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A mostrar mensagens de junho, 2023

Por onde andas?

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  Desde que o miúdo saiu de casa, pareces outra, desinteressada de tudo, antes, Vamos ao cinema? , eu, no sofá, já por paisagens distantes, a rezar que não falasses, para, assim, não me obrigares a regressar, no entanto, logo que um passo, a tua voz em cada canto da casa e de mim, Não me digas que já estás a dormir, eu, contrariadíssimo, a abrir um olho, a negar a evidência com a cabeça, a reforçar ainda Que disparate! Só fechei os olhos um bocadinho, por causa desta dor de cabeça, porém, tu sempre convicta, Vai tentar enganar outra! Caramba! Já nem um programa vês comigo, e acrescentavas sempre aquele golpe fatal: Pareces um velho! Aí chegados, só podia reagir, E tu pareces uma avozinha! Basta ver a forma como tratas o miúdo! Quase te babas só de olhar para ele, sabia que te acertara, sem qualquer necessidade, sempre esta carência de arenas, de nos retalharmos, as palavras de hoje, os gumes de outrora, o teu olhar pelo tapete, duvido que te levantasses, nesse ponto, optavas pelo...

Dos asnos e afins

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  Nessa manhã, o canto intemporal não amanheceu o mundo. O galo morrera um pouco antes da primeira fenda de luz anunciar a derrota das trevas. Ali estava, no meio dos excrementos, sem qualquer resquício da majestade que fora, caído, até parecia mais pequeno, de facto, partimos apenas com a bagagem necessária, as penas deslustradas, à sua volta, já a luz ilusoriamente reinava sobre a terra, quando começaram a juntar-se os companheiros da quinta, questionavam mais a ausência do canto da aurora do que a ave ali caída, no meio dos dejectos, sem qualquer resquício da majestade que fora, vieram de vários pontos, todos acorreram à capoeira na busca de um porquê pela ausência do anunciar da manhã, assim que uma resposta, viravam costas, lentamente, contudo, a meio do caminho, apercebiam-se do real estado das coisas, e regressavam para a porta da capoeira, ali estavam todos, numa mistura de idiomas demasiado polifónica, mas uma palavra sobressaía a todas as outras, a palavra amanhã, desde...
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  ...  a felicidade é o lugar onde nos despojamos de todas as máscaras... in Nascer
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Inteligência é estar, pelo menos, em dois sítios ao mesmo tempo

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  Os filhos já no carro, ela, de porta aberta, com gumes no olhar, ele imóvel, a perceber-lhe a agudeza na expressão, nem esboçou uma última aproximação dos miúdos, agora só dali a duas semanas, eles impassíveis, sentados, a olhar em frente, como se cumprissem um rito, tal a mecânica dos gestos, ela a entrar, a chave, o ligeiro estremecer daquela carapaça mecânica, um ronco desnecessário, ela sempre acompanhou a chave com o pé no acelerador, quantos vezes ele Que estupidez! Não faças isso! É completamente desnecessário e só gastas gasolina, mas estas recomendações foram há muito, há tanto que, hoje, parecem uma ficção, pareceu-lhe, por acaso, que os olhos dela se ergueram, do interior da viatura, à altura do seu rosto, do lado de fora, mãos nos bolsos, assim que o ronco desnecessário povoou a rua e pracetas circundantes, os miúdos sempre a olhar em frente, apenas uma mãozita se atreve a erguer-se, assim que se inicia a marcha, para um adeus e vemo-nos daqui a quinze dias, do ca...
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  Tende-se a confundir a amizade com a circunstância, isso é perigoso, porque o fim de uma acompanha invariavelmente o términus da outra. Em verdade, não se deve avaliar a amizade pelos dias de sol ou de tormenta, mas pelo que perdura... in Nascer
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 ...  a dignidade nasce da assumpção do erro, e só não erra quem não respira... in Nascer
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... persisto a olhá-la, aparentava a minha idade, ia na direcção das ruas pedonais, antes de se diluir por completo do meu horizonte, era o único que ainda lhe acompanhava os passos, olhou para trás como se perguntasse pelos meus sonhos. in Deslumbramento

A nudez envergonhada de uma moldura por se cumprir

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  O chão, à sua volta, povoava-se de céu, ele feliz, com o saquito de plástico, transparente, na mão, a chamar, para si, as alturas, com o que se arranca à terra, de vez em quando, de uma mesa próxima, os amigos insistiam no seu nome, mas ele há muito distante de cartas, dominós, e afins, preferia-se só, naquele banco, àquela hora, talvez nas outras também, sob a descansada sombra de um pinheiro, assim que o olhar das aves nele, numa súplica com qualquer coisa de meninice, a mão, de novo, mergulha no saquito de plástico, transparente, e grãos amarelos pelo ar, asas pelo chão à espera deste regresso, um casalinho abraçado passou diante dele, estacou por uns instantes a assistir ao frenesim de asas e grãos amarelos pelo ar, notava-se-lhes cidade e ausência de suor em cada poro, levantou-lhes o olhar e a seguir o desprezo, o casalinho permaneceu ali, até que o sujeito, sem largar a rapariga, atirou Acha bem alimentar esses vermes com asas? Fique sabendo que só causam doenças, além d...
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  Poderia, a meu favor, levantar variadíssimos argumentos, mas, durante esse tempo, aprendi a maior das lições: o silêncio de um ténue sorriso: tudo diz, tudo cala. in Deslumbramento
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O futuro é o invisível da imaginação. in Deslumbramento

Quando o sol nasce a Oeste

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  Ao ali entrar, naquela manhã em particular, de fora tão igual às outras, mas cá dentro tão diferente, procurava não um rosto, mas um ouvinte, aquele dia, em número, há uns tempos, cerca de cinco anos, tão igual a hoje, no entanto, quando já acenava partidas, revelar-se-ia tão diferente, como sempre, deixou-me junto ao portão pouco antes das oito (há quanto partilhávamos a vida? Já não me lembro… O suficiente para dois filhos, percebermo-nos neve pelos cabelos, e ter a noção de que sem ele, a meu lado, não saberia caminhar…), como dizia, deixou-me junto ao portão pouco antes das oito, nesta fase da vida, já avistávamos a meta, é verdade, tínhamos entrado na recta final, era tão estranho, não traduzia o sentir em verbo, nem alegria, nem tristeza, um estar algures anestesiado, como se me soubesse num sonho de um sono longínquo, enquanto se afastava, estrada fora, a mão dele sorria-me fora da janela, quando o horizonte se encarregava de o retirar do meu alcance, eu entrava, naquela...
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 ...  nesta vida, as respostas nascem sempre antes das perguntas, poucos compreendem esta singularidade... in Deslumbramento

Há famílias em que a dor tem lugar à mesa

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  Não sei porquê, mas naquela noite em particular, pareceu-me, não sei bem como dizê-lo, estávamos a jantar, os quatro, à mesa, de repente, a forma como ele se riu, tão longe de mim e dos meus, demasiado sonora, a boquita aberta, numa obscenidade de comida mastigada e de dentes encavalitados, o outro, sim, esse meu, sem dúvida, a olhá-lo num pudor à mesma velocidade que eu, ela numa expressão agradada, embora se lhe denotasse algures os passos de uma nuvem pelo rosto, talvez cansaço, ou talvez me lesse a desordem do pensar, também não sei, isto bateu-me à porta já há um par de anos, ou talvez há mais, é o mais novo dos dois, têm três anos de diferença, no entanto, já é um pouco mais alto que o irmão, e, do meu lado, sempre familiarizados com um banco para chegar às coisas, poder-se-ia dizer que puxou aos lados dela, mas por ali também não padecem de vertigens, por isso, não sei, daí que, bom, há coisas que ficam na soleira do meu juízo, e aqui estou eu, da minha janela, a olhá-lo...
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  ... acredito que morrer começa quando perdemos os motivos para aqui continuar, como se fôssemos perdendo a bagagem ao longo da jornada, até nada restar... in Deslumbramento

Deixa-me ouvir o teu olhar

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  Só se ilumina o presente quando se olha para trás, compreendo agora isso, a sugestão dele, primeiro entrecortada, quase inaudível, eu a não perceber, de todo, o alcance das suas pretensões, no fundo, naquele momento, longe do mundo, estávamos deitados, talvez a meio da tarde, pelos estores, não totalmente corridos, alguma luz, a suficiente para nos vermos, ele tinha esse hábito, o do estore, o prédio em frente parecia cada vez mais próximo, dizia, eu a pensar que zelava por nós, por aquele mundo construído na luz difusa de um quarto, tardes e tardes, mas as coisas são sempre uma outra coisa, em verdade, há algo que insiste em se nos escapar, como se o mundo recuasse, pelo menos, um passo, a cada evidência nossa, ele O que é que achas? , porém, eu na distância de mim, a regressar com esforço pela pressa que lhe senti na questão, O que acho de quê? , percebi-lhe a frustração, não sei bem como, nem uma palavra, nem um gesto, no entanto, eu a compreender-lhe a frustração, de facto,...