Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali
as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência…
Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do
silêncio, que nos murmura incessantemente solidão,
e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente
sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que
pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para
as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas,
danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao
mundo Esta nossa filha é muito
concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me
tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para festas,
uma inigualável sede de roupas, cachecóis, sapatos, malas, só a ouço em
risadas, de vez em quando, sinto-lhe o olhar receoso a seguir-me os passos,
enquanto os meus pais, apreensivos com tantas risadas, murmuravam Ao menos, Deus concedeu-nos um filha
concentrada… E eu sentia-me tudo menos concentrada, só com ele, sentado
diante de mim, esta tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas,
nesses momentos, eu sentia-me parte integrante de qualquer café, não, não
chegava às risadas, festas, danças, gostava de ali estar com ele, a sentir a
pulsação da cidade lá fora, carros, buzinas, passeios, gente que os caminhava,
para mim, rostos inexpressivos, talvez por não me demorar neles, se por aí me detivesse,
perceberia que se ocupavam em intrincados cálculos para aportar na margem do
mês seguinte, outros pela doença de um filho, ou por um divórcio anunciado,
creio que poucos questionam a morte do sonho, substituem este facto pela
denominada maturidade, pelo vidro,
vejo-os, lá fora, a povoar estradas e passeios, já não se olham, evitam-se num
absurdo desumanizante… Como dizia, só com ele, sentado diante de mim, esta
tristeza afastava-se, como se uma concessão de tréguas, talvez um sonho se
erguesse algures em mim, às vezes, ele, num repente, levantava-se, dava-me a
mão, e só parávamos junto ao mar, ali ficávamos, dentro do carro, a eternizar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…
Outras vezes, íamos até aquela discreta pensão, duas travessas à direita do
café, demorava, claro, a recuperar a intimidade, falávamos, falávamos, mais
ele, como é evidente, sempre preferi ouvir, assim ia a tarde, assim ia a minha
vida…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado,
nunca concebi, confesso, apaixonar-me por um homem casado, muito menos assumir
o papel da outra, a palavra amante sempre
me soou mal, meus pais, coitados, de mim diziam Esta nossa filha é muito concentrada! Mal sabiam, coitados, mas que
podia eu fazer? Para ajudar com as contas caseiras, enquanto estudava,
trabalhei na recepção de uma clínica veterinária, foi lá que nos conhecemos,
lembro-me tão bem da primeira vez que o vi, é um desses momentos a que regresso
múltiplas vezes, tinha um rafeiro de médio porte, assim que entrou, sabia-lhe a
voz, é tão estranho, quando se abeirou do balcão, já a tristeza partira de mim,
nessa semana, regressou por mais duas ou três ocasiões, o cão tinha sido
atropelado, embora não fosse grave, o anelar preenchido não me passou ao lado,
porém, algo me impelia na sua direcção, talvez a súbita ligeireza por largar o
fardo de uma vida (Esta nossa filha é
muito concentrada!), a tristeza que me tolhia o ser, ele também se
demorava, cada vez mais, do outro lado do balcão, por norma, era o último
cliente, queixava-se de falta de tempo, sempre o trabalho, percebi que lhe
seguia as pisadas académicas, ajudou, claro, a solidificar as pontes de
diálogo, uma noite, com o pretexto da caminhada nocturna do cão, deixou-me à
porta, outras se seguiram, algo, agora mais forte, continuava a impelir-me na
sua direcção, apesar do objecto amarelecido exibido no anelar, de um filho na
primária, de não haver vislumbres, em palavras ou actos, de algum dia partir
daquela ilha, ainda assim, eu continuava a caminhar a seu lado, pelo restituído
sabor da noite, as afinidades académicas pois, e a súbita ligeireza, quantas
vezes largamos o fardo de uma vida? Hoje, tanto tempo depois, continuo
desencontrada da palavra arrependimento, não sei se é positivo, não sei,
confesso, nunca fui de ideias gerais, a mulher dele, a certa altura, criou uma
ideia de nós, apenas isso, nunca a materializou, desconfiar é isso mesmo,
formar uma ideia sem lhe encontrar um corpo, tivemos as nossas cautelas, como é
evidente, no meu caso, queria apenas que a tristeza se mantivesse na soleira da
porta, claro que, volta e meia, acabava por entrar, nos períodos festivos, nas
férias grandes, nunca soube o que é isso a seu lado, e doía-me nas minhas
funduras a solidão desamparada de me saber assim, com o tempo, os meus pais Esta nossa filha é muito concentrada! Só tem olhos para os livros… Já não sei
se diziam isto para se convencerem, se para iludir os outros, a minha irmã de
casamento marcado, não obstante as festas, uma inigualável sede de roupas, de
cachecóis, de sapatos, de malas, as infindáveis risadas, eu aquém destes
cenários, certa vez uma tia ousou E tu,
minha filha? Quando é que chega a tua vez? Olha que filhos depois dos 30… Logo
o meu pai vociferou Esta nossa filha é
muito concentrada! Só tem olhos para
os livros… Acho que nem ele já acreditava. O tempo continuou o seu caminho,
após o curso, vários empregos até estabilizar, entretanto, um sobrinho, de vez
em quando, com a desculpa de um congresso para a mulher, partíamos de
fim-de-semana, doía-me não poder apresentá-lo aos meus, contudo, dessa forma,
era como se pisasse uma paisagem só minha. Andaria o meu sobrinho aí pelos
doze, quando, numa manhã, a voz dele tão distinta do que conhecia,
arrastava-se, ao telefone, como se numa espera pelo pensar, falou-me em
almoçarmos naquele restaurantezito discreto, onde íamos habitualmente, disse
que sim, mas logo a inquietude ao leme do que sou, aquele arrastar de voz, tão
próximo do soletrar, insisti Mas passa-se
alguma coisa? Ele, impassível, quase numa anestesia, Falamos ao almoço… E custou a chegar a hora desse almoço, entrei e
sentei-me na mesa habitual, esperei uns doze minutos, por fim, ele, curvado,
com um semblante de derrota, disse-me Vem,
falamos ali fora, acedi, confirmou-se o pior cenário, num exame, para a
mulher, teria de retirar um peito, e, mesmo assim, sem garantias, acrescentou Não podemos continuar… Baixou o olhar,
antes de terminar a frase, não regressámos para a mesa, ainda não tínhamos
pedido, abraçámo-nos pudicamente, dei-lhe um beijo na face, enquanto ele me
segredava, numa doçura suplicante, Espero
que compreendas… Partimos em direcções opostas, creio que, nesta vida,
raramente caminhámos rumo ao mesmo horizonte…
Hoje sei que ninguém me espera. Um desses dias em que as
sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma
janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, entretanto, o meu
pai deixou-nos, faz agora pouco mais de um ano, sempre aquele terrível inimigo
que nos dilacera por dentro, e que ninguém aparentemente quer derrotar (a quem interessará tal força?),
felizmente ainda conheceu a neta, pois, fui novamente tia, desta vez, de uma
linda menina, tem agora oito aninhos, a minha mãe refugiou-se no serviço
paroquial, reforma e viuvez não são boas conselheiras, e eu para aqui ando, faz
dez anos aquele púdico abraço. Nunca mais nos vimos. Nunca mais soube nada
dele. De certa forma, foi o único final possível. E admirei o seu gesto de
regressar inteiro naquela hora. Houve tanta nobreza nesse momento. Desde então,
regressou a minha velha companheira de viagem, recebi-a com indiferença, foi
discreta na sua reentrada, está para ali, no seu canto, e não me incomoda,
chego a casa, não acendo logo a luz, nalguns gestos sinto os passos do tempo, é
natural, dele só resta uma fotografia, nem está à vista, hoje, tanto tempo
depois, continuo desencontrada da palavra arrependimento, basta-me relembrar
aquele instante em que a luz partia da terra para nos relembrar sonhos caídos…


