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A mostrar mensagens de outubro, 2025

Eu

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  Uma questão que jamais me colocaram, e sem dúvida a mais essencial, foi: “Quem és tu?” Em verdade, quantos já se confrontaram com esta pergunta? Raros, calculo, raros, perante tal pergunta ( “Quem és tu?”), logo se me iluminam possíveis respostas , meu Deus, fui e sou tantos, o que rosna um cumprimento ao vizinho com que antipatiza, sorridente para a septuagenária, do terceiro-andar, com que engraça, facilmente irascível com azémolas ao volante, melancólico ao entardecer, sonhador com melodias do ontem, agressivo com os velhacos do hoje, obstinado, enfim, tantas possibilidades para uma singela questão: “Quem és tu?” O que nos caracteriza mais: os amores ou os ódios? Os amores espelham-nos, os ódios repulsam-nos, algures numa indistinta zona, entre estes dois aparentes sentires antagónicos, esteja a nossa essência, creio que, num certo ponto da caminhada, perdi o meu Eu, sei onde ficou, embora, se lá voltasse, a certeza de não o encontrar, as coisas nunca ficam onde as deixámos, ...
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 ...  desde então, não há semana em que não visite a caixa de sapatos, abro-a e disponho as fotos por cima da colcha: fico a olhá-las e, por vezes, lembro-me, não sei porquê, dos velhos nos jardins da cidade, entre pombos ávidos e sombras indolentes, em conversas do ontem para calar a dor do hoje... in Da arte de viver
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O carácter transitório das coisas

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  Há qualquer coisa, numa manhã de céu encoberto, estranha, como se a noite ainda por ali, a adiar a sua partida, subiu a extensa escadaria para o trabalho, não diria conformado, mas abnegado consigo mesmo em cumprir um imperativo muito seu, sempre os mais relevantes, parou para um café, surge-lhe aquela colega, mais velha, que o tempo ensinara a respeitar, ela “Faleceu a minha mãe,” ele prontamente “Os meus sentimentos,” não sem antes a punhalada de um despovoar de palavras, afinal “Faleceu a minha mãe,” a morte de um estranho apenas uma informação, tão distinta da morte de um conhecido, quanto mais de alguém que tem lugar reservado no nosso coração, ele a reflectir nas dores que nos estão vedadas, “Faleceu a minha mãe,” sempre por uma dor tão maior que se esvaziou, e a morte, ao contrário do que se julga, sabe-a quente, harmoniosa, pacífica, somente a ouviu, os quilos perdidos, as viagens para a aldeia, limitava-se a anuir e a um ou outro lugar-comum, pouco mais, há dores que nos...
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Da arte de viver

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  Lembro-me de uma frase, acho que a li em casa dos meus avós (“Um dia, quando eu morrer, não quero choros nem gritos…”), estava numa jarra pendurada na cozinha, sempre pensei, um dia, retirar dali a jarra para ler o resto da frase, ocultado pela parede, nunca o fiz, guardei para um amanhã que nunca amanheceu, o que se seguiria a “Um dia, quando eu morrer, não quero choros nem gritos…”? Não me lembro do meu pai, nem da voz, sempre o que perdura em nós depois de tudo, dos gestos, da forma de andar, de ser, sobretudo de quem ele afinal era, nada, às vezes, na escola, talvez pela surpresa, talvez por simples crueldade, os colegas “Ao menos, lembras-te do nome? Ou nem isso?” Do nome, sim, e do rosto também, até há pouco, volta e meia, dava por mim a abrir uma caixa de sapatos onde a minha mãe guarda as fotos, há duas lá do meu pai, numa está abraçado à minha mãe, noutra comigo ao colo, e é tudo… Há quem ache pouco, mas, para mim, é tanto… Que fazer? Confesso que não visito a caixa ...

Hoje não me apetece respirar…

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  Hoje trouxe esta ideia comigo da almofada, acho que me surgiu entre sonos, “Revisitar um lugar onde fui outro”, algures por aí, percebi que os anos não me esqueceram quando, há uns dias, dei por mim a mandar calar todos para ouvir o Telejornal, até me assustei, “Eu queria ouvir o Telejornal”, mas isso só interessa aos velhos, pensava eu em criança, e logo adicionava outra certeza, “Eu nunca hei-de ouvir um Telejornal”, afinal, para quê? Aquilo não tem interesse nenhum, só via uns sujeitos de fato, aborrecidíssimos, que não se calavam… Nem vislumbres de heróis, lutas dramáticas, suspense, tudo pintado com a cor da meninice, e a minha certeza: “Eu nunca hei-de ouvir um Telejornal”. Corri para um espelho, e por ali me quedei, atónito, “Estarei a ficar velho?” ou “Afinal, que idade tenho eu?”, estas e outras questões por mim, estarrecido com os auspícios de uma evidência nascida do acaso (“Eu queria ouvir o Telejornal”), estarei eu a ficar aborrecidíssimo? Será que não me calo? Emb...
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   A vida é isto: no fim, nem as pedras se vão lembrar de nós.  in Parece que foi ontem

Parece que foi ontem

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  E é assim… Pois, sabe como é? A vida é isto mesmo! Um dia estamos lá em cima, e, de repente, caímos. Não há nada a fazer, temos é de nos levantar de novo e caminhar, custa, bem sei, mas não temos outra opção. Você, hoje, olha para mim e não imagina quanta gente tive à minha responsabilidade. É que não imagina mesmo! Eu era o responsável pelo sector do pessoal! Quase duas centenas de pessoas, isto só no distrito de Lisboa. Agora pense a nível nacional quantas seriam, pois é… Sabe, sinto falta daquilo, embora não fosse feliz. É curioso, não é? Sentir falta de algo que não nos traz felicidade, não sei como o dizer, hoje só me resta olhar o vazio de frente, naquela altura apenas o sentia andar à minha volta, talvez fosse isso, mas nunca o tinha enfrentado, muito menos olhos nos olhos como agora o faço. E olhe que não é fácil, nada fácil mesmo… Costuma-se dizer para aí que só damos valor às coisas quando as perdemos, eu repito, para quem me quiser ouvir, que sinto falta daquilo, emb...
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