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A mostrar mensagens de abril, 2026

A beata maledicente

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  Há figuras que, de tão obscuras, só nos apercebemos da sua existência pelo lodacento rasto que deixam, assim é a beata maledicente, nem lhe conheço a sonoridade das palavras, o mundo, neste ponto, amanheceu-me, embora arvore, em múltiplas circunstâncias, conhecer-me familiares, pois, tempo a mais e escassez de intelecto desaguam em verborreia sobre a existência dos outros, à superfície mulher de muitos valores, sobretudo religiosos, reitero: à superfície; mais uma papa-hóstias de sacristia, pródiga em cumprir os ritos eclesiásticos: eucaristias, procissões, acções de beneficência, parece, avistada da lonjura, rumo à santidade, até se infiltrou num ramo mais ortodoxo do catolicismo, onde o prefixo “neo” nada augura de bom, como se, alguma vez, estes lá soubessem o que é uma catacumba, o esplendor da hipocrisia, enfim, a figura de Cristo tudo escuda, não se equivoque o leitor, Jesus Cristo é das figuras que mais colhe a minha admiração, daí o meu asco a quem se escude na sua luz ...
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A saudade de um sentir saudoso

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  Quando dei por mim, despia molduras, devolvia-as àquela transparência, quase imaterial, de uma existência indefinível, como se uma janela que o deixasse de ser, foi o que me pareceu na altura. Tudo tão recente, e eu perdida naquele tumulto do meu sentir, vivia uma noite contínua, sem prenúncio de manhãs. É estranho, não é? Essa sensação de uma noite infinda? Mas é o que melhor traduz aquele período da minha vida, não me lembro, durante esses longos e absurdos dias, de ver o sol, talvez já não me recordasse de como olhar as alturas, é possível… Como dizia, quando me regressei, despia molduras, parecia-me, de certa forma, que me negava, me subtraía, não sei porquê, como se me desdobrasse entre o que sou e o que fui, e, ao certo, não me encontrava em nenhum dos lados. Não sei se me faço perceber? Compreendes, não é? Ou talvez não? Que dizes? Estou a aborrecer-te? Se estiver, diz! Por favor! A última coisa que quero é aborrecer alguém com os meus assuntos… Mas aquele dia ainda por ...
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 ...  quanto mais se corre atrás de palavras, à mesa, maior é a dor escondida nos silêncios… in  Nuvens passeantes pelas águas
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Por ruas desertas anoitecidas

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  Por ruas desertas anoitecidas, guio num sem destino, como se soubesse lá o que isso é, o mundo, volta e meia, resolve colocar a máscara da felicidade (como se soubesse lá o que isso é), nunca fui apologista de máscaras, tantas, talvez demasiadas, no labirinto de nós que desconhecemos, caem na sucessão da voragem dos dias, daí a constância daquela frase ( Nunca pensei que isto algum dia me acontecesse… Nunca pensei alguma vez responder-lhe assim… Nunca sonhei que teria de passar por isto… Nunca pensei ter de recorrer a tal coisa… Nunca pensei… ), pois, mas as esquinas da vida ferem-nos, e, enquanto sangramos, redireccionamos o leme do nosso existir. Continuo por ruas desertas anoitecidas, à minha volta só luzes, das casas, dos semáforos, dos candeeiros, e o motor sedento de mudanças, que coloco num automatismo felizmente para mim despercebido, o único som desta noite, primeira e última do mundo, há qualquer coisa de irrepetível na noite, talvez por sempre constituir um fim, o re...
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  Concluí, há uns tempos, que uma mulher se apaixona pela criança que o homem foi e não pelo adulto do hoje… in Nuvens passeantes pelas águas
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É preciso morrer para ser visto

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  O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito, ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade? Ainda lá por casa, Coitado! Teve um esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento , do alto dos meus oito anos que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos , já soa anacrónico, o vocábulo actual é depressão, quase virou moda, por tudo...

O chão do mundo

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  Hoje sabia que ninguém me esperava. Um desses dias em que as sombras do mundo se sentam diante de nós para um diálogo sempre indesejado, uma janela que se abre para a paisagem onde não nos queremos ver, apesar de por ali as nossas pegadas, chegamos a duvidar, a certa altura, da nossa existência… Como dizia, não tinha pressa em chegar a casa, ia encontrar o frio gritante do silêncio, que nos murmura incessantemente solidão, e o nosso sentir mais arrefecido que o exterior, pelos passeios, olho gente sentada em cafés, em conversas ridas, não vislumbro, por ali, os silêncios que pousam, quando eu, outrora, tacteava diálogos, nesses momentos, eu partia para as lonjuras que me habitam, de facto, nunca fui de cafés, risadas, festas, danças… Aprendi a disfarçar esta inquilina tristeza, os meus pais anunciavam ao mundo Esta nossa filha é muito concentrada! Eu aquém concentrações, apenas refém de uma tristeza que me tolhia o ser, a minha irmã, ao contrário de mim, sempre convidada para f...
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"No fim de contas, são poucos a ter o dom de alterar a direcção do nosso caminhar, de nos desconstruírem convicções, de, num repente, nos colocarem face a um dos actos mais radicais da existência: virar costas a tudo o que edificámos para contemplar o seu rosto, nem que seja por mais um entardecer…" in Nuvens passeantes pelas águas