Livros do Escritor

Livros do Escritor

terça-feira, 26 de maio de 2026

Ali onde não há ontem nem amanhã

 



De vez em quando, regresso-me àquele lugar, não sei porquê, no acaso do dia, a imagem irrompe pelo meu pensar, e ali me fico, de novo, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância. Quando férias, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, sempre com a mesma argumentação, de tão repetida, já lhe conheço a sequência, as noites frias, a escassez de diversões, a água gelada, o vento, sempre o vento, constante, no fundo, é mais uma brisa, mas ela, logo, a exponenciar a coisa, por vezes, devido à convicção das suas afirmações, quase acredito que um desconfortável vento frio no lugar de uma reconfortante brisa do entardecer. Mas, como é sabido, qualquer relacionamento é um incessante confronto por uma ascensão face ao outro, por muito que se argumente em contrário, para se sentir é preciso ser-se, e só se é na afirmação, naquilo que nos adiciona, contudo, há muito que capitulei neste digladiar, não me recordo em que momento percebi a minha erosão, regra geral, estas coisas revelam-se nos aspectos mais ínfimos do existir, precisamente os que não olhamos, ou que só percebemos tardiamente, era mais ou menos por aqui que eu andava, a rotina de cada dia só me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, há tanto que novidade era uma palavra estrangeira no meu léxico, uma dessas que gradualmente colocamos na margem por não consubstanciarem a nossa realidade quotidiana, como esses objectos atirados para os fundos de uma despensa, por escassez de uso ou uma inutilidade súbita, porém, se um acaso me surgia ao caminho, e eu teria de me desviar da minha rota diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, logo uma inquietude me invadia, como se estivesse de partida para um lugar inóspito, sem vislumbres de regresso, não foi da primeira, nem da segunda vez, confesso, que me apercebi deste meu paradoxo, levou o seu tempo, como tudo nesta vida, queria tanto uma coisa, mas assim que se me apresentava ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse logo esvaído, o olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Nesses momentos, que satisfação regressar àquele lugar, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, e eu também uma parte daquele todo, ali sabia-me em casa, há cada vez menos lugares, neste mundo, com sabor a lar, sempre que o tema férias lá por casa, o destino a escolher, eu, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, com a batida sequência de argumentos, inicia, então, a apologia daquela costa mais a Sul, para onde converge quase toda a espécie lusitana no mês de Agosto, já lhe conheço a sequência, as noites quentes, a abundância de diversões, a água tépida, a escassez de vento, eu nem contrapunha, limitava-me a recordar o último Agosto, nem por acaso ali passado, naquele lugar a Sul, os preços com números mais robustos, a quantidade de gente e carros, à minha volta, só me trazia à memória um banal dia de trabalho, mesmo a arquitectura disforme dos edifícios, o predomínio de betão em qualquer horizonte olhado, o barulho, por todo e qualquer canto, num absurdo crescente, e filas e mais filas, para comer, compras, estacionar, mais filas ainda, pois, eu, não raras vezes, a pensar Será este um banal dia de trabalho? Afinal, quem pode chamar isto de férias? A certa altura, refugiei-me em mim, pelos miúdos mantive o mínimo de lisura, sabia que, lá bem no fundo, ela se tinha apercebido do seu erro, já não era mau de todo, confessá-lo é que seria coisa bem diferente, em momentos assim, mantinha a sua postura impassível, reparava que os seus gestos quotidianos, fosse com os miúdos, consigo mesma, se alongavam um pouco mais, o que denunciava, sem qualquer dúvida, um laivo de teatralidade, pois, só representa quem se esconde… Não raras vezes, nestes últimos anos, dou por mim a olhar à minha volta e, no horizonte, de mim para mim, apenas emerge a palavra: incompreensão. Como pode um tempo, supostamente destinado a repouso, ser consumido numa voracidade tal? Sem sequer haver um resquício de mudança de cenário? O rectângulo do hoje omnipresente à mesa, à beira-mar, na esplanada, aquando do gelado vespertino, nas compras, durante o jogo de raquetas na areia, no alto da falésia, como testemunha ocular de que ali efectivamente se esteve, no fundo, a atestar a pegada do hoje, e a palavra incompreensão, uma vez mais, a toldar-me horizontes. Volta e meia, ela com os miúdos, a estender-me aquilo, a atropelar palavras Vá! Despacha-te! Vê lá se nos apanhas a todos! Achas que ficou bem? É melhor tirares outra… Outras vezes, à mesa, eu em espanto perante alguém, que, por acaso, me fez deslocar a um altar e proferir juras de amor eterno, que fotografa, quase em êxtase, a sua refeição, os miúdos, são dois, diferença de ano e meio, também com aquela coisa nas mãos, jogos e mais jogos, alheados da sua circunstância, de si mesmos, dos outros, de existir, até há bem pouco, eu ainda vociferava que, à mesa, nem pensar estar com aquilo, porém, ela, de imediato, em socorro deles (Deixa-os estar! Queres o quê? Que fiquem ignorantes com as tecnologias? Pelo menos, estão aqui sob a nossa vista. Não andam por aí a fazer disparates… Anda! Deixa-os estar… Lembra-te: o mundo já é outro!), não podia estar mais errada, nunca os achei tão distantes, contudo, há muito que capitulei neste digladiar, não me recordo em que momento percebi a minha erosão, regra geral, estas coisas revelam-se nos aspectos mais ínfimos do existir, precisamente os que não olhamos… Mas aqui estamos os quatro, num Agosto irrespirável, neste lugar a Sul, os preços com números mais robustos, a quantidade de gente e carros, à minha volta, só me traz à memória um banal dia de trabalho, mesmo a arquitectura disforme dos edifícios, o predomínio de betão em qualquer horizonte olhado, o barulho, por todo e qualquer canto, num absurdo crescente, e filas e mais filas, para comer, compras, estacionar, mais filas ainda, continuo sem conseguir desacelerar o pensamento, nem um pouco, e como eu preciso repousar de mim! Que saudades daquele lugar, acho que nunca dali parti, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância, a olhar rostos velados por aquele rectângulo, nem ouso uma frase, levanto-me, ela nem repara, os miúdos ainda menos, vou até à varanda, o dia legou os despojos de calor à noite que se aproxima em passos hesitantes, nem uma brisa a relembrar outras paragens, o próprio tempo parecia recuperar o fôlego para a sua obstinada caminhada, esvoaçam por todo o lado as aves do estio, recordo as vezes em que quis tanto uma coisa, mas assim que se me apresentava ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse logo esvaído, o olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Hoje, o que mais me intriga é a morte do desejo, porque a seguir vem o sonho… E como é trágica a morte de um sonho! Quanto de nós fica nessas cinzas tristemente arrefecidas? Demasiado, sem dúvida. Se ao menos o meu olhar, por uns instantes, num voo desses viajantes entardecidos. 

quarta-feira, 20 de maio de 2026


 

- Humor e beleza nasceram para se partilhar… Riso e deleite, no singular, estão condenados à esterilidade. Não concordas?

in Nuvens passeantes pelas águas

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O manguinhas-de-alpacas


 

Hoje regresso a esta figurinha, no fundo, bem ou mal, todos conhecemos um manguinhas-de-alpacas, as próximas linhas corroboram este facto, as últimas desta figurinha é que, através de uma lista única (veja-se bem o arrojo, lista única…), se candidatou a um lugarzito onde obterá mais visibilidade, todo o manguinhas-de-alpacas deseja palco, é-lhes inato, para o efeito, até convidou o nosso conhecido tintim, pois, esse mesmo, o que tanto se bamboleia a andar e muito anseia por um beliscão nas nalgas, quiçá seja desta com o manguinhas, em tempos dúbios, nada como piscar o olho a todos os sectores do eleitorado, não vá haver entre os votantes mais homossexualidades reprimidas, pelo que se avizinha, o manguinhas tem via-aberta para o ambicionado lugarzito onde, por fim, obterá mais visibilidade, talvez, desse modo, prestem a devida atenção às suas sempre sapientes palavras, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, como se dali adviessem verdades seculares há tanto ansiadas, mas o que se pode esperar de uma figurinha, com penteado de primeira-comunhão, casaquinho de bombazina (e eu que sempre me enterneço ao ouvir este termo, bombazina, logo se me levantam imagens de infância…), com um discurso atamancado, pejado de lugares-comuns, de onde as ideias há muito partiram? Se é que algum dia por ali pousaram… Se podia ser vendedor de viaturas em final de existência? Qual a dúvida?! Com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Digo-lhe uma coisa, tem aqui um carrito para a vida! Não duvide, para a vida! Venha, venha, sente-se ao volante, inspire, sinta a máquina, já viu, este carrito respira novo…,” quem ousaria colocar em causa tais verdades seculares?! Se podia ser vendedor imobiliário? Qual a dúvida?! Vendia, num ápice, um rés-do-chão todo virado a Norte, numa zona de frequência duvidosa, pejado de infiltrações, como se de um Éden se tratasse, com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Confesso-vos uma coisa: hoje é a quinta visita que faço a este imóvel! Nem imaginam: a procura, nesta zona, tem sido galopante… Dificilmente encontram, no mercado, uma casa assim: com tão boa relação: qualidade/preço… Excelente disposição solar, boas áreas, próxima de serviços e transportes, já percebi que, daqui amanhã, virá um herdeiro… Acreditem, as escolas, aqui da zona, são conceituadíssimas!”, quem ousaria colocar em causa tais verdades seculares?! Se podia ser pastor de uma seita religiosa? Qual a dúvida? Convertia, em segundos, o mais acérrimo descrente, com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Irmão, ouve-me, aproximamo-nos do fim, não duvides, dias de incerteza e de névoas, só a luz de Cristo nos pode guiar, ainda há tempo para te arrependeres e regressares ao caminho da salvação… Não coloques objecções, simplesmente arrepende-te da dúvida e aceita Cristo como teu Salvador,” neste ponto seria profícua a ajuda da beata-maledicente, sim, essa mesma, a parideira de difamações pelas costas, cada uma lá encontra a sua forma de parir, é-lhe mais confortável pelas costas, e que grande parideira ali está… Se podia ser vendedor talhante? Qual a dúvida?! Com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, a vender carne-podre como ninguém, “Oh freguês, já viu este naco do lombo? Tem aqui uma peça da melhor qualidade! Se quiser, até lhe faço um desconto, fica entre nós… Deixe-se estar, que a preparo já… Digo-lhe uma coisa, quando chegar a casa, ponha logo no forno, tem um manjar garantido para toda a família… Não duvide: é de comer e chorar por mais…”, pois, a questão devia ser invertida: O que não podia ser o manguinhas-de-alpacas? Praticamente tudo o que envolvesse honestidade, seriedade, frontalidade e resquícios de inteligência… É pedir muito? Por estes dias, alguma dúvida?! Não por acaso, estas figurinhas, no hoje, pululam como nunca, cientes da sua mediocridade procuram, de todas as formas, maquilhá-la, nem que, para o efeito, recorram a um casaquinho de bombazina, ao penteado de primeira-comunhão, e, ao puxar pelo verbo, o rosto em solenidade, apenas saem frases sofríveis que espelham o diminuto intelecto de um eterno manguinhas-de-alpacas.

sábado, 9 de maio de 2026

Os factos da vida


 

Para estudar, ia a um café próximo, apesar da curta distância não encontrava muitos estudantes, era frequentado sobretudo por moradores do bairro, na sua maioria idosos, tinha aquele ambiente tão típico de um café cosmopolita, um entra e sai constante, a máquina de café no seu incessante estalido mecânico, a multiplicidade de vozes que se convertiam num rumorejar permanente, no entanto, imperceptível, era incapaz de estudar em silêncio, as vozes que me habitam ameaçavam tragar-me, cada um lá encontra a sua forma de trabalhar, tinha duas ou três mesas da minha preferência, só ali as vozes se aquietavam e permitiam que mergulhasse nos livros, quando, por este ou aquele motivo, não me conseguia concentrar, observava, um acto em desuso, requer serenidade e inteligência, os livros abertos sobre a mesa, o pensar não se aquietava, olhei em volta, na mesa mais próxima, bem à minha frente, um casal de meia-idade, ela nitidamente refém da moda, ele não tanto, um estilo mais descontraído, apesar de cumprir os requisitos elementares, ténis de uma multinacional, por exemplo, tinham acabado de se sentar e colocaram simultaneamente, numa harmoniosa coreografia, os rectângulos do hoje sobre a mesa, o empregado aproximou-se para recolher os pedidos, um sujeito de bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, em certa ocasião reparei num símbolo, tatuado no antebraço, reportante a contextos muito pouco recomendáveis, quem trabalha a sério, arregaça as mangas, foi o que me permitiu visualizar, a sua irrepreensível conduta dever-se-ia a uma radical mudança das suas pisadas? Não sei, apenas suposições minhas, jamais ousaria questionar tal, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, como há outras que somente nos turvam o olhar, somos tão estranhos, tinha uma expressão indulgente que imanava Seja bem-vinda a casa, tão raro, num lugar deste mundo, sermos assim recebidos, nunca lhe denotei um azedume, e tantos o merecem, assim que se afastou da mesa com o pedido, ela, quase sem se aperceber, num claro automatismo, pega no rectângulo como se oxigénio, logo um ar compenetrado, talvez, por ali, desvelasse os grandes enigmas da existência, nós, comuns mortais, muito aquém de expressões compenetradas, rectângulos como se de oxigénio, ele ainda se deteve, por uns instantes, a olhar em volta, por meras fracções de segundos pareceu-me, creio ter sido uma impressão, vislumbrar-lhe condescendência no olhar a contemplá-la, por fim, também capitulou e pegou no seu rectângulo, assim ficaram, cada um absorto e inclinado para o objecto na palma da mão, o empregado regressou com os cafés numa bandeja, colocou-os suavemente, como era seu timbre, na mesa, nenhum deles teve a educação de pousar o rectângulo, pareceu-me vê-lo a indiciar o gesto, a preguiça ou amnésia de modos tê-lo-á derrotado, ela manteve-se impassível, aprisionada naquele diminuto écran, não me recordo há quantos minutos chegaram, tenho bem presente que nem uma palavra trocaram, cada um tinha, diante de si, uma ignorada chávena de café, continuavam sob hipnose, haviam dobrado meio-século há uns anos, logo, cresceram e somaram bastas vivências sem aquele cárcere, como era possível terem-se deixado enredar em tamanho logro?! Confesso a minha total incompreensão… Um objecto, cuja amplitude de funções, nem uma década de existência soma, de repente, engoliu quase todas as almas do mundo, havia outras mesas, demasiadas, onde o cenário se repetia, àquela hora da tarde um aroma a café e doces pelo ar, parecia também soletrar Seja bem-vinda a casa, há lugares, neste mundo, que sempre estiveram à nossa espera, este é, sem dúvida, um deles, os cafés arrefeciam, o frémito dos seus dedos, naquele rectângulo, não, pensei em que momento a palavra teria morrido entre eles, nem se apercebiam do tempo a passar, do arrefecer dos cafés, de um dia o vazio deixado por uma partida, só aí, quem sabe, a compreensão do tanto que fica por dizer, pode ser uma repetição, que seja, há frases que sabem sempre a primeira vez, neste momento, estava para além do espanto, não se vislumbravam tréguas no horizonte com os rectângulos, nem se olhavam há bem mais de quinze minutos, quanto mais conversar, reparei numa velhota, enviuvara há uns anos, que, todos os dias, àquela hora, vinha pelo pão saído do forno, levava duas ou três carcaças, pagava sempre com moedas, um esforço, não sei se da vista ou do bolso, em as aglomerar, percebi, logo da primeira vez que nela reparei, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, somos tão estranhos, o olhar dela, não obstante as trevas que a vida lhe lançou ao caminho, agora mais esbatido, iluminava-se assim que encontrava o empregado, de bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, não me recordo bem quando ou quem, se foi de manhã ou de tarde, a verdade é que ouvi comentar que as duas ou três carcaças eram o jantar e também o pequeno-almoço, do dia seguinte, da velhota, observações assim fazem-nos parar e reflectir, pois, era ossuda e magra, o regresso à terra denotava-se no seu minguar, apesar de tudo, o rosto benévolo pontuado com um sorriso, um café é o centro do mundo, não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros, não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o meu curso, regresso à mesa mais próxima, bem diante de mim, os cafés permaneciam intactos, nunca gostei de beber café frio, cada um deles permanecia no seu isolamento sob os ditames do rectângulo, piedade e ira perpassaram-me pelo espírito, neste ponto, senti-me numa crescente distância, pensei que, se morresse por estes dias, partiria sem muita saudade, como foi possível este ser, de duas patas, cair em tamanho ardil? E as suas expressões enquanto, com avidez, para ali se consomem: total concentração, ar de pensador, ansiedade, riso, apreensão, enfim, todas as cambiantes da existência se reflectem naquele rectângulo… Decorreram cerca de vinte e seis minutos, desde que se sentaram à mesa, nem uma palavra trocaram, já nem falo de se olharem, estamos, creio, no términus do processo de desumanização. Não consegui olhar mais, senti-me a asfixiar, levantei-me, peguei nos livros e saí para o ar entardecido da cidade, como precisava de respirar, andei um bom bocado, precisava de aquietar o pensamento…