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A dificílima arte desta coisa de nome viver

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  E, de repente, compreendo que já percorri mais de metade do meu caminho. Resolvo sentar-me e reflectir nisto. Olho para trás e tudo se me afigura uma irrealidade, como se uma névoa turvasse a minha estadia por aqueles lugares, apenas as cicatrizes como testemunho da autenticidade do ido. Tão estranho: já percorri mais de metade do meu caminho… E continuo à procura de uma razão para caminhar, como se, em grande parte, me tivesse deixado conduzir, ao sabor de uma corrente de velada fonte, por vezes, vislumbro um sentido para as coisas, contudo, logo de seguida desvanece-se do meu horizonte, no seu lugar apenas um desdenhoso absurdo, que me atomiza de encontro aos meus mais turvos receios, desde muito cedo, apercebi-me da minha diferença em relação aos demais, como se o meu pensar obedecesse a uma outra respiração, possivelmente aquando da circunstância o meu olhar numa outra coisa que não ali, lembro-me ainda bem, numa manhã, talvez fosse Inverno, pelo cinzentismo do mundo, eu pe...
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A arqueologia de mim

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  Ultimamente uma questão acompanha a minha sombra: o que perdurará de mim quando partir? Volto do trabalho, ainda na escada, percebo que a casa cheira a jantar, entro, cumprimento-a enquanto tiro o casaco, começa, de imediato, a narrar-me as vicissitudes do seu dia, as peripécias do bairro, finjo atenção e simultaneamente dirijo-me para a janela, acompanha-me os passos e preenche-me os ouvidos até a um certo ponto, mais ou menos até à mesa da televisão, que demarca a sala da marquise, aí chegados, não sei porquê, regressa de imediato para as suas lides, enquanto eu, grato pela devolução do silêncio, puxo de um cigarro e por ali fico, não a olhar aquele cenário extenuado, mas à espera dos passos do pensar, nestes últimos tempos têm-me levado a um lugar lá atrás, quando o agora apenas um sorriso confiante no rosto, talvez se lá regressar volte a ostentar um sorriso confiante no rosto, continuo a ouvir-lhe a voz, mas não a mensagem, volta e meia, viro-me para dentro, e Pois… Sim… T...

Desencanto II

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  A viagem longe do seu fim, ela continua perdida algures entre pensar e sentir, neste momento a imagem da pastelaria, do outro lado da rua, após levantar o estore, ficava, por um pouco, a olhá-la, chamava-se “Primavera”, apesar de só no Verão a visitarem, devolvia-lhe familiaridade, um desses lugares que sempre nos pareceu esperar, tão distante das confeitarias da sua terra, onde a vista se perde na infinidade dos artigos expostos enquanto, na proporcionalidade, o apetite diminui, uma questão levantou-se-lhe, embora rapidamente se diluísse, “Quando, por acaso, ele levantava o estore, alguma vez se perdeu a olhar, do outro lado da rua, a pastelaria?” Essencial um casal olhar na mesma direcção, quando sucede o contrário, a distância começa a ser irrecuperável, no banco traseiro o barulho dos miúdos recomeça, nunca quis ser mãe, as coisas aconteceram, compreendeu, no devido tempo, que a vida nos engole no seu tumultuoso caudal, de pouco adianta bracejar, desde que se colocou a ques...
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