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A mostrar mensagens de 2025
Purgatório
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Apesar de em despedidas do Outono da vida, desconhecia que sonho e pesadelo são faces da mesma moeda, quis terminar a sua caminhada profissional naquele lugar, guiado pelo sentir de um regresso a “casa,” também ignorava que as coisas nunca ficam onde as deixámos, até ao último expirar por aqui se aprende, não fosse esta existência a verdadeira escola, uns mais à frente, outros eternos repetentes, há inevitavelmente os familiares das cábulas, por bem votados ao malogro na hora final, esta decisão, de terminar a sua caminhada profissional, naquele lugar, foi há uns bons anos, talvez a ânsia de reencontrar os passos do pai, embora, de forma insistente, a voz materna, volta e meia, “Aquilo é uma tropa fandanga comunista… Aquilo é uma tropa fandanga comunista… Aquilo é uma tropa fandanga comunista…”, antes de se oficializar o regresso, chegou a lá entrar como mediador de um litígio burocrático, lírico como sempre, ignorava outro facto: “Não se joga limpo num lodaçal”; foi gozado e e...
Um dia todos acabamos por cair
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O céu… Apenas o céu, não parecia assim tão longe, como se uma viagem que finda, à sua volta, vozes, mas parecia-lhe que à volta de um outro, afinal, a sua viagem finda no azul que contempla agora tão próximo, é estanho, o azul das alturas sempre lhe pareceu tão longínquo, quase uma irrealidade, e agora diante de si, tangível, de facto, a viagem finda, como se da carruagem percebesse a estação, levanta-se, aguarda apenas que se imobilize para então se apear, e o resto tão longe, como, no fim, tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… Nisto, uma voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, sussurra Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Sem perceber o porquê, deixa-se estar, compreende que está caído no chão do mundo, a olhar o azul das alturas, mas desconhece a razão da queda, um calor súbito convida ao repouso, deixa-se ir, há quanto uma paz assim? O resto tão longe, como, no fim, tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o...
A Porcachona e o Tintim II
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A pedido de muitos leitores, hoje vou dar conta do paradeiro destas sinistras figuras, a Porcachona (uma obesa, com o cabelo pintado de amarelo, que arranha castelhano, divorciada, mais que previsível, quem aguentaria, por muito tempo, a Porcachona?) e o Tintim (um boneco que ambicionava ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal dádiva, é vê-lo andar diariamente com um livrito debaixo do braço, sempre confere um ar erudito, a melhor definição deste boneco proveio de um “dito seu amigo”: “É como a cortiça, está sempre à superfície), que tanta emoção despertaram, a crónica anterior serviu para as apresentar e reflectir no seu modus operandi, por estes dias, o boneco é visto em diálogos sussurrados, só muda de interlocutor, talvez questione se é assim tão dramático ou inabitual o facto de usar umas cuequinhas do Tintim, uma questão merecedora da devida reflexão, quem passe por perto nem uma sílaba ouve, um tema sensível compreende-se, do foro mais que íntimo, a...
Leveza
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Ainda hoje, aquela é uma memória quente, sem dúvida, passei lá há uns dias, por acaso, regressava do trabalho, um acidente a bloquear a estrada fez-me sair do meu percurso normal. É curioso, olhei o lugar e parece que nunca ali vivi, tal a indiferença com que me fitou, nesta vida há momentos em que duvidamos até de sermos, este foi um deles, a praceta sem um vislumbre de verde, numa humanização desumanizada, sempre à sombra, por ali a luz sempre foi escassa, de manhã ou de tarde, tal a altura dos prédios e a desarmonia das formas, tudo num tortuoso urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados, reparei, sem qualquer espanto, que em quatro ou cinco janelas, de casas diferentes, Vende-se ou Arrenda-se eram palavras de ordem, normal por ali, as casas tão pequenas, rápidos apeadeiros nesta jornada de nome vida , desacelerei para ver a janela onde, num certo tempo, olhei de dentro para fora, não conseguia, pois, a desarmonia das formas, logo, atrás de mim, uma b...
Suave doçura
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Parecia outro, não sei porquê, assim que um cão, gato, até pássaros, por perto, os gestos serenavam, sorria, gesticulava-lhes, creio, com sinceridade, que conversava com os bichos, prontamente em busca de comida, como se uma inextinguível dívida, diante dos bípedes, proclamados de humanos, rosto fechado, azedume e desprezo, com o tempo agravou-se, por norma é o que sucede, há uns dias, uma vizinha não hesitou e, com a devida indignação, abordou-me “Olhe, desculpe a frontalidade, estou muito desgostosa com o seu marido, há uns dias, estava eu a passear o meu Petsi, cruza-se connosco, prontamente se baixa em festas, carinhos e risos para o cão, sabe como é o meu Petsi, sempre gostou muito de atenções, quando se ergueu, virou costas, seguiu caminho e nem se dignou a me cumprimentar, creio que nem sequer me olhou, se é que me viu”, “Deixe lá, deixe lá, não ligue, desde há uns tempos que lhe deu para isso…,” “Afinal, somos vizinhos há quantos anos? Cumprimenta o meu cão e ignora-me ...
A Nininha II
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Lembram-se da Nininha, essa mesma, aquela personagem rasteira, maldizente, sabuja, até de estatura não se distancia muito do chão, o focinho está a meio-caminho entre uma mulher-a-dias e uma freira arrependida, a indumentária também oferece o seu contributo para este quadro, mobiliza-se por sombras e esquinas, pois bem, há novidades, desde logo, a que mais saltou à vista foi o retirar da bandolete, chocante, dramático, dilacerante, sem dúvida, esperemos que a anterior crónica não tenha contribuído para tal desfecho, mesmo assim, a ruralidade não a larga, pois, há coisas que se colam à pele, ajeitou, à sua maneira, claro, a disforme massa grisalha que lhe preenche o cocuruto, não sei que desarranjo foi aquele, apenas acentuou os farrapos esbranquiçados, o efeito final é de uma ratazana assustada a farejar em busca do esgoto mais próximo, lá se foi o focinho a meio-caminho entre uma mulher-a-dias e uma freira arrependida, como as coisas mudam no espaço do viver, e a bandolete, me...
O Bugs Bunny
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Caros leitores, as minhas desculpas por, nestas últimas crónicas, retratar desprezíveis e sinistras figuras, desde uma Porcachona, a um autêntico boneco que usa cuecas do Tintim, passando por uma perna-de-presunto com laivos de “dona do pedaço,” não se preocupem, voltarei, em breve, aos vôos que sempre me nortearam a escrita, falta-me só retratar uma desprezível e sinistra figura, embora com uma notória aparência de desenho-animado, assim que me apresentaram, logo o meu olhar perdido naquelas mais que proeminentes dentuças, como é óbvio, era-lhe impossível fechar a boca, confesso não lhe ter ouvido uma sílaba, fascinado que estava naquele subir e descer das favolas, bem diante do meu rosto, e eu sem uma cenoura para…, senti-me o maior dos pecadores, como era possível tamanha falha, as favolas, bem diante do meu rosto, subiam, desciam, subiam, desciam, subiam, desciam, e eu sem uma mísera cenoura para sossegar aquele frémito, a indumentária também não me passou despercebida, o c...
Um não assunto
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Há uns anos, relatei a ascensão dos medíocres, hoje deparamo-nos com os seus podres frutos, a figura que hoje vou descrever é um paradigma da mediocridade, tinha múltiplas formas de iniciar esta narrativa, estou, de facto, indeciso, bom, tenho de escolher, trata-se de uma sujeita a caminhar, em largos passos, para o ocaso da vida, de uma certa distância parece um oito, por algum motivo apelidam este o país das rotundas, pois estão manifestamente em todo o lado, mais uma com o cabelo pintado de amarelo, uma larguíssima percentagem das entradotas, não sei porquê, opta pelo amarelo para maquilhar os brancos, ignoram que o problema não está nos cabelos, mas no oito avistado à légua do corpo, por algum motivo apelidam este o país das rotundas, pois estão manifestamente em todo o lado, enfim, há lugares onde o bom-senso nem ousa bater à porta, esta é daquelas criaturas que, logo à primeira vista, de uma inteligência mínima, causa repulsa, uma pose de “ dona do pedaço ,” sedenta de toda e q...
A Porcachona e o Tintim
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Uma questão que recorrentemente me colocam é: “Quando começou a escrever?” Só concebo uma resposta: “Desde que aprendi a olhar o mundo,” curiosamente nunca perguntaram a razão que me levou a preencher centenas e centenas de páginas em branco, pois bem, hoje revelá-la-ei, foi há mais de década e meia, um projecto para uma curta-metragem, o guião entregue a um boneco que ambicionava ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal dádiva, apesar disso, abnegou-se em cumprir com a narrativa da curta, até que, certa tarde, sou interpelado por uma das protagonistas “Peço desculpa, mas não vou dizer esta fala! É demasiado ridícula! Não lembra a ninguém! Assim, não vamos a lado nenhum! Por favor, escreva você…,” esta última frase ecoou-me na alma, “Por favor, escreva você…,” como se, desde que caminho por este lado, a aguardasse, “ Por favor, escreva você…”, um chamamento de ordem-superior, diante da obscenidade de uma página em branco, não recuei, as palavras saíram com a...
O Sinédrio
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Nunca, como no hoje, o Sinédrio esteve tão presente, apenas as vestes divergem em formas e colorações, as personagens tétricas subsistem, a essência prevalece: aterrorizar quem ouse a diferença; tal como há dois mil anos, as sombras edificadoras do Sinédrio são as mesmas: não fosse este o seu reino, afinal, o Inferno não é um lugar assim tão longe do aqui; há uns dias, um conhecido viu-se perante esta realidade, presidia ao Sinédrio, no lugar de Caifás, algumas coisas lá se alteraram, embora as personagens tétricas subsistam, uma cinquentona, sem qualquer dívida com a beleza, a indumentária, nem as carnes flácidas e descaídas conseguia maquilhar, algures entre um catálogo do Lidl e os saldos do Continente, a cabeleira grisalha mal disfarçada pela pasta alcatroada que amiúde jorrava cabeça abaixo, o efeito final simplesmente anedótico, parecia uma palmeira andante, o olhar servil tão aquém de um vislumbre de inteligência, daquelas sujeitas a quem um cumprimento já se afigura um ...
Entropia
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Só quis dali sair, assim que se viu na rua, expirou longamente, o pensar incessante, sentia-se, por fim, a uma distância segura das coisas, horas antes, ali entrar com a filha, de três anos, ao colo, a testa em chamas, ainda lhe ligou, a alertar para o estado da criança, mas nada, era sexta-feira, há dois ou três meses que, com a desculpa de reuniões mais reuniões, sempre ausente, ela sabia dos jantares e sobremesas com a estagiária do escritório, o aparelho do hoje apenas uma biografia andante, bastou-lhe menos de uma dezena de minutos de distracção da parte dele, ao contrário do expectável, não sentiu raiva, dor, desilusão, apenas uma distância segura das coisas, desconhece o momento, sabia, no entanto, que o deixara de amar, simplesmente, por ele apenas ternura, pelo que foi, nada mais, deixou as coisas seguirem o seu rumo por múltiplas razões, algumas, convenhamos, pouco dignas (comodismo, preguiça, conveniência, vergonha…), parte de si acreditava que ele se apercebera, daí, ...
Dos sonhos por realizar
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Nunca partilhou a sua maior ambição, nem com a mulher, volta e meia, nos entediantes passeios de fim-de-semana, a lugares tão cansados que até as pedras quase cumprimentavam, uma palavra a nascer-lhe “Sabes…”, ela pronta “Sei o quê? Então, desembucha!”, ele logo a fechar-se, a olhar um indefinível ponto na distância, onde de facto desejaria estar, “Emudeceste?”, sabia-a persistente, “Não é nada, estava a apetecer-me um gelado… Queres?”, “Estás a querer enganar quem?! Assististe ao embranquecer de cada fio dos meus cabelos, mesmo assim, após mais de quatro décadas sob o mesmo tecto, julgas que não conheço, pela melodia da voz, por onde te caminha o pensar?”, estava encurralado, ela não desistiria, “Não é nada, só me está a apetecer um gelado…,” a verdade longe de cones e sabores, foi numa longínqua noite de infância, talvez fosse Verão, folheava um álbum de banda-desenhada, e uma ideia a nascer-lhe “Um dia, hei-de escrever um livro,” assim, de aparente fonte incógnita, “Um dia, ...
O que perdura no fim de tudo?
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Queria, como se deve, começar por dizer o seu nome, mas, confesso, já não me lembro. Passou algum tempo, é verdade. E o nosso tempo nunca é o tempo dos outros. Sabe, esta história nunca me abandonou, vou tentar relatá-la com a exactidão possível, se bem que a memória, como sabemos, tem mais sombras que luz… Estava naquela altura da vida em que olhamos os adultos algures entre a compaixão e a reverência, depois do almoço, aos fins-de-semana, cumpria-se escrupulosamente o rito do café, os meus pais e um casal vizinho, cada passada parecia obedecer a um minucioso escrutínio, de facto, o nosso tempo nunca é o tempo dos outros, quando os acompanhava, seguia ou mais à frente ou atrás, consoante o universo em que habitava, mas nunca ao lado, acho que, em determinado momento, jurei nunca habitar o universo dos adultos, até hoje julgo ter cumprido na perfeição com este desígnio, não há nada mais aborrecido e enfadonho que um adulto, e há aqueles que nascem adultos, assim, sem direito a ré...