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A mostrar mensagens de junho, 2020
Uma pauta musical aberta na madrugada
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Naquele instante, sobre o precipício de si, nascera uma decisão. A decisão de um passo. Que importância tinha isso? Afinal, quantos passos damos na vida? E em que direcções? E ele longe de tudo isto. Sob o crescente inebriar da vertigem. Como se a saboreasse. Voltemos à sua decisão. Mais em concreto, à sua génese. Nunca há uma razão. Isto devia ser uma lei de carácter universal. E cansada de tanto se repetir. Há, isso sim, razões. Dito de uma outra forma: a razão é sempre plural. Sim, soa melhor. Neste momento, uma brisa com aroma de sul no seu rosto. Esboça o agradecimento na forma de um sorriso. Desde que ali chegara, mantém-se de olhos fechados. Não por cobardia. Mas para exponenciar o sentir último das coisas. O corpo num balançar ligeiro. Não, não se trata de qualquer vislumbre de nervosismo. Apenas um sinal de que o movimento encontra o pensar. Ele, neste momento, à janela do passado. A paisagem demora a aclarar-se. Puxa mais o estore. Abre, por completo, a janela. Demo...
Deste caminhar entre o céu e a terra
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Quando me falam em reféns do álcool, a primeira imagem a erguer-se na memória é a dele, parecia tão concentrado, senhor absoluto dos seus domínios, embora fossem apenas vinte metros quadrados subalugados num café, para mim era o mundo, um quiosque onde, entre jornais aborrecidíssimos para adultos ainda mais enfadonhos, brilhavam as revistas de super-heróis e as cadernetas de cromos, recordo-me ser alto, de facto quando crianças tudo é alto, depois, em adultos, percebemos quão errónea era a nossa perspectiva, neste ponto discordo, há vozes do ontem que, se ouvisse hoje, baixava-me de imediato, nem que tivesse de me ajoelhar, para continuarem a provir do alto, a de minha avó, por exemplo, jamais a voz de minha avó virá da terra, sempre proveio das alturas, mas como dizia, parecia tão concentrado, certa tarde, munido de uma providencial moeda, que possibilitava a aquisição de mais uma carteirinha de cromos, afinal, havia uma caderneta para completar, corro em direcção àquele univ...
A Alma reflecte-se num Espelho d´Água
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Assim que ela entra no parque, num gesto próprio do rito, baixa a cobertura do carrinho de bebé. Por vezes, sem motivo. Como é o caso de hoje, em que as coisas surgem num indistinto pardacento, o que lhes confere uma angústia de grito sem eco. Como se proviessem de uma distância sem vislumbre. No fundo, como se não fossem tangíveis. E nestes casos, só nos resta o nosso refúgio. O que, na maior parte das vezes, é insuficiente. Aí chegados, vogamos numa corrente indistinta sob uma tonalidade com o aroma da indiferença. E, num lugar de nós, que teimamos em negligenciar, compreendemos o miserável da nossa condição. Mas regressemos aquela mulher que, num ritual de perfeição, cobre o carrinho à entrada do parque. Caminha no passo decidido de quem conhece, há tempo suficiente, a próxima paragem. Senta-se, como sempre, num dos bancos da praça da fonte. Mais precisamente, naquele que fica debaixo do choupo, que tem uma das traves, do encosto das costas, partida, e a tinta, verde-escura,...
Balanço
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Há uns tempos escrevi que, no fim de tudo, só dois ou três momentos valeram a pena, e devido a esses fugazes instantes conseguimos levar adiante esta caminhada, de facto, não é muito (dois ou três momentos…), não é nada, se contabilizarmos a imensidão de dias que preenchem um viver, o fastio do seu desenrolar, decidi, aqui chegado, realizar um balanço, se terá valido a pena ter caminhado por este lado das coisas, não é fácil uma conclusão quando não temos memória de outros trilhos, porém, resolvi aferir se valeu a pena, e nunca gostei de declinar desafios, ao olhar para trás retenho dois ou três momentos, um em particular, fantasias de um sótão abandonado, neste ponto, creio com sinceridade que as fantasias é que foram abandonadas pelo caminho, o sótão sempre por aqui esteve, como é triste largar fantasias pelo caminho, ocupam muito espaço, e a vida não lhes permite respirar...
Era uma vez…
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Esta história passou-se há três ou quatro décadas, numa aldeia algures no interior deste país. Tudo começou quando ele subiu para cima do tractor, naquele início de tarde estival. Mas, de facto, terá sido aí que tudo começou? Qual o irredutível ponto inicial de uma história? Onde, de facto, foi dado o primeiro passo? Às questões sem resposta apenas silêncio e o inevitável encolher de ombros. Por conseguinte, regressemos a ele, ao seu tractor, e a um calor de olhares baixos. Mas não esquecemos as anteriores questões. Não é nossa pretensão, ao relembrar esta história, sombrear recantos, para que floresçam, numa avidez sedenta, os inevitáveis pontos de vista do interesse. Enquanto a mulher descascava as vagens do jantar, sentada num baixo banco de madeira, e as atirava para uma bacia de plástico, com a cor dos anos, ele cobriu a cabeça com a boina, e saiu. Àquela hora, os filhos, um casal, ela mais velha dois anos, ainda na escola. Por enquanto… Ele, neste ponto, a olhar a terr...