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A mostrar mensagens de abril, 2023
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...  reparo que algo me ilumina a palma da mão, talvez um vestígio de alma derramado, a garantir-me que uma manhã sempre se levantará após a noite… in A distância suaviza o olhar

A distância suaviza o olhar

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  Enquanto ele falava, no fundo, aquilo que há muito sabia, afinal, nunca se espera o que se ignora, eu detinha-me numa qualquer outra coisa, algures entre a janela e o seu ombro, um ponto indeterminado onde pudesse aportar uma angústia que pressentia aproximar-se, ele ainda com questões técnicas, pois, para as outras não havia rasgo, ainda as esperei, em certos aspectos, não sei porquê, continuo a olhar o mundo pela janela da minha Escola Primária, mas, por ali, os esquemas dos compêndios sobrepuseram-se às curvas do sentir, terminada a prelecção, sei que o meu rosto impassível, o dele expectante por uma reacção minha, permaneço algures por aquele ponto indeterminado onde pudesse aportar uma angústia que pressentia aproximar-se, neste momento, uma mão pousa, numa demasiada suavidade, sobre a minha, como se por ela um sentir interrogativo, entretanto ele Compreendeu o que tem de fazer? E eu que há muito desistira da compreensão, percebi que esse não é o caminho, opto por uma saí...
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 ...  acredito que morrer começa quando perdemos os motivos para aqui continuar, como se fôssemos perdendo a bagagem ao longo da jornada, até nada restar... in Deslumbramento
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  ... a o olhar para trás, perduram, em nós, de forma vívida, quatro ou cinco momentos – aqueles em que, de facto, a vida decidiu contemplar-nos com aquilo a que nos habituámos a ouvir de magia , por outras palavras, de deslumbramento… in Deslumbramento
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 ...  e, sempre, no fim de tudo, uma pedra erguida do chão no lugar de sonhos caminhantes... in O nosso tempo nunca é o tempo dos outros

O nosso tempo nunca é o tempo dos outros

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  Perdi o tempo da viagem, talvez por encontrar o outro tempo, enquanto o retrovisor me espelha curvas, copas e mais copas, muito fugidiamente um vulto, debruçado sobre a terra a semear amanhãs, casas, terras, daquelas que apenas sabemos o nome por ali passarmos, numa inevitabilidade da viagem, mas, em verdade, as terras são todas iguais, olhares que se cruzam, corações que se sorriem, caminhos que se desviam, vozes que se emudecem, costas em vez de rostos, e, sempre, no fim de tudo, uma pedra erguida do chão no lugar de sonhos caminhantes, pouco mais há, uma praça, uma fonte, um miradouro, isto é do ver, o antes é pertença do sentir, e é isto que me faz estar ao volante há horas esquecidas, ela, a meu lado, porém, não sei em que tempo ela, continua a falar-me, desde a primeira curva, há demasiadas horas atrás, ainda não cessou, amiúde, uma frase suspende-se Já viste a alegria da tua mãe com um netinho nos braços… E a minha, coitada, com medo de partir deste mundo, sem esse sonho...
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  - Deixa estar. Tenho de ir. Chega de equívocos! Eu abraço o passado, o teu irmão optou por abraçar o momento, tu só queres abraçar o futuro… Como vês, olhamos em direcções opostas. Tenho de me apressar, alguém lá atrás espera-me, numa madrugada, para reiniciar uma sempre adiada viagem. Não posso adiar mais! Tenho a certeza: foi ali que me perdi de mim. in Deslumbramento  
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  O amor não é um ideário, mas sim acto, repara: o amor tem cheiro, respira, envelhece… A ideia não. Já viste alguma ideia envelhecida? in Deslumbramento
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 ...  chega-se a uma idade em que já ninguém pergunta a razão da partida, parte-se e acabou (cansaço, saudade, desgosto, às vezes, para não enlouquecer, de tanto ouvir a própria voz)... in  Deslumbramento

Uma pedra, uma palavra

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  Estou a vê-lo, neste momento, a estacionar o carro, no lugar do costume, debaixo do candeeiro, sempre com medo dos roubos, não perdeu aquele hábito de retroceder, pelo menos uma vez, para endireitar o carro, agora sai, pousa a carteira no tejadilho, acho-o mais curvado, não sei porquê, afinal, não passou tanto tempo assim, vasculha o interior com o olhar em busca de uma traição da memória, fecha a porta, guarda a carteira, eu, do outro lado da rua, saio do meu carro, chamo-o, não muito alto, ele naquele seu peculiar passo arrastado a caminho do prédio, talvez não me tenha ouvido, resolvo gritar o seu nome, detém-se, por momentos, receio que rosto vou encontrar, todavia, não abrando a passada, faltavam-me cerca de dois metros, quando ele se vira, não sei porquê, mas opto por me imobilizar, o discurso que havia elaborado, com toda uma sequência frásica, a diluir-se perante aquela face, ou talvez pelo horizonte de passado que o seu olhar derramou, eu… eu… bem, eu queria dizer-lhe ...
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Adeus, Peida-Sentada

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Caros leitores, bem sei que, há uns tempos, quis terminar esta série da Peida-Sentada com uma trilogia, porém, acontecimentos recentes e, por sinal, imperativos, obrigam a mais esta crónica, assim sendo, fica a promessa de se finalizar esta série com uma tetralogia, mas uma questão já deve pairar nos espíritos dos leitores: que acontecimentos recentes suscitaram tão imperativa crónica? Bom, aqui chegados, creio que o título seja elucidativo (“Adeus, Peida-Sentada”), aos poucos, naquele curral, a Peida-Sentada foi perpassando, às suínas mais próximas, que estava de partida, iria deixar o curral, até ali seu, ninguém transpareceu desgosto com a novidade, tal facto não passou despercebido ao Mocho, no seu elevado ramo, não vá algum dejecto apanhá-lo, e por ali são tantos, que cogitava: saindo do curral, para onde irá a Peida-Sentada sentar-se? Amiúde e em surdina, porcos e porcas comentavam este facto, várias teorias se levantaram para justificar a saída, houve quem apontasse o esfriar de...
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É impossível isso da perfeição dentro do horizonte humano, creio, em certa medida, que nós somos o produto mais inacabado do universo. in Deslumbramento
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...  iludem-se também os que, no casamento, julgam dizer sim apenas a quem está a seu lado, no fundo, dizem sim a toda a sua biografia: família, amigos, vivências, sonhos, terrores, anseios, saúde, doenças, sonhos, pesadelos… in Deslumbramento
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...  a vida é uma longa descida, até à sepultura, enganam-se, e muito, aqueles que equiparam a vida a uma montanha, nada disso, apenas uma longa, longa, descida, por vezes íngreme, outras mais suave, mas o abismo como destino, só tarde nos apercebemos desta realidade... in Deslumbramento

Quem é aquele, parecido comigo, que me olha do fundo de um copo?

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  Há lugares que, sem sabermos muito bem como, se tornam nossos parentes, talvez por, enquanto caminhamos por essas ruas, uma voz, sussurrante ao ouvido, nos aquietasse angústias, ao mesmo tempo nos relembra que, ao menos, por ali, já desejámos amanhãs, ele, neste momento, encontra-se num desses sítios, sentado a uma mesa, suficientemente afastada da entrada, pelo menos o sol não chega e a lua não relembra lar, sabe que inclina a garrafa pela segunda vez, mas não se lembra da primeira, é curioso, a convicção sem a memória, não olha à sua volta, apenas o copo, e a garrafa, apesar da perspectiva geral da sala, desta vez, o copo mais lentamente, quer saborear aquele gosto crescente da distância das coisas, algo em si se aquieta, subitamente, repara no seu olhar aparecido no fundo, não é a primeira vez que se olha, e se estranha, mas, hoje, há uma qualquer diferença, antes evitava olhar-se, mesmo ao espelho nunca, em verdade, se olhou, afinal, observar não é olhar (o que vê ele, após...
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   Uns procuram, por uma vida inteira, recuperar o seu rés-do-chão alugado, outros vivem existências de montra, a maioria procura incessantemente engordar a carteira, outros buscam protagonismo onde podem, por regra no trabalho, (...) ainda há os que preenchem o vazio do tempo, uma das mais duras batalhas, estes já possuem outra consciência dos factos, estão acima dos anteriormente elencados, compreenderam o logro do circo social, por fim, há os sonhadores, onde me revejo, um instante da existência justifica o todo, e aí procuram regressar a cada instante. in Deslumbramento

A emoção espera sempre pelo pensar

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  Quando se apercebeu, já se debruçava sobre o filho, no berço, a seu lado, com esta, talvez a quarta ou quinta vez que, esta noite, o socorria de uma febrezita, quem sabe um dente, os braços dela longos, como ramos a sombrear o viajante que se sabe esgotado, naquele socorro espontâneo, por uma luz que só ela via, talvez por a saber sua, a colher de xarope, o choro, ela numa vertigem de cansaço, pelo canto do olho a procurar as horas no despertador, os números, vermelhos, naquela frieza de uma indiferença surda, passavam uns minutos das quatro da manhã, lá fora, percebeu a camioneta do lixo, as tampas abertas e fechadas como se dia, o pára e arranca da viatura, o esforço metálico de içar o caixote, os urros dos homens, tudo numa sequência orquestral, ela a questionar-se do porquê daquela hora, no fundo, aprendera a familiarizar-se com os sons da madrugada, o xarope silenciara a criança, por quanto tempo, questiona ela, daí a pouco mais de duas horas teria de se levantar, desliga ...