Livros do Escritor

Livros do Escritor

domingo, 12 de abril de 2026

É preciso morrer para ser visto

 


O que é perder a razão? A primeira vez que me coloquei esta questão foi há muito, ainda pela mão dos meus pais, sempre que alguém contra-corrente do que se espera, logo Coitado! Perdeu a razão! Essa possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca pensados, pois, como dizia, ainda pela mão dos meus pais, e, lá por casa, vozes preocupadas relatavam a história de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, estranha mania esta de um povo suavizar as coisas, sempre é mais elegante de que hospício, bem verdade, mas porquê esta urgência de se contornar a realidade? Ainda lá por casa, Coitado! Teve um esgotamento… Logo eu a idealizar uma olímpica tarde de futebol, daí o esgotamento, do alto dos meus oito anos que mais podia eu conceber? É curioso, hoje raramente ouço falar em esgotamentos, já soa anacrónico, o vocábulo actual é depressão, quase virou moda, por tudo e nada arranja-se, com facilidade, uma depressão, da incompetência à impotência tudo está justificado. Mas regresso àquela história, lá por casa, de alguém próximo que perdeu a razão, daí o internamento numa casa de repouso, a génese de tudo foi o coração (Não será sempre?), talvez tenha corrido demasiado por ela, daí o esgotamento, quando parecia que, afinal, ela companheira da miragem. Começou a andar enervado, volta e meia, murros em portas, gritos ao telefone, ausências nas refeições familiares, os livros arrefecidos a um canto, os semestres, na faculdade, insensíveis a esgotamentos, e também creio que a depressões, assim continuem, sinal de que nem tudo vale, para ela, constituiu um mero apeadeiro na longa viagem da vida, contudo, ele via-a como a estação final, quantos equívocos assim ocorrem a cada dia do mundo? Ela deixou de atender o telefone, e a campainha, diziam-lhe que tinha saído ou que partira de fim-de-semana, caiu num vazio desesperado, para o preencher, refugiou-se na fantasia, tudo começou com a insistência por mais um prato à mesa, justificava que ela viria jantar lá a casa, a princípio, os pais cederam, mas as contínuas omissões fizeram perceber o pior, numa certa ocasião, ele chegou a esvaziar várias lamelas, felizmente os seus conhecimentos químicos não eram muito vastos, daí ter resultado na soma de uma sonolência redobrada com uma ligeira afectação intestinal. No entanto, o alarme parental tinha soado. Tentaram, como quase sempre sucede, primeiro, o diálogo (Então? Achas que ela vale isso? Há mais raparigas no mundo! Estás a destruir a tua vida por uma tontice… Um dia, vais ver, ainda te vais rir de tudo isto…). Porém, quando a noite entra na nossa vida, é quase impossível perceber quão fugaz é a sombra do dia. Ainda dois meses por ali, agora com lamelas prescritas, volta e meia, aquando das visitas parentais – as únicas que efectivamente se registaram –, a voz dele quase suplicante Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora? Os lábios secos, ostentava uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão, como se lá fora a tarde não estivesse no seu esplendor, a voz saía-lhe arrastada e numa pronúncia de idoso, foram aconselhados a não responder, a direccionar as conversas noutro sentido, é natural, quando se esgota a circunstância, devemos partir para outras paragens… Ainda hoje, não sei se ele recuperou, na totalidade, a razão. Confesso que não acredito. Há coisas que a vida, simplesmente, nos vai subtraindo. A razão é uma delas. O que é perder a razão? Essa possibilidade, não sei porquê, sempre se me afigurou tão longínqua, mas o tempo, volta e meia, dá-nos a mão e leva a olhar abismos nunca pensados, hoje, a espaços, admito que a maior lucidez reside no adeus à razão. Como se de uma inevitabilidade se tratasse. Talvez aqui resida a lógica da sobrevivência. Quando a maioria se esqueceu de olhar os céus, que mais nos resta? Não raras vezes, invejo quem trocou a razão por amor, no fundo, tratou-se de uma escolha e nunca de uma perda. A perdê-la, se é que tal já não me sucedeu, que ao menos fosse por amor, e, se numa tarde, alguém me encontrar de lábios secos, com uma cor amarelecida, realçada pela brancura do roupão, com uma voz arrastada e uma pronúncia de idoso a perguntar (Ela ligou? Tem perguntado por mim? Não está, por acaso, aí fora?), seria bom sinal, teria escolhido o lado dos vivos nesta coisa da existência.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.