O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito,
ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se
espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes
preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha
mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que
hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade?
Ainda lá por casa, Coitado! Teve um
esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento, do alto dos meus oito anos
que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos, já soa anacrónico, o
vocábulo actual é depressão, quase
virou moda, por tudo e nada arranja-se, com facilidade, uma depressão, da incompetência à impotência
tudo está justificado. Mas regresso àquela história, lá por casa, de alguém
próximo que perdeu a razão, daí o
internamento numa casa de repouso, a génese de tudo foi o coração (Não será
sempre?), talvez tenha corrido demasiado por ela, daí o esgotamento, quando
parecia que, afinal, ela companheira da miragem. Começou a andar enervado,
volta e meia, murros em portas, gritos ao telefone, ausências nas refeições
familiares, os livros arrefecidos a um canto, os semestres, na faculdade,
insensíveis a esgotamentos, e também
creio que a depressões, assim
continuem, sinal de que nem tudo vale, para ela, constituiu um mero
apeadeiro na longa viagem da vida, contudo, ele via-a como a estação final,
quantos equívocos assim ocorrem a cada dia do mundo? Ela deixou de atender o
telefone, e a campainha, diziam-lhe que tinha saído ou que partira de
fim-de-semana, caiu num vazio desesperado, para o preencher, refugiou-se na
fantasia, tudo começou com a insistência por mais um prato à mesa, justificava
que ela viria jantar lá a casa, a princípio, os pais cederam, mas as contínuas
omissões fizeram perceber o pior, numa certa ocasião, ele chegou a esvaziar
várias lamelas, felizmente os seus conhecimentos químicos não eram muito
vastos, daí ter resultado na soma de uma sonolência redobrada com uma ligeira
afectação intestinal. No entanto, o alarme parental tinha soado. Tentaram, como
quase sempre sucede, primeiro, o diálogo (Então?
Achas que ela vale isso? Há mais raparigas no mundo! Estás a destruir a tua
vida por uma tontice… Um dia, vais ver, ainda te vais rir de tudo isto…).
Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão
fugaz é a sombra do dia. Ainda dois meses por ali, agora com lamelas
prescritas, volta e meia, aquando das visitas parentais – as únicas que
efectivamente se registaram –, a voz dele quase suplicante Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora? Os
lábios secos, ostentava uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão,
como se lá fora a tarde não estivesse no seu esplendor, a voz saía-lhe
arrastada e numa pronúncia de idoso, foram aconselhados a não responder, a
direccionar as conversas noutro sentido, é natural, quando se esgota a
circunstância, devemos partir para outras paragens… Ainda hoje, não sei se ele
recuperou, na totalidade, a razão. Confesso que não acredito. Há coisas que a
vida, simplesmente, nos vai subtraindo. A razão é uma delas. O que é perder a razão? Essa
possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o
tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca
pensados, hoje, a espaços, admito que a maior lucidez reside no adeus à razão. Como se de uma
inevitabilidade se tratasse. Talvez aqui resida a lógica da sobrevivência.
Quando a maioria se esqueceu de olhar os céus, que mais nos resta? Não raras
vezes, invejo quem trocou a razão por
amor, no fundo, tratou-se de uma escolha e nunca de uma perda. A perdê-la,
se é que tal já não me sucedeu, que ao menos fosse por amor, e, se numa tarde,
alguém me encontrar de lábios secos, com uma cor amarelecida, realçada pela
brancura do roupão, com uma voz arrastada e uma pronúncia de idoso a perguntar
(Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não
está, por acaso, aí fora?), seria bom sinal, teria escolhido o lado dos
vivos nesta coisa da existência.

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