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A mostrar mensagens de abril, 2018

Talitha Cumi

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A primeira vez que a vi foi quando me abriguei na entrada daquele prédio, por causa de um repentino aguaceiro, o Inverno renitente em partir, como se procurasse estender a sua estadia por um qualquer capricho de última hora, ou talvez encantado pelo rosto fresco e florido da Primavera que se aproximava, pois, é possível, eu, incauto, apenas a olhar para o calendário, daí que, nessa manhã, ao sair, desprezasse o guarda-chuva, porém, ao final da tarde, no regresso a casa, assim que saio da estação, os céus resolvem limpar da terra os nossos pecados, surpreendido, corro até à entrada mais próxima, ali fico durante o necessário, mais dois ou três incautos, recém-chegados no mesmo comboio, juntam-se-me, no hoje evitam-se olhares, não compreendo, nem quero, olho à minha volta e descubro-a a um canto, muito encolhida, com uma mesita, à sua frente, que quase a cobria por completo, sobre a mesa umas agora esquálidas florezitas, deslustradas, enterneceu-me aquela visão, nisto uma mulher, ...
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Como sempre acontece debaixo do céu do mundo, num certo momento, os nossos olhares demoraram-se um pouco mais, de seguida, o verbo, a musicalidade da voz, tudo em consonância, quando consegui, de novo, alcançar-me, já juras de amor pelo ar, uma opressão no peito quando ela não por perto, e a certeza pétrea de que me fora apresentado o conceito de amor… in A noite aproxima-se e o dia está quase findo

A alma reflecte-se num espelho d'água - Pedro de Sá

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Percebi-lhe, aos primeiros olhares, uma miríade de emoções, entre a alegria de me ver e a dor infinda de se saber sentado, esmagado de encontro aos seus sonhos moribundos, mas é curioso, assim que trocávamos as primeiras frases, restabelecíamos a nossa singular empatia, que nos levava, madrugadas infindas, a confidenciarmos a alma, enquanto ouvíamos melodias que nos relembravam quantos já fomos nesta vida…  in Harmonia
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De certa forma, acho que ainda estava naquela praia, perdido naquele deslumbramento, é possível que parte de mim ali permanecesse para sempre, pois, é possível, afinal, há lugares de onde nunca partimos... in Àquela que me trouxe as estrelas à terra
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Li uma vez, já não me lembro onde, que para fazermos Deus rir devemos contar-lhe os nossos planos. Mas, naquele tempo, nós éramos os próprios deuses. E ríamos bem alto… Até que os risos se tornaram um eco longínquo. Até o tempo o silenciar por completo. Até que, por fim, nos alimentamos de memórias do que fomos para nos esquecermos daquilo em que nos tornámos. Porque só olha para o passado quem sente o desconforto do presente. in Queria rever o teu rosto ao entardecer
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Por fim, o sol obrigou-o a desviar-se. Olhou um ramo próximo. Admirava, agora, a graça com que se alongava, em contínuas multiplicações, numa harmonia de matéria e céu. Como se abraçasse o todo, e tangesse a impossibilidade. De súbito, levou a mão ao rosto. Contemplou as inscrições gravadas na palma. E, então sim, compreendeu… in Queria rever o teu rosto ao entardecer
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Recordou aquela vez, há muito passada, em que acompanhou, precisamente dali, a lenta e cantada aparição do nascer do mundo. Nessa altura, o alaranjado do horizonte soube-lhe a vastidão. Já não se recorda de há quanto tempo foi, parecia-lhe, agora, ter sido numa outra vida. Sim, é verdade, quantas vezes se morre e nasce ao longo de uma vida? in Do outro lado do rio, há uma margem
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Compreendo, com tristeza, que a felicidade é sempre retrospectiva. É sempre a estação deixada para trás. Toda a tristeza do mundo desenha-me no rosto a ténue linha de um sorriso compreensivo – aquele que provém do tempo. in Queria rever o teu rosto ao entardecer
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Com o tempo, aprende-se o desperdício do barulho, afinal, a última estação é a do silêncio. in Do outro lado do rio, há uma margem
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Somos cemitérios de afectos.                                                         in Harmonia