FINITUDES
Livros do Escritor
quinta-feira, 11 de junho de 2026
segunda-feira, 8 de junho de 2026
Cesto de papéis
Bem sei que hoje quase não há cestos
de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua
missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas
pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo
ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da
ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e,
raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de
papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir,
parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos
desarrumou as coisas. É mais ou menos assim que me sinto, quando se subtraem ou
se alteram paisagens do passado. Mais doloroso que nos subtraírem o futuro, é
roubarem-nos o passado. Porque aí tiram-nos as certezas: do que foi, ou
julgávamos ter sido… De certa forma, é correcto afirmar que uma frase
silenciada tem como destino um qualquer cesto de papéis da nossa alma. E como o
meu está cheio! Com o tempo, aprendemos o silêncio, é uma aproximação lenta, os
anos passam, nós mudamos, não é o mundo que muda, sempre esta ilusão, e, de
repente, respiramos fundo pela harmonia de nos sabermos em silêncio, o resto
estridente do mundo já numa distância imensa, nós naquele instante de
serenidade, talvez permita vasculhar o cesto de papéis da nossa alma, meu Deus,
o que para aqui vai! Não sabia que ficara tanto por dizer… Baixo-me junto do
cesto, está quase a abarrotar, talvez seja melhor sentar-me, sim, sem dúvida,
começo a vasculhar papéis, enfio o braço quase até ao fundo, retiro daí uma
folha amarfanhada, reparo na evolução da minha caligrafia pelo tempo, afinal,
já em criança silenciava sentires… De repente, não sei de onde veio, irrompe, no
caminho do meu pensar, a imagem daquele cão a examinar passeios anoitecidos
numa minúcia detectivesca, dois passos atrás, em esforço pela trela, ela
seguia-o quase numa devoção religiosa, saíam sempre à mesma hora, via-os da
janela, para mim, sempre a rapariga do cão, não sei porquê, enternecia-me,
havia tanta feminilidade em cada gesto seu, apreciava-lhe a lenta suavidade de
ajeitar os cabelos para trás da orelha, um gesto tão repetido, mas para mim
sempre novo, não me cansava de o rever, as ruas, àquela hora, já iluminadas
pelos lamuriosos candeeiros nocturnos, sabia-lhes a rota, iam até ao final da
praceta, cerca de centena e meia de metros, e regressavam, ela dois passos
atrás, em esforço pela trela, até que, certa noite, um sujeito, à mesma hora, também
com um cão, mas apenas um passo atrás, não se lhe denotava esforço pela trela,
o primeiro contacto foi ao nível do passeio, pararam, olharam-se, por fim,
cheiraram-se, as caudas ininterruptas, como leques, ela, uma vez mais, a
ajeitar os cabelos para trás da orelha, contudo, desta vez, foi célere, como
sempre acontece nestas ocasiões, as palavras trocadas tinham como pano de fundo
os ininterruptos leques abaixo dos joelhos (Não
se preocupe que não morde! É menino ou menina? Ainda é novinho, certo? A minha
também não. É muito meiguinha e sociável. Tenho-a há três anos, foi-me dada com
dois meses…), por norma, é este tipo de frases que se ouvem quando duas ou
mais trelas se imobilizam, com uma ou outra variação, de vacinas, a escalada
dos preços na saúde dos amigos de quatro patas, a biografia do leque pelos
joelhos, algumas dignas de um fado nocturno, e pouco mais, muito pouco mesmo,
porém, não sei porquê, entre aquelas duas trelas imobilizadas sobre lamuriosos
candeeiros nocturnos, percebi, de imediato, que havia muito por dizer, enquanto
ao nível da calçada os farejares se harmonizavam, as trelas assumiram a mesma
direcção, nas noites seguintes, os cerca de cento e cinquenta metros, até ao
final da praceta, passaram a ser cumpridos em diálogo, mais duas solidões que
se extinguiram, reparei, por mais de uma vez, que ela se esquecia de ajeitar os
cabelos para trás da orelha, ficava com a melena a ocultar-lhe parte do rosto,
mas nunca do sorriso.
domingo, 7 de junho de 2026
sábado, 30 de maio de 2026
Carne-podre aos cães e às cadelas
Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Porcachona, não estava há muitos anos no canil, no entanto, destacara-se, de múltiplas formas, na serventia aos seus amos, foi lesta a abocanhar a carne putrefacta, essa cadela até os ossos engolia, nada lhe escapava, por algum motivo muitos questionam se anda ou rebola, o segundo pedaço de carne-podre caiu ao lado de um rafeiro conhecido por Tintim, esse tem muitos anos de canil, apesar da rafeirice, é um mamífero delicado, e, pelo que se constata, um fiel servidor das ordens dos seus donos, abocanhou a podridão que lhe coubera, ao contrário da cadela Porcachona, com delicadeza, até as varejeiras que cobriam o despojo se sentiram honradas, o terceiro pedaço de podridão foi parar ao lado de um rafeiro de nome Manguinhas, esse ladrava muito nas costas dos donos, porém, na sua frente é vê-lo a abanar a cauda e a rebolar para seu deleite, quem não se enterneceria com tal submissão?! Este rafeiro já avoluma uns anitos neste canil, sempre com o mesmo registo, ladra alto dentro de portas, mas assim que se abrem, é ver-lhe a cauda em movimentos-horizontais e a rebolar, o quarto pedaço de carne-podre caiu próximo de uma cadela Zarolha, tem poucos anos de canil, registe-se a meteórica ascensão, assim que os donos lhe decretam uma ordem, é vê-la a cumprir escrupulosamente, em correrias pelo canil a ladrar para os demais, gosta, pelo que se vê, de rafeiros velhos e obesos, e também gane muito nas costas alheias, nada de novo neste canil, o pedaço de carne-podre seguinte, o quinto, caiu em frente a uma cadela velha, não obstante o carácter rafeiro, uns laivos de cadela de raça inglesa, apenas isso, uns laivos (que fazer?), olhou o a carne-podre como se um não assunto, embora salivasse por todos os lados, não tardaria muito a retalhá-la, a sua volumetria assim o exigia, outra fiel servidora dos donos do canil, a sexta putrefacção quase atingia uma cadela que tinha uma coleira com uma cruzinha, de início ainda questionaram a possibilidade de donos, um logro, uma digníssima rafeira, assim que algum incidente pelo canil, é vê-la em correrias a ladrar à procura dos donos, talvez seja das cadelas que mais quilómetros por ali soma, um descanso para os seus amos, nada por aqueles lados ocorreria sem que esta cadela prontamente não lhes noticiasse, muitos outros cães e cadelas acabaram por receber o seu putrefacto naco, escusado será referir que muitas varejeiras foram engolidas por estes rafeiros, estão habituados a engolir o que os dignos vomitam, assim se sobrevive neste canil, o sétimo pedaço de carne-podre calhou a uma cadela que ladra sobre quem desconhece por inteiro, há múltiplas por ali, a providência aconselha cuidado, infelizmente, por estes dias, é dos fenómenos mais pródigos, cães e cadelas a ladrar sobre desconhecidos, coitaditos, entre portas todos ladram alto, agora se tiverem o infortúnio de estas se abrirem… Os donos olham estes rafeiros com júbilo, cumpriram o que lhes foi ordenado, mereceram o naco-podre, não fossem estes, outros haveria na ânsia de um lugar com cobertura, mais próximo da comida, entre outras regalias, e os passeios, claro, como estes cães e cadelas gostam de passear pelos campos adjacentes, para quem ignora como se gere um canil de rafeiros, aqui vos deixo este manual de instruções, quanto às varejeiras, como por estes dias se diz: “um infeliz dano-colateral”, nada que perturbe a digestão desta matilha rafeira.
terça-feira, 26 de maio de 2026
Ali onde não há ontem nem amanhã


