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A mostrar mensagens de novembro, 2023

O pântano da alternadeira

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Já ouvi, em tempos, alguém afirmar que as rameiras ajudam à sobrevivência de muitos casamentos, pois, é possível, à luz desta premissa, hoje vamos falar de “O Pântano”, uma conhecida casa-de-alterne, gerida, como é natural nestes contextos, por uma hábil alternadeira, dizem as más-línguas que, há uns anos, soube ardilosamente envolver-se com um velho, de carácter deveras manhoso, dizia-se, por aquelas bandas, que a preparou cuidadosamente para o cargo, era uma mulher baixa, com umas ancas de égua, um rosto de suína deveras desagradável, o cabelo, se assim se podia denominar, uns fios sebosos num constante desalinho, quanto à indumentária, o normal de uma alternadeira, uma efémera tentativa de parecer o que não é, dos pés à cabeça nada lhe assentava condignamente, a rotunda volumetria apenas um desafio para as costuras, não havia dia em que o velho, de carácter deveras manhoso, não fosse visto a entrar na casa-de-alterne, apenas ia para contabilizar os proveitos, há muito que a natur...

O Lou Ferrigno do Areal

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Fui eu, confesso, que o apelidei de Lou Ferrigno , não por acaso, era a antítese paradigmática deste culturista, o aspecto, logo ao primeiro contacto, que dele ressaltava eram as gigantescas favolas , os incisivos-centrais conferiam-lhe uma indesmentível aura de Bugs-Bunny , não me recordo de o ver de boca-fechada, era-lhe, de facto, uma impossibilidade congénita, não sei porquê, mas agora que escrevo estas linhas sobre esta personagem, havia nele uma silenciada ansiedade que lhe estendêssemos uma ou mais cenouras, para logo materializar o porquê daquelas proeminências dentárias, tratava todos por senhor ou senhora, só depois o nome, um aspecto de ruralidade enternecedor, vestígios indeléveis das suas origens, os pais tinham um café, um eufemismo, em larguíssima percentagem, para tasca, era este o caso, é facílimo aferir se estamos perante um café ou uma tasca, se entrarmos, basta atender ao aspecto dos clientes em volta, para quem lá trabalha, se o número de cervejas, ou jolas, conf...
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Gostaria de não cair no vazio da monotonia

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  Há muito que não passava por aquela janela, sem saber muito bem como, hoje fui lá dar, ali fiquei, parado, a olhá-la, por não sei quanto, ainda bem, gosto de desaprender o tempo, cada vez mais, talvez não seja bem isso, porque só se desaprende o tempo quando pousamos a mala do existir, e a janela, hoje, não sei porquê, parece-me mais longe, embora eu no mesmo ponto de antes, a olhá-la, por não sei quanto, de fora, tudo igual, ou talvez não, mas por dentro, de certeza que diferente da minha memória, a janela também hoje uma outra, porque o olhar, de antes, já tão longe, e a distância fê-lo outro, nem sei em que ponto se perdeu, sempre que nos apeamos no caminho, lá vem, despercebidamente, aquela questão, como se os seus passos sob o silêncio de sombras ( E se tudo uma outra coisa? ), é uma pergunta recorrente ( E se tudo uma outra coisa? ), não lhe sei responder, persisto na janela, nisto, um candeeiro da rua relembra-me noite, a janela, no entanto, ainda por iluminar, de repent...

Que pena uma folha conter duas páginas…

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  Do que me lembro melhor, é do quarto, com as duas camas, a da minha mãe do lado da janela, quase sempre com a cortina corrida, em verdade, não me lembro, nem por uma só vez, de abrirmos a janela, só lá ia quando uma ambulância acordava o mundo com a sua dor, de resto, permanecia fechada, quase sempre com a cortina corrida, não sei por quanto tempo ali estive, talvez uns dois anos, talvez uns três, ou mais, não posso precisar, mas foi há tanto, há tanto que minha mãe ainda viva, sei que o prédio tinha três andares, ficava numa dessas ruas de Lisboa que apenas conhecem a sombra, seja manhã ou tarde, o elevador, que tinha uma armação metálica, com porta, bastante trabalhada, em cada andar, nunca o vi funcionar, acho que adormecera entre o segundo e o terceiro andares, restava-nos a escada, é curioso, a minha mãe jamais questionou a senhora velhota, a quem pagava o quarto, pelo adormecimento do elevador, acho que por, de vez em quando, se atrasar com as contas, a tal senhora também...
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Subterfúgio

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  Há uns tempos escrevi que o tempo não existe , a melhor prova disso é a memória, num repente, levanta-se-nos um momento ido, e ali estamos, como se nunca tivéssemos partido , mudado, daí o constrangimento quando nos cruzamos com rostos do passado, esta verdade em nós (ali estamos, como se nunca tivéssemos partido), mas jamais assumida (o tempo não existe), e, do nada, surgem-nos ao caminho episódios que julgávamos idos no rio do esquecimento, há uns dias deparei-me com um, da perplexidade inicial até um sorriso ainda demorou o seu devido tempo (ali estamos, como se nunca tivéssemos partido), andei, durante esse período, a matutar no título desta crónica, primeiramente pensei: “O carro-preto”, já lá iremos; como segunda hipótese: “Ruas desertas na madrugada”; andava pela feliz altura onde o horizonte se povoava de brinquedos, por outras palavras, de sonhos, quem troca um horizonte de sonhos por um de problemas? Pois, o mundo dos adultos é muito aborrecido, já o afirmava em cria...
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  Somos hoje o nada do amanhã. in Anoiteceu
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O sentido das coisas

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  Há perguntas que sempre o irritaram. Mas nenhuma supera aquela que o obriga a pensar-se ( se está bem, como anda, o que tem feito ), talvez porque obrigue a regressar, numa demasiada rapidez, ao agora, exactamente de onde ele parte sempre que possível, todos os dias, antes de regressar a casa, de mãos nos bolsos, passeio fora, lá vai, naquela passada que proclama um indisfarçável fastio pelas coisas do mundo, aquela frase que lhe ouviu há tanto, há tanto que lhe parece numa outra vida, e nós que tantas vezes morremos nesta para regressarmos sempre tão subtraídos, embora uns afirmem que regressamos sempre fortalecidos, tolos, apenas isso, a frase dela Eu não durmo com amigos , tão reveladora, lúcida, transparente, porém, na altura, ele aquém destas inferências, a levar as coisas para bem longe, sinal de que ela era séria, de confiança, responsável, felizmente com princípios e valores, isso é bom, muito bom, Eu não durmo com amigos, ainda hoje ressoa por ele, mas se, por um acaso,...