvir-se, de lhe perceber cada gesto ao lavar-se, primeiro, sempre, o cabelo, só depois o corpo, pareceu-me que ela já habitava as roupas, ou talvez fosse o contrário, por fim, saiu, compreendi que a minha calma a irritava, atirou logo Não te vais arranjar? Já viste as horas? Espero que tenhas dito aos miúdos que não os quero na sala… Anuí a tudo, pois, a verdade é que chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixamo-nos ir na corrente, não resistimos, não procuramos sofregamente a margem, nem sequer gritamos por socorro, nada, apenas e só deixamo-nos ir, percebi que ela optara por uma discrição elegante em termos de roupa, pormenores que ainda lhe apreciava, às vezes, não sei porquê, quando me debruçava sobre nós, de longe, quem sabe se de uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, surgia-me a imagem de dois náufragos, num bote, algures em mar-alto, condenados a entenderem-se se almejam a sobrevivência, procedeu, antes da hora das visitas, a uma última e minuciosa vistoria a cada canto da casa, enquanto isso, ocupei-me das bebidas, pouco antes das vinte, a campainha, convidara dois colegas e respectivos cônjuges, se me questionassem o porquê, ao certo, deste jantar, não saberia o que responder, não se comemorava nada, não havia quaisquer motivos de gratidão, saudade ainda menos, mas, o que é certo, é que o elevador já no nosso patamar, o colega e a mulher a saírem, fui que abri a porta, ela, de rompante, postou-se a meu lado, olhei-a com discrição, percebi-lhe o esforço por uma expressão de simpatia, tantos anos a amanhecer e anoitecer a seu lado, que melhor garantia no desvelar de uma artificialidade demasiada numa expressão? A artificialidade, regra geral, caminha próxima da hostilidade, neste caso, compreendi que se direccionava à mulher do colega, talvez o facto de ser mais nova e atraente constituísse motivo mais que suficiente. Por um brevíssimo instante, antes da formalidade dos cumprimentos, creio que todos compreendemos a frieza do palco sobre o qual caminhávamos. O silêncio evidenciava ainda mais as hostilidades contidas, assim, decidi-me por um sonoro cumprimento, eles retribuíram, percebi que a mulher do colega, mais nova e atraente, entrou com uma relutância felina, como se sopesasse cada gesto em território hostil, entraram para a sala, acompanhei-os, sob o manto da discrição, captaram cada pormenor, a mesa já posta, com as inevitáveis velas de cheiro acesas, a louça que ainda estamos a pagar pelo visa, as cadeiras encostadas a uma parede, para ser um jantar às modernas, cada um vai-se servindo e come de prato na mão, assim uma coisa inovadora de partilha de ideias, confesso que desconheço onde ela vai beber estes novos ritos, apenas sou confrontado com os factos (ela, para mim, limita-se a dizer laconicamente: Mas não sabes que agora é assim que se faz? Já não se recebe ninguém sentado à mesa! Estás mesmo ultrapassado!), enquanto debitava estes ditames de pacotilha, a sua voz assumia aquela particular entoação algures situada entre um cabeleireiro e o café em frente onde vão secar o verniz das unhas, já me habituara a estes momentos, obedeciam a um guião cansado, cada gesto e sílaba numa cadência de tão ontem, e eu entre o sorrir e um grito alucinado, do chão aos vidros da janela, tudo num brilho exemplar, por momentos, confesso, cheguei-me a questionar se esta era a minha casa, tal a ordem, tal a impessoalidade que descera sobre as coisas… Nada disto claramente escapou à mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos assim reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha, de novo, pela casa…

sábado, 21 de março de 2026

 



Inicio a compreensão do tempo: só importa o que, no fim, perdura em nós…

in Nuvens passeantes pelas águas

domingo, 15 de março de 2026

A porcachona e o tintim – epílogo

 





A pedido de muitos leitores, irei hoje esclarecer por onde andam estas funestas personagens e seus párias, desde já, como é evidente, não caminham por lugares muito ensolarados, não fossem personagens obscuras, a montante destas linhas pontifica um imperativo ético – de alertar incautos que se venham a cruzar com estas sinistras figuras –, bem como satisfazer a curiosidade dos leitores, de outro modo, confesso que nem uma sílaba gizaria, quanto às últimas da porcachona, parece que anda a grunhir muito pelas costas, o bugs bunny (recordam-se?) também caiu nesse erro, e a coisa correu-lhe mal, quase ficava com uma cenourita entalada algures, por conseguinte, é salutar para a porcachona (grunhe baixinho, muito baixinho, porcachona) e sua pocilga que ponham o único neurónio em movimento para não terminarem entalados algures pelos caminhos do mundo, fica o conselho, seria igualmente positivo que andasse com o focinho mais sorridente, quem nasce divorciado da beleza, pelo menos, que sorria, se a este aspecto somarmos as toneladas acumuladas com os anos, nada resta, em verdade, para um homem, a porcachona, de facto, é o primeiro passo para a homossexualidade, quem, no seu perfeito juízo, lhe pegaria? Se, por exemplo, sucedesse a tragédia de me deparar com a porcachona despida, lesto seria a cobri-la, creio que o trauma de tal imagem até induziria impotência, meu Deus, os estragos que a porcachona pode causar – arrepiante!!! Os complexos pelo baixíssimo intelecto – elevadas só a maledicência e a cobardia, ah, e as toneladas, claro, as toneladas – levam-na a grunhir alto perante os demais, só um acéfalo conseguia ouvir um grunhido até ao fim, quanto mais um conjunto, entre o seu público acéfalo está o nosso tintim, pois, esse mesmo, de caminhar bamboleante, a reprimida homossexualidade, talvez um dia alguém lhe dê o desejado beliscão nas nalgas, e fique corado de tanta felicidade, a camisa larga o suficiente para ocultar o crescente barrigão, os três pentelhos brancos no cocuruto, e a barbita pálida, quiçá inspirado no velho da Longa Vida, a abolacharem ainda mais a esférica carantonha, o caminho destes dois tamanhos frustrados inevitavelmente acabaria por se cruzar, é ver a porcachona grunhir, grunhir e grunhir, e o tintim, atrás dela, em hossanas, confrangedor, se ao menos a porcachona lhe desse o ambicionado beliscão nas nádegas bamboleantes, não podia cair-lhe em cima, coitadinho do tintim, nem um segundo resistia, embora fosse um severo meio de desbloquear a reprimida homossexualidade, quem sabe, à vista de um avanço da porcachona, o tintim procurasse o tão desejado colo onde pousar as suas nádegas bamboleantes, por ali pululam outras sinistras figuras conhecidas, a ratazana, agora sem bandolete, outro drama, a rainha do pedaço, com os óculos no cimo da tola, julga que, com esse artefacto, espanta as rugas em crescendo, a obesa de nome azeiteira, o pombo-correio do lugar, até chegou do sul, veja-se bem, para se sentar cada uma precisa, no mínimo, de duas cadeiras, tal a dimensão das nalgas, a menopausa é uma coisa tramada, uma questão transversal, ao atentar no focinho destas aberrações, é: Qual foi a última vez que tactearam os céus? Se é que algum desgraçado lá as conduziu… Se houve, foi há muito, há demasiado, tais as expressões cinzentas, azedas, até masculinizadas, a menopausa é uma coisa tramada, crescem para todos os lados, no entanto, o intelecto subsiste minúsculo, grandessíssimas FRUSTRADAS estas aberrações andantes, até suscita dó ouvir o exíguo vocabulário, onde a muleta “prontos” surge, de forma salvífica, a pontuar-lhes as boçalidades emitidas, frustradas físicas e intelectualmente: a coisa só podia descambar em complexos estampados no focinho e nos gestos; por ali cirandam, em torno da porcachona, o tintim, com o seu estrogéneo em alta, em coscuvilhices ora com uma, ora com outra, apesar de incessantemente o seu olhar, maroto e ardente, procurar um matulão que lhe dê o tão ansiado beliscão nas nádegas bamboleantes, se as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS ansiassem por um beliscão, só se requisitassem uma retroescavadora, com a dimensão daquelas nalgas seria a única possibilidade de sentirem algo, há uns dias até mandaram uma menopausa, outra aberração, bem adiantada, cuja carantonha parecia um mapa de estradas, tal a profusão de rugas, dar um recadito mal-amanhado, o interlocutor, da aberração rugosa, deixou-a sozinha a debitar alarvidades, não fosse a burra-enrugada, com um pouco de atenção, julgar-se gente, por ali também pontifica o manguinhas-de-alpacas, de casaquinho de bombazina, com penteado à primeira-comunhão, esse pouco aparece entre as menopausas ambulantes e FRUSTRADAS, embora cumpra qualquer coordenada por ali emitida, esse é uma figurinha rasteirinha, estéril, frases ocas e deveras superficiais, apesar da falsidade, suada por cada poro, não passar despercebida a quem sabe olhar o mundo há muito, sem qualquer conteúdo, basta atentar no anacronismo da indumentária e de lhe perdurar o penteado com que saiu de casa para a primeira-comunhão, caros leitores, espero que a vossa curiosidade, com estas linhas, sempre públicas, quem nasce com Coluna-Vertebral não sabe rastejar, fique saciada sobre o paradeiro da porcachona, tintim e seus párias, genuínas aberrações caminhantes pelo mundo. 

sexta-feira, 13 de março de 2026

Uma marquesa a caminho de Tavira


A maior parte do tempo esquecemo-nos de viver o presente, preocupações, sonhos por realizar, cansaço, a voragem do dia-a-dia, enfim, o drama da vida contemporânea, no entanto, só quando um facto, iniludível e dramático, se anuncia no amanhã, é que fincamos os pés no presente, saboreando cada instante, como se o futuro apenas uma ilusão, há décadas que ocupava, através de um subaluguer, uma salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, quase inteiramente ocupada por uma marquesa, onde mitigava dores articulares, endireitava colunas e derramava o seu “saber”, bom, este último conceito é, sem qualquer dúvida, bastante controverso, não por acaso era conhecido como o Mestre, havia quem, de facto, se deitasse na marquesa só para ouvir as suas histórias, únicas, inolvidáveis, dignas de figurar em qualquer compêndio de actos de bravura, as más-línguas, como é evidente, escarneciam e questionavam a sua veracidade, pura inveja, nada mais, quem, no seu perfeito juízo, ousava colocar em causa a palavra do Mestre? Desde a travessia do Tejo, na foz, debaixo de água em apneia, às incursões aéreas, em território inimigo, durante a guerra colonial, enquanto piloto, ou realizar elevações, durante uma tarde inteira, para gáudio dos espectadores que se avolumaram com o decorrer das horas, tudo em palmas e espanto perante aquele titã descido dos céus, sem esquecer os múltiplos corações despedaçados e suspirantes que foi deixando à sua passagem, a verdade é que muitas chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, se alguém, má-língua ou não, ousa escarnecer e questionar a veracidade destes factos, estou cá eu para categoricamente os asseverar, quando algo lhe desagradava, com a sua voz arrastada e cavernosa, invocava um camarada de armas, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, certo dia foi confrontado com a notícia de que a sua marquesa teria de abandonar a divisão, de oito metros quadrados, numa cave, pensou “Cheira mal… Cheira muito mal…”, mas não verbalizou, o espaço ia para trespasse, ironia do destino seria também para mitigar dores articulares e endireitar colunas, inferiu, desde logo, que os seus préstimos seriam mais do que imprescindíveis, como podem testemunhar as dezenas, perdão, centenas, que chegavam cambaleantes e curvadas, num dramático esforço lá desciam a escada e, como se por milagre, volvida menos de uma hora, era vê-las renascidas, alegres e a correr escada acima, continuou os seus afazeres, na salita, de oito metros quadrados, quase totalmente preenchida com a marquesa, a questão do encerramento do espaço não era tema de conversa, de forma tácita foi remetida para o silêncio, mediante quem se deitava na marquesa escolhia o tema das suas narrativas, ora a incansável história da travessia em apneia, ora enumerava os milhares de livros lidos, o pai detentor de uma biblioteca só com rival na de Alexandria, se alguém mais ousado colocasse uma questão específica sobre determinado autor, fungava uma vez, duas, ainda uma terceira, e sua voz arrastada e cavernosa logo “Esta contractura tem de ser debelada…,” quem, perante este alerta, “Esta contractura tem de ser debelada…,” ousaria lembrar-se de um autor e das suas obras? A atenção, de imediato, focada na génese das tão incómodas dores, se, desde cedo, o Mestre se viu perante tão rica e sumptuosa biblioteca, é natural o seu vastíssimo conhecimento, só o seu pai detinha seis licenciaturas, quatro mestrados e três doutoramentos, ou quatro doutoramentos, três mestrados, pois, talvez fosse por aí, os seus três irmãos todos engenheiros destacadíssimos em diferentes áreas, ele simplesmente o Mestre, tudo estava dito, nem uma sílaba a mais, já antevendo crises climáticas e numa medida deveras ecológica, passou a realizar a sua higiene nos balneários daquele espaço, escusava assim de gastar água em casa, o ambiente não podia estar mais grato, o tempo, esse estranho que incessantemente nos ilude, passou, até que, sempre mais cedo que o expectável, o dono do espaço alerta-o de que, no dia seguinte, teriam de retirar tudo, uma fungadela, duas, ainda uma terceira, e “Cheira mal… Cheira muito mal…”, à sua frente apenas vislumbrou um conformado e sofrido encolher de ombros, como décadas se evolam num instante?! Na manhã seguinte, alguns curiosos se avolumaram à porta a assistir à retirada das mobílias e para um derradeiro adeus, a verdade é que, desde sempre, se ilumina uma luz interior aquando da desgraça alheia, o homem e os seus paradoxos, começou cedo o trabalho, a manhã já ia alta quando só faltava retirar a marquesa da salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, bateram à porta, como resposta “Cheira mal… Cheira muito mal…”, uma segunda vez, como resposta, de novo, “Cheira mal… Cheira muito mal…”, dez minutos, vinte, chamaram o antigo arrendatário para intervir, a porta permanecia fechada, uma hora, uma hora e meia, perante tal intransigência, viram-se forçados a arrombá-la, incrédulos ficaram perante o cenário encontrado: o Mestre amarrara-se à marquesa; houve gritos, súplicas, a notícia subiu mais rápido as escadas do que as pacientes do Mestre, na rua já comentavam, a multidão duplicou à porta, uns minutos depois, triplicou, tudo numa crescente ansiedade para ver o desfecho, uma hora depois, dois indivíduos saíram com a marquesa onde permanecia o Mestre amarrado, houve palmas, gritos, choro, clamor, incentivos, aclamações, o povo num frenesim à vista do Mestre amarrado à marquesa, só quando a agitação serenou um pouco, a marquesa foi colocada, uns metros acima da porta, no passeio, o povo, de imediato, acorreu, um jovem aproximou-se e disse algo, o Mestre, ainda amarrado à marquesa, olhou-o e, com notória assertividade, disse-lhe: “Oh jovem, a falar com o Mestre, com as mãos nos bolsos?!”

segunda-feira, 9 de março de 2026


 

... as grandes lições da existência gravam-se sempre mais na alma do que na carne...

in Nuvens passeantes pelas águas

sexta-feira, 6 de março de 2026

Finitudes

 


O mais curioso de tudo é que fomos lá juntos, quase parecia uma segunda lua-de-mel, os preparativos, passaportes, a escolha do fim-de-semana, os miúdos com a minha mãe, a viagem, assim que aterrámos, uma chuva miudinha omnipresente, pelo rosto, pelas roupas, ele “Já estou com saudades do nosso sol”, limitei-me à ternura de lhe dar a mão, assim silenciava angústias, ele, como sempre fazia, segurou-a num sentir feito gesto, após o aeroporto, a chegada ao hotel, a chave, elevador, o quarto (talvez alguém se tivesse esquecido de um sonho na almofada, não sei porquê, mas sempre desejei encontrar, nem que fosse por uma vez, um sonho abandonado. Tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo!), por fim, abrir malas, só depois, muito depois, um passeio já sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava. Há uns meses, sem nada me dizer, não sei se por afirmação pessoal, se por gozo, aventura, candidatou-se a uma vaga numa empresa de construção no exterior, que oferecia, entre muitas e vantajosas condições, o quádruplo do vencimento, disse-me, depois, que tropeçou no anúncio, contudo, contactaram-no, de imediato, para uma entrevista, da incredulidade inicial passou para um genuíno interesse, nesta fase, começamos a ver-nos dentro do quadro, foi enquanto se descalçava, não escolheu o momento ao acaso, que deixou no ar “Sabes que recebi uma proposta de trabalho do exterior?” Repara como ele colocou a questão… Ocultou apenas os seguintes factos: a candidatura foi de sua iniciativa, sabia das vantajosas condições de trabalho, como auferir o quádruplo do actual ordenado, partiu de uma carência de afirmação, e mais importante que tudo: já se via como parte integrante do quadro; não, não era um mero espectador, olhava-se já como personagem: e aqui reside a diferença entre equívocos e factos… Confesso que, na altura, não dei o devido relevo à sua questão, pois, não escolheu o momento ao acaso, ocupada que estava com o quotidiano, acho que lhe respondi “Olha que bom! Alguém que nos dê o devido valor”, a resposta saiu-me assim, quase como se fosse um cumprimento, uma exigência da educação, se fosse mais atenta, se não desse tanto de mim ao quotidiano, teria reparado que ele levara o triplo do tempo para se descalçar, que a frase lhe saíra a custo, numa naturalidade demasiada que apenas ocultava a teatralidade da situação, que permaneceu sentado de costas, nem ousou virar o rosto, que deu um longo suspiro enquanto lhe respondia com o cumprimento, se fosse mais atenta conheceria, há muito, a diferença entre equívocos e factos.

Como dizia, pois, o passeio sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava, a chuva miudinha não se esquecia de nós, conferia às coisas uma imaterialidade de sonho, parecia que não pisávamos o chão do mundo, quase como se pairássemos sobre as coisas, apenas o frio líquido no rosto nos devolvia à nossa circunstância, um vulto ou outro, com o familiar guarda-chuva, protector de almas, sobre a cabeça, cruzava-se connosco na irrealidade daquele cenário nocturno, com pontos luminosos difusos e contorcidos pela cortina de água, regressámos, partiu de mim, eu não era personagem daquele cenário, tinha a alma desprotegida, chovia-me nas minhas dores, ele, pelo contrário, percebi que não se importava de continuar, só aquando dos primeiros esboços de regresso é que lhe compreendi contrariedade, já era um caminhante imaterial daquele sonho, sem eu saber, talvez algo lhe protegesse a alma. Foi sem surpresa que, no dia seguinte, após a entrevista, me anunciou ter aceitado a oferta de emprego, de novo, cada um caminhava pelas suas paisagens interiores… O resto, já sabes, passados dois meses, regressou, desta vez para ficar, àquela omnipresente chuva miudinha, agora que penso nisso, é curioso, parecia já lhe conhecer os contornos do rosto, ao contrário de mim, ele nunca fechava os olhos, como se lhe conhecesse o gosto, e os miúdos, quando contámos, abraçaram-se-lhe ao pescoço, aqueles lugares onde as palavras não entram, percebes, não é…? Nesses dois meses reaprendemos o namoro. Sabes aqueles objectos que procuramos incessantemente, depois, quando a sua existência há muito ignoramos, num repente, surgem diante de nós, como se nunca tivessem dali partido? Pois, assim foi com aquele estar do namoro, uma ânsia por alguém que encerra em si o Sentido, de um momento para o outro, apesar dos filhos, das fiéis contas na caixa-do-correio, dos anos de permeio, dos silêncios obstinados, das noites de omoplatas, ali estava, no tapete de entrada, como se nunca tivesse partido, renovámos juras de amor, ele “Aos fins-de-semana regresso. Estamos no século XXI! São só duas horas de avião! E a qualidade de vida que vamos garantir aos miúdos, já viste? E quando eu não puder vir, vão vocês ter comigo. Certamente, ainda vamos estar mais horas juntos,” enquanto ele falava, não sei porquê, surgiu-me a imagem da omnipresente chuva miudinha que parecia familiarizada com os contornos do seu rosto, os miúdos não o acompanharam até ao aeroporto, preferi que ficassem com a minha mãe, fomos só nós, uma mala bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, aguardámos sentados pelo  voo, descansei o pensar no seu ombro, enquanto ele calendarizava o futuro de regressos e partidas, e eu que sempre senti uma repulsa visceral por estes lugares de gestos efémeros que se suspendem num para sempre, até que uma voz mecânica anunciou a partida, caminhei a seu lado até onde me fui permitido, não ousei falar, o sentir desarrumado estender-se-ia à minha frágil voz, e no meu céu interior, naquele momento, uma omnipresente chuva miudinha, essa sim conhecia os contornos do meu rosto, abraçámo-nos durante o necessário de um sentir feito gesto, quando me regressei, ele já ia para além de efémeros gestos que se suspendem num para sempre, antes da derradeira porta, olhou para trás, o seu rosto estava como há dois meses, parecia dizer-me “Já estou com saudades do nosso sol”, o meu olhar desceu à mala que bastou para se levar, não percebi se indiciava pressa de partir ou urgência no regresso, é que há tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo.