Livros do Escritor

Livros do Escritor

sexta-feira, 24 de abril de 2026

A saudade de um sentir saudoso

 


Quando dei por mim, despia molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui, e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te? Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza, de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo, discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal, viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois, sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar? Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é? Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo… Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite, como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora, uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é porque sei a direcção de cada passo.

sábado, 18 de abril de 2026



 ... quanto mais se corre atrás de palavras, à mesa, maior é a dor escondida nos silêncios…

in Nuvens passeantes pelas águas


 


 

Por ruas desertas anoitecidas

 


Por ruas desertas anoitecidas, guio num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância daquela frase (Nunca pensei que isto algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa… Nunca pensei…), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros, e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o regresso ao lar, a janela que se fecha, a luz que se acende, e uma aparente harmonia restituída… Até quando?

Olhava a colher trémula, receoso, contudo, a sua abnegação persistia, diariamente, com a sopa do almoço, com o doce de pêssego ao lanche, a sopa vespertina, o xarope para a tosse, ela limitava-se a entreabrir os lábios, sem sequer emitir um som, quanto mais uma palavra, sorvia na distância, pois há muito partira. Foi numa certa manhã, ela a queixar-se de dores de cabeça, ele a relativizar, afinal, já habitavam o Inverno da vida, viviam da magra reforma dele, emissário de desgraças e de tão poucas graças durante a vida, em determinadas ocasiões, quando a missiva impunha assinatura do destinatário, nem ousava tocar, preferia escrevinhar que ninguém atendeu, pelo peso do envelope aprendera a saber-lhe o conteúdo, e cansara-se de ver rostos desesperados, e quanto mais olhava a terra, sob o peso do saco dos desencontros alheios, mais colocava a cruz ao lado de Ninguém atendeu… É curioso, as cartas passavam por ele seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história que o tocou particularmente, sempre soube o porquê, talvez por isso nunca a tivesse partilhado com ela. É natural, a aprendizagem das dores é a aprendizagem do silêncio, só assim sobreviveram àquela tarde em que a campainha num pânico súbito, a contrastar com a indolência da tarde domingueira, ele num regresso forçado da sesta à sua circunstância, de sofá e jornal caído na carpete, ela também a desviar os olhos da televisão para a porta, embora o coração… Pois, o coração nos seus monólogos de profeta, farol do sentir, a sussurrar-lhe que o filho caído no alcatrão da estrada, correra por uma bola, apesar da tentativa de travagem, por demais documentada no pavimento, tudo infrutífero, o murmúrio insistente: É isto que se passa! É isto que te vão dizer! Prepara-te! Ela num assomo de esperança Tens a certeza? A resposta pronta Lamento! Nessa tarde, foi ele que calou a dissonante campainha, foi ele que recebeu a notícia, foi ele que ficou lívido e emudecido sob a ombreira da porta, ela nem se levantou, permanecia de olhar fixo numa moldura que lhe devolvia um sorriso do filho…

A aprendizagem das dores é a aprendizagem do silêncio, chegou tarde e partiu-lhes tão cedo, a vida é isto: uma soma de incompreensões! Como dizia há pouco, as cartas passavam por ele seladas, no entanto, permitiam-lhe saber a geografia de cada existência. Houve uma história que o tocou particularmente, semanas após ter deixado a cruz ao lado de Ninguém atendeu, o destinatário era um casal jovem, ela em dificuldades com os degraus, já teria dobrado o sétimo mês, o rapaz sempre diligente a seu lado, deixou os estudos para assumir as expensas desta nova fase da vida, de obras a biscates abraçava prontamente todas as possibilidades, ouvia-se dizer que deixaram o interior para fugir às más-línguas, e também ao desacordo das famílias na sua união, seguiram-se envelopes gordos, até que, numa certa manhã, os viu com três malas, pousadas, à porta do prédio, o bebé ao colo da mãe, andaria pelos dois meses, antes de depositar as cartas, parou junto deles, Bom dia! Estão de partida? Ambos responderam com uma silenciosa expressão de derrota, ele não soube o que retorquir, era uma manhã fria, o bebé soltava espirros regulares, por fim, apenas lhe restou uma questão, a mais franca possível, Têm para onde ir? O rapaz Temos de regressar à terra. Levantou os olhos, sempre de mãos nos bolsos, ele que de obras a biscates abraçava prontamente todas as possibilidades, encolheu os ombros, e acrescentou Sabe, o que mais me dói é que nem um berço ainda consegui comprar para o meu filho… Esta frase ressoou-lhe por muito nem um berço ainda consegui comprar para o meu filho… De novo, aquela evidência: a vida é isto: uma soma de incompreensões.

De vez em quando, apesar de hoje a colher trémula na sua mão, da partida dela para uma incompreensão distante, ele insiste numa frase do ontem As amoras sabem a Agosto… Por momentos, os lábios dela suavizam-se, como se uma memória se erguesse na paisagem de si, ele de novo As amoras sabem a Agosto… E tudo talvez seja uma outra coisa.

Por ruas desertas anoitecidas, guio num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), em cada janela uma história, umas vão a meio, outras já se contaram, a vida é isto: uma soma de incompreensões, com algumas certezas a que nos agarramos, para assim nos sabermos (quantas vezes nos largamos no mundo?), e nesta rua deserta anoitecida, uma frase levanta-se em mim de um ontem tão ontem As amoras sabem a Agosto…

segunda-feira, 13 de abril de 2026


 

Concluí, há uns tempos, que uma mulher se apaixona pela criança que o homem foi e não pelo adulto do hoje…

in Nuvens passeantes pelas águas