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A mostrar mensagens de 2020
O céu não tem lugar na terra
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Hoje nada foi como havia sido. Não houve batalhas com o relógio, nem pressas, nem aquelas corridas olímpicas e a medalha do transporte desejado, tudo um torvelinho e, quando sombras extenuadas na calçada, projectadas por sorumbáticos candeeiros, o mundo sobre os ombros. E ainda os filhos para ir buscar à escola, a correr à sua frente, ela no espanto daquela demasiada energia, como se a súbita liberdade fosse vitamínica, ela a arrastar-se atrás deles, as advertências entrecortadas com a carência de fôlego, a distância a crescer, por fim, um berro imobilizador. Segue-se a janta, ele aparece uns minutos antes, não há perguntas, ela prefere-o entre copos (talvez demasiados) e amigos, que de volta aos braços daquela, com rosto de brisas e cintura de Verão, que o ausentou uns meses de casa. Sim, por ali andou, ela chegou a recear… Mas o lar prevaleceu… Grande ilusão! No fundo, ela conhece a verdade, mas soterrou-a para voltar a caminhar. Quantas verdades jazem a nossos pés? Foi ela que se ...
Há noites em que os móveis gritam
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Há dias assim. Em que, na sombra de um corredor, a luz de uma memória. E eu passado, sim, o incómodo presente, como algures uma dor que inquieta, latejante, a doçura do ido, talvez por compreender que não a saboreei, ando sem me aperceber, ora num lugar, já noutro, os cenários diferem, mas eu comigo, como se uma praga, sento-me, no cadeirão em frente, senta-se-me o pensar, olha-me, os ombros curvam-se-me, e agora? Lá fora, um outro cenário, mas, diante de mim, naquele cadeirão, aquelas ideias, quase orgânicas, afundam-se-me olhos adentro, como se aguardassem o mais ténue movimento para me seguirem. Alguém se me dirige, naqueles cumprimentos que, de tão forçados, quase ecoa um debitar calórico pelos ares, ouço frases de calçada, surpreendo-me no mesmo registo, como se, é isso, eu um outro, corro atrás da esterilidade linguística, afinal, eu não sou isso, mas algo se lança aos meus pés, eu por terra, continuo num automatismo de passeios, é verdade, estou derrotado. Neste momento,...
Não saias do meu horizonte
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Sempre que ele chegava a casa, no cumprimento da oração diária, via-a absorta, a olhar para o nada de uma parede, sentada à secretária. Diante dela, um caderno de linhas aberto, algumas folhas já escritas, ele a anunciar-se ( Já cheguei! ), ela a sorrir-lhe da distância, mas permanecia imóvel, de caneta na mão. Lá fora, a luz numa diagonal crescente, ele a regressar da cozinha, com dois copos na mão, a convidá-la para a varanda, ela acede, segue-o num prolongar demasiado de movimentos, ainda um último olhar para a caneta. Agora, cada um na sua cadeira, lado a lado, ele a olhar para as ruas, em movimento de regresso, ela com o indistinto do horizonte, como se aí repousasse de alguma forma, sim, notava-se-lhe alguma leveza neste momento, ele também se apercebeu disso, encetou um diálogo de circunstância, a ausência de palavras potencia os ecos do mundo, ela respondia em monossílabos cortantes, e, de novo, a perder-se nas lonjuras. No fundo, ainda estava com a mesa, e a olhar através da c...
A cada um o seu mundo
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Entrou em casa, ainda carregada de dia, o barulho dos sacos de plástico incessante, demasiado pesados para as forças de hoje, mas o seu conteúdo tão aquém do frigorífico, o filho com os assuntos da escola, e também a apontar para uma caderneta recém-estreada, à volta dela, ainda mais audível que os sacos, que o trânsito em ecos oceânicos no seu interior, a filha, mais velha, na mudez estridente de dedos e teclas, absorta, sempre, com o telemóvel, a mãe Não me queres dar uma mãozinha a arrumar as compras? A filha tarda na resposta, ainda o telemóvel, um abanar de cabeça, o ecrã ilumina-se, ela a sorrir, polegar e teclas em uníssono, imparáveis, a mãe, de novo, Ouviste o que eu disse? A filha, Sim, vou já! Mas ainda o telemóvel, o filho, por seu lado, a assegurar o futuro, já três colegas fazem aquela colecção, a mãe anuía, com a cabeça dentro do frigorífico, a contar mantimentos, a filha longe daquele horizonte de azulejos, frigorífico, e panelas, por fim, ecoa um Estou a ir! C...
Quando já somos uma fotografia
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Terminado o almoço, como se aquilo fosse uma refeição, uma sandes engolida a custo com um refrigerante, sempre com demasiado gás, em pé, a colega, à sua frente, não uma, mas duas sandes, que não lhe interrompem o monólogo, sim, engolia sem cessar a catarse emocional, ela representava, numa performance extasiante, a boa ouvinte, as duas ali, num desses intitulados restaurantes de comer rápido, que se multiplicam numa cadência monótona, como se, de certa forma, esta incessante visão do mesmo nos anunciasse um fim: o da esperança. Não há lugar à novidade no horizonte cansado de hoje. Por melhores palavras: o horizonte é que perdeu o seu lugar; foi destituído pela repetição. E ninguém estranha. Afinal, o que são os dias presentes se não uma cuidada repetição de si mesmos? Ela a disfarçar o gás, a colega prossegue o debitar de angústias, analisa, de forma cuidada, diga-se, o actual momento das três novelas que segue, com beatífica devoção, tudo sob o ritmo inclemente do mastigar, cansada da...
Um balouço chora ao vento
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Hoje chove lá fora. É daqueles dias em que o mundo nos vira as costas. Sem direito a porquês. Como se não tivéssemos importância. E, de facto, não temos. Porque, na realidade, só somos insubstituíveis para nós mesmos. O mundo sempre ali esteve, antes de o olharmos, e estará, quando já não o vermos. No fundo, somos a circunstância de nós mesmos. Nada mais. Agora, olho o mundo pelo quadrado envidraçado de uma qualquer divisão desta casa. Quantas casas cabem numa vida? Talvez um dia as compreenda. A chuva pinta o mundo de um cinzento demasiado cinzento, e eu grato, ali, da janela, a compreender o conceito de lar, a agradecer-lhe, pela janela, pelo calor, por me ensinar a chuva. Lá em baixo, na rua, poucos vultos, numa pressa cautelosa, para não caírem, uma mulher procura harmonizar um saco, demasiado pesado, com o guarda-chuva, a inclinar-se teimosamente com o vento, ela a avançar, num esforço de conquista, com passadas reflectidas, como se obedecessem a um escrutínio criterioso, ...
Uma nuvem branca suspensa no azul do horizonte
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Hoje ela saiu inquieta de casa. Qual a fonte desta inquietude? O que lhe terá provocado aquele andar pensante, a mão irmanada ao peito, o olhar raso? Cumprimenta os conhecidos, à medida que os vê, rua abaixo, com uma expressão elucidativa de aquém-verbo. Ao contrário de dias recentes, não pára nas sombras para lhes saborear a frescura, observar os passeantes, e olhar o céu. Como gostava daquela pureza azul! As alturas, e ela cada vez mais próxima da terra. Sabia-o. Hoje fazia anos que lhe partira o marido. Daí este desregulado sentir que lhe emigrou a razão para longe de si. Quantos anos de casamento? Os suficientes para se fugir à aritmética, e para saberem a vida. Desde então, uma existência pintada de noite. Não se importa. Se bem que… Sim, talvez por isso, aquela lassidão que a domina naquele olhar vertical em busca de um azul pontuado pela brancura sonhada das viajantes celestes. E ela, um desamparado ser da terra, coberta de noite, a sentir distância. O tempo distancia-nos do...
O que murmura uma parede de caliça numa tarde de Verão?
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Ainda é cedo. Sim, veem-se poucos carros a circular. E os que se vêem denunciam um sono inconcluso. Talvez mais um sonho: sempre interrompido no limiar de um qualquer oásis. Já de mochila às costas, lancheira numa das mãos, sai para a manhã, acompanhado do pai. Corre para o carro, ainda coberto de noite, sob a sentida vigilância paterna. Leva na mochila o pecúlio do último aniversário para, no intervalo maior, a imaginação soltar-se, e então haverá cavalos, cavaleiros, castelos, princesas, e, quem sabe, algo esquecido no travesseiro abandonado. Senta-se no banco de trás, ainda adormecido, daí o frio, e olha o despertar do mundo, o início de um movimento com o sabor do tempo. Bebe, na sede de um viajante recém-chegado, cada rosto, cada esquina, o aroma a café, as cores expostas na mercearia, a luz infantil e risonha da manhã, e o seu olhar, num espanto sincero, transparece a emoção que o habita. Regressa a casa para almoçar. Leva os livros na mão. Um passo arrastado, que indicia o...
Ecos de vozes idas
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Neste momento, ia em viagem algures debaixo do céu do mundo. Sem pressa. No fundo, a melhor forma de se viajar. Gostava de viajar só. Sinal que gostava da sua companhia. Estes são os que reclinam a cabeça com facilidade. Aos outros, resta-lhes experimentar a contínua aspereza de cada travesseiro. Não há outra forma: nunca se encontra no mundo aquilo que não trazemos para ele. Mas ele, neste exacto momento, guiava na gratidão de um silêncio compassado. Fruía cada instante do percurso. Diante de si, abriu-se uma longa recta. Àquela hora matinal, ainda pouco trânsito. A visibilidade era boa, apesar dos resquícios de uma noite ida. Reparou, um pouco à frente, na berma da estrada, numa mão suplicante. Desacelerou espontaneamente, fruto de uma vontade de génese incógnita. Porquê? (Questionar-se-ia ele, mais tarde. Como resposta, apenas a memória de um gesto irreflexo, nada mais. Mas, ainda assim, tinha como resposta a memória de um gesto. Quantas vezes nem isso? Apenas os amargos fruto...
O silêncio contido da alma no adeus ao corpo
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Acordou numa sala demasiado branca, àquela hora iluminada apenas pela passividade indolente das frestas do estore, que horas seriam? Pelo alaranjado da luz, pensou em despedidas… Mas as auroras também se pintam pela timidez indecisa de uma cor intermédia. E ele deitado, num estar além-tempo, uma voz de si na entoação de um conselho: Não te levantes, não te levantes… De alguma forma, compreendia, sem sentir, o saber das palavras. Não se levantou. Assim permaneceu, naquele estar do desconhecido, apenas com a tepidez familiar da luz. Mas o rosto submerso na sombria alvura da divisão. Se ao menos um pouco de calor em si… Por uns momentos, sim, até à leveza reconfortante de um sonho sem corpo, deteve-se naqueles pregões iluminados de alvorecer. Se porventura um lhe passeasse pelo rosto… Por fim, cedeu a uma lei gravítica que nos impele a um regresso, sistemático, a algures de nós. No fundo, trata-se de uma queda. Sim, um pouco isso. Cedemos a um peso de outra ordem, e abandonamo-no...
Cansaço
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Compreendemos que a vida nos venceu quando a nossa maior ilusão ( “Vamos mudar o mundo!”) nem na memória se passeia, o hoje apenas resignação, brinda-se “ A tudo o que podíamos ter sido…”, logo eu que nunca fui de conformidades, porém, vejo-me a levantar o cálice neste brinde (“ A tudo o que podíamos ter sido…”), sim, estou cansado, vou interromper aqui, pelo menos por cinco anos, estas prosinhas, depois verei se lhes regresso, sinceramente não queria, chega, faz mais de dez anos que escrevo estes textos, o primeiro foi no dia 19/02/10, já se completou mais de uma década, é tempo de caminhar por outras paragens, ou de regressar, não sei, confesso, a vida há-de decidir, numa destas tardes, em conversa, levantou-se a memória de uma amiga que já partiu, tinha por hábito correr restaurantes e cafés onde degustava as especialidades do seu agrado, ora se deslocava a um pelo bife com queijo, ora ia a outro pela coxinha de frango, por norma tudo iguarias bem calóricas, nada contribuía ...
Almoinhas Velhas
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Lá muito ao longe, entre os montes, o azul ondulante, eu aqui, na varanda, a sentir o desamparo do momento, frases de há muito revisitam-me, hoje num sem-sentido, promessas, apenas isso, um vento entardecido murmura-me despedidas, o mundo num imenso adeus, eu a reflectir onde me perdi de mim, as certezas, pois, as certezas, edifiquei-as em meu redor como se muralhas para a vida, nem ruínas restam, tudo se desmoronou, num certo momento quis trazer passado ao presente, de outra forma, a infância ao hoje, as mais solares memórias de infância foram com os meus avós, lá longe, na aldeia, onde aprendi a olhar horizontes, com o tempo, intensificaram-se, os horizontes, para mim, habitante da cidade, num lugar lá atrás, os avós partiram, a porta da sua casa fechou-se irreversivelmente, depois foi a porta da casa dos pais a fechar-se, qualquer dia será a minha, porém, num certo momento, cresceu-me a urgência de trazer passado ao presente, de outra forma, a infância ao hoje, foi num desses enfado...
Quando o Sentir não se traduz em Verbo
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Hoje vi-o a descer a rua. Há muito que o não via. Está mais magro. Mantém aquele recente ar absorto, próprio de quem se sabe em palco. Sim, cada saída é sempre um levantar de cortina. E ele sabe-o. A vida, por vezes, impõe-nos isso. Não há como lhe fugir: um palco! Há quem defenda que a vida é, em si mesma, uma representação. Discordo. A vida é uma totalidade, por conseguinte requer palcos e camarins. Observei-o, no longe da discrição. Estava arranjado, claro, a cortina subira, devia ir às compras, mas o passo, sim, o passo, denotava uma qualquer hesitação, que talvez estivesse com o meu olhar, ou, de facto, naquela recente magreza. Lá ia, rua abaixo. Nada via, apenas interior de si. O que significa absorto? Apenas olhar-se… Quando me apercebi, a cortina descera. Não fui a tempo dos aplausos. Já tinha passado. E eu, preguiçoso, ainda sentado na plateia. Levanto-me. Resolvo descer aos camarins. Talvez ele esteja por lá. Procuro-o. Não o encontro, apenas rostos desconhecidos. Um consta...
Os Invisíveis
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Ouviram um barulho pela casa, passos e simultaneamente algo a ser arrastado, entreolharam-se, mas podia ser numa casa vizinha, gradualmente os passos a aumentar, a aumentar, os arrastares também, agora vozes, eles (em que parte da casa estariam?) já em espanto, a sair do quarto, do cimo das escadas viam um entra e sai constante, sujeitos a levar móveis, sofás, quadros, objectos, tudo a ser-lhes retirado sem um aviso, uma palavra, nada, a incredulidade inicial deu lugar à indignação, desceram as escadas, entretanto, para aí a meio, um sujeito cruza-se com eles, subia em direcção ao quarto, parecia nem vê-los, como se não existissem, tal o foco do seu olhar no cimo das escadas, estranharam a ausência, pelo menos, de um cumprimento, a mais elementar prova de educação, foram perpassados por um frio profundo quando se cruzaram com o sujeito na escada, no piso térreo havia perto de uma dezena de desconhecidos a retirar tudo o que vissem da casa, estavam incrédulos (Mas o que é isto? ...
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... com o que hoje sei, nessa noite seria eu que estaria, em cima da moto, à porta do prédio dela, mochila às costas, pelo menos com vinte minutos de antecedência, à espera que descesse, assim que os nossos olhares se encontrassem, haveria um espelho de janelas iluminadas, uma frase espontânea “Estás preparada?”, sei a sua resposta, ela devolver-me-ia a questão, sei de cor a minha (“Esperei uma vida por este momento!”) in Janela para a noite
Janela para a noite
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As viagens que mais perduram em nós são as que não realizámos, há uma que não pára de ganhar espaço em mim, como se uma condenação, uma viagem rumo a Norte, creio que nenhuma outra terá a mesma relevância na minha biografia, até pelas linhas que já lhe dediquei, uma viagem por realizar, de facto, a mais duradoura, talvez o título mais apropriado para esta crónica fosse “Uma viagem por realizar” , sem dúvida, porém, optei por outro, e não por acaso, a melhor fase da minha vida foi quando senti o sabor da noite, há algo de transcendente nas coisas sob o manto nocturno, tudo surge sob uma outra claridade, que o dia ofusca pela inclemência da luz, basta reflectir que impossível é um dos vocábulos mais inusuais ao luar, afinal é quando se levantam os sonhos...
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Ele era diferente! Havia nele, simultaneamente, uma alegria contagiante e uma tristeza melancólica, tão estranho… Por vezes, dava-lhe, subitamente, para revisitar lugares do passado, como se vivesse em vários tempos, não sei se me faço entender… Talvez fosse o contrário, e quisesse apenas trazer o ontem ao hoje. in Harmonia
A desencantada procura por “um não sei o quê”
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Desde que me lembro, sempre que chegava a um lugar novo, fosse para férias ou de visita, uma frase nascia-me (“Afinal, é só isto…”), a minha atenção com o além logo transformado num aquém assim que lá chegasse (“Afinal, é só isto…”), uma urgência de partir, mas não de regressar, afinal só se regressa a casa, talvez seja esse o meu problema, ainda não encontrei o lar, para aqui ando de dia em dia num crescente enjoo de tudo isto, o pior, creio, seja a consciência deste enjoo (o além logo transformado num aquém), nada me ater ao aqui, quantas vezes a inveja dos que partem, por se cumprirem, realizarem, talvez por se libertarem do enjoo de tudo isto, e que fardo, há uns tempos alguém me disse que as maiores tragédias e guerras que travei na vida serviram-me unicamente de distracção, a evidência de uma verdade leva o seu tempo, porém, esta foi quase imediata, não podia estar mais certo, de facto há tanto que me fujo, e desconheço o motivo...