Livros do Escritor

Livros do Escritor

segunda-feira, 8 de junho de 2026

Cesto de papéis

 


Bem sei que hoje quase não há cestos de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e, raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir, parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos desarrumou as coisas. É mais ou menos assim que me sinto, quando se subtraem ou se alteram paisagens do passado. Mais doloroso que nos subtraírem o futuro, é roubarem-nos o passado. Porque aí tiram-nos as certezas: do que foi, ou julgávamos ter sido… De certa forma, é correcto afirmar que uma frase silenciada tem como destino um qualquer cesto de papéis da nossa alma. E como o meu está cheio! Com o tempo, aprendemos o silêncio, é uma aproximação lenta, os anos passam, nós mudamos, não é o mundo que muda, sempre esta ilusão, e, de repente, respiramos fundo pela harmonia de nos sabermos em silêncio, o resto estridente do mundo já numa distância imensa, nós naquele instante de serenidade, talvez permita vasculhar o cesto de papéis da nossa alma, meu Deus, o que para aqui vai! Não sabia que ficara tanto por dizer… Baixo-me junto do cesto, está quase a abarrotar, talvez seja melhor sentar-me, sim, sem dúvida, começo a vasculhar papéis, enfio o braço quase até ao fundo, retiro daí uma folha amarfanhada, reparo na evolução da minha caligrafia pelo tempo, afinal, já em criança silenciava sentires… De repente, não sei de onde veio, irrompe, no caminho do meu pensar, a imagem daquele cão a examinar passeios anoitecidos numa minúcia detectivesca, dois passos atrás, em esforço pela trela, ela seguia-o quase numa devoção religiosa, saíam sempre à mesma hora, via-os da janela, para mim, sempre a rapariga do cão, não sei porquê, enternecia-me, havia tanta feminilidade em cada gesto seu, apreciava-lhe a lenta suavidade de ajeitar os cabelos para trás da orelha, um gesto tão repetido, mas para mim sempre novo, não me cansava de o rever, as ruas, àquela hora, já iluminadas pelos lamuriosos candeeiros nocturnos, sabia-lhes a rota, iam até ao final da praceta, cerca de centena e meia de metros, e regressavam, ela dois passos atrás, em esforço pela trela, até que, certa noite, um sujeito, à mesma hora, também com um cão, mas apenas um passo atrás, não se lhe denotava esforço pela trela, o primeiro contacto foi ao nível do passeio, pararam, olharam-se, por fim, cheiraram-se, as caudas ininterruptas, como leques, ela, uma vez mais, a ajeitar os cabelos para trás da orelha, contudo, desta vez, foi célere, como sempre acontece nestas ocasiões, as palavras trocadas tinham como pano de fundo os ininterruptos leques abaixo dos joelhos (Não se preocupe que não morde! É menino ou menina? Ainda é novinho, certo? A minha também não. É muito meiguinha e sociável. Tenho-a há três anos, foi-me dada com dois meses…), por norma, é este tipo de frases que se ouvem quando duas ou mais trelas se imobilizam, com uma ou outra variação, de vacinas, a escalada dos preços na saúde dos amigos de quatro patas, a biografia do leque pelos joelhos, algumas dignas de um fado nocturno, e pouco mais, muito pouco mesmo, porém, não sei porquê, entre aquelas duas trelas imobilizadas sobre lamuriosos candeeiros nocturnos, percebi, de imediato, que havia muito por dizer, enquanto ao nível da calçada os farejares se harmonizavam, as trelas assumiram a mesma direcção, nas noites seguintes, os cerca de cento e cinquenta metros, até ao final da praceta, passaram a ser cumpridos em diálogo, mais duas solidões que se extinguiram, reparei, por mais de uma vez, que ela se esquecia de ajeitar os cabelos para trás da orelha, ficava com a melena a ocultar-lhe parte do rosto, mas nunca do sorriso.

sábado, 30 de maio de 2026

Carne-podre aos cães e às cadelas

 


Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Porcachona, não estava há muitos anos no canil, no entanto, destacara-se, de múltiplas formas, na serventia aos seus amos, foi lesta a abocanhar a carne putrefacta, essa cadela até os ossos engolia, nada lhe escapava, por algum motivo muitos questionam se anda ou rebola, o segundo pedaço de carne-podre caiu ao lado de um rafeiro conhecido por Tintim, esse tem muitos anos de canil, apesar da rafeirice, é um mamífero delicado, e, pelo que se constata, um fiel servidor das ordens dos seus donos, abocanhou a podridão que lhe coubera, ao contrário da cadela Porcachona, com delicadeza, até as varejeiras que cobriam o despojo se sentiram honradas, o terceiro pedaço de podridão foi parar ao lado de um rafeiro de nome Manguinhas, esse ladrava muito nas costas dos donos, porém, na sua frente é vê-lo a abanar a cauda e a rebolar para seu deleite, quem não se enterneceria com tal submissão?! Este rafeiro já avoluma uns anitos neste canil, sempre com o mesmo registo, ladra alto dentro de portas, mas assim que se abrem, é ver-lhe a cauda em movimentos-horizontais e a rebolar, o quarto pedaço de carne-podre caiu próximo de uma cadela Zarolha, tem poucos anos de canil, registe-se a meteórica ascensão, assim que os donos lhe decretam uma ordem, é vê-la a cumprir escrupulosamente, em correrias pelo canil a ladrar para os demais, gosta, pelo que se vê, de rafeiros velhos e obesos, e também gane muito nas costas alheias, nada de novo neste canil, o pedaço de carne-podre seguinte, o quinto, caiu em frente a uma cadela velha, não obstante o carácter rafeiro, uns laivos de cadela de raça inglesa, apenas isso, uns laivos (que fazer?), olhou o a carne-podre como se um não assunto, embora salivasse por todos os lados, não tardaria muito a retalhá-la, a sua volumetria assim o exigia, outra fiel servidora dos donos do canil, a sexta putrefacção quase atingia uma cadela que tinha uma coleira com uma cruzinha, de início ainda questionaram a possibilidade de donos, um logro, uma digníssima rafeira, assim que algum incidente pelo canil, é vê-la em correrias a ladrar à procura dos donos, talvez seja das cadelas que mais quilómetros por ali soma, um descanso para os seus amos, nada por aqueles lados ocorreria sem que esta cadela prontamente não lhes noticiasse, muitos outros cães e cadelas acabaram por receber o seu putrefacto naco, escusado será referir que muitas varejeiras foram engolidas por estes rafeiros, estão habituados a engolir o que os dignos vomitam, assim se sobrevive neste canil, o sétimo pedaço de carne-podre calhou a uma cadela que ladra sobre quem desconhece por inteiro, há múltiplas por ali, a providência aconselha cuidado, infelizmente, por estes dias, é dos fenómenos mais pródigos, cães e cadelas a ladrar sobre desconhecidos, coitaditos, entre portas todos ladram alto, agora se tiverem o infortúnio de estas se abrirem… Os donos olham estes rafeiros com júbilo, cumpriram o que lhes foi ordenado, mereceram o naco-podre, não fossem estes, outros haveria na ânsia de um lugar com cobertura, mais próximo da comida, entre outras regalias, e os passeios, claro, como estes cães e cadelas gostam de passear pelos campos adjacentes, para quem ignora como se gere um canil de rafeiros, aqui vos deixo este manual de instruções, quanto às varejeiras, como por estes dias se diz: “um infeliz dano-colateral”, nada que perturbe a digestão desta matilha rafeira.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Ali onde não há ontem nem amanhã

 



De vez em quando, regresso-me àquele lugar, não sei porquê, no acaso do dia, a imagem irrompe pelo meu pensar, e ali me fico, de novo, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância. Quando férias, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, sempre com a mesma argumentação, de tão repetida, já lhe conheço a sequência, as noites frias, a escassez de diversões, a água gelada, o vento, sempre o vento, constante, no fundo, é mais uma brisa, mas ela, logo, a exponenciar a coisa, por vezes, devido à convicção das suas afirmações, quase acredito que um desconfortável vento frio no lugar de uma reconfortante brisa do entardecer. Mas, como é sabido, qualquer relacionamento é um incessante confronto por uma ascensão face ao outro, por muito que se argumente em contrário, para se sentir é preciso ser-se, e só se é na afirmação, naquilo que nos adiciona, contudo, há muito que capitulei neste digladiar, não me recordo em que momento percebi a minha erosão, regra geral, estas coisas revelam-se nos aspectos mais ínfimos do existir, precisamente os que não olhamos, ou que só percebemos tardiamente, era mais ou menos por aqui que eu andava, a rotina de cada dia só me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, há tanto que novidade era uma palavra estrangeira no meu léxico, uma dessas que gradualmente colocamos na margem por não consubstanciarem a nossa realidade quotidiana, como esses objectos atirados para os fundos de uma despensa, por escassez de uso ou uma inutilidade súbita, porém, se um acaso me surgia ao caminho, e eu teria de me desviar da minha rota diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, logo uma inquietude me invadia, como se estivesse de partida para um lugar inóspito, sem vislumbres de regresso, não foi da primeira, nem da segunda vez, confesso, que me apercebi deste meu paradoxo, levou o seu tempo, como tudo nesta vida, queria tanto uma coisa, mas assim que se me apresentava ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse logo esvaído, o olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Nesses momentos, que satisfação regressar àquele lugar, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, e eu também uma parte daquele todo, ali sabia-me em casa, há cada vez menos lugares, neste mundo, com sabor a lar, sempre que o tema férias lá por casa, o destino a escolher, eu, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, com a batida sequência de argumentos, inicia, então, a apologia daquela costa mais a Sul, para onde converge quase toda a espécie lusitana no mês de Agosto, já lhe conheço a sequência, as noites quentes, a abundância de diversões, a água tépida, a escassez de vento, eu nem contrapunha, limitava-me a recordar o último Agosto, nem por acaso ali passado, naquele lugar a Sul, os preços com números mais robustos, a quantidade de gente e carros, à minha volta, só me trazia à memória um banal dia de trabalho, mesmo a arquitectura disforme dos edifícios, o predomínio de betão em qualquer horizonte olhado, o barulho, por todo e qualquer canto, num absurdo crescente, e filas e mais filas, para comer, compras, estacionar, mais filas ainda, pois, eu, não raras vezes, a pensar Será este um banal dia de trabalho? Afinal, quem pode chamar isto de férias? A certa altura, refugiei-me em mim, pelos miúdos mantive o mínimo de lisura, sabia que, lá bem no fundo, ela se tinha apercebido do seu erro, já não era mau de todo, confessá-lo é que seria coisa bem diferente, em momentos assim, mantinha a sua postura impassível, reparava que os seus gestos quotidianos, fosse com os miúdos, consigo mesma, se alongavam um pouco mais, o que denunciava, sem qualquer dúvida, um laivo de teatralidade, pois, só representa quem se esconde… Não raras vezes, nestes últimos anos, dou por mim a olhar à minha volta e, no horizonte, de mim para mim, apenas emerge a palavra: incompreensão. Como pode um tempo, supostamente destinado a repouso, ser consumido numa voracidade tal? Sem sequer haver um resquício de mudança de cenário? O rectângulo do hoje omnipresente à mesa, à beira-mar, na esplanada, aquando do gelado vespertino, nas compras, durante o jogo de raquetas na areia, no alto da falésia, como testemunha ocular de que ali efectivamente se esteve, no fundo, a atestar a pegada do hoje, e a palavra incompreensão, uma vez mais, a toldar-me horizontes. Volta e meia, ela com os miúdos, a estender-me aquilo, a atropelar palavras Vá! Despacha-te! Vê lá se nos apanhas a todos! Achas que ficou bem? É melhor tirares outra… Outras vezes, à mesa, eu em espanto perante alguém, que, por acaso, me fez deslocar a um altar e proferir juras de amor eterno, que fotografa, quase em êxtase, a sua refeição, os miúdos, são dois, diferença de ano e meio, também com aquela coisa nas mãos, jogos e mais jogos, alheados da sua circunstância, de si mesmos, dos outros, de existir, até há bem pouco, eu ainda vociferava que, à mesa, nem pensar estar com aquilo, porém, ela, de imediato, em socorro deles (Deixa-os estar! Queres o quê? Que fiquem ignorantes com as tecnologias? Pelo menos, estão aqui sob a nossa vista. Não andam por aí a fazer disparates… Anda! Deixa-os estar… Lembra-te: o mundo já é outro!), não podia estar mais errada, nunca os achei tão distantes, contudo, há muito que capitulei neste digladiar, não me recordo em que momento percebi a minha erosão, regra geral, estas coisas revelam-se nos aspectos mais ínfimos do existir, precisamente os que não olhamos… Mas aqui estamos os quatro, num Agosto irrespirável, neste lugar a Sul, os preços com números mais robustos, a quantidade de gente e carros, à minha volta, só me traz à memória um banal dia de trabalho, mesmo a arquitectura disforme dos edifícios, o predomínio de betão em qualquer horizonte olhado, o barulho, por todo e qualquer canto, num absurdo crescente, e filas e mais filas, para comer, compras, estacionar, mais filas ainda, continuo sem conseguir desacelerar o pensamento, nem um pouco, e como eu preciso repousar de mim! Que saudades daquele lugar, acho que nunca dali parti, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância, a olhar rostos velados por aquele rectângulo, nem ouso uma frase, levanto-me, ela nem repara, os miúdos ainda menos, vou até à varanda, o dia legou os despojos de calor à noite que se aproxima em passos hesitantes, nem uma brisa a relembrar outras paragens, o próprio tempo parecia recuperar o fôlego para a sua obstinada caminhada, esvoaçam por todo o lado as aves do estio, recordo as vezes em que quis tanto uma coisa, mas assim que se me apresentava ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse logo esvaído, o olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Hoje, o que mais me intriga é a morte do desejo, porque a seguir vem o sonho… E como é trágica a morte de um sonho! Quanto de nós fica nessas cinzas tristemente arrefecidas? Demasiado, sem dúvida. Se ao menos o meu olhar, por uns instantes, num voo desses viajantes entardecidos. 

quarta-feira, 20 de maio de 2026


 

- Humor e beleza nasceram para se partilhar… Riso e deleite, no singular, estão condenados à esterilidade. Não concordas?

in Nuvens passeantes pelas águas