Para estudar, ia a um café próximo, apesar da curta
distância não encontrava muitos estudantes, era frequentado sobretudo por
moradores do bairro, na sua maioria idosos, tinha aquele ambiente tão típico de
um café cosmopolita, um entra e sai constante, a máquina de café no seu incessante
estalido mecânico, a multiplicidade de vozes que se convertiam num rumorejar
permanente, no entanto, imperceptível, era incapaz de estudar em silêncio, as
vozes que me habitam ameaçavam tragar-me, cada um lá encontra a sua forma de
trabalhar, tinha duas ou três mesas da minha preferência, só ali as vozes se
aquietavam e permitiam que mergulhasse nos livros, quando, por este ou aquele
motivo, não me conseguia concentrar, observava, um acto em desuso, requer
serenidade e inteligência, os livros abertos sobre a mesa, o pensar não se
aquietava, olhei em volta, na mesa mais próxima, bem à minha frente, um casal
de meia-idade, ela nitidamente refém da moda, ele não tanto, um estilo mais
descontraído, apesar de cumprir os requisitos elementares, ténis de uma
multinacional, por exemplo, tinham acabado de se sentar e colocaram
simultaneamente, numa harmoniosa coreografia, os rectângulos do hoje sobre a
mesa, o empregado aproximou-se para recolher os pedidos, um sujeito de bigode,
sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, em certa
ocasião reparei num símbolo, tatuado no antebraço, reportante a contextos muito
pouco recomendáveis, quem trabalha a sério, arregaça as mangas, foi o que me
permitiu visualizar, a sua irrepreensível conduta dever-se-ia a uma radical
mudança das suas pisadas? Não sei, apenas suposições minhas, jamais ousaria
questionar tal, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam
no nosso coração, como há outras que somente nos turvam o olhar, somos tão
estranhos, tinha uma expressão indulgente que imanava Seja bem-vinda a casa,
tão raro, num lugar deste mundo, sermos assim recebidos, nunca lhe denotei
um azedume, e tantos o merecem, assim que se afastou da mesa com o pedido, ela,
quase sem se aperceber, num claro automatismo, pega no rectângulo como se
oxigénio, logo um ar compenetrado, talvez, por ali, desvelasse os grandes enigmas
da existência, nós, comuns mortais, muito aquém de expressões compenetradas, rectângulos
como se de oxigénio, ele ainda se deteve, por uns instantes, a olhar em volta,
por meras fracções de segundos pareceu-me, creio ter sido uma impressão,
vislumbrar-lhe condescendência no olhar a contemplá-la, por fim, também
capitulou e pegou no seu rectângulo, assim ficaram, cada um absorto e inclinado
para o objecto na palma da mão, o empregado regressou com os cafés numa
bandeja, colocou-os suavemente, como era seu timbre, na mesa, nenhum deles teve
a educação de pousar o rectângulo, pareceu-me vê-lo a indiciar o gesto, a
preguiça ou amnésia de modos tê-lo-á derrotado, ela manteve-se impassível,
aprisionada naquele diminuto écran, não me recordo há quantos minutos chegaram,
tenho bem presente que nem uma palavra trocaram, cada um tinha, diante de si,
uma ignorada chávena de café, continuavam sob hipnose, haviam dobrado
meio-século há uns anos, logo, cresceram e somaram bastas vivências sem aquele
cárcere, como era possível terem-se deixado enredar em tamanho logro?! Confesso
a minha total incompreensão… Um objecto, cuja amplitude de funções, nem uma
década de existência soma, de repente, engoliu quase todas as almas do mundo,
havia outras mesas, demasiadas, onde o cenário se repetia, àquela hora da tarde
um aroma a café e doces pelo ar, parecia também soletrar Seja bem-vinda a
casa, há lugares, neste mundo, que sempre estiveram à nossa espera, este é,
sem dúvida, um deles, os cafés arrefeciam, o frémito dos seus dedos, naquele
rectângulo, não, pensei em que momento a palavra teria morrido entre eles, nem
se apercebiam do tempo a passar, do arrefecer dos cafés, de um dia o vazio
deixado por uma partida, só aí, quem sabe, a compreensão do tanto que fica por
dizer, pode ser uma repetição, que seja, há frases que sabem sempre a primeira
vez, neste momento, estava para além do espanto, não se vislumbravam tréguas no
horizonte com os rectângulos, nem se olhavam há bem mais de quinze minutos, quanto
mais conversar, reparei numa velhota, enviuvara há uns anos, que, todos os
dias, àquela hora, vinha pelo pão saído do forno, levava duas ou três carcaças,
pagava sempre com moedas, um esforço, não sei se da vista ou do bolso, em as
aglomerar, percebi, logo da primeira vez que nela reparei, há pessoas, sem
sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, somos tão
estranhos, o olhar dela, não obstante as trevas que a vida lhe lançou ao
caminho, agora mais esbatido, iluminava-se assim que encontrava o empregado, de
bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, não
me recordo bem quando ou quem, se foi de manhã ou de tarde, a verdade é que ouvi
comentar que as duas ou três carcaças eram o jantar e também o pequeno-almoço,
do dia seguinte, da velhota, observações assim fazem-nos parar e reflectir,
pois, era ossuda e magra, o regresso à terra denotava-se no seu minguar, apesar
de tudo, o rosto benévolo pontuado com um sorriso, um café é o centro do mundo,
não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros,
não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o
meu curso, regresso à mesa mais próxima, bem diante de mim, os cafés
permaneciam intactos, nunca gostei de beber café frio, cada um deles permanecia
no seu isolamento sob os ditames do rectângulo, piedade e ira perpassaram-me
pelo espírito, neste ponto, senti-me numa crescente distância, pensei que, se morresse
por estes dias, partiria sem muita saudade, como foi possível este ser, de duas
patas, cair em tamanho ardil? E as suas expressões enquanto, com avidez, para
ali se consomem: total concentração, ar de pensador, ansiedade, riso,
apreensão, enfim, todas as cambiantes da existência se reflectem naquele
rectângulo… Decorreram cerca de vinte e seis minutos, desde que se sentaram à
mesa, nem uma palavra trocaram, já nem falo de se olharem, estamos, creio, no
términus do processo de desumanização. Não consegui olhar mais, senti-me a
asfixiar, levantei-me, peguei nos livros e saí para o ar entardecido da cidade,
como precisava de respirar, andei um bom bocado, precisava de aquietar o
pensamento…
FINITUDES
Livros do Escritor
sábado, 9 de maio de 2026
Os factos da vida
quarta-feira, 6 de maio de 2026
A consciência olha-nos sempre de uma janela alta
Um entardecer de Verão, não sei
porquê, traz consigo um sentir de promessa, talvez por se alongar no gesto de
adeus, talvez pelo calor que brota do solo rumo ao céu anoitecido, talvez pela
lentidão cansada dos nossos gestos, talvez por nos termos esquecido de como
saber olhar as coisas, acho que é mais por aqui, afinal, desde há muito que me
sinto estrangeiro em terras longínquas, à minha volta o absurdo impera,
enquanto, em mim, a apatia ganha terreno… Estacionei o carro no possível de
sombra, apesar de, no horizonte, já vislumbrar a face da noite, aquela mancha
verde, que rodeava o edifício branco, agora ainda mais branco pela recente
pintura, sabia-me bem ao olhar e ao pensar, pois, só sentimos pelo que temos de
menos, enquanto me encaminhava para a larga entrada, olhei a sua janela, no
primeiro piso, não a vi, nem sequer a sua mão em saudações, talvez estivesse
deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha
muito por onde escolher, agora que penso nisso, de facto, doze metros
quadrados! Quase toda a sua vida numa quinta, ia para além de um hectare, a
casa enorme, dois pisos, perto de uma dezena de quartos, um legado dos pais,
enquanto criança só no Verão enchia, tios, primos, mais primos que, de tão
distantes, mantinha-se o pudor desta familiaridade, em adulta, só com os netos
um vislumbre de Verões passados… Os netos não são o futuro, mas sim o ansiado
regresso ao passado, com eles reaprende-se a olhar as coisas antes do
derradeiro adeus. Uns no início da caminhada, outros no fim, daí a compreensão,
daí a empatia. Entre eles, os esquecidos na sua desamparada distracção,
limitam-se a somar subtraídos dias, sem memória do início, e sem consciência do
fim que corre ao seu encontro, uma corrida silenciosa, furtiva, discreta, por
lugares sombreados muito para além de um pensar quotidiano. No fim, fica-nos
sempre, de cada um que se cruza connosco, nesta coisa chamada viver, pelo menos
a imagem que se cola a uma impressão, depois, claro, cada um tece os seus
juízos, para mim, ela permanece intemporalmente naquela infinita varanda (só
uma criança compreende o infinito), mão em saudações para o nosso carro que se
aproximava, e um sorriso que nos ensinava o que é regressar.
Agora, doze metros quadrados! Como
pode ali caber uma vida? E logo a sua! De uma infinita varanda (só uma criança
compreende o infinito) para uma janelinha despida (nem sequer a sua mão em
saudações), cumprimento a recepcionista, que também tinha outras funções, há
lugares assim, onde assimilamos as regras sem direito a réplica, como um quadro
que nos é apresentado, sem vislumbre de esboço, ou aceitamos ou simplesmente
partimos, mas a necessidade… Neste caso, permanece no primeiro-andar, talvez
estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados
não tinha muito por onde escolher, que possibilidade de escolha se apresenta
aos oitenta e cinco anos? Subo os dois lanços de escada, depois, o corredor,
comprido, muito comprido, o chão a reflectir as luzes do tecto, tudo numa
limpeza quase a raiar a impessoalidade, um silêncio de fim sobre as coisas,
como se a vida tivesse partido para outras paragens, aqui e ali um quadro,
insuficientes para disfarçar aquela melancolia respirável, bato ao de leve na
porta, as molas da cama traduzem o esforço de se erguer, talvez estivesse
absorta com um livro, talvez olhasse, da varanda de si, o que lá vai, talvez, a
porta abre-se com um sorriso que nos ensina o que é regressar. E eu já não sou
o eu de hoje, mas o de ontem, quando,
pela janela do banco de trás, via a sua mão em saudações para o nosso carro que
se aproximava, é curioso, nesse indefinível instante, ela também não a de hoje,
mas a de ontem, por fim, tudo se dilui e regressamos à incómoda e fria
circunstância do hoje, para restabelecer a familiaridade sempre aquelas frases
impressas num sempre desbotado guião, Então,
como tem passado? Essa saúde, como vai? Não se tem esquecido de tomar a
medicação, certo? Quando, em verdade, queria perguntar-lhe o porquê de não
ter visto a sua mão em saudações à janela. E que saudades de lhe ver a mão em
saudações para um carro que se aproximava, e aquele sorriso que nos ensinava a
regressar, a velha esquivou-se, como sempre, habilmente àquele desbotado guião,
nunca teve paciência para teatralizações, optou pela cadeira e indicou-me um
banco, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, olhou-me,
neste ponto, não sei se sentia desconforto ou serenidade, partir não podia, o
seu olhar ia longe, Ainda não te
decidiste, pois não, meu filho? Às vezes, tinha a impressão de que não a
visitava, pelo contrário, acho que me vinha ver, pensei em responder-lhe (Como sabe, Avó?), mas era uma resposta
cansada, um regresso desnecessário à meninice, de facto, não, não me havia
decidido, sentia-me tão perdido, ela continuava a olhar-me, acrescentou, Sabes, és dos poucos que ainda se lembra do
caminho até aqui. Não censuro os teus irmãos, não penses isso, até compreendo,
nunca há tempo para nada nisso a que vocês chamam vida… O que diria minha filha
se vos visse? Nem um casamento sobreviveu! A sua voz apenas eco do seu
pensar, apesar da idade, mantinha a sua inalterável postura, Às vezes, penso, para que é que se casam?
Sabes, isto de viver é uma enorme canseira. No fundo, andamos para aqui, dez,
vinte, de repente, quarenta, num ligeiro salto já estamos nos sessenta, um
piscar de olhos, e vão oitenta e cinco anos, pois é… O problema é que, grande
parte do tempo, fugimos da vida, arranjamos todo e qualquer subterfúgio para
não olhar a vida nos olhos. Não, não me perguntes porquê. Isto acontece e
ponto. Já deves ter consciência disto, certo? Como se fosse uma evidência
desacreditada… Olhar a vida nos olhos! Ainda me lembro, a primeira vez, do alto
daquela varanda, em que vi o teu avô. Sabes, não penses que foi assim há tanto,
para mim, foi ontem. A vida é isto: nós e o tempo; cada um com o seu; no fim, o
que resta é a memória, como cinzas a testemunhar um calor desaparecido… Não te
demores a decidir, o tempo é um viajante apressado, e sempre a nossa angústia
de não lhe sabermos o destino. Se não me arrependo de nada? Meu Deus, só os
tolos dizem que não, repara, hoje as pernas pouco vão além deste quartito, ao
menos, estas árvores em volta acalmam-me o pensar (nisto, levantou-se e foi
até à janela), sabes, gostava de ter
fugido menos da vida, e como conheci gente bem mais veloz… Mas respondo por
mim. É estranho, olho-me dentro desta carcaça, por vezes não me reconheço ao
espelho, porque no pensar continuo a menina que, do alto daquela varanda, viu
ontem o teu avô pela primeira vez.
domingo, 3 de maio de 2026
segunda-feira, 27 de abril de 2026
A beata maledicente
Há figuras que, de tão obscuras, só nos
apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata
maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto,
amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me
familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia
sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo
religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga
em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de
beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou
num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez,
estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a
figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das
figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na
sua luz para todo o tipo de vilezas e hipocrisias, nem me alongo a inquisições
e afins, por ora, basta-me o exemplo da beata maledicente; pagelas, contas
rezadas entre dedos, olhar pregado no altar, assumir a dianteira, em procissões,
com o marido, um rotundo idoso, igualmente rato de sacristia, ali vão, com
folhas de palmeira na mão, hossanas gritadas, jamais sentidas, secundados por
dezenas, dos tais que se infiltraram num ramo mais ortodoxo do catolicismo,
tudo num delírio de cantorias e rezas, como se, por desígnio divino, fossem os
escolhidos, cruz ao peito e filhos a rodos, dois sinais identitários, sem
esquecer as cantorias e os retiros, bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos
a conduzir cegos,” há, sem dúvida, uma
lógica subjacente a estes contextos que permite a aproximação destas figuras,
tudo somado, o que dali emerge? Uma beata maledicente! Há uns tempos,
aproximou-se de um incauto sob o pretexto de alertar para um hipotético perigo,
como ela gosta de falar de um pedestal (às vezes, questiono-me de onde provém
tanta carência…), num mundo de sombras, qualquer gesto, de aparente bondade, afigura-se
positivo, no entanto, o tempo, esse frio e cruel juiz dos factos da vida,
desvelou as reais intenções da beata maledicente: ganhar a confiança daquele
peão para o manipular no tabuleiro dos seus interesses… Quem diria? Uma
papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos:
eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura,
rumo à santidade; e, pasme-se, pariu oito vezes, pelo menos… Como é possível?!
Se assim são os beatos, imagine-se os satânicos! Como já havia referenciado,
esta beata é pródiga em verborreia sobre a existência dos outros, muito canta,
com uma folha de palmeira na mãozita, à cabeça das procissões, hossanas, mas a
Palavra de Cristo é-lhe uma total incógnita, “Não deves julgar”, um dos mais sublimes mandamentos do
Nazareno, não foi, de todo, assimilado por esta criatura, reconhecida pelo seu lodacento
rasto, aqui chegados, resta questionar: Será escassez intelectual? Ou simplesmente
um carácter torpe? De formação está nas misturas químicas, até aí bem distante
do Logos, é vê-la a entrar em reuniões,
à porta fechada, por corredores sombrios, para debitar informações colhidas a
mais incautos, outra das curiosidades desta personagem, não são muitas,
convenhamos, está precisamente no facto de ocultar os grisalhos com que o tempo
a presenteou, ao contrário de outros elementos femininos da seita a que
pertence, que se orgulham de cada grisalho como se uma bênção, desconheço se
chegam a cantar hossanas, com uma folha de palmeira na mãozita, para celebrar a
sua chegada, pois, é possível que sim, a beata maledicente gosta de passeios,
uma forma de contornar o horário laboral, uma praxis sua de há muito, por estes
dias, irá a caminho de Madrid, na companhia de uma Porcachona, imagine-se o
conteúdo de tais diálogos: uma verborreia de baixo intelecto com os grunhidos
enlameados em dejectos de uma Porcachona: nem restará um santinho no altar
aquando do regresso… Até deixo uma sugestão: a beata maledicente levar a sua
viola, a Porcachona um microfone para emitir os seus grunhidos, e que dupla
promissora teríamos, bom, é melhor deixar a folha de palmeira fora da equação,
não vá a Porcachona confundir com um dejecto e prontamente engoli-la… Caro
leitor, não permita que estas linhas esmoreçam a sua fé, beatas maledicentes há
em todos os cultos, que tenham parido oito vezes talvez não haja assim tantas,
com tamanha verborreia, de baixo-intelecto, sobre a existência dos outros,
também não, mas bem disse Cristo, “Deixai-os: são cegos a conduzir cegos.”
domingo, 26 de abril de 2026
sexta-feira, 24 de abril de 2026
A saudade de um sentir saudoso
Quando dei por mim, despia
molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência
indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na
altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma
noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de
uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não
me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me
recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me
regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me
subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui,
e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço
perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te?
Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os
meus assuntos… Mas aquele dia ainda por aqui, tão nítido, quase ouço cada som
desde o amanhecer até que a noite tudo serenou, menos, como sempre acontece, os
sentires desordenados, e como o meu por aí andava… Regressámos, na véspera, de
duas semanas de praia, já tarde, ele sempre insistiu em gozar as coisas até ao
último momento, eu preferia antecipar um pouco, assim permitia organizar-me um
pouco, mas os miúdos secundavam-no naquele desejo de permanecer até ao
possível, e assim foi, rodámos a fechadura do nosso lar bem depois das dez da
noite. Claro que o dia seguinte ainda de férias para ambos, daí a minha
estranheza, pela manhã, por não o encontrar a meu lado, pensei que talvez
estivesse na cozinha, levantei-me, procurei-o pela casa, três ou quatro
divisões não nos levam assim tanto tempo, e nada… Nem vestígios! Liguei-lhe de
imediato, só a voz fria e mecânica do atendedor, não sei por que razão, se
pelas cores do dia, se pelas sombras do meu pensar, se pelo estranho silêncio
àquela hora, não sei, confesso, porém, senti que algo mudara, e de forma
irreversível, o frio súbito que me invadia ajudava a materializar esta certeza,
de repente, senti-me náufraga, não por ele, claro, mas por mim, ia ao sabor das
correntes do meu desespero, a porta do quarto dos miúdos fechada, mesmo assim
ouvia-se-lhes a respiração, de facto, ele fizera muito pouco barulho, caso
contrário, os miúdos já com a televisão, qualquer coisa servia de pretexto para
deixarem a cama, é curioso, há quem diga que só não se recupera o tempo,
discordo, eu acrescentaria o entusiasmo, os momentos, e quem fomos, afinal,
viver é subtrairmo-nos… O resto já sabes, o apartamento que alugara com a
outra, para onde cobardemente fugiu naquela manhã, a guerra instalada pelos
bens, os miúdos no meio, coitados, pois, viver é subtrairmo-nos, contudo, ainda
hoje fico perplexa pelo momento que escolheu para nos deixar: após o regresso
de férias! Confesso que, há uns largos meses, ser-me-ia impossível falar disto
assim, e com esta distância, pois, foi penoso aqui chegar, lembras-te da… Pois,
sim, essa… Ainda no outro dia a vi, passeio fora, num claro sem destino, logo o
comentário do meu mais velho: “O que um homem faz a uma mulher!” Retorqui que
se calasse, afinal, o que é que um garoto de doze anos sabe do amor? Mas esta
questão não me deixou logo, ficou comigo por mais algum (“O que um homem faz a
uma mulher!”), e reflecti na minha expressão diante de um espelho escurecido lá
de casa, haveria alguma similitude com a da…? É possível, daí a observação do
miúdo, mas o que poderia ele saber do amor? Pouco, sem dúvida, mas talvez
percebesse as suas consequências, talvez… Não sabes de quem estou a falar?
Então, não estás a ver quem é a… Morava no prédio em frente ao nosso, víamos o
marido, aos fins-de-semana, logo pela manhã, de calções, fosse Verão ou
Inverno, em animadas correrias pelo bairro, até que correu para bem longe de
casa, com a empregada do café, que tem aproximadamente a idade da filha mais
velha deles, enfim, como eu agora a compreendo! Uma pessoa dedica a sua vida a
outra, para isto! Parece que vivemos uma amarga fantasia, percebes, não é?
Repara, consagramo-nos ao outro e, de repente, somos cuspidos da sua vida, como
se fôssemos um qualquer acessório descartável, desculpa-me, mas não encontro
outras palavras para descrever o que por aqui me vai dentro do peito… E como
dói! Por favor, não me perguntes, como já outros fizeram, se é a decepção pelos
anos de casados, se é o facto de ser trocada, se foi a traição, se foi nem
sequer ter pensado, por um segundo, nos filhos, se tudo isso ao mesmo tempo…
Sabes, o que dói mais é ter, neste momento, mais de cinquenta anos e sentir-me
uma criança amedrontada por, de repente, o mundo parecer-me um lugar
anoitecido. De certa forma, sinto-me vampirizada, ele levou-me os melhores anos
de mim, olho, agora, à minha volta com a estranheza de uma criança, mas com a
energia de uma idosa. Se isto sucedesse há uma década, enfim, recomeçar ainda
seria um horizonte tangível, porém, hoje olho-me ao espelho e estou naquela
fase em que me deixo de reconhecer, ou seja, quando o pensar se senta na margem
do nosso existir. Bom, desculpa, estou a aborrecer-te com os meus problemas e
tu ainda não falaste nada de ti, que dizes? Se ainda penso nele? Como não? Às
vezes, ao final da tarde, dou por mim na marquise da sala, como sempre fazia, a
olhar para o fundo da rua, à espera de ver os faróis do seu carro, e de noite,
como dói, sentir frio o seu lado da cama, talvez por pudor, ou por uma
esperança ainda não silenciada, cinjo-me ao meu, quem sabe se, um dia, ele cai
em si e percebe o vazio deixado. Levou-me mais de metade da minha vida, agora,
uma coisa te garanto, se alguém me vir, de manhã ou de tarde, passeio fora, é
porque sei a direcção de cada passo.




