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A mostrar mensagens de 2021
Carta sem Selo
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Ele senta-se a seu lado. Ela permanece impassível, a olhar em frente, de vez em quando a cabeça oscila, como se uma idade de meses, mas não, talvez poucos meses para deixar de ter uma idade, e apenas duas datas, ele olha-a com um carinho preocupado, recosta-se no sofá, pega no jornal, ela com a televisão, mas talvez num qualquer outro lugar, o gato insinua-se pela porta da sala, num silêncio suave aproxima-se, salta para o colo dela, mas sempre a televisão, talvez nem isso, uma qualquer outra coisa, o gato, com o movimento, a descair-lhe a colcha do colo, ele pousa o jornal, antes tem o cuidado de o dobrar, levanta-se, apanha a colcha, e, na ternura singular de um gesto, devolve-a ao seu regaço, regressa ao lugar, a televisão a debitar anúncios, há muito que ele desistira daquele rectângulo hipnotizante, costumava dizer-lhe, antes de ela ser uma ilha, Dali nada de bom… Ao menos o jornal forçava-o a decifrar símbolos linguísticos, sempre era um exercício, de vez em quando, vira...
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Uma fotografia é um relógio sem ponteiros Chegou o dia. Afinal, tudo acaba por chegar. O tempo é um rio sem barragens. Mesmo quando já não o esperamos, algo aporta na margem de nós. Por regra, sempre um escolho do passado, que olhamos num anacronismo indisfarçável, como se uma peça de vestuário que há muito já não nos serve. Esta é uma das ironias da vida: na praia da nossa desolação apenas despojos anacrónicos do que fomos… Sempre o passado. Nunca uma luz a anunciar o amanhã. Ele a olhar o calendário, numa incredulidade singular. Agora, a levantar-se, uma mão, encostada à parede, a firmar o pensamento, por fim, decide-se, não há muito mais que fazer, sim, é isso, terá que optar por aí, que outras possibilidades lhe restam? Fecha a porta decididamente, e estuga o passo rumo ao destino do seu pensar. Àquela hora da manhã, a circulação é ligeira nos corredores largos, ele a empurrar um veículo metálico, de quatro rodas, que teima, numa estranha obstinação, em ir de encontro às pr...
Não te esqueças de regressar
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Chegou aquela hora, que sempre queremos adiar, com mais um copo, uma palavra, um vislumbre, rápido ou demorado, um qualquer passo, de nos sabermos irreversivelmente sós. É, de facto, da nossa essência, esta orfandade devidamente silenciada pelos ululantes gritos do mundo. Ela ainda na cozinha, pano da louça na mão, sempre algo fora do sítio, como se as coisas resistissem, de forma obstinada, a uma arrumação sentenciada. A casa já em silêncio. Apenas um murmúrio visual proveniente da televisão da sala. Não chega para lhe perturbar a corrente do pensar. Mais um garfo, um prato, um copo, aquele banco que insiste em fugir de debaixo da mesa, a porta do armário da louça que não fecha, desliza num lamento infantil, por fim, ela a sós com o pano, nada fora do sítio, talvez ela sem um lugar, ou tê-lo-á perdido? Olha pela janela. O candeeiro, que brota do passeio, não chega para disfarçar a noite. De vez em quando, o som de um carro, um latido de abandono, passos, vozes, a televisão de ...