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A mostrar mensagens de setembro, 2020
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  “Eu devia ter ali ficado, naquela estrada, onde tanto do meu sangue se derramou. Ninguém me consegue destruir esta ideia!” in Harmonia  
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 ,,,  mas havia nele um aspecto distinto, assim que obtinha o que procurava, fechava-se em si mesmo, num pudor de gestos e sentires, quase numa confissão sem verbo de que este não era o seu lugar… Somos tão estranhos, não é verdade? in Harmonia

Almoinhas Velhas

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Lá muito ao longe, entre os montes, o azul ondulante, eu aqui, na varanda, a sentir o desamparo do momento, frases de há muito revisitam-me, hoje num sem-sentido, promessas, apenas isso, um vento entardecido murmura-me despedidas, o mundo num imenso adeus, eu a reflectir onde me perdi de mim, as certezas, pois, as certezas, edifiquei-as em meu redor como se muralhas para a vida, nem ruínas restam, tudo se desmoronou, num certo momento quis trazer passado ao presente, de outra forma, a infância ao hoje, as mais solares memórias de infância foram com os meus avós, lá longe, na aldeia, onde aprendi a olhar horizontes, com o tempo, intensificaram-se, os horizontes, para mim, habitante da cidade, num lugar lá atrás, os avós partiram, a porta da sua casa fechou-se irreversivelmente, depois foi a porta da casa dos pais a fechar-se, qualquer dia será a minha, porém, num certo momento, cresceu-me a urgência de trazer passado ao presente, de outra forma, a infância ao hoje, foi num desses enfado...
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  Talvez por aqui o meu pensar encontre a serenidade… in Epitáfio
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 ...  desde muito cedo, apercebi-me da minha diferença em relação aos demais, como se o meu pensar obedecesse a uma outra respiração, possivelmente aquando da circunstância o meu olhar numa outra coisa que não ali... in Deslumbramento
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Quando o Sentir não se traduz em Verbo

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Hoje vi-o a descer a rua. Há muito que o não via. Está mais magro. Mantém aquele recente ar absorto, próprio de quem se sabe em palco. Sim, cada saída é sempre um levantar de cortina. E ele sabe-o. A vida, por vezes, impõe-nos isso. Não há como lhe fugir: um palco! Há quem defenda que a vida é, em si mesma, uma representação. Discordo. A vida é uma totalidade, por conseguinte requer palcos e camarins. Observei-o, no longe da discrição. Estava arranjado, claro, a cortina subira, devia ir às compras, mas o passo, sim, o passo, denotava uma qualquer hesitação, que talvez estivesse com o meu olhar, ou, de facto, naquela recente magreza. Lá ia, rua abaixo. Nada via, apenas interior de si. O que significa absorto? Apenas olhar-se… Quando me apercebi, a cortina descera. Não fui a tempo dos aplausos. Já tinha passado. E eu, preguiçoso, ainda sentado na plateia. Levanto-me. Resolvo descer aos camarins. Talvez ele esteja por lá. Procuro-o. Não o encontro, apenas rostos desconhecidos. Um consta...

Os Invisíveis

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  Ouviram um barulho pela casa, passos e simultaneamente algo a ser arrastado, entreolharam-se, mas podia ser numa casa vizinha, gradualmente os passos a aumentar, a aumentar, os arrastares também, agora vozes, eles (em que parte da casa estariam?) já em espanto, a sair do quarto, do cimo das escadas viam um entra e sai constante, sujeitos a levar móveis, sofás, quadros, objectos, tudo a ser-lhes retirado sem um aviso, uma palavra, nada, a incredulidade inicial deu lugar à indignação, desceram as escadas, entretanto, para aí a meio, um sujeito cruza-se com eles, subia em direcção ao quarto, parecia nem vê-los, como se não existissem, tal o foco do seu olhar no cimo das escadas, estranharam a ausência, pelo menos, de um cumprimento, a mais elementar prova de educação, foram perpassados por um frio profundo quando se cruzaram com o sujeito na escada, no piso térreo havia perto de uma dezena de desconhecidos a retirar tudo o que vissem da casa, estavam incrédulos (Mas o que é isto? ...
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 ... com o que hoje sei, nessa noite seria eu que estaria, em cima da moto, à porta do prédio dela, mochila às costas, pelo menos com vinte minutos de antecedência, à espera que descesse, assim que os nossos olhares se encontrassem, haveria um espelho de janelas iluminadas, uma frase espontânea “Estás preparada?”, sei a sua resposta, ela devolver-me-ia a questão,  sei de cor  a minha (“Esperei uma vida por este momento!”) in Janela para a noite
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 ... em tempos, ansiei pelo amanhã, há tanto que desconheço esse sentir, pois, de tanto falar e procurar o Sentido, virei-lhe costas, já não me interessa, pelos vistos, também não se interessou por mim, Pedro amou Inês... in A arquitectura do Mundo
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Preferia perder-me por ti, do que perder-te de mim. in Deslumbramento

Janela para a noite

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  As viagens que mais perduram em nós são as que não realizámos, há uma que não pára de ganhar espaço em mim, como se uma condenação, uma viagem rumo a Norte, creio que nenhuma outra terá a mesma relevância na minha biografia, até pelas linhas que já lhe dediquei, uma viagem por realizar, de facto, a mais duradoura, talvez o título mais apropriado para esta crónica fosse “Uma viagem por realizar” , sem dúvida, porém, optei por outro, e não por acaso, a melhor fase da minha vida foi quando senti o sabor da noite, há algo de transcendente nas coisas sob o manto nocturno, tudo surge sob uma outra claridade, que o dia ofusca pela inclemência da luz, basta reflectir que impossível é um dos vocábulos mais inusuais ao luar, afinal é quando se levantam os sonhos...
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