Livros do Escritor

Livros do Escritor

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Só tenho o sol e a lua

 


Se me perguntassem, hoje, se o voltaria a fazer, a minha resposta seria sim. Não há como lhe fugir. Confesso que me custou depois, e as lágrimas que não caíam, acho que foi a primeira vez que chorei para dentro, parecia que as lágrimas vinham do mundo para mim… Tudo começou no final de uma manhã, a campainha, o meu filho a entrar, percebi-lhe, pelos passos do olhar, que me ia pedir algo, como se fosse o menino que ainda guardo em mim, primeiro, a olhar à volta, passos lentos na minha direcção, a voz pausada e serena, quase a soletrar Sabes, mãe… Começava, sempre que queria algo, assim a frase (Sabes, mãe…), com a voz pausada e serena, neste caso, falou-me da possibilidade de um negócio qualquer com o meu genro, um café, lá do bairro, estava para trespassar, não por falta de liquidez, ressalvou logo, apenas o cansaço e a idade do casal, há anos que o homem dizia aos clientes Estou a ficar fora de prazo! Qualquer dia, passo isto e regresso à minha terra. Não quero morrer sem cumprir o sonho de construir uma casita na minha aldeia. E de, pelo menos, eu e a minha patroa termos uns anos de descanso por lá. A cidade mata-nos. Isto não é vida para ninguém! Pegamos de sol a sol… E férias, nem vê-las! Sabe há quanto não sabemos o que é um fim-de-semana? Ocultou-me as últimas cinco frases da sua argumentação, só muito depois é que as conheci. Acrescentou que seria uma excelente oportunidade para todos, como isto não está nada fácil de empregos, assim sendo, precisavam de um avalista para o empréstimo, lembro-me tão bem, a vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que nem lá estivemos, neste caso, estava a preparar-me para descascar as batatas do almoço, ao falar disto quase as sinto ainda em minhas mãos, como se nunca as tivesse largado, disse-lhe logo que sim, apenas relembrei a minha reforma, que ia pouco além de quinhentos euros, ele retorquiu que, o avalista, se tratava de uma mera formalidade bancária, encolhi os ombros, queria simplesmente que eles encontrassem o seu espaço neste mundo, e, tratando-se do meu genro, que a família se reencontrasse, bem sei que nunca foram muito próximos, isso, de certa forma, contribuiu para que ele e a irmã se afastassem um pouco, dói ver seres, nascidos da nossa carne, caminharem tão afastados, durante uns tempos, consegui juntá-los à minha mesa… Nessa noite, a campainha, minha filha e meu genro, já sabiam do meu sim, vinham agradecer e descansar-me, Não te preocupes, mãe, que vamos todos arregaçar as mangas. Vai ser um sucesso! Já temos umas ideias para inovar o espaço, até vamos reformular o conceito… Neste ponto, eu ficava a olhá-la, nunca percebi se ela falava mesmo assim ou se fazia de propósito para que não a percebesse, sempre que me alheava de uma conversa, aprendi a prestar atenção aos gestos e expressões da pessoa, falam sempre muito mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos, confesso a minha preocupação após esta visita nocturna, minha filha caminhava pelo sonho, arrastando com ela o seu companheiro, em contraste com o irmão, que se movia pela necessidade, apesar de todos conhecerem o flagelo do desemprego, partiam de lugares tão distintos, sonho e necessidade não vivem debaixo do mesmo céu.

Cinco meses depois, a campainha, também num final de manhã, dessa vez, lavava umas alfaces para a salada, fechei a torneira, limpei as mãos, meu filho, com um ar transtornado, pensei a questão mas acabei por não lhe dar voz (Não devias estar a trabalhar?), era demasiado evidente, ali à porta, a olhar o tapete, sempre que perdia nos jogos de bola, fazia o mesmo, pois, o menino que ainda guardo em mim, entrou devagar, sentou-se, falou, falou, não o interrompi, nem o devemos fazer, aprendi, há muito, que os gestos e expressões falam sempre muito mais que as palavras, por vezes, tornam-se ensurdecedores com os seus desesperados e calados gritos, afinal o café não abre portas há três semanas, confessou-me que não tencionam reabri-lo, primeiro, acusaram-se de, ao final de cada dia, as contas nunca baterem certo, seguiram-se recriminações por uns trabalharem mais que outros, a minha filha queria investir para reformular conceitos, o irmão, e bem, achava prematuro, certa tarde, filho e genro quase de pegavam em frente aos clientes, avançaram com os papéis para a dissolução da sociedade, neste ponto, ninguém se lembrou do empréstimo ao banco, continuam a não se lembrar, mesmo que a memória se refrescasse, nada poderiam fazer, com o tempo, percebi que um avalista é tudo menos uma formalidade bancária, comecei a receber carta atrás de carta com uma frequência quase diária, logo eu que só tinha as três ou quatro contas providenciais a desaguar-me todos os meses na caixa-do-correio, certa tarde, ao levantar a reforma, dão-me trezentos e poucos euros, a minha indignação de nada valeu, só duas semanas depois é que me informaram da penhora de um terço da minha pensão, seguiu-se um panfleto colado na porta, retirei-o, claro, li-o mais que uma vez, contudo, faltavam-lhe gestos e expressões, falam sempre muito mais que as palavras, depois, bom, não quero falar disso, nem o vou fazer, a vida é muito engraçada, há coisas que não nos largam e outras que parece que nem lá estivemos, não sabia que podiam ser simultâneas, hoje para aqui estou, num pequeno quarto, em casa do meu filho, quando me convidaram a deixar a minha casa, um homem, de fato, com um papel na mão, acompanhado de polícias, não quero falar disso, nem o vou fazer, lembrei-me de, certa vez, alguém dizer Quando se fala muito em liberdade, é mau sinal, pois, eu a pensar onde estava a liberdade quando me apontaram a porta da rua da minha própria casa, tive de me amparar aos móveis para não cair, uma incredulidade raivosa apoderou-se de mim, concluí que, a partir de agora, só me restavam o sol e a lua, nada mais, não quero falar disso, nem o vou fazer, várias vezes, enquanto caminhava para fora da minha casa, ouvi por mais que uma voz A senhora sente-se bem? Não quer parar na farmácia? É melhor medir essa tensão! Foi meu filho que serviu de véu quando as lágrimas do mundo correram para mim, contaram-me, mais tarde, que a irmã estava do outro lado do passeio a assistir, discreta, que chegou a discutir com a polícia e com o homem do fato, que lhes gritou Esta casa viu-me nascer! Soube, uns dias depois, que deixara de ter genro, não posso dizer que o lamente, talvez ela apareça uma noite destas para jantar, e, se ela aparecer, queria sossegá-la, dizer-lhe que Dificilmente a casa que nos viu nascer será a do último adeus…

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026


 

... nós, juntos, brilhávamos em demasia – até o mundo parecia invejar-nos…

in Nuvens passeantes pelas águas


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026


 A questão que nos devemos colocar é: ao olhar para trás, faríamos alguma coisa diferente?

in Nuvens passeantes pelas águas

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

O homem do sorriso triste

 


Todos os anos é a mesma coisa, após as férias, aí vem ela, naquele seu jeito acelerado, com os meus dois netos, o meu filho sempre cinco a seis passos atrás, entra e senta-se sem o mínimo de um providencial com licença, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, houve quem já me dissesse Não ligue! Ignore, que é o melhor que faz… Esta geração é assim! Que se há-de fazer? A isto, eu respondo Educação desconhece idades ou gerações. Simplesmente, ou se tem ou não, repito, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, mas, como dizia, ela já sentada, os miúdos ainda no corredor, o meu filho, coitado, a fechar a porta de casa, a relatar-me as férias, para melhor ilustrar o vazio das suas palavras, socorre-se do rectângulo do hoje, a forma do indicador aterrar na superfície envidraçada confere-lhe, confesso, uma ilusória noção de elegância, que, em verdade, nem ela nem os seu desengonçados gestos possuem, contudo, na aparência tudo é sempre uma outra coisa, e ela, coitadita, de dedo em riste, puxa imagem daqui, empurra outra para acolá, como se eu, alguma vez, com os anos que tenho desta desgraçada estadia neste estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é, esperamos bem que sim, ficasse pela superfície das coisas, o irritante e incansável indicador fazia-se acompanhar da sua inqualificável voz Já viu? Esta tirámos de propósito para si. Esta praia fica mesmo em frente ao hotel. É fantástica, não acha? E os seus netos ficaram tão bem… Entretanto, os miúdos entram, a voz dela cessa, por pouco, bem sei, cumprimentam-me e logo se vão sentar, denoto que nem o esforço de abrir uma porta de diálogo, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, por fim, o meu filho, ainda por cima único, tanto que eu e o pai sonhámos para ele, cumprimenta-me com pudor sempre que na presença dela, há tanto que li estas entrelinhas, ainda namoravam, e ela já lhe atirava à cara És mesmo um menino da mamã! Isto parece que se lhe interiorizou, desde então, este pudor de gestos e palavras, como se um espartilho, olho-o e percebo-lhe uma sombra pousada no rosto, não, acreditem, não é coisa de mãe, muito menos um delírio de velha, há muito que o meu filho, ainda por cima único, vive com uma sombra pousada no rosto, nem de propósito, quase de seguida, a boçal atira Já viu? O seu filho é que fica sempre cá com uma cara… Sinceramente! Vira-se para ele e acrescenta Não és nada fotogénico! Aqui quase lhe respondia, mas, num último instante, consegui segurar a frase que me deixava (Se não é feliz, não pode ter boa cara!), confesso desconhecer o porquê de me ter calado, talvez essa fala pertencesse a uma outra voz, sim, talvez seja por aí, afinal, não foi para mim que ela se virou (Não és nada fotogénico!) … Teria de ser ele a afastar a sombra pousada no seu rosto, há coisas que já são uma nossa pretérita pertença, como se estivessem largadas no mundo à espera da nossa passagem, este momento aguardou por ele, sempre ali esteve, de todas as formas possíveis, o eco ainda se arrastou pelos ares da tarde (Não és nada fotogénico!), ele impassível, parecia habitar outro contexto, a sombra pousada no seu rosto vencia-o sempre, reparei que, nos momentos seguintes, evitou o meu olhar, nada de novo, quantas vezes, desde que ele abriu a porta da nossa casa à boçal, isto se repetiu? Tanto que eu e o pai sonhámos para ele! Ainda me lembro, pelos seus últimos dias, o meu querido marido, em esforço, a articular Mulher: vê se metes algum juízo na cabeça do nosso Fernandinho! Aquela mulher nem para um bode serve! E, pouco dias depois, partiu… Com este desgosto, é certo, mas que fazer? Abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar, para mim, a tarde já vai alta, relembro a janta que tenho de fazer, ela percebe o toque, que eu sei, embora se faça desentendida, mudo de estratégia E agora que as férias acabaram, vai procurar trabalho? Ou acha que não vale a pena? Já conheço a sequência desta cena, os movimentos aceleram-se-lhe, enquanto procura desconversar, as feições endurecem, empurra os miúdos para a porta, por fim, pelo rosto do meu filho, leio-lhe uma censura inarticulada pela minha última frase: nem sombras, nem ecos, nem fotogenia: apenas uma reprovação silenciada pelo gesto feito frase. Entretanto, a boçal já a chamar o elevador, os miúdos nem um adeus, pois, nunca me habituei a isto, nem quero tal coisa, por mim, já vão tarde, afinal, as pontes só ligam margens possíveis, e eu estou cansada, tão cansada, desta desgraçada estadia neste estranho lugar a meio sempre de qualquer coisa que só no fim saberemos o que é, esperamos bem que sim, que agradeço a paz restituída, vou à janela, vejo-os lá em baixo, a boçal à frente, depois os miúdos, ele para o fim, cinco a seis passos atrás, naquele seu modo de andar desarticulado, sorrio para mim à vista disso, quase o revejo de sapatos ortopédicos, mochila às costas, a caminho da primária, parece que foi há bocado e, afinal, aconteceu numa outra vida, suspiro longamente enquanto um pensamento regressa-me abrimos a porta do mundo aos filhos, mas são eles que escolhem a que sombras querem repousar…