Quando dei por mim, despia
molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência
indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na
altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma
noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de
uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não
me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me
recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me
regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me
subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui,
e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço
perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te?
Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os
meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som
desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os
sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de
duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao
último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um
pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao
possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da
noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha
estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez
estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro
divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de
imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se
pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio
àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma
irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza,
de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das
correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim
ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso
contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para
deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo,
discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal,
viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a
outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos
bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda
hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso
de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto
assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois,
sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o
comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que
se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta
questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a
uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá
de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do
miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez
percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar?
Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o
marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou
Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de
casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais
velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a
outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é?
Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como
se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro
outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como
dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos
anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem
sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo…
Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me
uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar
anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos
de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a
energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda
seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela
fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem
do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e
tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às
vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a
olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite,
como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma
esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai
em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora,
uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é
porque sei a direcção de cada passo.


