Livros do Escritor

Livros do Escritor

sábado, 11 de julho de 2026

O desencanto impronunciado de um Domingo à tarde

 


Foi assim, num repente, mas como tudo nesta vida, demorou o seu tempo, embora, para mim, reafirme que foi num repente, como dizia, após duas décadas, que, vistas daqui, parecem-me dois dias, ele Precisamos de conversar… Não sei se foi do Precisamos de conversar, de suster a respiração para articular as palavras, da sua expressão que denunciava uma irredutibilidade demasiado teatral, num esforço palpável e evidente, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, religiosamente cumpríamos o café, e aos Sábados também, servia para sairmos de casa e ajudava na digestão, apesar de ficar somente a umas dezenas de metros da nossa porta, no regresso, sobretudo Domingo à tarde, havia um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, uso o plural propositadamente, porque tenho a certeza de que este sentir de derrota era partilhado por ambos, a nossa passada no regresso a casa, Domingo à tarde, era desesperançada, lenta, reticente, sabíamos que já nada esperávamos de novo nesta coisa chamada viver, a mim, esperava-me a tábua de engomar, ao menos voltada para a televisão, a ele, o sofá com o jornal dobrado, nunca o conseguia finalizar numa manhã, até à janta, por ali ficávamos, a certa altura, sei que a cabeça dele começaria a pender, a pender, cada vez mais, até que a respiração se adensava, nessa altura, eu logo a baixar o volume da televisão, não o queria incomodar, coitado, pelo menos, assim o esperava, em algum momento estaria longe das agruras do trabalho, das contas que sempre aportam mensalmente na caixa-do-correio, das hesitações do miúdo com o curso que escolheu, deste sentir de derrota partilhado por ambos em Domingos à tarde, pois, isto prolongou-se até que, no meu reflexo ao espelho, o cabelo com sinais invernosos, o dele não tanto, talvez por escassear, pois, como dizia, vínhamos do café, era um Domingo à tarde, após o almoço, ele Precisamos de conversar, percebi, de imediato, numa qualquer parte de mim, que tudo iria mudar, à medida que ele falava, falava, eu partira para longe, já não o ouvia, talvez por lhe saber a mensagem, Sabes, é muito difícil o que te tenho para dizer. Acredita-me que o é! Nem sei bem por onde começar… (Neste ponto, só queria saber se ele demoraria a despejar o que eu há muito sabia). Dizemos o que queremos ser, mas só somos o que fazemos. O meu pai muito repetia: “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E acrescentava de imediato: “Homem?! É lá isso um homem??? É mais um rato!!!” Creio, sinceramente, que me fui desapaixonando dele, assim que a porta de casa se fechou e iniciámos aquele estar a dois dentro de paredes, pareceu-me que, afinal, ali estava um estranho a quem nada tinha para comunicar, como se as palavras tivessem partido de mim para um local inatingível, não, em verdade, acho que foi antes, após o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, como se me questionasse Afinal, é só isto? Seguiu-se aquela semana nas termas, os meus sogros sempre com a conversa das termas, Faz bem à saúde! Vocês vão ver! Vêm de lá fresquinhos, ainda mais novos, e, Deus permita, já com um herdeiro providenciado, eu, abismada, ouvia-os sem sequer esboçar uma resposta, limitava-me a esconder atrás de um polido sorriso, mas a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção… Acho, em verdade, que contribuí sobremaneira para o Precisamos de conversar, o naufrágio de um lar nunca é singular, desde o Sim diante do altar, algo em mim se desvaneceu, e deixei-me ir, apenas, ele O que achas? Eu Como quiseres. Escolhe tu. Ele O que te parece? Eu O que decidires, para mim, está bem. Assim foi, do candeeiro de sala ao local de férias, até o nome do miúdo, deixei que ele escolhesse, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, desde o início, aquela semana nas termas, após o Sim diante do altar, ele procurava-me polidamente, neste particular, sempre muito respeitoso, correspondia pela curiosidade de saber como é, contudo, no fim, aquela sensação nunca de mim partia Afinal, é só isto? Ele cumpria, quase mecanicamente, pois, o naufrágio de um lar nunca é singular, eu em apatia, depois, água a escorrer no bidé, sabão, regresso aos lençóis para o repouso pelo dia que virá, ainda me passava a mão pelos cabelos, nesse ponto, já me fingia adormecida, sempre me pareceu, não sei porquê, que vivia a existência de uma outra pessoa, as procuras nocturnas dele tornaram-se esparsas, de certa forma, agradecia, por volta dos nossos dois anos daquele estar a dois dentro de paredes, o nome de uma colega de trabalho surgiu lá por casa, não me escapou a alteração com que foi entoado, mas não me importou, em verdade, senti-me reconciliada, por fim, talvez alguém viesse ocupar o lugar que lhe estava destinado, e assim retomar a harmonia das coisas, porém, foi mais ou menos por estes dias, o nome da colega ainda pairava lá por casa, entoado musicalmente, a minha natureza mensal por se cumprir, no mês seguinte sucedeu o mesmo, farmácia, teste, consulta, médico, reconfirmado, minha mãe numa felicidade transparecida até aos olhos, meu pai emocionado, continha a alegria numa divisão de si muito bem fechada (como o percebia!), é-nos mais fácil compreender espelhos, após uma exaustiva insistência de meus pais, contei-lhe, por fim, nessa noite, ocultei o facto de estar já no segundo mês, bem como, para não lhe ferir a susceptibilidade, o conhecimento prévio dos meus progenitores, ele sentou-se, mais concretamente, deixou-se cair, respirou fundo, não sem antes esticar as pernas, olhou a televisão sem olhar o que por ali se passava, pôs-se a beliscar a bochecha direita, tinha este hábito sempre que a vida o obrigava a pensá-la, murmurava qualquer coisa que, para mim, era indecifrável, mas havia um traço na sua expressão de uma felicidade irreprimível, fui até à cozinha terminar algo, há sempre qualquer coisa fora do lugar dentro de uma casa, percebi-lhe os passos atrás de mim, os braços a envolverem-me, e segredou-me, repetidamente, na linguagem do sentir, Estou tão feliz… Estou tão feliz… Estou tão feliz… Senti-me reconfortada, confesso, mas aquela sensação, de que vivia a existência de uma outra pessoa, como se tivesse existido um engano, na ordem natural das coisas, e eu viesse ocupar o papel errado, há muito se alojara numa qualquer divisão de mim, pelo menos, durante uns tempos, não houve nomes de colegas entoados musicalmente lá por casa, a gravidez prosseguia em paralelo com a minha indiferença face a tudo, cumpria cada tarefa numa frieza autómata, houve momentos (e como foram plurais, meu Deus!) em que ele tentou desfazer equívocos de papéis errados, por outras palavras, ele foi até onde a paciência lhe permitiu para diluir esta minha apatia, contudo, foi lesto a compreender o malogro dos seus esforços. O parto, ao menos a anestesia, devia haver outra que calasse as dores do depois, a criança (como gritava!), a enfermeira, insuportável, Pegue-lhe, mulher! É seu filho! Os pais dele em histeria, à minha volta e do miúdo, a gargalhada escancarada e indecorosa dele não me escapou, assim secundava cada frase paterna, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, eu em apatia, a uma distância das coisas que me equilibrava, neste ponto, face à insistência da enfermeira (Pegue-lhe, mulher! É seu filho!) que, pareceu-me, assumia laivos coléricos, deixei-me ir, iniciei-me na arte de representar, peguei na criança, deformei o rosto com um sorriso plástico, respondia por monossílabos ou em anuências, e, de repente, tudo à minha volta mudou, já não era uma estranha, passei a ser aceite pelos demais, até ele passou a direccionar-me frases despojadas de quaisquer cifras ou barreiras, por uns tempos, não destoávamos de qualquer outro lar, cada um cumpria o papel que lhe estava reservado antes de sequer ser, pois, a harmonia das coisas, porém, fui eu que acusei o esforço exigido pela representação, comecei a caminhar na minha direcção, a distância, a apatia, por fim, regressei-me, os dias tornaram-se semanas, as semanas em meses, estes em semestres, vieram os anos, uma década, duas décadas, houve quatro ou cinco nomes de colegas entoados, com alguma insistência, melodiosamente, até que, nesse Domingo de tarde, ele Precisamos de conversar… No fundo, já o esperava, não compreendo como foi possível ele ter esperado tanto? Duas décadas de um tremendo equívoco! Confesso a minha admiração por alguns traços do seu carácter, era asseado e polido naqueles momentos, a esmerada dedicação ao filho, jamais nos levantou a voz, acho que, em certa medida, lhe foi conveniente a minha apatia, no fundo, talvez nunca tenha verdadeiramente deixado o lar paterno, sempre aquela gargalhada escancarada e indecorosa, assim secundava cada frase do pai, como se em busca da sua providencial e salvífica bênção, algo que revoltava o meu, aquela notória subserviência dele, “Tanto homem e foste logo arranjar um sem coluna vertebral!” E agora, neste Domingo à tarde, após o almoço, regressamos do café, um impronunciado sentir de derrota pelo ar, nunca o verbalizámos, não era necessário, sentíamo-lo, ele Precisamos de conversar… Eu pensei, espera, espera só mais um pouco, talvez se ele olhasse lá para fora, visse que a noite já pousava a mala.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Vamos à vida, porque a morte é certa


 

Nunca gostei de frases-feitas, daquelas máximas com o seu carácter irredutível, a pairar como uma sentença, uma inevitabilidade, daí a minha resistência, na manhã da vida era recorrente ouvir a frase em epígrafe, sobretudo após o términus do almoço, era dita com entusiasmo e simultaneamente resignação (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), talvez por, na altura, a sola dos meus sapatos estar quase incólume – apesar disso, em certos pontos denotava-se a rugosidade de alguns solos percorridos, a manhã da existência não é assim tão luminosa, tudo depende da capacidade de reconhecer sombras –, não encontrava argumentos para rebater tão lacónica máxima (“Vamos à vida, porque a morte é certa”), hoje prontamente questionaria: O que é isso da vida? Das múltiplas respostas lidas e estudadas, confesso que nenhuma me satisfez, de facto, ninguém, até hoje, respondeu ao que é a vida, mas sim à sua perspectiva de a viver, realidades bem distintas, pouco me importa como os outros a vivem, eu continuo em busca da minha perspectiva, que tanto se foi alterando com o tempo, em verdade, ainda não a encontrei, se invejo os que têm uma pronta resposta para oferecer? Nada, têm a sola dos sapatos tão gasta quanto eu na manhã da vida, o caminho, de forma subtil, muda-nos as paisagens interiores, há uns dias encontrei, num contexto distinto, uns vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, no entanto, brilha como poucos na garagem, a inépcia dele para a condução é gritante, para estacionar vai à frente, vem atrás, mais uma vez, vai à frente, vem atrás, outra ainda, vai à frente, vem atrás, ela já de fora, a supervisionar tão delicada manobra, quando o meu sistema-nervoso tem o infortúnio de com eles se cruzar, sobretudo na garagem, em convulsão, não por antipatizar, mas por lhes reconhecer uma resignação face à existência que me é uma flagrante antítese, a lentidão estende-se-lhes dos gestos às palavras, um semi-sorriso omnipresente no rosto, tudo grita, tudo cala, dali não virá qualquer gesto de irreverência ou profecia face ao acontecer, somente lugares-comuns, o comezinho do quotidiano, os inevitáveis envelopes que, mês após mês, aportam na caixa-do-correio, o minguar dos sacos em contraste com o engordar da conta no super-mercado, a singularidade destas figuras reside precisamente no automóvel, quase tão velho quanto eles, contudo, repito, brilha como poucos na garagem, até os interiores se mantêm quase imaculados, e saem, todos os dias, pelo menos, duas vezes, sempre juntos, com o tempo, os casais vão-se assemelhando, dos gestos estende-se até à aparência, um estranho fenómeno pouco discutido, há na sua aparência, sem dúvida, uma quase irmandade, paixão não lhes consigo descortinar, nem sequer cinzas, percebo nela um certo ascendente, apesar de só ele assumir o volante, não obstante a total ausência de vocação, só o roda mediante as coordenadas ditadas por ela, sublinho não ser pelo facto da idade que não lhes encontro resquícios paixão, há casais onde essa centelha tremeluz até à despedida final, denominam-se “histórias de amor,” e não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor”, aqui chegado, regressa-me a questão: O que é isso da vida? Por muito que me custe, só posso responder invertendo a questão: “O que não é viver?” Tem sido este o caminho até aqui percorrido, no hoje, pela maioria, sob a vertigem da ilusão, na efemeridade de um artificial palco, todos procuram expor dias solarengos, luminosas risadas, paisagens oníricas, até o que está no prato (em termos de estupidez, atingimos os subterrâneos), com longos planos de filmagem, ângulos próximos, para granjear admiração e a ideia de bolsos fartos, bilhetes com destinos longínquos, poses artificiais que, a qualquer inteligência, com o mínimo de fulgor, apenas suscitam compaixão ou risadas, tudo, que nem ovelhas, a caminho do espectáculo mais propalado, fotos e mais fotos à porta, ninguém concebe ficar de fora, o sentir de pertença, tristes ovelhas a exibir o ferrete do dono sob a forma de uma pulseirita que lhes abre as portas do redil, tudo num delírio quotidiano que, no fundo, responde não a uma questão, mas a um desejo: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Por ali a Dor não encontra porta-de-entrada, se a pressentem, logo excluem, atiram para bem longe, a Dor jamais entra nesta equação: “Como desejavam que a vida fosse,,,?” Só que caminhar é sofrer, nada é mais doloroso que despertar, como invejo os tolinhos, são bem mais felizes, ainda não concluí se os meus vizinhos velhotes, têm um carro quase tão velho quanto eles, representam, pois, a máscara, sempre a máscara, para calar suspeitas de se aperceberem dos perigosos redis do hoje, ou se, por outro lado, não tiveram a audácia de questionar algo essencial: O que é isso da vida? Não posso apresentar uma conclusão, seria falacioso, por conseguinte, nada ético, não os concebo num redil, basta atentar nas quase três décadas de idade da sua viatura, não correram, em histeria, por um último modelo acabado de ser publicitado de todas as formas possíveis, pelo contrário, permanecem impassíveis, na sua bonomia, às influências exteriores, porém, eu não o imagino a tomá-la nos braços, inclinar-lhe o corpo ligeiramente para trás, aproximar os seus lábios dos dela, murmurar-lhe palavras de amor, e, por fim, beijá-la sem amanhãs – não há nada mais belo e fascinante que uma “história de amor” – pois, não consigo, a sua apatia liquida o germinar de qualquer ideário desta índole, na minha memória perduram dois ou três momentos que, com a maior das facilidades, respondem a essa perturbadora questão (O que é isso da vida?), quantos se podem gabar de, na memória, guardar tais respostas ? Confesso desconhecer, talvez por isso não ceda a delírios quotidianos e cultive um desprezo visceral para com os múltiplos redis do hoje.

sábado, 4 de julho de 2026


A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança...

in Saudades do futuro

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Saudades do futuro

 


Há gente que, não sei porquê, parece que passa pela vida sem que nada de especial aconteça, como se fossem imunes à mudança, creio que, se hoje os reencontrasse, estariam nos mesmos lugares a desempenhar exactamente as mesmíssimas tarefas doutrora, talvez o tempo tenha virado costas àquelas paragens, e há outros, enfim, que são engolidos nas mais tumultuosas correntes… Se analisar devidamente ambos os percursos, confesso que não invejo nenhum, do fastio de conhecer há muito os amanhãs, à incerteza da próxima esquina. Talvez haja quem tenha trilhado os dois, e possa avaliar as paisagens decorrentes… Vinda sei eu lá de onde, a imagem dela, segue-se a da mãe, magra, muito compenetrada, falava sempre baixinho, ligeiramente acima do sussurro, o que conferia às suas palavras um relevo substancial, ela, de laçarotes, uns palmos abaixo, aquém das verdades inolvidáveis sussurradas pela mãe, que iam de um lamento pelo preço do pão ao exausto reiterar das vantagens da vida na província, tudo isto, repito, entoado sempre baixinho, eu ouvia-a fascinado, bebia as suas palavras como se de seculares revelações se tratassem, Foi pena, sabe, muito direita, compenetrada, assim iniciava cada prelecção, minha mãe, talvez agrilhoada pelo seu politicamente correcto, ouvi-a com uma expressão de espanto, como se de uma primeira vez se tratasse, … Nem imagina! Lá tínhamos uma vida tão boa! Do que sinto mais falta é da minha hortinha! Não havia dia em que não pegasse na sachola para a tratar! E o espaço? Sabe, quantas vezes me perdia com as lonjuras? No frio, a brancura nos montes, com o calor, chegavam as andorinhas… Vivíamos ritmados pelo tempo. Aqui, às vezes, até me esqueço em que estação estamos! Para ver o céu, tenho de sair de casa! Onde já se viu uma coisa assim? Não percebo, de todo, esta gente que troca a província por isto! Uma coisa lhe garanto: isto não é viver! Se não fosse pelo meu marido, aceitava lá viver encaixotada… Sinceramente, até sabemos a que horas cada vizinho vai à casa-de-banho! É lá isto viver? E na rua? Ninguém se cumprimenta! Pelo contrário, há quem se finja de distraído para o evitar fazer… Creio que, a certa altura, minha mãe anuía por convicção, afinal, quem pode resistir a seculares revelações? O marido era carteiro, um daqueles sujeitos que, para mim, já nasceram idosos, afinal, os adultos sempre me pareceram velhos, aborrecidos, com umas conversas sonolentas, balizadas entre dinheiro e crises, a única ponte para o meu mundo chamava-se futebol, de facto, por aqui transitavam algumas conversas, mas, como dizia, o marido dela só o concebia sentado num sofá, de jornal na mão ou a sorver atentamente as notícias, neste particular, a minha imaginação padecia de uma total esterilidade, tal a bonomia da figura em apreço, também não era muito audível, quando nos cruzávamos nas escadas, ficava-se por um educado cumprimento, mas entoado baixinho, ligeiramente acima do sussurro, tal como sua mulher, aquele era, de facto, um lar de silêncios e de amanhãs há muito conhecidos. A filha, de laçarotes, uns palmos abaixo, acompanhava-os naquela discrição, limitava-se a sorrir à sua volta, pouco mais, não vinha para a rua brincar, talvez a mãe nos achasse barulhentos, de facto, íamos muito para além do sussurro, era uns três anos mais nova que eu, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, na velhice, é curioso, uma década é apenas mais um ontem, o tempo altera-nos sem se alterar, sempre aquele caudal inexorável que, imperceptivelmente, nos leva, leva, leva para o fim, e nós agarramo-nos a tudo para ocultar esta sempre calada evidência. Há uns dias via-a na rua, volta e meia, tenho este hábito, está em mim, já percebi que não há como lhe fugir, e também não o quero, regresso aos lugares do ontem, sempre desconfiei que talvez eu ainda por lá esteja, queria rever-me, cumprimentar-me, no fundo, é tão simples, dizer-me para não ter pressa. A haver um céu, não estará longe de um sonho de criança, bom, como dizia, este hábito de regressar aos lugares do ontem, ela descia a rua, nem sei como a reconheci, sem laçarotes, nem palmos abaixo, longe, muito longe, daquele discreto silêncio, porém, foi qualquer coisa na sua expressão, talvez o mesmo sorriso apesar da face mais redonda, sei que não me viu, acho que não me reconheceria, pois, na meninice, dois anos equivalem a uma geração, e ela não descia para brincar connosco, talvez a mãe nos achasse barulhentos, como dizia, ela ia rua abaixo, na considerável distância de um ar compenetrado, nem vestígios, por ali, de sussurrar palavras, continuei a olhá-la, pelo retrovisor, na esperança de que sua mãe, num repente, surgisse, rua abaixo, atrás dela, pronta a levá-la para casa, afinal, esquecera-se dos laçarotes e, por aqueles lados, há tanto barulho… Contudo, não sei de onde me chegou esta ideia, pareceu-me que os seus pais cumpriram o regresso final, possivelmente repousam, para sempre, voltados para as lonjuras, no frio, a brancura nos montes, com o calor, chegam as andorinhas.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Opúsculo

 


“Porquê essa coisa de estar permanentemente a juntar palavras? Há quanto fazes isso? E, já agora, para quê?!”, não me recordo do instante em que a deixei de ouvir, a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, havia, da sua parte, uma nítida acrimónia com este meu lado de correr atrás de palavras, “Receias algo? Que possa contar alguma história nossa?”, foi a sua vez de concluir que a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, “Tenho lá tempo para receios! E a quem interessaria alguma história nossa? Só não compreendo a razão de perderes tanto tempo a juntar palavras, palavras e palavras… Ainda por cima, não te conheci assim…,” como lhe conseguia explicar algo que, em verdade, me ultrapassava por inteiro, não se exprime um desígnio, concretiza-se, “Tens olhado à tua volta? Em que mundo andas? Lamento informar-te, mas já ninguém lê! O mundo está inclinado para um rectângulo!!! Quer paliativos, pensos-rápidos, distracções para as dores da alma, jamais parar, olhar-se a um espelho e, por fim, pensar-se…”, “Eu não escrevo para os outros, escrevo para mim… É o respirar da minha alma! Por acaso, inspiras e expiras pelos outros?,” “Quando se ama, pode dizer-se que sim…,” “Acabaste de correr atrás de palavras para me responder…,” “É possível, mas não me sentei, horas e horas, diante de uma folha em branco, tolhida, à espera de uma invisibilidade que me faça pegar numa caneta, para calar aquela obscena brancura que me ameaça tragar…,” “Não compreendo esse desvario com o facto de eu escrever! Seria melhor outro vício? Bebida? Droga?”, “Argumentação infantil, esperava mais, confesso, estamos, desde o início, creio teres compreendido, a falar de tempo… Só devemos dedicar, esse tão precioso bem, subtraído a cada instante, ao que amamos,” “Quem te diz que não amo a escrita?”, “Não se ama uma obrigação…”, “Aí te enganas ou talvez não… É um imperativo de uma outra ordem…”, “Há quem já coloque o seu nome como autor de um texto elaborado por aquela estupidez que será o nosso fim… Tens consciência disso? Vivemos a era do Faz de conta…,” “Calma, tenho isso bem presente no meu horizonte! Os medíocres, hoje, mais do que nunca, fazem de conta que são uns excelsos profissionais, os compinchas fingem acreditar e retribuem de igual forma, velando a sua mediocridade com o faz de conta… Assim se somam os dias, em todos os sectores, desta apatetada sociedade: faz de conta de que está tudo bem, faz de conta de que não és desgovernada por marginais, faz de conta de que não te mobilizas a comprimidos, faz de conta de que és muito feliz, faz de conta de que és muito ocupada, faz de conta de que tens muitas posses, faz de conta de que és muito solicitada, faz de conta de que és segura de ti, faz de conta de que gostas de todos à tua volta, faz de conta de que és muito bem-sucedida, faz de conta de que só sabes sorrir… Por aqui o perigo maior e a ameaça de, a qualquer instante, a máscara cair…”, “Está tudo muito certo, mas que tem tudo isso a ver com a quase total escassez de leitura?! Reflecte na quantidade de autores obnubilados ou a caminho da sombra… Quem hoje, de facto, lê os clássicos?! Pensa, por exemplo, a esta hora, pelo mundo, quem estará a ler um contemporâneo que valha a pena? Esquece os escrevinhadores de pacotilha, qualquer jumento vai, rua abaixo, com o tijolo debaixo do bracito, julgando fazer uma bela figura, embora, como bem sabes, desde tempos imemoriais, seja um número demasiado plural… Tudo se concertou, à nossa volta, para a preguiça de corpo e mente, por conseguinte, quem ousa desconstruir, peça por peça, um monumento literário?! Até faço um cartaz: PROCURA-SE”, “Denoto que perdeste a fé. Há uns dias, não por acaso, num contexto que apelava à diversão, olho para o lado e vejo um tipo a ler um dos gigantes russos…”, “Era novo?”, “Não.”, “Pois, lá está, ainda respira nele o vislumbre de um mundo ido. É esse respirar que o faz pegar num monumento literário e procurar, com uma minúcia de relojoeiro, desconstruí-lo peça por peça… Quem é o jovem, do hoje, com arrojo para tal??? Tanta imagem matou-lhes a imaginação!!! E talvez não seja um acaso… Podes escrever para ti, não discuto isso, contudo, nunca te esqueças: escreves para o ontem, jamais para o amanhã! O amanhã, tal como o hoje, pertence à imagem e aos escrevinhadores de pacotilha…”, “És profeta?”, “Não, sou mulher.”, “Não obstante o teu argumentário, sou habitado por um outro respirar, que me impele a juntar palavras, e palavras, ainda mais palavras… Se serão lidas? Não me interessa, pelo menos, consigo olhar-me a um espelho. Achas pouco? Para mim, é o tudo.”, “Claro que não acho pouco, considero até bastante, agora lembra-te: só no ontem encontrarás eco! O hoje traduz-se na fragilidade de um desses rectângulos que é incapaz de cair na dureza da realidade, precisa de uma salvífica película, assim perspectivam o mundo em redor, através de um filtro, que lhes esbate a dor e entorpece o pensar…”, “Há pouco esqueci-me desta: faz de conta de que somos muito inteligentes… Não sei onde isto desaguará, espero, com sinceridade, não estar aqui por muito tempo…”

Pedro de Sá

(29/06/26)

 

segunda-feira, 29 de junho de 2026


A verdade é que a compreensão da vida é também a compreensão da ironia…

in Nuvens passeantes pelas águas