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A mostrar mensagens de janeiro, 2026
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. .. compreendi, muito cedo, que amadurecer é iluminar as iniquidades do mundo…     in Nuvens passeantes pelas águas

Hoje o mundo cheira a terra molhada

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  Uma das coisas mais penosas, que ainda tenho de cumprir, é ter de passar duas semanas, durante o Verão, em casa do meu filho, se me pedissem para caracterizar essas duas semanas, suplício é a primeira palavra que me surge, com uma nitidez irrepreensível, pois, como dizia, duas semanas, durante o Verão, nem sei quando isto começou ao certo, julgo que tenha sido depois de o meu marido… Uma punhalada que sinto, com renovado vigor, cada vez que o seu rosto, nome, sentir, voz, gestos, sorrir, ideias, se levantam na minha memória, porque, neste espaço do ontem, também uma parte significativa de mim jaz, e se ergue, a seu lado, para de novo se diluir sob a pesada evidência do ido… Mas, de novo, as tais duas semanas, que me fazem deixar a minha casa, na minha querida terra que me apresentou o mundo, que tão bem conhece o sal do meu rosto, corre pelo pão de cada dia, pela dor de ser, e tão bem que lá estou, com as minhas coisas, os meus afazeres, a fiel companhia dos meus vizinhos, salvo ...
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  Às vezes, na vida, um tem de pensar por muitos, não obstante a Dor a jusante. in Nuvens passeantes pelas águas

Quem te anoitece os dias?

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  Quando menos esperamos, num acaso do destino, de manhã ou de tarde, até de noite, em escassos segundos, a vida relembra-nos que nunca estivemos ao leme de nada, é estranho, às vezes, sinto-lhe prazer nesse jogo de forças, como se nos espelhasse a real insignificância de sermos, comigo aconteceu há umas semanas, estava nas compras, nem costumo ir àquela superfície que apela a pernas e paciência, nunca gostei da desumanidade desses espaços, contudo, tinha o miúdo na natação, que ali fica perto, algum tempo ainda, um jantar para fazer, resolvi entrar, como dizia, nunca gostei da desumanidade desses espaços, tudo numa artificialidade excessiva, do brilho do chão ao sorriso plástico dos empregados, percebi-a ao fundo de um corredor, estaria a cerca de cinquenta metros, era a zona da decoração doméstica, de um lado, quadros, bibelôs, molduras, velas, umas perfumadas, outras coloridas, caixas, caixinhas, do outro, tolhas, turcos, lençóis, capas de colchão, tudo numa espiral de cores e...
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 ...  nunca te esqueças disto: A infelicidade é o produto mais transaccionável do mundo! in Nuvens passeantes pelas águas
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 ...  no fundo, o espectáculo do mundo é o de uma fuga permanente, cada um foge de si, na procura de uma incerteza, como se aí residisse a propalada felicidade... in Nuvens passeantes pelas águas

Quando o mundo se esquece de nós

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  Ainda me lembro da primeira vez em que esse assunto se interpôs entre nós, foi num Sábado de manhã, ao pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, uma altura em que até nos estranhamos, é normal, depois de cinco dias sob a tirania dos ponteiros de qualquer relógio que a nossa vista alcance, esta súbita indolência é recebida com estranheza, mas regressemos ao tal assunto, como dizia, Sábado de manhã, o pequeno-almoço, ele a folhear um desses catálogos de casas deixados na caixa-de-correio, entre a torrada e a caneca de café com leite, em verdade, quando falou, ainda o ouvia mastigar despojos da torrada, Já viste quanto custa uma vivenda na província? O mesmo que um apartamentozito de uma assoalhada por aqui! E, repara, até tem algum terreno… Isto, sim, é viver! Parece que nos tornamos senhores do tempo, em vez de seus escravos… Olhei-o, já de pé, estava a arrumar a louça, mas não lhe respo...
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Da Cobardia (ou a Porcachona e o Tintim III)

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  Hoje encerro a trilogia sobre estas ridículas figuras, a Porcachona e o Tintim, a cobardia do supracitado título não é um acaso, após as duas anteriores crónicas, onde, convenhamos, estas personagens tão bem foram retratadas em toda a sua esplendorosa mesquinhez, como se mais tivessem para oferecer ao mundo, reuniram-se para tomar medidas, impunha-se um contra-ataque, mas como…? Escrever? Pois, o Tintim, esse boneco de andar bamboleante, com o livrito debaixo da sovaqueira, tentou por múltiplas vezes articular frases sobre folhas-em-branco, o resultado final, enfim, apenas uma dolorosa pobreza, guardou a frustração para si, é necessária nobreza para assumir as fraquezas, a vida, inclemente, apontou-lhe a margem de leitor, em verdade, não lhe fora concedido engenho para mais, daí o omnipresente livrito debaixo da sovaqueira, assim que o mercado chama as ovelhitas, lá vai o boneco, atrás do rebanho, para, no dia seguinte, preencher a sovaqueira com o último ditame, por conseguint...