Eu
Uma questão que jamais me colocaram, e sem dúvida a mais essencial, foi: “Quem és tu?” Em verdade, quantos já se confrontaram com esta pergunta? Raros, calculo, raros, perante tal pergunta ( “Quem és tu?”), logo se me iluminam possíveis respostas , meu Deus, fui e sou tantos, o que rosna um cumprimento ao vizinho com que antipatiza, sorridente para a septuagenária, do terceiro-andar, com que engraça, facilmente irascível com azémolas ao volante, melancólico ao entardecer, sonhador com melodias do ontem, agressivo com os velhacos do hoje, obstinado, enfim, tantas possibilidades para uma singela questão: “Quem és tu?” O que nos caracteriza mais: os amores ou os ódios? Os amores espelham-nos, os ódios repulsam-nos, algures numa indistinta zona, entre estes dois aparentes sentires antagónicos, esteja a nossa essência, creio que, num certo ponto da caminhada, perdi o meu Eu, sei onde ficou, embora, se lá voltasse, a certeza de não o encontrar, as coisas nunca ficam onde as deixámos, ...