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A mostrar mensagens de novembro, 2024
Desolação I
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Há muito ela falava, com insistência, em regressar ao local das primeiras férias juntos, de início, ele relativizou, talvez mais um capricho, a nostalgia batera-lhe à porta, reacender o que inexoravelmente o tempo diluiu, a insistência, no entanto, mantinha-se, “Fomos tão felizes lá! Era tudo mais simples… Lembra-te: durante esses dias, nem precisávamos do carro para nada! Era só descer a rua e estávamos na praia… Já reparaste: não enfrentávamos o caos do aeroporto, horas e horas de espera, passaportes, documentos e mais documentos, malas, avião, basta uma hora de carro e ali estamos!,” uns instantes de silêncio e recomeçava, “Fomos tão felizes lá… Era tudo mais simples…,” ainda apelou ao que se economizava, ele que nunca lidou muito bem com a claustrofobia de estar, horas e horas, dentro de um cilindro, que mais parece imóvel nas alturas, lentamente a, por fim, ouvi-la, de outra forma, a dar-lhe a devida razão, tão raro nestes últimos tempos, “Fomos tão felizes lá… Era tudo...
Ontem cruzei-me com um estranho na rua…
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Não sei se cheguei a dormir, andei por ali, entre o cá e o lá, entre o estar ao leme do meu pensar e o abandonar-me aos caprichos do sono, que mais não faz do que levantar a carpete da nossa consciência, ora me virava para um lado, ora para outro, ele, a meu lado, nem se mexia, apenas a respiração, num compasso pesado, indiciava os caminhos, pelo menos, do sono, não sei se abrira as portas do sonho, nunca mo dissera, olhei as luzes vermelhas em cima da minha mesa-de-cabeceira, para ver se podia prolongar a esperança de me abandonar, nem que fosse por mais um pouco, aos caprichos do lado de lá, percebi que me restavam vinte e oito minutos até que as luzes começassem a tremeluzir e o aparelho a gritar numa urgência de ave caída, resolvi levantar-me, não, não valia a pena insistir, ora me virava para um lado, ora para outro, e o sono uma repetida miragem de Verão, saí do quarto, também não valia a pena acordá-lo, afinal, sai de casa quatro horas depois, vesti-me na sala como sempr...
Deus também erra?
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Ensinaram-me, em criança, que Deus é perfeito, o mal é resultado do livre-arbítrio do homem, sempre tive estas duas premissas bem presentes, até que, há uns dias, alguém, durante o relato de um episódio biográfico, a dada altura afirma: “Deus também erra”; a frase ecoou por cada canto do meu ser ( “Deus também erra”), em verdade, tirando a perspectiva teológica, eu não tinha como contrariar esta evidência ( “Deus também erra”), quem, nos seus passos pelo aqui, não queria, num dado momento, tudo fosse uma outra coisa? E o amanhecer confrontado (ou será resignado?) com o mesmo tão indesejado do ontem, um velho aforismo dita que “Não há ateus na hora da morte,” concordo plenamente, a morte acompanha-me a cada passo, porque, há muito, não a temo, em verdade, só a receei durante a infância, no entanto, houve em mim uma mudança, desconheço a sua génese, facto é que desde a adolescência me sinto pronto para a acolher, num certo momento até já lhe senti o calor, a morte não é f...
Quando ainda fôlego para uma derradeira súplica…
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Ao passar, diante daquele edifício branco, com uma cruz ao alto, a imagem da mãe, nos últimos tempos reduzida a um ténue articulado de ossos, envolta num manto negro, a ali entrar, todas as tardes, numa discrição condizente com as vestes, de imediato o respeito conduzia-lhe os joelhos ao chão, assim ficava, a passar aquelas pedras por entre os dedos, enquanto os lábios pediam que as alturas se lembrassem, nem que fosse um pouco, de nós que para aqui andamos, todas as tardes de uma vida, neste ponto, afastou-se da mãe, tal como em muitos outros, nunca foi apologista de discretos mantos negros como vestes, nem de joelhos no chão, mas, hoje em particular, gostaria que alguém se lembrasse, nem que fosse um pouco, de nós que para aqui andamos, parou, percebeu a porta aberta, o mundo mergulhado na tarde da vida, cada um cumpria com o seu destino de horas e afazeres, deixou-se ali estar por uns instantes, contou os degraus até à porta aberta, daquele edifício branco, com uma cruz ao a...
Serenidade
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Caminhavam desencontrados, embora na mesma direcção, o extremo do molhe, onde um banco para assistir ao nascer da noite, ele numa passada vagarosa, hesitante , como se aguardasse ela, primeiro, no banco, a segurança de se saber esperado, uma desavença (o quê?) fê-los caminhar desencontrados , tantas são as fontes da discórdia, ela parou a meio, virada para Oeste, olhos nas águas, a brisa entardecida ondulou-lhe uma melena, ele fingiu não reparar, não asfixiava palavras, mas sentires, o orgulho a nortear-lhe os passos, daí o caminhar desencontrado, os olhos dela nas águas, nenhum pousava o orgulho, há poucas coisas piores do que morrer de amor por dentro em troca da esterilidade do orgulho exterior, calar o sentir para suster a altivez, num repente, após levantar os olhos da água, ela regressa, passa por ele como se lhe invisível fosse, compreende-se-lhe um vislumbre de a seguir, talvez o orgulho, num derradeiro instante, o imobilizasse, em desespero olha o extremo do mol...
Deixai a aparição emergir no seio da aparência
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Há vozes que, apesar de já caladas, ainda nos norteiam os passos, volta e meia, frases suas fazem-se ouvir, como é o caso desta, por norma, assim começava as frases (“Meus amigos, meus amigos…”), depois lá vinha a sentença, hoje só vou falar desta (“Deixai a aparição emergir no seio da aparência”), de facto, há frases que levam uma vida para serem compreendidas, ou talvez mais, o primeiro convite desta frase é à paciência, à espera, tão difícil, sobretudo para quem já olhou a “finitude” nos olhos, tão bem a sabe, e compreendeu que o presente é um constante passado, de vez em quando, dou por mim a revisitar velhos álbuns de fotografias, neste momento, há fotos de grupo onde se somam mais ausências que presenças, começa a enraizar-se a ideia de transitoriedade, também eu, um dia, serei uma ausência, um gesto esfumado, uma voz sumida, um rosto distorcido, é curioso, se antes, perante este “abismo”, apoderava-se de mim um terror frio e desmesurado, agora, somente resignação, uma espera...
Passagens nocturnas
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Acordou com o berço em tumulto, antes de abrir os olhos, já um pé, no soalho, relembrava-lhe Inverno, nem hesitou, seguiu-se o outro, e dois ou três passos até ao berço, ali estava, nesse momento, o seu universo, bastou os lábios pela testa para se aperceber da febre galopante, nem forças para o choro, havia cuidados prementes que urgiam, olhou para o outro lado da sua cama, deitado de bruços, boca aberta, assemelhava-se a um suíno, uma imediata resolução clarificou-se-lhe: não valia a pena despertá-lo! Vestiu um longo casaco, mudou o calçado, agasalhou o máximo que pôde a criança, e saiu para a noite do Inverno, àquela hora, de um dia de semana, na aparência tudo dormia, os carros pareciam brotar a cada passo, o deles ficara na rua de baixo, já somava duas décadas, nem vislumbres de mudança, os bolsos mal davam para a manutenção na oficina, sempre que uma luz nova, por este ou aquele motivo, ele em impropérios raivosos ou murros no volante, como se daí proviesse o desejado mil...