Livros do Escritor

Livros do Escritor

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026


 A questão que nos devemos colocar é: ao olhar para trás, faríamos alguma coisa diferente?

in Nuvens passeantes pelas águas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O homem do sorriso triste

 


Todos os anos é a mesma coisa, após as férias, aí vem ela, naquele seu jeito acelerado, com os meus dois netos, o meu filho sempre cinco a seis passos atrás, entra e senta-se sem o mínimo de um providencial com licença, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, houve quem já me dissesse Não ligue! Ignore, que é o melhor que faz… Esta geração é assim! Que se há-de fazer? A isto, eu respondo Educação desconhece idades ou gerações. Simplesmente, ou se tem ou não, repito, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, mas, como dizia, ela já sentada, os miúdos ainda no corredor, o meu filho, coitado, a fechar a porta de casa, a relatar-me as férias, para melhor ilustrar o vazio das suas palavras, socorre-se do rectângulo do hoje, a forma do indicador aterrar na superfície envidraçada confere-lhe, confesso, uma ilusória noção de elegância, que, em verdade, nem ela nem os seu desengonçados gestos possuem, contudo, na aparência tudo é sempre uma outra coisa, e ela, coitadita, de dedo em riste, puxa imagem daqui, empurra outra para acolá, como se eu, alguma vez, com os anos que tenho desta desgraçada estadia neste estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é, esperamos bem que sim, ficasse pela superfície das coisas, o irritante e incansável indicador fazia-se acompanhar da sua inqualificável voz Já viu? Esta tirámos de propósito para si. Esta praia fica mesmo em frente ao hotel. É fantástica, não acha? E os seus netos ficaram tão bem… Entretanto, os miúdos entram, a voz dela cessa, por pouco, bem sei, cumprimentam-me e logo se vão sentar, denoto que nem o esforço de abrir uma porta de diálogo, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, por fim, o meu filho, ainda por cima único, tanto que eu e o pai sonhámos para ele, cumprimenta-me com pudor sempre que na presença dela, há tanto que li estas entrelinhas, ainda namoravam, e ela já lhe atirava à cara És mesmo um menino da mamã! Isto parece que se lhe interiorizou, desde então, este pudor de gestos e palavras, como se um espartilho, olho-o e percebo-lhe uma sombra pousada no rosto, não, acreditem, não é coisa de mãe, muito menos um delírio de velha, há muito que o meu filho, ainda por cima único, vive com uma sombra pousada no rosto, nem de propósito, quase de seguida, a boçal atira Já viu? O seu filho é que fica sempre cá com uma cara… Sinceramente! Vira-se para ele e acrescenta Não és nada fotogénico! Aqui quase lhe respondia, mas, num último instante, consegui segurar a frase que me deixava (Se não é feliz, não pode ter boa cara!), confesso desconhecer o porquê de me ter calado, talvez essa fala pertencesse a uma outra voz, sim, talvez seja por aí, afinal, não foi para mim que ela se virou (Não és nada fotogénico!) … Teria de ser ele a afastar a sombra pousada no seu rosto, há coisas que já são uma nossa pretérita pertença, como se estivessem largadas no mundo à espera da nossa passagem, este momento aguardou por ele, sempre ali esteve, de todas as formas possíveis, o eco ainda se arrastou pelos ares da tarde (Não és nada fotogénico!), ele impassível, parecia habitar outro contexto, a sombra pousada no seu rosto vencia-o sempre, reparei que, nos momentos seguintes, evitou o meu olhar, nada de novo, quantas vezes, desde que ele abriu a porta da nossa casa à boçal, isto se repetiu? Tanto que eu e o pai sonhámos para ele! Ainda me lembro, pelos seus últimos dias, o meu querido marido, em esforço, a articular Mulher: vê se metes algum juízo na cabeça do nosso Fernandinho! Aquela mulher nem para um bode serve! E, pouco dias depois, partiu… Com este desgosto, é certo, mas que fazer? Abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar, para mim, a tarde já vai alta, relembro a janta que tenho de fazer, ela percebe o toque, que eu sei, embora se faça desentendida, mudo de estratégia E agora que as férias acabaram, vai procurar trabalho? Ou acha que não vale a pena? Já conheço a sequência desta cena, os movimentos aceleram-se-lhe, enquanto procura desconversar, as feições endurecem, empurra os miúdos para a porta, por fim, pelo rosto do meu filho, leio-lhe uma censura inarticulada pela minha última frase: nem sombras, nem ecos, nem fotogenia: apenas uma reprovação silenciada pelo gesto feito frase. Entretanto, a boçal já a chamar o elevador, os miúdos nem um adeus, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, por mim, já vão tarde, afinal, as pontes só ligam margens possíveis, e eu estou cansada, tão cansada, desta desgraçada estadia neste estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é, esperamos bem que sim, que agradeço a paz restituída, vou à janela, vejo-os lá em baixo, a boçal à frente, depois os miúdos, ele para o fim, cinco a seis passos atrás, naquele seu modo de andar desarticulado, sorrio para mim à vista disso, quase o revejo de sapatos ortopédicos, mochila às costas, a caminho da primária, parece que foi há bocado e, afinal, aconteceu numa outra vida, suspiro longamente enquanto um pensamento regressa-me abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar…

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Adeus, Shane


 

Sempre que me falam de cinema, é a cena final, deste maravilhoso filme, que me povoa, não sei porquê, ou talvez saiba, afinal, não há questões sem resposta, teria os meus doze anos quando, lá por casa, meu pai Tens de ver este filme! Ouvi-o e, de imediato, assenti, regra geral, sempre que meu pai (Tens de ver este filme!), acertava, neste caso, foi mais além… Não, não vou relatar pormenorizadamente a história, enaltecer as interpretações, realçar o tom crepuscular de todo o filme, bem como o sublimado triângulo amoroso, a magistral banda sonora, nada disso, vou simplesmente centrar-me no efeito que, após ouvir o lamento daquele miúdo (Adeus, Shane), teria mais ou menos a minha idade, aquele serão provocou em mim. De facto, há coisas, nesta vida, que nos espelham a geografia da alma, uma pessoa, um livro, um filme, uma música, até uma paisagem, nessa noite, oscilei entre o miúdo que era e o herói que partia ao crepúsculo, após cumprir a sua promessa (De não haver mais armas no vale…), sim, Shane era um homem de palavra, desconhecia o nim, hoje, já adulto, quase tudo é gente do nim, em todos os sectores desta apalermada sociedade, do profissional ao lúdico, é curioso, se alguém chamar o outro de palerma, poder-se-á considerar ofensivo, mas poucos se importam de fazer figuras aparvalhadas, desde assistir, por vezes boquiabertos, a autênticos dejectos televisivos, a aderir entusiasmadamente a todas as modas subterraneamente chegadas, como “caçar” bonequinhos imaginários, entre outros feitos dignos de causar a repulsa dos nossos avós, creio que, neste cenário, Shane jamais se apearia, continuaria a sua marcha rumo a um lugar digno de si, por estes lados, já ninguém olha o outro nos olhos, ainda menos os inimigos, que sempre existem, estão identificados, e este é o melhor dos mundos para eles se mobilizarem, tudo permanece numa anestesia de delírio e fúteis risos, estou a escrever isto com a profunda convicção de que nem meia dúzia conhece Shane, George Stevens ou Alan Ladd, pouco me importa, sou um afortunado, é tudo o que posso dizer, porque, num serão de há muito, alguém me disse Tens de ver este filme! Só havia dois canais, pôr para trás ou para a frente era ficção científica, daí que a nossa atenção sorvesse cada pormenor no seu irrepetível carácter, talvez por isso fôssemos mais atentos, talvez por isso não abraçássemos tanto a preguiça, findo o filme, nessa noite dos meus doze anos, permaneci sentado a arrumar sentimentos, e como precisava de arrumar sentimentos, gosto de filmes assim, que me desarrumem por dentro, são cada vez mais raros, hoje ou despertam bocejos ou atentam a inteligência na sua desmesurada estupidez, enfim, lá aparece um ou outro que vale a pena, ou talvez, no meu caso, seja uma outra coisa, a ausência de uma voz que me diga Tens de ver este filme! Como compreendi aquele miúdo que gritava para a noite Volta, Shane! Quantas vezes, numa vida, queríamos que as coisas tivessem a cor do nosso sentir? Ali, naquele espaço de uma despedida, a vida foi-me apresentada, nada foi como devia, talvez por compreender, num canto cá de mim, que tudo não podia ser de outra forma, a última fala de Shane é um quase sumido, mas num tom sem réplica, Adeus, pequeno Joe, após perceber que cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe pode fugir, assim sendo, tinha de partir, nos dias seguintes, claro que rodei o meu revólver de fulminantes à Shane, creio que, agora mesmo, se o reencontrasse, voltaria a fazê-lo, uma das grandes lições deste magistral filme é exactamente essa: cada homem nasce com a sua fôrma, e por muito que faça, não lhe pode fugir. No que me concerne, a cada dia, vou descobrindo um pouco mais dessa minha fôrma, por isso, há uns tempos, escrevi: Para onde vou, levo-me comigo… Daí que não consiga articular nins… Daí que também não os compreenda… Se algum dia me sentir só com as minhas convicções, sempre posso ligar a televisão, agarrar num certo dvd, ouvir o eco de uma voz (Tens de ver este filme!), e rever Shane, e quando, no final, assistir à sua partida, rumo às montanhas anoitecidas, resta-me acompanhar o miúdo no seu grito final: Adeus, Shane!