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A mostrar mensagens de setembro, 2023

O Maqueiro-Barrigudo

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  Há figuras que necessariamente levam tempo a ganhar relevância em nós, não foi o caso em apreço, desde a primeira troca de palavras, compreendi estar perante um singular e eloquente vulto   cultural, a primeira frase que lhe retive foi, no fundo, a sua carta-de-apresentação “Sou maqueiro, sim, sou maqueiro”, assim, lacónico, expressivo, devidamente audível, digno de reflexão, em verdade, até esse momento, por muito que vasculhasse na memória, não me recordo de ter conhecido um maqueiro, muito menos um que tivesse gáudio em sê-lo, foi num contexto, do hoje, onde saúde e vaidade se fundem, que o conheci, saúde e vaidade parecem conceitos antagónicos, no entanto, o hoje é o território da estranheza, por conseguinte, as fronteiras esboroaram-se, a alguém interessa este cenário, voltando à nossa personagem, já dobrara os sessenta, contudo, o seu gritante anacronismo provinha de uma manifesta ruralidade nos modos e palavras, treinava com uns andrajos, as calças próximas de umas...
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A meninice ocupa sempre mais espaço

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Você quer ouvir a minha história? A questão saiu-lhe arrastada, sem qualquer resquício de ansiedade, pelo contrário, como se esperasse, há muito, que aquele estranho ali aportasse, por um qualquer desígnio do destino, o outro, ainda a familiarizar-se com o balcão e a altura do banco, curiosamente não estranhou a questão, sinal de que era veterano por aquelas paragens, balizadas por copos vazios e timbres lamurientos, respondeu-lhe com uma expressão convidativa, mas sempre naquela discrição codificada de desconhecidos náufragos de uma mesma embarcação, que, do outro lado da porta, os abandonara, àquela precisa hora recrudescia numa dissonância de sons e de movimentos antagónicos, entretanto, a questão levantou-se mais uma vez Você quer ouvir a minha história? Desta vez, a expressão convidativa fez-se acompanhar por um gesto incentivador, o empregado apercebera-se do rio de palavras iminente e tratou de colorir os copos, também tinha pouco mais para fazer, além daqueles dois ...
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  Embora, bem vistas as coisas, o saldo da dor ultrapasse largamente o da felicidade! Isto é um facto! Ao reflectir nisto, repara como todos se desesperam para ocultar esta singularidade: o saldo da dor ultrapassa largamente o da felicidade! in Nascer
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... a principal actividade da vida deve ser rir-se à nossa custa, se do seu lado o riso, do nosso o sal da dor... in Nascer

Onde leva essa estrada?

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 Ontem não disse nada. Não, não sei por onde anda… Há mais de três dias que não sei nada dele. Estou mais ou menos. O que é que queres que te diga? Claro que lhe sinto a falta. Ainda por cima nesta fase. Dizem que pode acontecer a qualquer altura. Se estou com medo? O que é que achas? É óbvio! Mas não sei bem do quê… Olho-me ao espelho e não me reconheço, até os pés me incharam, nem te falo do ambiente aqui por casa, o meu pai que não me dirige a palavra, sabes, não é tanto isso que me dói, é mais aquele olhar-me não me olhando, como se me tivesse tornado invisível, a minha mãe sempre com aquele timbre dorido, às vezes sinto que os traí, que estupidez, sim, eu sei, mas o que é que queres que te diga? É o que eu sinto. Nunca pensei que as coisas mudassem tão rápido… Até os dias parece que ganharam rodas. Já passaram mais de oito meses, desde que… O meu irmão? Nem sei se sabe, ou se quer saber, também o que queremos do mundo aos nove anos? Talvez o que de melhor o mundo...
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 ...  há feridas, na alma, tão profundas, tão profundas, que acredito levarmos connosco quando daqui partirmos... in Nascer

A biografia inarticulada do sentir

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Àquela hora da tarde, vinda não sabe de onde, sentiu uma pontada subir-lhe pelas costas, só se aquietou no pescoço, ele aproveitou para se endireitar na cadeira, descansar os olhos do ecrã, assim ficou durante o que considerou necessário, fechou os olhos, deixou-se estar, à sua volta apenas dedos em teclas e telefones insistentes, regressou, ninguém se apercebeu, de novo, olhos no ecrã, costas curvadas, e dedos em uníssono com aquela desabrida sinfonia de teclas, quando, lá fora, a escuridão pronunciava a artificial iluminação interna, as secretárias à sua volta a desertificarem-se, volta e meia, Então, até amanhã ou Ainda ficas?, pouco mais, não, não se ia demorar, até porque a dor, de novo, a subir-lhe pelas costas, levantou-se, após desligar a janela do hoje, retirou o casaco do cabide da entrada, e saiu, olhar na calçada, mãos nos bolsos, mais um anónimo a cumprir um destino para poucas memórias, agora tudo no inverso da manhã, autocarro, comboio, e aqueles seiscentos ...

Entre as nuvens e o húmus

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  Não me arranja uma moedinha?, nem sopesava a frase, já nem a ouvia, saía-lhe, apenas isso, a mão estendida atrás de passos apressados, ou temerosos, tudo depois de auxiliar mais um estacionamento, a maior parte das vezes na ilusão de uma necessidade, não para ele, mas para quem se obstina numa arte, como tantas vezes acontece, que jamais será sua, e como é fácil perdermo-nos nos horizontes de nós, Não me arranja uma moedinha? Desde quando esta frase? Talvez há um par de anos, ou mais, embora, se lhe perguntassem, não soubesse o que dizer, como é fácil perdermo-nos nos horizontes de nós, escolheu o entra e sai do supermercado mais próximo, nem se importou se, por ali, rostos de há tanto, talvez assim mais moedinhas, talvez houvesse menos passos temerosos, talvez, afinal, não fosse um estranho, no entanto, ele é que se despedia do ontem com a máscara do hoje, procurava disfarçar os contornos acentuados do rosto com uma barba deslustrada, um pouco como aquela vegetação...
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  A experiência mais espiritual que um homem pode ter é viver uma história de amor... in Nascer
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O que queria ser um pássaro se não o fosse?

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  Pela luz exterior, proveniente no possível do oblíquo, pelo prédio em frente, o outro do lado, pela cortina, sempre corrida, e demasiado opaca, afinal, o prédio sempre em frente, nunca uma folga, ninguém o convidava para sair, talvez um café, quem sabe se, assim, a luz no lugar de uma cortina opaca, percebia-se o adeus da manhã, a cama cheia de roupa, e da mala ainda aberta, ele de um lado para o outro, à volta da cama, com a roupa, e a mala, ela observava-o de uma outra divisão, detinha-se apenas no rosto, nada mais, nem por uma única vez se preocupou com o gesto, nada, apenas a face, ali estava tudo (há quanto aprendera ela isto?), ele ainda por um tempo, sempre demasiado para quem esperava por um olhar, com a mala e as roupas, até que um estalido metálico prenunciou passos ao seu encontro, ali estava, diante dela, a mala numa das mãos, ela pousou, numa pressa indisfarçada, a actividade doméstica na superfície mais à mão, Tens a certeza de que não te esqueces de n...
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  Se fosse mais fraco, duvidaria da realidade de tudo isto, até de ti… in Nascer
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... que sonha um velho senão com o passado? in Nascer