Nada disto claramente escapou à mulher do
colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os
pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um
autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá
jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos, assim,
reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha,
uma vez mais, pela casa, agora a colega com o marido, eu, de novo, à porta para
os receber, estes já os conhecia, conforme previ, a colega com uma indumentária
balizada algures entre os anos oitenta e as sombras estáticas de um passeio
cosmopolita, tudo para maquilhar uma ruralidade que ameaçava irromper a cada
gesto, sílaba, olhar, nunca compreendi esta urgência de renegar o ontem, o
marido, sempre dois ou três passos atrás, um sujeito alto, anafado, com gestos
ensonados, nele, porém, a ruralidade era palpitante, se me perguntassem qual a
sua profissão, desassombradamente diria taxista, havia nele uma qualquer
urgência por se sentar, como se fosse a sua posição natural, o seu horizonte
temático também não era muito vasto, oscilava entre, claro, a bola e motores,
embora, pasme-se, fosse bancário, o que também não lhe era abonatório, mas daí
a inferência pela sua posição natural, após deixá-los entrar e fechar a porta,
não me escapou as posições tomadas no terreno, o taxista sentou-se no sofá,
olhar bovino na televisão enquanto lhe enchia o copo, a rural da mulher foi ter
com a minha à cozinha, quase ignorou a mulher do colega, mais nova e atraente,
apenas se salvou o imperativo da educação, dediquei-me a colorir copos que
teimavam na transparência, particularmente o do taxista, entretanto, percebi na
mulher do colega uma crescente insatisfação, falavam em surdina, mas certas
frases chegaram-me Não devia ter vindo…
Eu sabia! Já viste, a cara que estas duas me fizeram? Parece que estão a fazer
um frete! E há quanto tempo estão as duas para ali na cozinha? Devem estar a
dizer das boas… Sinceramente, para que é que me vim aqui enfiar? Só tu, para me
meteres num filme destes! Primeira e última, acredita! Onde já se viu uma coisa
assim? Ela nem se digna a fazer sala! Coitada, está tudo tão artificial que se esqueceu
de dar alma às coisas! Da comida à decoração, tudo sabe a plástico! Pelos
gestos e expressões, o colega procurava, como podia, acalmá-la, aproximei-me
deles e gracejei qualquer coisa, pareceram-me ambos razoáveis, retribuíram
igualmente com uma piada, eu próprio comecei a inquietar-me com a demora
daquelas duas na cozinha, por breves instantes, invejei aquele olhar bovino que
contemplava a televisão, num estar para além de tudo, enquanto transparecia,
uma vez mais, o copo, creio que se lhe perguntasse onde estava a rural da
mulher, ele não sabia e tão pouco se importava… Como disse há pouco, invejei
aquele olhar bovino, num estar para além de tudo. Por fim, elas deixaram a
cozinha, povoaram a mesa com o propósito deste serão, não sei porquê, mas uma imagem
da infância levantou-se diante do meu pensar, a lareira da minha avó, quando as
suas mãos pousavam os frutos da sua manhã de labor, e uma frase, dita há pouco
em surdina, regressa-me está tudo tão
artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! De facto, daquelas
travessas não emanava qualquer aroma (Da comida à decoração, tudo sabe a plástico!), porém, da cozinha da minha avó, lá longe, na
aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado… Elas resolveram estabelecer um
diálogo muito particular, achei despropositado, o colega ainda tentou um
princípio de conversa, o que se lhe compreendia em distracção compensava com
uma fortíssima dose intuitiva, daí que os seus esforços, por uma hipotética
conversa, não tivessem passado exactamente de um princípio de intenções, talvez
começasse a vislumbrar, pelo soalho, as máscaras caídas das colegas, é
possível, poucas são as mulheres que gostam de sombras, sobretudo de mulheres
mais novas e atraentes, neste ponto, confesso que me chocou o facto de nenhuma
delas disfarçar o azedume, nem a educação sobreviveu, nem a etiqueta, nada,
apenas o meu espanto silenciado pela estranha que olhava diante de mim,
malgrado dormir com ela há mais de quinze anos… Por fim, os miúdos, em poses e
modos robóticos, assim que entraram, o meu olhar procurou o rosto da mulher do
colega, mais nova e atraente, li-lhe somente indulgência perante aqueles gestos
teatralmente contidos, até no tom de voz se denotava obediência a um guião
escrito por outra mão, dei, de repente, por mim a pensar Porquê tudo isto? Quanto de nós está nesta sala? Tão pouco, tão pouco…
Acho que nem os pés chegaram a entrar. Partimos para tão longe, assim que a
hora deste absurdo jantar chegou, que deixámos para aqui os corpos à pressa,
desengonçados, desanimados, entregues a uma lenta corrente sem prenúncio de uma
qualquer foz amanhecida… De novo aquela frase está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! O
colega e a mulher, mais nova e atraente, encaminharam-se para a porta, de certa
forma, na velocidade dos seus gestos e na opacidade das suas expressões,
percebia-se o cansaço de segurar as máscaras, começavam a ceder, adeuses de
ocasião e, por fim, partiram, percebi-lhes leveza na passada, elas nem à porta
vieram para se despedir, regressei à sala, o taxista já ressonava, elas
continuavam em sussurros indignados pela mulher do colega, mais nova e
atraente, os miúdos no quarto com o vício do hoje, olho as travessas,
praticamente intactas, mas tão vazias de alma… Imagino o colega, com a sua
mulher, mais nova e atraente, a parar numa rulote, cada um a pedir o seu
hambúrguer, depois, enquanto os ombros se tacteiam, olham o mar e saboreiam a
inesperada refeição, talvez ainda haja tempo para um beijo quente e renovar
juras de amor, talvez… Pelo menos, era o que eu faria, enquanto, lá longe, na
aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado…


