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A mostrar mensagens de 2022
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Uma das coisas que mais me fascinou em ti, foi facto de seres uma alma desarrumada, davas-me espelho, atenuavas-me a solidão, sabes, há divisões de mim onde nem à porta passo... in Deslumbramento

A insularidade das sílabas

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  Como sempre, àquela hora, náufrago de mim, cedo aos doces apelos da tépida corrente do sono, no sofá, a meu lado, minha mulher sempre com a novela, assim que me distancio do mundo, com um ténue movimento de pálpebras, logo a sua voz a ecoar na sala, como se me adivinhasse a distância, através de uma interrogação, exclamação, mas um tom a sublinhar o imperativo de uma resposta, eu na contrariedade do regresso, o movimento das pálpebras mais lento, sempre o desafio da gravidade, de seguida, o esforço de me contextualizar, a desculpa mais à mão, Diz lá, não te ouvi , bastava-lhe o olhar, mas ela sempre mais, Já estavas era a dormir. Já nem televisão vês! Sinceramente, estás mesmo de todo, e eu queria mesmo era estar todo longe dali, daquela voz tão alta que até faróis encolhia, a exigir-me um regresso por mim indesejado, pelo menos àquela hora, ou talvez nas outras também, as mãos dela num frenético movimento de linhas e agulhas, o olhar absorto nas vidas que desfilam, diante de s...
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Com licença…

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  Quando ali entrámos, há muito que a ideia em mim, ela a apontar-me camisolas, casacos, cachecóis, mas eu, determinada, corredor fora, a loja, àquela hora, apelava a constantes rotações de ombros, e ao afamado com licença português, sempre pronunciado num tímido sussurro, como se de uma súplica se tratasse (Há quanto tempo este povo apenas ora e suplica? Talvez já nem ore, pois isso requer fé, apenas suplique…), com aquela peculiar sucessão de cês, é natural que ora ombros, ora com licenças , tímidos e sussurrados, afinal, trata-se de um Domingo à tarde, não sei bem porquê, mas sinto que há uma tristeza espreitante nas tardes de Domingo, e não afirmo isto por canções ouvidas nos idos da infância, mas por me sentir observada, nessas tardes, por uma melancolia maior que eu, talvez não seja a única, daí ora ombros, ora com licenças , tímidos e sussurrados, nos corredores desta loja, e em todas as outras, ao jantar, em minha casa, apenas a televisão com direitos de emissor, por vezes,...

O amanhã nasce com a noite

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  Havia uma árvore, num lugar da infância, a que gostava particularmente de subir. Quase sempre, ao final da tarde, trepava até ao segundo ramo, e ali me deixava ficar, a olhar. Não bem a olhar, apesar do rio, lá ao fundo, mas a estar. Talvez pela hora, um calor emanava, como uma expiração, da árvore, enquanto o mundo, à minha volta, acolhia a noite, ali perpetuava-se um vestígio de dia. Não havia melhor canto para se estar. Tudo tão longe de mim, e eu somente a dois ramos da nossa angustiada superfície. De vez em quando, o meu nome noutras vozes, tão estranho, o meu nome só com sentido por ser noutras vozes… Mas eu a estar. Apenas. Agora, tudo tão longe de mim. As águas murmurantes, lá ao fundo, a meio do vale, trajadas de laranja, talvez por olharem o céu, e o levarem, na sua corrente, como se passos numa mesma direcção, enquanto olhos que se olham. Uma brisa cansada anima palavras perdidas entre as folhas, que me falam de destinos, eu, neste momento, com o rio, lá ao fundo, a ...

Como se pronuncia vazio?

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Hoje, quando acordei, todos tinham saído. Já não me lembro da última vez em que uma palavra pela manhã. Vou à janela, abro as cortinas, há muito que o estore partido, o meu pai Não mexas aí, que sou eu que arranjo, eu não mexo, mas o arranjo continua a aguardar uma vontade por cumprir, talvez nunca a encontre, pela luz, que me devolve as distâncias, percebo a plenitude da manhã, nisto, compreendo, na entrada do prédio em frente, minha mãe, de esfregona nas mãos, está de costas, leio-lhe cansaço na lentidão, baixa-se para aproximar o balde de si, percebo-lhe a dor nas costas, sem lhe ver aquele característico esgar, jamais um lamento, tudo, por ali, se verbaliza em falanges contorcidas, o resto, palavras sem som, minha mãe (Desde quando lava o mundo? E a escada do prédio em frente?) longe desta minha vergonha, por encontrar, diariamente, manhãs em plenitude (Mas que fazer?), a esfregona em círculos, lentos, percebe-se-lhe o cansaço, dois miúdos entram a correr prédio adentro, como se na...
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  ... parece que temos uma dívida inextinguível com o mundo, talvez pela existência, daí o papel que nos é imposto, e a exigência que o cumpramos na perfeição, há muito que eu virara costas a dívidas e papéis... in Um definitivo adeus
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  ...  parecia desconhecer que nos definimos não pelo que fazemos aos olhos dos outros, mas perante os nossos... in Um definitivo adeus

Um definitivo adeus

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  Quantas vezes o passado visita o presente? Esta questão ainda estava longe de mim, quando decidi entrar naquela loja. Não sei bem porquê, nem sequer precisava de qualquer produto dali, mas já tinha almoçado, faltava uma meia hora para entrar (como é estranho, quando dispomos de tempo, não sabemos o que lhe fazer…), perdia-me com qualquer coisa, não me lembro o quê, tal a sua importância, de súbito, num incessante vai e vem de vultos, um rosto, algo me levantou o olhar, sempre me espantou esta mão invisível que nos pousa a atenção naquilo que ainda grita em nós, os incessantes vultos a turvarem-me a visão, contorno a prateleira, o rosto, agora, imóvel, qualquer coisa na mão, nisto, duas crianças correm na sua direcção, também seguram objectos, deixo-me estar, também sob o pretexto de um objecto e da sua análise, ela acolhe, como só uma mãe pode fazer, a corrida das crianças, gesticulam pela atenção materna, eu, afinal, não me perdia com objectos e pretextos, mas sim com a indulg...
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Quando a magia decidiu partir

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Uma casa sem livros é um homem sem ideias. in Harmonia

HARMONIA - Pedro de Sá

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Pedro de Sá   HARMONIA         … não choreis por Mim, chorai antes por vós mesmas e pelos vossos filhos…                                                   Lucas 23, 27-31   Sede prudentes como serpentes e inocentes como pombas.                                                    Mateus 10:16     ÍNDICE     A página em branco…………………………………………....5 A Ideia…………………………………………………………..50 A Escrita…………………………………………….…………….100 ...