Desde há umas semanas, que denoto um
crescente distanciar pelos passeios, quando o procuro, atrás de mim, lá vem, na
sua trémula passada, com o olhar verbaliza “Sempre andei à tua
frente, agora é a tua vez de esperar… Não, não consigo andar mais rápido… O
tempo é uma coisa tramada, e o nosso corre bem mais depressa…,” quando se punha com esta temática, eu atrás
de palavras, não para lhe responder, mas para dar sentido a uma dor que me
ameaçava lançar por terra, os olhos esbranquiçados de idoso, quando há tão
pouco cintilavam uma desmedida alegria, correrias, sem amanhã, passeio fora, em
certa ocasião, a estrada, um carro, ao brancura do pêlo manchada de branco, o
acontecer ultrapassa-nos sempre, embora persistamos em teimosias de tédio e
fastio, as duas patas dianteiras com ligaduras, o olhar cabisbaixo, embora,
quando me viu, ainda deitado na marquesa, em esforços para se levantar e vir ao
meu encontro, o leque-traseiro traduzia, na perfeição, a sua desmedida alegria,
ainda não somava um ano de vida, já as arestas do aqui o atingiam em algo
essencial: a melhor expressão da sua alegria: o correr; foi, um pouco à frente,
sob um candeeiro, que encontrei a idosa do prédio em frente, mais abaixo outro
idoso, desdentado, contaram-me, há uns meses, que ela prepara as suas refeições
como se a um bebé de meses, tudo à base de papas, questões assim reforçam a
crescente convicção do meu anacronismo, sei que nunca se deram muito bem,
limitavam-se aos imperativos da educação, cheiravam-se, os leques-traseiros
imóveis, pouco mais, cumprimentos, frases de circunstância, tarde ou cedo a
questão essencial, destes contextos, emergiria, nem precisei de relógio, bem
antes dos dois minutos, de nos cruzarmos, sob aquele candeeiro, logo desfiava
as últimas do seu Petzi, apesar da ausência de dentadura, ladrava para tudo que
se mobilizasse, até uma folha arrastada pela brisa anoitecida, era uma senhora
respeitosa, mesmo o seu Petzi era tratado na terceira pessoa, “Lá está o
menino! Não seja assim… Já viu as horas?! Ainda acorda a rua toda… Veja se tem
mais calminha… Que modos são esses?! Sinceramente…,” questões assim reforçam a crescente convicção do meu anacronismo,
limitava-me a olhar um qualquer indefinível ponto do meu horizonte, mais abaixo
sei que também ele me seguia, nessas ocasiões, os passos do olhar, juntava as
primeiras sílabas para um adeus, levantou a sua indignação com as desmesuradas
contas de saúde dos amigos dos leques-esvoaçantes, “Olhe, já perdi as palavras!!!
Só me ocorrer dizer uma coisa: ROUBALHEIRA!!! Imagine quanto ali já despendi
com o meu Petzi! Sinceramente, nem quero pensar… Mas, pelo menos, sinto-me
gratificada: cada cêntimo vale a pena: é a minha única companhia… E sei que me
compreende, sabe, às vezes sem nada lhe dizer, basta o olhar…”, neste ponto, não podia estar mais de
acordo, dei comigo em repetidos gestos de anuência com o rosto, o mesmo se
passava entre mim e o amigo mais abaixo, por instantes, o meu anacronismo
esbateu-se um pouco, tanto se fala da relevância da companhia, destes nossos
amigos quadrúpedes, para os idosos, e nem uma benesse, de quem desgoverna,
quando chega a hora de zelar pela sua saúde, “O curioso é que nunca esteve,
nos meus horizontes, ter um cão… Há uns bons anos, quando o médico apreensivo
com o meu coração, em imperativos de que teria de caminhar, eu em prontas
afirmações, o meu querido marido, astuto como sempre, percebeu a minha
representação, conhecíamo-nos tão bem, o verbo, entre nós, tornava-se
supérfluo, menos de uma semana após a consulta, aparece com o meu Petzi, cabia
na palma da sua mão, veja bem quão pequenino era… Assim que o vi,
derreteu-se-me o coração, foi a forma engenhosa que o meu querido marido
encontrou para me obrigar a sair de casa e caminhar… Nestes últimos tempos, com
o avançar da idade do Petzi, são, pelo menos, cinco vezes por dia, a verdade é
que, desde então, nunca mais senti pressões no peito…,” sempre que ouvia o seu nome, o bicho olhava para cima, percebi-lhe um
discurso ansioso, queria transmitir o máximo de informação, como se em receios
de perder o interesse do receptor, a solidão agudiza o pensar, mas enferruja a
oralidade, os puxões, na trela, do seu Petzi, multiplicavam-se, não conheço
quem simpatize com aquele cão, de facto, só a dona lhe tem uma consagração
ímpar, percebo, agora, o olhar do meu amigo mais abaixo, “Já chega, não te
parece? Sabes bem que nunca suportei este cão histérico! Ainda nem a metade da
rua chegámos…,” sim, tinha razão, tinha
de retomar a caminhada, nunca houve, entre nós, trelas, sempre bastou o olhar e
a voz, se antes à minha frente, agora, um pouco atrás, um dia, talvez só na
memória, mas aí, de certeza, estaremos lado-a-lado.
FINITUDES
Livros do Escritor
terça-feira, 23 de junho de 2026
Cão velho tem olhar de sábio
- Fica algum ressentimento?
- Ainda vais a tempo de aprender que um bom coração
demora a eternidade para se cicatrizar… Evita magoá-los, cedo aprendi que os
ventos sabem o caminho de volta… Adeus, se passares por uma certa praia, usa
uns brincos de prata que alguém te ofereceu depois de soletrar palavras de
amor…
in Nuvens passeantes pelas águas
segunda-feira, 22 de junho de 2026
Também
resolveste aparecer nesta minha nocturna caminhada?
-
Pelos vistos… Já te apareceu muita gente?
- Apenas os necessários. Há quem defenda que o mesmo sucede nos nossos dias sob o céu: cada um que nos surge ao caminho traz uma aprendizagem. Duvido muito sinceramente da validade deste raciocínio, cruzei-me com tanta porcaria que só serviu para desaprender ou perder a fé no bicho-homem (...)
in Nuvens passeantes pelas águas
sábado, 20 de junho de 2026
sexta-feira, 19 de junho de 2026
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Eu mais eu igual a qualquer coisa de indefinível
Sempre que sexta-feira, fim de
tarde, Despacha-te começa a
repetir-se lá por casa, a voz de minha mãe num volume crescente, os meus nervos
em parelha com a sua volumetria, eu perdida atrás de objectos que insistem, não
sei porquê, em esconder-se de mim quando estou refém da pressa, percorro as
escassas divisões da casa que, em momentos assim, se me afiguram planícies de
horizontes inalcançáveis, uma vez mais Despacha-te,
outra ainda, Despacha-te, nisto a
campainha, apresso-me a atender, já sei que voz me aguardava, Sim, despacha-te, tenho o carro mal
estacionado, meu pai também com o recorrente despacha-te, peguei na mochila que, entretanto, pousara no sofá,
dirigi-me para a porta, antes de a alcançar, a voz de minha mãe antecipa-se, Olha lá, nem te despedes? Não desacelero
o passo, secamente respondo-lhe, Afinal,
não tenho de me despachar? Percebo que fica, nas minhas costas, a ruminar
qualquer coisa, já não me interessa, a porta, o elevador, a rua, o carro do meu
pai em segunda fila, apesar dos inúmeros lugares por ocupar àquela hora,
percebo-lhe impaciência nos dedos, assim que me abeiro da viatura, para abrir a
porta, compreendo-me habitante de uma zona indistinta, uma apátrida, nada
de novo, confesso, mas, desta vez, não sei porquê, sinto as coisas com uma
força que me atomiza ainda mais, talvez pelo despacha-te pronunciado por ambos, ela desejosa da minha partida
por um café agendado, para essa tarde, com aquele senhor do lote três,
divorciado há uns oito anos, educado, bem-falante, ouvi dizer que trabalha num
notário, a ideia de minha mãe com outro homem, que não meu pai, começou a
ganhar terreno no espaço do meu pensar, afinal, praticamente após ter batido,
de uma forma irrepetível, creio que ressoou por todo o bairro, a porta de casa,
para jamais regressar, já lá vão seis anos, parece que foi há uma semana, e
seis anos passaram por todos nós, como dizia, praticamente após ter batido a
porta de casa, aquela brasileira colou-se ao meu pai, dez anos mais nova, mas
com uma agilidade no viver que ele jamais terá, por ali, se alguém batesse uma
porta, de uma forma irrepetível, para que ressoasse em todo o bairro, só podia
ser ela, não a suporto, confesso, porém, reconheço o quão ele anda
apatetadamente feliz, de certa forma, parece que se despediu dos cinquenta e
disse olá, de novo, aos vinte e poucos… Do vestir aos gestos, tudo se alterou,
tornaram-se mais leves e expansivos, só quando ela Amor, a gente não pode adiar por muito mais, né? Cê tá-me ouvindo,
coração? Nesses instantes, ele recupera o cinzentismo que tão bem lhe
conheço, divaga um pouco, mas ela possui uma agilidade no viver que ele jamais
terá, daí que não me admire se, dentro de muito pouco, não for contemplada com
um irmãozinho, ou talvez já tenha sido, assim que me sento, Estava a ver que nunca mais vinhas! Quantas
vezes tenho de repetir para te despachares? Sabes muito bem que esta rua me
deixa nervoso! Nem vou olhar para cima! Já sei que a tua mãe me espia por
detrás do cortinado… Sabes, foi um inferno aquele casamento, um verdadeiro
inferno… Não sei como aguentei tanto tempo! Quando penso nisso, só posso
concluir que estava doido! Onde se viu uma coisa assim? E, até chegarmos à
sua casa, o monólogo prosseguia, sempre neste registo, já não me espantava pela
repetida ausência de uma questão essencial: Como
estás? Mas nunca me conformei com o facto de, nem por um segundo, se deter
para me olhar… Por esta altura, ela já devia andar de volta do espelho, a
aprimorar a maquilhagem, afinal, o café agendado, para essa tarde, com aquele
senhor do lote três, divorciado há uns oito anos, educado, bem-falante, ouvi
dizer que trabalha num notário, numa zona de mim, torço por ela, ainda tenho
presente as lamelas que engoliu nos meses que se seguiram à porta que ressoou
por todo o bairro, nem saía de casa, em verdade, mal se levantava da cama,
assim que chegava da escola, eu assumia o papel de dona de casa, de facto,
aprendi a vida dos adultos nessa altura, teria perto de doze anos, hoje, se me
perguntassem de quem foi a culpa da porta ter ressoado daquela maneira, não
tenho resposta unívoca, afinal, as coisas
são sempre plurais… É factual que ela o asfixiava com exigências, de vária
ordem: a cansada insistência em elevar o nível de vida, uma efectiva
colaboração doméstica, de renunciar aos copos com amigos aos fins-de-semana
para acompanhá-la nos infindáveis passeios por montras e corredores
artificialmente iluminados (logo ele, coitado, com uma infância e juventude de
província, mais propriamente na Beira-Alta, habituado a tactear nuvens e a olhar
distâncias…); a renúncia dela a mais filhos também o frustrou, neste
particular, ele foi persistente, talvez por ser filho único compreendesse, numa
além-teoria, as agruras da solidão, porém, ela irredutível Nem penses nisso! Julgas que, algum dia, voltava a passar por tudo
aquilo outra vez? Ainda tenho as dores gravadas em mim! Sempre ouvi, das
outras mães, falar em dores esquecidas assim que o filho uma realidade, como se
tudo valesse a pena, mas da minha, nada, apenas a memória da dor… Mesmo assim,
eu torço por ela, afinal, o café agendado para esta tarde, entretanto, estamos
quase na rua do meu pai, continua sem se deter, nem por um segundo, para me
olhar, há coisas, na vida, a que nos habituamos, há outras, porém, que só
silenciamos, esta pertence, em definitivo, à segunda categoria, se me
perguntassem o porquê do seu desejo por mais filhos, só perspectivo a ânsia
dele por um filho, sem dúvida, acho que sempre quis um rapaz, em relação à
minha mãe, ele com a sua crónica dificuldade na linguagem dos afectos, ela
queria um apoio permanente, nunca percebeu que ele provinha das alturas,
habituado a tactear nuvens e a olhar distâncias, o tempo foi-lhes fatal, só
acentuou a desamparada solidão que neles sempre viveu, e como os fins-de-semana
eram longos… Parecia que as sombras se imobilizavam e jocosamente nos olhavam
para espelhar infelicidades impronunciadas. Cada um de nós edificou o seu mundo
para conseguir sobreviver, acho que a minha tarefa foi mais facilitada, afinal,
é a vida que nos vai descolorindo os sonhos, se hoje me pedissem para edificar
algo, quanto mais um sonho, não saberia por onde começar, se ao menos o meu pai
se detivesse, nem que fosse por um segundo, para me olhar, pois, eu sei, a sua
crónica dificuldade na linguagem dos afectos, é possível que, em algum momento,
minha mãe se tenha apercebido de que, há muito, ele não se detivesse para a
olhar, nem que fosse por um segundo, é possível… Hoje sei-me uma habitante de
uma zona indistinta, uma apátrida, já não me preocupa assim tanto, acredito que
ajuda a escolher amanhãs, e a quem não se detiver para me olhar demoradamente,
nem ouso pousar a bagagem, prossigo de imediato a marcha, não quero, no
anoitecer da vida, jogar tudo num café agendado para a tarde.




