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A mostrar mensagens de março, 2025

É isto…

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  “Não te esqueças: o adjectivo que mais temos de repetir é: Espectacular!”, “Mas para quê? Tu nem gostaste daquilo…,” “Não interessa! Têm de ficar com a ideia de que tivemos umas férias de sonho… Isso é o mais importante! Lembra-te de que, quando cheira a desgraça, todos acorrem como hienas atrás do sangue!,” “Já sabes que não sou bom a inventar… E tu gostaste ainda menos do que eu!”, “E o que interessa? Nada! Se souberem disso, até rejubilam, acredita… Ainda estou para descobrir o porquê daquele maldito tempo! Para mim foi, sem dúvida, inveja! E de alguma daquelas nojentas das minhas colegas… Só pode! Nunca vi! Dois dias com um sol radioso, os outros cinco piores que Dezembro….,” “Começaste logo, mal chegaste, a publicar fotos e fotos…,” “Vens com essa conversa, porquê? Tu nem acreditas nessas coisas de… És sempre o primeiro a rebater essas teorias.,” “Verdade, no entanto, foi tudo muito estranho, mau demais… Lembras-te quando chegámos? O mar num verde-esmeralda, quente, a prai...

Já não há matinés

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  Ainda há muita coisa desarrumada em mim, apesar de, à superfície, as coisas parecerem normais, agora que ela voltou, após uma vida, foi o que me pareceu, duas décadas, mas, para mim, soube-me a uma vida, pela compreensão da dor, se é que tal é possível compreender, porém, onde, de facto, tudo começou? Vivíamos praticamente juntos, por outras palavras, partilhávamos leitos em casa dos pais de ambos, já trabalhávamos há algum tempo, não havia fim-de-semana em que o tema do casamento não fosse abordado, um pouco como aqueles objectos que repousam numa prateleira, em preces de discrição, mas logo uma mão demasiado inconveniente lhes pega numa ânsia desassossegada, assim se me afigurava a temática do casamento, de certa forma, parecia que queríamos prolongar a doçura irresponsável do namoro, apesar do apelo da idade ser de leito partilhado num só lar, de preferência pago do nosso bolso, pensamentos em berços e comunhões, no entanto, persistíamos naquela doçura irresponsável, olhava-...
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Lugar d`Além

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  “É ali que vamos ser felizes! ”, a frase saiu-lhe simultânea ao pensar, “É ali que vamos ser felizes!”, o rosto em esperança, ouviu-a com indulgência, felicidade não rima com existir, “Anda, segue a seta,” perplexo olhou a placa que indicava “Lugar d´Além,” de início afigurou-se-lhe algo inquietante, porém, a resoluta expressão dela fê-lo colocar o pisca e seguir nessa direcção, tudo, neste caminhar, tem um antes, o facto de ali se encontrarem começou há uns bons anos, poucos meses depois de firmarem votos de amor e fidelidade sobre terreno sagrado e sob a cruz-divina, símbolos de compromisso nos anelares-esquerdos, foram morar num pequenito apartamento nos arrabaldes, sala que era quarto, quarto que servia de sala, uma acanhada casita-de-banho e, o que se denomina de cozinha, um corredor com uns eletrodomésticos, ao fundo, uma janelita, com um estendal, que dava para o prédio em frente, desconheciam a causa, ou talvez não, mas a cada dia parecia mais próximo, tal o crescendo ...
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Felizes e ocupados

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  Hoje percebo que o nosso melhor juiz é sempre o nosso eu passado, porque só ele pode julgar se nos desviámos, ou não, muito do caminho, àquela hora, de café e bolachinhas de manteiga, entro na pastelaria do costume, felizmente, a mesa de sempre livre, encostada à janela grande, vidro de alto a baixo, nunca gostei de me sentir fechada, a minha amiga ainda não chegara, sento-me, logo a empregada ( Vai ser o costume? ), anuí com um sorriso, não sei porquê, mas acho-a um pouco mais arrogante, talvez seja impressão minha, pode apenas sentir-se mais segura de si, desde que namora com o pasteleiro que, por seu turno, adquiriu parte da sociedade, não muito significativa, em verdade, porém, já não é só o pasteleiro, tornou-se, de um dia para o outro, um pasteleiro percentual, pousa, com a deselegância habitual, talvez fruto daquelas mãos de palmas arredondadas e dedos curtos, o café secundado pelo pires com as três bolachinhas de manteiga diárias, neste momento, quase todas as mesas ocu...
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Dolorosamente real II

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  Saíam, neste momento, daquela estrada que tão bem se faz pagar, como se lhe houvesse alternativas, e mergulhavam em paisagens que ela olhava com uma estranheza e familiaridade simultâneas (quantos eus cabem numa vida?), ele percebera-lhe a delonga do olhar, enquanto o automóvel sob a sombra de frondosas ramagens ou a atravessar verdes planícies com a inevitável ponte sobre um anónimo rio, para emergir o diálogo, ele desacelera um pouco, estavam quase a chegar, “Como te estás a sentir ao rever tudo isto?”, “Como se já tivesse sido outra… Há qualquer coisa de irreal ao revermos lugares onde há muito caminhámos… Procuro-me por ali, mas não me encontro! Não sei se me faço compreender…,” ao fundo da estrada, revelam-se as primeiras sombras de betão, “Vamos directos para a capela, certo?,” “Claro! Jamais volto a entrar na casa de um deles! A comoção, muitas vezes, tolda-nos o bom-senso, não será este o caso.”, “Tens a certeza? És sempre tão emotiva nestas ocasiões…,” “Com o tempo, so...
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  “Com o tempo, somamos funerais, só nos resta orar para que nunca sejam os indevidos..." in Dolorosamente real II

Dolorosamente real

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  Há um brilho distinto numa manhã de Outono, algo de inexplicável, uma nitidez e simultaneamente claridade sobre as coisas do mundo, talvez pelo último estertor da terra, antes da longa e invernosa noite, como se da própria natureza ecoasse o canto do cisne, foi sob esta luz que saíram para o mundo, ela em passos contrariados, os dele apenas resignados, entraram na viatura, “Não vamos lá dormir, não achas?”, “Penso que não há necessidade, são só duas horas e pouco de caminho…,” respondeu-lhe a olhar o retrovisor, enquanto fazia marcha-atrás, “Também acho! Nem sei porque trouxemos mala…,” “Por precaução, já te expliquei! E a família é tua, não te esqueças…”, “Eu sei disso, mas não me apetecia vê-los… Falas de família e continuo a achá-los apenas uns estranhos… Partilhámos tecto e mesa por uns tempos, contudo, para mim, são uns estranhos… E, agora, este funeral… O passado arrumado, e mal, numa qualquer gaveta, de repente, a fixar-nos, como se, afinal, nunca tivesse ficado lá bem ...

"A incessante efemeridade das vagas"

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 ...  desconheciam o essencial: que o amanhã é uma sombra por iluminar... in Desumanização

Desumanização

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  Não sei, ao certo, que horas seriam, foi a meio da tarde, num dos passeios da capital, avolumava-se gente perto da passadeira, à espera do verde para os peões, quando, de repente, alguém se precipita sozinho na calçada, como estava um pouco para trás, só reparei na boina, verde-escura, a contrastar com a brancura da calçada, o espanto inicial, por ver um corpo caído, deu lugar a uma miríade de reacções, houve quem prontamente virasse costas e se mantivesse à espera do verde para os peões, outros logo com o telemóvel para fotografar ou filmar, ainda houve os que nem se descentraram do rectângulo, em furiosos dedilhares, quem sabe por ali o destino da humanidade, enfim, reparei num sujeito, prontamente se identificou como médico, debruçado sobre o corpo, a tentar reanimá-lo, a gritar aos demais “Liguem para o 112! Liguem para o 112! Liguem para o 112! Rápido! Rápido!,” enquanto continuava a comprimir o peito, observei que alguns se mantiveram impassíveis, olhar absorto num...