FINITUDES
Livros do Escritor
segunda-feira, 27 de julho de 2026
domingo, 26 de julho de 2026
sábado, 25 de julho de 2026
Os mortos não sonham
Sempre que aquela música na rádio,
ele assumia um ar circunspecto, como se não a ouvisse, ou lhe fosse
indiferente, porém, era precisamente esse véu de gravidade a denunciar-lhe os
passos do sentir, isto sucedia com mais frequência no carro (afinal, em que
outro lugar, do hoje, se ouve rádio?), nesses momentos, olhava a minha vida de
uma qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, tão estranho, ele ali,
a meu lado, a conduzir a caminho de casa, e a canção, interminável, a povoar o
silêncio que, de súbito, se abriu entre nós, enquanto os melosos acordes
ecoavam, eu a olhar calçadas e transeuntes, como se tal me interessasse, logo
eu que tão pouco reparava nos outros, e a canção, interminável, a certa altura,
já nem posição tinha, de tanto me obrigar a olhar a janela do meu lado, nunca
soube se ele se apercebia do meu esforço (pela janela), do meu súbito
desconforto, do silêncio que a música nos legou, eu persistia a olhar, através
do vidro, gentes, passeios, montras esconsas, creio, em verdade, que, assim que
os acordes se repercutiam no interior silenciado do carro, ele desacelerava,
como se quisesse eternizar o momento, ou talvez fosse apenas uma impressão,
fruto de um sentir enciumado, pois, quiçá, num qualquer canto de mim, tacteava
por palavras para traduzir esta raiva que, talvez por orgulho, repetidamente
insistia em calar, conheci-o ainda com ela, embora, amiúde, ouvisse que as
coisas, entre eles, já distantes de dias solares, lembro-me vagamente de os
ver, de mão dada, a descer a rua, ele sempre muito direito, quase cerimonioso,
com um ar de realizado, parecia olhar o mundo do cume de si, ela, não sei
porquê, dava-me a impressão de algo enfadada, enquanto ajeitava o cabelo,
olhava à sua volta, como se procurasse uma porta de saída daquele quadro onde a
emolduraram, pelo que consta, foi ela a deixá-lo, queixava-se de falta de
atenção, tempo, sentia-se sempre em segundo plano na sua vida, tudo por causa
do trabalho, ouvi dizer que, certo dia, ela ter-lhe-á dito Tu és obcecado pelo teu maldito trabalho! Ele, coitado, de ombros
encolhidos, parece que ainda esboçou uma possível defesa Mas como é que queres, amanhã, que eu sustente um lar? Com sonhos? Depois
desta amarga troca de palavras, a relação deles conheceu a noite, e começaram a
caminhar em direcções distintas, entretanto, amigos comuns apresentaram-nos,
empatizei, de imediato, com ele, gostei da aparente tranquilidade que
transparecia, conciliada com uma notória maturidade, trabalhava com números num
qualquer departamento financeiro, havia nele qualquer coisa que, nitidamente,
transmitia a sensação de que os nossos pais ficariam orgulhosos assim que o
conhecessem, como se, em verdade, tal fosse levado em conta, contudo, afagava o
sentir, de certa forma, parecia que cumpríamos um sonho plural, e fica sempre
bem, além de que, pelas temáticas das conversas, aparentava ser bem mais velho
que nós, bolsas, câmbios, divisas,
inflacção, crédito mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais, e
sempre de gravata… Fascinava-me com as suas gravatas! Como se, de alguma
forma, me anunciassem: Bem-vinda ao mundo
dos adultos! Certa tarde, acho que os nossos amigos, propositadamente,
deixaram-nos sozinhos no café, percebi, às primeiras confidências, e num
flagrante contraste com a sua imagem exterior, calça de fazenda, a camisa
imaculadamente engomada, e, pois, a gravata, sempre de gravata, quão
interiormente estava desarrumado, nem vislumbrava como preencher o vazio que
ela lhe deixara, ainda se tratasse de crédito
mal-parado, nasdaq, deflacção, ou mercados internacionais, mas não, apenas
o domínio do sentir humano, a certa altura, o seu olhar perdia-se com a entrada
do café, como se numa súplica inarticulada por um regresso, porém, manteve a
postura e procurou maquilhar súplicas inaudíveis, lentamente fomos mitigando
solidões, acho que ele se enternecia com a minha espontaneidade, com a
sonoridade do meu riso, tão distante do formalismo opaco da sua gravata, até
que, certa tarde, talvez fosse Domingo, a gravata suscitou, lá por casa, os
mais rasgados sorrisos no rosto dos meus pais, enquanto o cumprimentavam,
olharam-me com um indisfarçável orgulho, só faltava oficializar a união, já
que, pelos vistos, o Sim deles estava proclamado, ainda demorou
algumas semanas até ao namoro, houve uma altura, confesso, em que a visão da
omnipresente gravata me assustou um pouco, olhei, de repente, o futuro e só
vislumbrei um contínuo cinzentismo, logo eu que sempre gostei de cor e risos,
contudo, há sempre alguém, à nossa volta, incomodado com o som da alegria, no
meu caso, uma conhecida, não, nunca a denominei de amiga, e não pensem que é
despeito da minha parte, simplesmente nunca a considerei tal, por acaso, estava
certa, Sabes que os vi a conversar? Ouvi
dizer que ele ainda não a esqueceu… Atenção: não penses que te quero magoar!
Apenas que estejas atenta… Mas, pelo que ouvi dizer, ela é que não quis voltar
para ele. Há um determinado tipo de gente, não obstante a sua baixeza, que
possui uma notória clarividência do mapa da dor, como se uma acuidade onde mais
nos magoa, aquilo feriu-me tanto que permaneci impassível e anestesiada, acho
que foi o melhor véu para as suas intenções, neste ponto, entreguei-me ao
tempo, sem saber bem o porquê, muitas vezes é o mais sensato a fazer nesta
coisa da vida, afinal, ninguém arruma melhor o que vive debaixo do céu, só
quando aquela música na rádio, ele a assumir um ar circunspecto, como se não a
ouvisse, ou lhe fosse indiferente, porém, era precisamente esse véu de
gravidade a denunciar-lhe os passos do sentir, ou talvez tudo fosse fruto de um
ciúme desordenado, todavia, uma questão sombreava-me os passos, apesar dos mais
de dez anos de casamento, dos dois filhos, da omnipresente gravata, da
seriedade do seu semblante e gestos, das conversas próprias do mundo dos adultos,
onde, felizmente, eu quedava-me somente pela soleira da porta (bolsas, câmbios, divisas, inflacção, crédito
mal-parado, nasdaq, deflacção, mercados internacionais…), e se ela não lhe
tivesse virado costas? Nesses momentos, sentia-me um resto, uma segunda
escolha, actriz secundária de um guião oculto, pois, olhava a minha vida de uma
qualquer janela, como se de uma ilusão se tratasse, por vezes, na intimidade, a
canção a ecoava em mim, abria os olhos para ver se, também nesses momentos, ele
com um ar circunspecto, porém, mantinha-se de olhos fechados, talvez a canção
só em mim, quem sabe se fruto de um sentir enciumado, houve vezes em que
finquei os dedos nos lençóis, como se procurasse ancorar-me ao aqui, na
esperança de silenciar uma canção que nunca me pertenceu.
terça-feira, 21 de julho de 2026
Aparência e essência moram em ruas distintas
Olhavam-se, desde o primeiro momento, com
um certo azedume, só a imperativa educação conseguia aligeirar, vizinhas no mesmo
andar, a quase inevitabilidade diária de partilha do único elevador, andariam
pela mesma idade, aquele momento na existência onde se percebe que o ocaso está
próximo e o amanhecer uma realidade longínqua, uma arranjava-se de forma
prática e descontraída, detestava formalidades, a sua profissão não exigia
etiqueta, assim sendo, ela adoptou um estilo desportivo, confortável, nunca foi
adepta de unhas-pintadas, hoje falar-se de unhas é uma questão virada para o
pretérito, o que mais se vê, no quotidiano, são autênticas garras-afiladas
saídas dos dedos femininos, que nem sabres prontos a degolar incautos, nunca
soube o que é um salto-alto nos seus pés, ainda menos maquilhagem, defendia que
a beleza está na espontaneidade e no carácter natural das coisas, o marido
seguia-lhe os passos nesta forma de ser, convém para o equilíbrio do lar, pela
precoce idade, o filho de ambos aquém de tais escolhas, a outra era, como se
depreende pelo azedume aligeirado pela imperativa educação, o oposto,
arranjava-se com uma formalidade irrepreensível, de fato ou casaco e
saia-comprida, saltos-altos omnipresentes, maquilhagem reflectida pela luz baça
do elevador, unhas num vermelho-vivo ou numa côr mais neutra, a condizer com a
dos lábios, tudo orquestrado ao pormenor, o penteado indiciava horas e horas de
cabeleireiro, o marido também saía diariamente de fato e gravata, embora tão
mal lhe assentasse, os ombritos descarnados e estreitos deixavam cair a parte
superior do casaco para meio dos bracitos, repetia uma ou duas vezes a saudação
do momento (“Ora muito bom-dia… Bom-dia... Ora muito
boa-tarde… Boa-tarde…”), a cabeça em
ininterruptos movimentos verticais, um autêntico manguinhas-de-alpacas,
daquelas figuras que, avistadas de uma certa distância, já antevemos que nos
tentarão vender algo, um utilitário em terceira ou quarta mão ou uma cave, toda
virada a Norte, quase sem janelas, com um quarto, “E não comente esta
oportunidade com ninguém! Ainda sou despedido por lhe fazer este preço! Nem
imagina a procura… O sonho de muita gente! Considere-se um privilegiado por ter
esta possibilidade!”, a filha, teria a
idade do miúdo da frente, talvez um ou dois anos mais velha, um espelho da mãe, desapossada de qualquer
espontaneidade da meninice, vestidinhos pindéricos, colares, pulseiras e
unhas-pintadas, muito direita, mala-escolar pela mão, jamais mochila, desdém no
olhar quando via os da sua idade atrás de uma bola, suados e com um joelho
magoado, ao final da tarde, no regresso, quando se reencontravam no elevador, a
cena repetia-se, apenas o “Bom-dia…” trocado
pelo “Boa-tarde”, em verdade, este
azedume delas era bem mais profundo, cada uma espelhava à outra, sem se
aperceber, a sua inaptidão, a que se arranjava de forma prática e descontraída
gostaria, nem que fosse por uma vez, até num fim-de-semana, de sair vestida com
tudo orquestrado ao pormenor, deu por si, em certa ocasião, a vasculhar a sua
roupa para ver o que tinha de mais formal, apenas um vestido deveras anacrónico
dos tempos de solteira, paciência para cabeleireiro nunca lhe abundou, só o
barulho dos secadores e a frivolidade das conversas eram suficientes para a
repulsa ao leme das suas emoções, sempre achou, de extrema elegância, uma
mulher de saltos-altos, nunca o verbalizou, mas era-lhe uma ideia consolidada
desde muito cedo, a da formalidade irrepreensível desejava, há tanto,
libertar-se deste espartilho que já lhe asfixiava a alma, a imperativa escolha da
indumentária na véspera, o tempo roubado ao sono para maquilhagem e demais
adereços, os joelhos e coluna em gritos de socorro pelas demasiadas horas de
saltos-altos, o ignorado conceito de espontaneidade, a secura da pele do rosto
pelo excesso de maquilhagem, os cabelos quebradiços por tanto manuseio e
produtos no cabeleireiro, a consciência de ser uma réplica num contexto, sem
quaisquer vestígios da sua individualidade, ela, ao espelho, a questionar-se: “Em
que momento me perdi de mim?” E aquela
irritante vizinha, de costas voltadas para imperativos de véspera, que tanta
inveja lhe suscitava, teria mais ou menos a sua idade, apesar de, perante o seu
olhar, lhe parecer mais nova, despida do estatismo da formalidade, o marido
também se lhe afigurava mais novo que o seu, limitavam-se a cumprir com os mínimos
de educação, não debitavam cumprimentos sonoros e ensaiados (“Ora muito
bom-dia… Bom-dia... Ora muito boa-tarde… Boa-tarde…”), como a irritava esse lado exageradamente polido, nunca lhe disse, começava
a compreender o facto de certas questões deverem permanecer no verbo do pensar,
e tinham um filho, como ela desejou um menino, quando lhe disseram “Espero
que tenha um belo enxoval cor-de-rosa… Tem uma linda menina dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão
outonal, não perspectiva, neste momento, recomeçar os passos da maternidade, a
cama apenas um espaço onde repousar as dores de uma existência indesejada, olha-o ali,
a seu lado, nem resquícios de uma chama ida, projecta uma realidade distinta na
casa em frente, ainda assomos da vertigem da paixão, daí o estilo descontraído,
não havia tempo para etiquetas vespertinas, talvez não se enganasse, há muito a
vizinha, do estilo descontraído, a falar da filha do casal da frente, como ela
desejou uma menina, quando lhe disseram “Espero que tenha um belo enxoval
azulinho… Tem um lindo rapagão dentro de si!”, não foi a tempo de travar a sua expressão outonal, ele renitente,
nesta fase, em recomeçar os passos da paternidade, teriam inclusive de mudar de
casa, ali nem espaço para um animal de estimação, no dia seguinte, se, por
acaso, se encontrassem no único elevador, emergia a imperativa educação para
maquilhar um azedume com os tons da madrugada.
segunda-feira, 20 de julho de 2026
sexta-feira, 17 de julho de 2026
Rio Pranto
Sempre ouviu dizer que Chorar faz bem! Não sabia se era
verdade. Talvez fosse uma forma que arranjámos para nos levantarmos e retomar o
caminho… Pois, é possível. Conheceu-a há uns anos, numa fase da vida
complicada, como se alguma vez a sua vida tivesse outra coisa que não fases
complicadas, tinha alugado um quarto numa pensãozita esconsa, metida numa
travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele
lugar, por acaso, agora que se fala nisso, não se recorda de ver o candeeiro da
recepção da pensãozita desligado, as ruas em volta eram povoadas por vultos
espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que
sombreavam estradas, pelo chão havia corpos em adeus à vida, olhares vítreos
que espelhavam o vazio por uma alma partida, garrotes e seringas vazias, de vez
em quando, o amanhecer trazia-lhes um farejar como companhia, timidamente
cumprimentava-os de um lado, passava para o outro, na preocupação essencial de
os saber vivos, é curioso, nunca os viu deterem-se perto de garrotes e seringas
vazias, sabiam há muito quais as entradas para a morte, na porta ao lado da
pensãozita havia um barbeiro, só abria de tarde, segurava mais tempo o jornal
que a tesoura, como tema recorrente a guerra colonial, a mágoa imensa por ter
sido obrigado a entregar armas, quando afinal a guerra vencida, nunca se
conformou com a fictícia derrota e o antecipado regresso à metrópole, não havia
dia em que não se ouvisse, naqueles vinte e poucos metros quadrados, Um dia hei-de lá voltar! Assim que pisei
aquela terra, sabia onde pertencia. Sabe, foi como um clique em mim! E a
distância das coisas?! Ensina-nos como somos pequenos… Não é como aqui!
Acredite, não tem nada a ver! Sabe, lá tudo é em grande! Para onde quer que se
olhe, sempre a lonjura. Aqui nem horizonte temos! Vivemos numa estreita faixa
entre o mar e os espanhóis! E as cores? O que dizer das cores de lá? Nunca tive
alma de poeta, mas se me ajeitasse com palavras, teria feito uns versos àqueles
entardeceres… Palavra de honra! E o cheiro daquela terra? Então quando o
cacimbo pousa, parece um feitiço… Não adianta! Podia estar aqui o dia todo a
falar-lhe de lá, você nunca iria entender. Sabe, só quem lá esteve é que
percebe aquilo! É como uma febre que se nos colou à pele! Era comum, à
medida que avançava na sua prelecção, elevar a voz, talvez pelo entusiasmo,
pela saudade, pela dor de não ter regressado, talvez por tudo, o certo é que
África, todas as tardes, ecoava por aqueles passeios. Umas portas mais acima,
outro quadrado com vinte e poucos metros quadrados, mas ainda mais obscuro, lá
dentro um velhote, que arrastava uma perna, debruçado sobre uma mesa, lia uma
revista com as cores da meninice, se atentássemos bem, as prateleiras à volta,
em estantes que iam praticamente até ao tecto, estavam pejadas de livros e
revistas de heróis e suas aventuras, quase todos ali chegados de outros lares,
sinal de que os adeuses à infância se sucediam, por vezes, chegavam-lhe com
sacos, depositavam-nos no balcão com gestos nervosos de uma pressa
impronunciada, ele retirava um a um, com parcimónia, parecia prestar tributo a
cada obra, folheava, sopesava, analisava o estado geral, sempre que uma folha
rasgada ou risco, mandava para trás, era um princípio, tinha ali livros da
altura em que ainda não sabia ler, dizia que aquele espaço era mais um museu
que um negócio, volta e meia, retirava determinada revista, nem precisava de a
procurar muito naquele universo de papel, e orgulhosamente proclamava Não a vendo por dinheiro nenhum! Trata-se do
número um de uma colecção… E lá esclarecia o porquê, na sua voz rouca e
arrastada, de uma manuseada e amarelecida revista, quase decrépita aos nossos
olhos, ter um valor tão substancial, havia dias em que não entrava ninguém, mas
se atentássemos nos seus gestos e rosto, percebíamos, de imediato, que ele nem
dava conta, tal a abnegação com que arrumava, limpava, catalogava, ou
simplesmente relia, talvez a vista já o traísse, e pensasse ler o que apenas
relembrava, às vezes acontece, olhamos para trás a fim de nos sabermos ainda,
havia quem dissesse que tinha o maior espólio da nona arte da capital, talvez
do país, mas havia sempre um tom indulgente quando se referiam àquele espaço,
que tinha um peculiar cheiro a papel velho, tristemente iluminado, apenas uma
lâmpada no tecto que ameaçava fundir-se com insistência, de vinte e poucos
metros quadrados, forrado de histórias
aos quadradinhos, ele nem respondia, histórias
aos quadradinhos, mais que uma vez perguntaram-lhe Nunca leu um livro a sério? Nem respondia, limitava-se a relancear
uma expressão de desprezo e nada mais, falava pouco, com os anos, ainda menos,
olhava para o amanhã, os jovens do hoje, com uma apreensão constante, era seu
costume afirmar que não só perderam a capacidade do sonho como também lhes
roubaram a alma, vivem curvados para um rectângulo sem ao menos um porquê, muitas das histórias, que por
ali tem, relatam os esforços hercúleos de heróis que jamais se curvaram perante
os mais variados perigos, à sua volta só vê uma plural derrota assumida, sem
sequer um gesto de resistência riscar os céus da cidade, ao chegar a casa,
antes mesmo da chave, o miar da sua única companhia, pois, desde que… Entra e vai
logo encher uma malga de leite, um dia, iremos regressar a este solitário, que
vive entre histórias aos quadradinhos, malgas de leite, e aprendeu, com a vida,
a falar cada vez menos, voltemos à pensãozita esconsa, metida numa travessa
onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar de sombras por aquele lugar,
estava naquele quarto há dois ou três dias quando se cruzou com ela na escada,
não lhe passou despercebido o facto de coxear ligeiramente da perna direita,
talvez cansaço pelo esforço da subida, percebeu-lhe um misto de uma genuína
curiosidade, quase infantil, e um cansaço nocturno que lhe sombreava gestos e
expressão, havia nela um desamparo tocante, como acontece com quase todos os
habitantes nocturnos, compreendeu, quase por intuição, que ela ali pertencia, mas,
ao mesmo tempo, pressentia-se-lhe uma desesperada ânsia de partir, ela olhou-o
de relance, não disfarçou espanto por um recém-chegado, cruzar-se-iam mais
vezes… Aquele desamparo tocante desequilibrou-lhe o sentir, mesmo nessa noite,
antes de devolver transparência múltiplas vezes ao mesmo copo, aquela mulher,
já devia avistar os quarenta, coxeava ligeiramente da perna direita,
regressar-lhe-ia, por mais que uma vez, ao pensar, há muito que adormecia sem
uma respiração a seu lado, sem uma inconsequente conversa de trivialidades, sem
o calor de um gesto de afecto, no fundo, sem amor… Desaguou naquela pensãozita
esconsa, metida numa travessa onde dia e noite se confundiam, tal o perpetuar
de sombras por aquele lugar, apenas com uma mochila e um saquito de plástico,
ele que já dobrara os quarenta e o passado cingia-se a uma mochila e um saquito
de plástico, mas por dentro um peso bem maior, daqueles que retardam o sono e
obscurecem sonhos, daí, quem sabe, aquela sua premente necessidade de devolver
transparência múltiplas vezes ao mesmo copo… Não demorou muito até que, certa
noite, ela sentada àquela mesma mesa, diante dele, a desviar-lhe o copo, porém,
a sua mão sôfrega em perseguição, mas ela revelava experiência de ilusionista
em ocultá-lo, falaram de trivialidades, e como lhe soube bem, por momentos,
ouvir outra voz que não a sua, há tanto que se cansara daqueles ecos dentro de
si, não se perguntaram o que faziam, não deixa de ser curioso, ela sempre com
um xaile pelos ombros, nalguns pontos desbotado e em ameaça de ruína,
percebeu-lhe campo nos gestos e fala, ela orgulhava-se disso, não escondia o
desejo de, um dia, regressar à terra, como se lá os problemas não encontrassem
uma porta de entrada, pois, havia nela um desamparo tocante, haveria outras
noites assim, partilhavam uma cerveja e um prego no pão, soube que ela tinha um
filho num internato, andaria pelos dez anos, ela apreciou a sua persistência
com a temática do filho, mas nunca enveredou pela identidade paterna, de novo,
a intuição a ditar-lhe a direcção do verbo, talvez nem ela soubesse tal
resposta, em verdade, ele já ouvira uns rumores acerca do seu ganha-pão, era mais discreta que aqueles
vultos espectrais em passeios, como árvores descarnadas de ténues raízes que
sombreavam estradas, a idade também já era outra, e o fruto do ofício tinha um
destino de dez anos, num colégio, que, assim que a via, lhe corria para os
braços e lhe açucarava o sentir, até que partiu dela a sugestão, certa noite,
após regressarem da cerveja e do prego no pão, a porta do quarto aberta, Não queres entrar? Ele ainda hesitou,
talvez algum eco gritasse dentro de si, contudo, reequilibrou-se e respondeu Sabes, não ando boa companhia… É melhor
ficar para outra altura. Até amanhã! Seguiu para o seu quarto, ficava no
andar de cima, os degraus denunciavam o esforço da subida, ela ficou, por mais
um pouco, à porta, hesitante entre a admiração pela decência do seu gesto e o
despeito pela recusa, pois, o orgulho feminino, um dos primeiros inquilinos da
terra, porém, a sua decisão brotou de uma outra fonte, que, no momento, ela não
descortinou, os tais rumores acerca do seu ganha-pão,
assim que fechou a porta do quarto, cuja única luz, nesse momento, provinha do
anúncio néon exterior, PENSÃO, em
letras verticais amarelas, com uma seta, em baixo, na direcção da entrada,
sentou-se pesadamente na cama, olhou o chão, tacos de madeira cansados por
inúmeras e apressadas visitas, o que restava de um tapete, nem a cor original
se conseguia decifrar, por um lado, inclinou-se a aceitar o convite e entrar,
afinal, havia nela um desamparo tocante, por outro, aqueles tortuosos rumores,
se por ali houvesse alguma verdade, seria ele mais um número do velho e triste
ofício? Por muitas voltas que desse, não conseguia aportar em nenhuma certeza…


