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A mostrar mensagens de novembro, 2025

Um não assunto

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Há uns anos, relatei a ascensão dos medíocres, hoje deparamo-nos com os seus podres frutos, a figura que hoje vou descrever é um paradigma da mediocridade, tinha múltiplas formas de iniciar esta narrativa, estou, de facto, indeciso, bom, tenho de escolher, trata-se de uma sujeita a caminhar, em largos passos, para o ocaso da vida, de uma certa distância parece um oito, por algum motivo apelidam este o país das rotundas, pois estão manifestamente em todo o lado, mais uma com o cabelo pintado de amarelo, uma larguíssima percentagem das entradotas, não sei porquê, opta pelo amarelo para maquilhar os brancos, ignoram que o problema não está nos cabelos, mas no oito avistado à légua do corpo, por algum motivo apelidam este o país das rotundas, pois estão manifestamente em todo o lado, enfim, há lugares onde o bom-senso nem ousa bater à porta, esta é daquelas criaturas que, logo à primeira vista, de uma inteligência mínima, causa repulsa, uma pose de “ dona do pedaço ,” sedenta de toda e q...

A Porcachona e o Tintim

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  Uma questão que recorrentemente me colocam é: “Quando começou a escrever?” Só concebo uma resposta: “Desde que aprendi a olhar o mundo,” curiosamente nunca perguntaram a razão que me levou a preencher centenas e centenas de páginas em branco, pois bem, hoje revelá-la-ei, foi há mais de década e meia, um projecto para uma curta-metragem, o guião entregue a um boneco que ambicionava ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal dádiva, apesar disso, abnegou-se em cumprir com a narrativa da curta, até que, certa tarde, sou interpelado por uma das protagonistas “Peço desculpa, mas não vou dizer esta fala! É demasiado ridícula! Não lembra a ninguém! Assim, não vamos a lado nenhum! Por favor, escreva você…,” esta última frase ecoou-me na alma, “Por favor, escreva você…,” como se, desde que caminho por este lado, a aguardasse, “ Por favor, escreva você…”, um chamamento de ordem-superior, diante da obscenidade de uma página em branco, não recuei, as palavras saíram com a...

O Sinédrio

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  Nunca, como no hoje, o Sinédrio esteve tão presente, apenas as vestes divergem em formas e colorações, as personagens tétricas subsistem, a essência prevalece: aterrorizar quem ouse a diferença; tal como há dois mil anos, as sombras edificadoras do Sinédrio são as mesmas: não fosse este o seu reino, afinal, o Inferno não é um lugar assim tão longe do aqui; há uns dias, um conhecido viu-se perante esta realidade, presidia ao Sinédrio, no lugar de Caifás, algumas coisas lá se alteraram, embora as personagens tétricas subsistam, uma cinquentona, sem qualquer dívida com a beleza, a indumentária, nem as carnes flácidas e descaídas conseguia maquilhar, algures entre um catálogo do Lidl e os saldos do Continente, a cabeleira grisalha mal disfarçada pela pasta alcatroada que amiúde jorrava cabeça abaixo, o efeito final simplesmente anedótico, parecia uma palmeira andante, o olhar servil tão aquém de um vislumbre de inteligência, daquelas sujeitas a quem um cumprimento já se afigura um ...

Entropia

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  Só quis dali sair, assim que se viu na rua, expirou longamente, o pensar incessante, sentia-se, por fim, a uma distância segura das coisas, horas antes, ali entrar com a filha, de três anos, ao colo, a testa em chamas, ainda lhe ligou, a alertar para o estado da criança, mas nada, era sexta-feira, há dois ou três meses que, com a desculpa de reuniões mais reuniões, sempre ausente, ela sabia dos jantares e sobremesas com a estagiária do escritório, o aparelho do hoje apenas uma biografia andante, bastou-lhe menos de uma dezena de minutos de distracção da parte dele, ao contrário do expectável, não sentiu raiva, dor, desilusão, apenas uma distância segura das coisas, desconhece o momento, sabia, no entanto, que o deixara de amar, simplesmente, por ele apenas ternura, pelo que foi, nada mais, deixou as coisas seguirem o seu rumo por múltiplas razões, algumas, convenhamos, pouco dignas (comodismo, preguiça, conveniência, vergonha…), parte de si acreditava que ele se apercebera, daí, ...
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Dos sonhos por realizar

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  Nunca partilhou a sua maior ambição, nem com a mulher, volta e meia, nos entediantes passeios de fim-de-semana, a lugares tão cansados que até as pedras quase cumprimentavam, uma palavra a nascer-lhe “Sabes…”, ela pronta “Sei o quê? Então, desembucha!”, ele logo a fechar-se, a olhar um indefinível ponto na distância, onde de facto desejaria estar, “Emudeceste?”, sabia-a persistente, “Não é nada, estava a apetecer-me um gelado… Queres?”, “Estás a querer enganar quem?! Assististe ao embranquecer de cada fio dos meus cabelos, mesmo assim, após mais de quatro décadas sob o mesmo tecto, julgas que não conheço, pela melodia da voz, por onde te caminha o pensar?”, estava encurralado, ela não desistiria, “Não é nada, só me está a apetecer um gelado…,” a verdade longe de cones e sabores, foi numa longínqua noite de infância, talvez fosse Verão, folheava um álbum de banda-desenhada, e uma ideia a nascer-lhe “Um dia, hei-de escrever um livro,” assim, de aparente fonte incógnita, “Um dia, ...
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O que perdura no fim de tudo?

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  Queria, como se deve, começar por dizer o seu nome, mas, confesso, já não me lembro. Passou algum tempo, é verdade. E o nosso tempo nunca é o tempo dos outros. Sabe, esta história nunca me abandonou, vou tentar relatá-la com a exactidão possível, se bem que a memória, como sabemos, tem mais sombras que luz… Estava naquela altura da vida em que olhamos os adultos algures entre a compaixão e a reverência, depois do almoço, aos fins-de-semana, cumpria-se escrupulosamente o rito do café, os meus pais e um casal vizinho, cada passada parecia obedecer a um minucioso escrutínio, de facto, o nosso tempo nunca é o tempo dos outros, quando os acompanhava, seguia ou mais à frente ou atrás, consoante o universo em que habitava, mas nunca ao lado, acho que, em determinado momento, jurei nunca habitar o universo dos adultos, até hoje julgo ter cumprido na perfeição com este desígnio, não há nada mais aborrecido e enfadonho que um adulto, e há aqueles que nascem adultos, assim, sem direito a ré...
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