Livros do Escritor

Livros do Escritor

sábado, 30 de maio de 2026

Carne-podre aos cães e às cadelas

 


Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Porcachona, não estava há muitos anos no canil, no entanto, destacara-se, de múltiplas formas, na serventia aos seus amos, foi lesta a abocanhar a carne putrefacta, essa cadela até os ossos engolia, nada lhe escapava, por algum motivo muitos questionam se anda ou rebola, o segundo pedaço de carne-podre caiu ao lado de um rafeiro conhecido por Tintim, esse tem muitos anos de canil, apesar da rafeirice, é um mamífero delicado, e, pelo que se constata, um fiel servidor das ordens dos seus donos, abocanhou a podridão que lhe coubera, ao contrário da cadela Porcachona, com delicadeza, até as varejeiras que cobriam o despojo se sentiram honradas, o terceiro pedaço de podridão foi parar ao lado de um rafeiro de nome Manguinhas, esse ladrava muito nas costas dos donos, porém, na sua frente é vê-lo a abanar a cauda e a rebolar para seu deleite, quem não se enterneceria com tal submissão?! Este rafeiro já avoluma uns anitos neste canil, sempre com o mesmo registo, ladra alto dentro de portas, mas assim que se abrem, é ver-lhe a cauda em movimentos-horizontais e a rebolar, o quarto pedaço de carne-podre caiu próximo de uma cadela Zarolha, tem poucos anos de canil, registe-se a meteórica ascensão, assim que os donos lhe decretam uma ordem, é vê-la a cumprir escrupulosamente, em correrias pelo canil a ladrar para os demais, gosta, pelo que se vê, de rafeiros velhos e obesos, e também gane muito nas costas alheias, nada de novo neste canil, o pedaço de carne-podre seguinte, o quinto, caiu em frente a uma cadela velha, não obstante o carácter rafeiro, uns laivos de cadela de raça inglesa, apenas isso, uns laivos (que fazer?), olhou o a carne-podre como se um não assunto, embora salivasse por todos os lados, não tardaria muito a retalhá-la, a sua volumetria assim o exigia, outra fiel servidora dos donos do canil, a sexta putrefacção quase atingia uma cadela que tinha uma coleira com uma cruzinha, de início ainda questionaram a possibilidade de donos, um logro, uma digníssima rafeira, assim que algum incidente pelo canil, é vê-la em correrias a ladrar à procura dos donos, talvez seja das cadelas que mais quilómetros por ali soma, um descanso para os seus amos, nada por aqueles lados ocorreria sem que esta cadela prontamente não lhes noticiasse, muitos outros cães e cadelas acabaram por receber o seu putrefacto naco, escusado será referir que muitas varejeiras foram engolidas por estes rafeiros, estão habituados a engolir o que os dignos vomitam, assim se sobrevive neste canil, o sétimo pedaço de carne-podre calhou a uma cadela que ladra sobre quem desconhece por inteiro, há múltiplas por ali, a providência aconselha cuidado, infelizmente, por estes dias, é dos fenómenos mais pródigos, cães e cadelas a ladrar sobre desconhecidos, coitaditos, entre portas todos ladram alto, agora se tiverem o infortúnio de estas se abrirem… Os donos olham estes rafeiros com júbilo, cumpriram o que lhes foi ordenado, mereceram o naco-podre, não fossem estes, outros haveria na ânsia de um lugar com cobertura, mais próximo da comida, entre outras regalias, e os passeios, claro, como estes cães e cadelas gostam de passear pelos campos adjacentes, para quem ignora como se gere um canil de rafeiros, aqui vos deixo este manual de instruções, quanto às varejeiras, como por estes dias se diz: “um infeliz dano-colateral”, nada que perturbe a digestão desta matilha rafeira.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Ali onde não há ontem nem amanhã

 



De vez em quando, regresso-me àquele lugar, não sei porquê, no acaso do dia, a imagem irrompe pelo meu pensar, e ali me fico, de novo, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância. Quando férias, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, sempre com a mesma argumentação, de tão repetida, já lhe conheço a sequência, as noites frias, a escassez de diversões, a água gelada, o vento, sempre o vento, constante, no fundo, é mais uma brisa, mas ela, logo, a exponenciar a coisa, por vezes, devido à convicção das suas afirmações, quase acredito que um desconfortável vento frio no lugar de uma reconfortante brisa do entardecer. Mas, como é sabido, qualquer relacionamento é um incessante confronto por uma ascensão face ao outro, por muito que se argumente em contrário, para se sentir é preciso ser-se, e só se é na afirmação, naquilo que nos adiciona, contudo, há muito que capitulei neste digladiar, não me recordo em que momento percebi a minha erosão, regra geral, estas coisas revelam-se nos aspectos mais ínfimos do existir, precisamente os que não olhamos, ou que só percebemos tardiamente, era mais ou menos por aqui que eu andava, a rotina de cada dia só me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, há tanto que novidade era uma palavra estrangeira no meu léxico, uma dessas que gradualmente colocamos na margem por não consubstanciarem a nossa realidade quotidiana, como esses objectos atirados para os fundos de uma despensa, por escassez de uso ou uma inutilidade súbita, porém, se um acaso me surgia ao caminho, e eu teria de me desviar da minha rota diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, logo uma inquietude me invadia, como se estivesse de partida para um lugar inóspito, sem vislumbres de regresso, não foi da primeira, nem da segunda vez, confesso, que me apercebi deste meu paradoxo, levou o seu tempo, como tudo nesta vida, queria tanto uma coisa, mas assim que se me apresentava ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse logo esvaído, o olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Nesses momentos, que satisfação regressar àquele lugar, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, e eu também uma parte daquele todo, ali sabia-me em casa, há cada vez menos lugares, neste mundo, com sabor a lar, sempre que o tema férias lá por casa, o destino a escolher, eu, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, com a batida sequência de argumentos, inicia, então, a apologia daquela costa mais a Sul, para onde converge quase toda a espécie lusitana no mês de Agosto, já lhe conheço a sequência, as noites quentes, a abundância de diversões, a água tépida, a escassez de vento, eu nem contrapunha, limitava-me a recordar o último Agosto, nem por acaso ali passado, naquele lugar a Sul, os preços com números mais robustos, a quantidade de gente e carros, à minha volta, só me trazia à memória um banal dia de trabalho, mesmo a arquitectura disforme dos edifícios, o predomínio de betão em qualquer horizonte olhado, o barulho, por todo e qualquer canto, num absurdo crescente, e filas e mais filas, para comer, compras, estacionar, mais filas ainda, pois, eu, não raras vezes, a pensar Será este um banal dia de trabalho? Afinal, quem pode chamar isto de férias? A certa altura, refugiei-me em mim, pelos miúdos mantive o mínimo de lisura, sabia que, lá bem no fundo, ela se tinha apercebido do seu erro, já não era mau de todo, confessá-lo é que seria coisa bem diferente, em momentos assim, mantinha a sua postura impassível, reparava que os seus gestos quotidianos, fosse com os miúdos, consigo mesma, se alongavam um pouco mais, o que denunciava, sem qualquer dúvida, um laivo de teatralidade, pois, só representa quem se esconde… Não raras vezes, nestes últimos anos, dou por mim a olhar à minha volta e, no horizonte, de mim para mim, apenas emerge a palavra: incompreensão. Como pode um tempo, supostamente destinado a repouso, ser consumido numa voracidade tal? Sem sequer haver um resquício de mudança de cenário? O rectângulo do hoje omnipresente à mesa, à beira-mar, na esplanada, aquando do gelado vespertino, nas compras, durante o jogo de raquetas na areia, no alto da falésia, como testemunha ocular de que ali efectivamente se esteve, no fundo, a atestar a pegada do hoje, e a palavra incompreensão, uma vez mais, a toldar-me horizontes. Volta e meia, ela com os miúdos, a estender-me aquilo, a atropelar palavras Vá! Despacha-te! Vê lá se nos apanhas a todos! Achas que ficou bem? É melhor tirares outra… Outras vezes, à mesa, eu em espanto perante alguém, que, por acaso, me fez deslocar a um altar e proferir juras de amor eterno, que fotografa, quase em êxtase, a sua refeição, os miúdos, são dois, diferença de ano e meio, também com aquela coisa nas mãos, jogos e mais jogos, alheados da sua circunstância, de si mesmos, dos outros, de existir, até há bem pouco, eu ainda vociferava que, à mesa, nem pensar estar com aquilo, porém, ela, de imediato, em socorro deles (Deixa-os estar! Queres o quê? Que fiquem ignorantes com as tecnologias? Pelo menos, estão aqui sob a nossa vista. Não andam por aí a fazer disparates… Anda! Deixa-os estar… Lembra-te: o mundo já é outro!), não podia estar mais errada, nunca os achei tão distantes, contudo, há muito que capitulei neste digladiar, não me recordo em que momento percebi a minha erosão, regra geral, estas coisas revelam-se nos aspectos mais ínfimos do existir, precisamente os que não olhamos… Mas aqui estamos os quatro, num Agosto irrespirável, neste lugar a Sul, os preços com números mais robustos, a quantidade de gente e carros, à minha volta, só me traz à memória um banal dia de trabalho, mesmo a arquitectura disforme dos edifícios, o predomínio de betão em qualquer horizonte olhado, o barulho, por todo e qualquer canto, num absurdo crescente, e filas e mais filas, para comer, compras, estacionar, mais filas ainda, continuo sem conseguir desacelerar o pensamento, nem um pouco, e como eu preciso repousar de mim! Que saudades daquele lugar, acho que nunca dali parti, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância, a olhar rostos velados por aquele rectângulo, nem ouso uma frase, levanto-me, ela nem repara, os miúdos ainda menos, vou até à varanda, o dia legou os despojos de calor à noite que se aproxima em passos hesitantes, nem uma brisa a relembrar outras paragens, o próprio tempo parecia recuperar o fôlego para a sua obstinada caminhada, esvoaçam por todo o lado as aves do estio, recordo as vezes em que quis tanto uma coisa, mas assim que se me apresentava ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse logo esvaído, o olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Hoje, o que mais me intriga é a morte do desejo, porque a seguir vem o sonho… E como é trágica a morte de um sonho! Quanto de nós fica nessas cinzas tristemente arrefecidas? Demasiado, sem dúvida. Se ao menos o meu olhar, por uns instantes, num voo desses viajantes entardecidos. 

quarta-feira, 20 de maio de 2026


 

- Humor e beleza nasceram para se partilhar… Riso e deleite, no singular, estão condenados à esterilidade. Não concordas?

in Nuvens passeantes pelas águas

quinta-feira, 14 de maio de 2026

O manguinhas-de-alpacas


 

Hoje regresso a esta figurinha, no fundo, bem ou mal, todos conhecemos um manguinhas-de-alpacas, as próximas linhas corroboram este facto, as últimas desta figurinha é que, através de uma lista única (veja-se bem o arrojo, lista única…), se candidatou a um lugarzito onde obterá mais visibilidade, todo o manguinhas-de-alpacas deseja palco, é-lhes inato, para o efeito, até convidou o nosso conhecido tintim, pois, esse mesmo, o que tanto se bamboleia a andar e muito anseia por um beliscão nas nalgas, quiçá seja desta com o manguinhas, em tempos dúbios, nada como piscar o olho a todos os sectores do eleitorado, não vá haver entre os votantes mais homossexualidades reprimidas, pelo que se avizinha, o manguinhas tem via-aberta para o ambicionado lugarzito onde, por fim, obterá mais visibilidade, talvez, desse modo, prestem a devida atenção às suas sempre sapientes palavras, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, como se dali adviessem verdades seculares há tanto ansiadas, mas o que se pode esperar de uma figurinha, com penteado de primeira-comunhão, casaquinho de bombazina (e eu que sempre me enterneço ao ouvir este termo, bombazina, logo se me levantam imagens de infância…), com um discurso atamancado, pejado de lugares-comuns, de onde as ideias há muito partiram? Se é que algum dia por ali pousaram… Se podia ser vendedor de viaturas em final de existência? Qual a dúvida?! Com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Digo-lhe uma coisa, tem aqui um carrito para a vida! Não duvide, para a vida! Venha, venha, sente-se ao volante, inspire, sinta a máquina, já viu, este carrito respira novo…,” quem ousaria colocar em causa tais verdades seculares?! Se podia ser vendedor imobiliário? Qual a dúvida?! Vendia, num ápice, um rés-do-chão todo virado a Norte, numa zona de frequência duvidosa, pejado de infiltrações, como se de um Éden se tratasse, com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Confesso-vos uma coisa: hoje é a quinta visita que faço a este imóvel! Nem imaginam: a procura, nesta zona, tem sido galopante… Dificilmente encontram, no mercado, uma casa assim: com tão boa relação: qualidade/preço… Excelente disposição solar, boas áreas, próxima de serviços e transportes, já percebi que, daqui amanhã, virá um herdeiro… Acreditem, as escolas, aqui da zona, são conceituadíssimas!”, quem ousaria colocar em causa tais verdades seculares?! Se podia ser pastor de uma seita religiosa? Qual a dúvida? Convertia, em segundos, o mais acérrimo descrente, com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, “Irmão, ouve-me, aproximamo-nos do fim, não duvides, dias de incerteza e de névoas, só a luz de Cristo nos pode guiar, ainda há tempo para te arrependeres e regressares ao caminho da salvação… Não coloques objecções, simplesmente arrepende-te da dúvida e aceita Cristo como teu Salvador,” neste ponto seria profícua a ajuda da beata-maledicente, sim, essa mesma, a parideira de difamações pelas costas, cada uma lá encontra a sua forma de parir, é-lhe mais confortável pelas costas, e que grande parideira ali está… Se podia ser vendedor talhante? Qual a dúvida?! Com o seu casaquinho de bombazina, o penteado de primeira-comunhão, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, a vender carne-podre como ninguém, “Oh freguês, já viu este naco do lombo? Tem aqui uma peça da melhor qualidade! Se quiser, até lhe faço um desconto, fica entre nós… Deixe-se estar, que a preparo já… Digo-lhe uma coisa, quando chegar a casa, ponha logo no forno, tem um manjar garantido para toda a família… Não duvide: é de comer e chorar por mais…”, pois, a questão devia ser invertida: O que não podia ser o manguinhas-de-alpacas? Praticamente tudo o que envolvesse honestidade, seriedade, frontalidade e resquícios de inteligência… É pedir muito? Por estes dias, alguma dúvida?! Não por acaso, estas figurinhas, no hoje, pululam como nunca, cientes da sua mediocridade procuram, de todas as formas, maquilhá-la, nem que, para o efeito, recorram a um casaquinho de bombazina, ao penteado de primeira-comunhão, e, ao puxar pelo verbo, o rosto em solenidade, apenas saem frases sofríveis que espelham o diminuto intelecto de um eterno manguinhas-de-alpacas.

sábado, 9 de maio de 2026

Os factos da vida


 

Para estudar, ia a um café próximo, apesar da curta distância não encontrava muitos estudantes, era frequentado sobretudo por moradores do bairro, na sua maioria idosos, tinha aquele ambiente tão típico de um café cosmopolita, um entra e sai constante, a máquina de café no seu incessante estalido mecânico, a multiplicidade de vozes que se convertiam num rumorejar permanente, no entanto, imperceptível, era incapaz de estudar em silêncio, as vozes que me habitam ameaçavam tragar-me, cada um lá encontra a sua forma de trabalhar, tinha duas ou três mesas da minha preferência, só ali as vozes se aquietavam e permitiam que mergulhasse nos livros, quando, por este ou aquele motivo, não me conseguia concentrar, observava, um acto em desuso, requer serenidade e inteligência, os livros abertos sobre a mesa, o pensar não se aquietava, olhei em volta, na mesa mais próxima, bem à minha frente, um casal de meia-idade, ela nitidamente refém da moda, ele não tanto, um estilo mais descontraído, apesar de cumprir os requisitos elementares, ténis de uma multinacional, por exemplo, tinham acabado de se sentar e colocaram simultaneamente, numa harmoniosa coreografia, os rectângulos do hoje sobre a mesa, o empregado aproximou-se para recolher os pedidos, um sujeito de bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, em certa ocasião reparei num símbolo, tatuado no antebraço, reportante a contextos muito pouco recomendáveis, quem trabalha a sério, arregaça as mangas, foi o que me permitiu visualizar, a sua irrepreensível conduta dever-se-ia a uma radical mudança das suas pisadas? Não sei, apenas suposições minhas, jamais ousaria questionar tal, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, como há outras que somente nos turvam o olhar, somos tão estranhos, tinha uma expressão indulgente que imanava Seja bem-vinda a casa, tão raro, num lugar deste mundo, sermos assim recebidos, nunca lhe denotei um azedume, e tantos o merecem, assim que se afastou da mesa com o pedido, ela, quase sem se aperceber, num claro automatismo, pega no rectângulo como se oxigénio, logo um ar compenetrado, talvez, por ali, desvelasse os grandes enigmas da existência, nós, comuns mortais, muito aquém de expressões compenetradas, rectângulos como se de oxigénio, ele ainda se deteve, por uns instantes, a olhar em volta, por meras fracções de segundos pareceu-me, creio ter sido uma impressão, vislumbrar-lhe condescendência no olhar a contemplá-la, por fim, também capitulou e pegou no seu rectângulo, assim ficaram, cada um absorto e inclinado para o objecto na palma da mão, o empregado regressou com os cafés numa bandeja, colocou-os suavemente, como era seu timbre, na mesa, nenhum deles teve a educação de pousar o rectângulo, pareceu-me vê-lo a indiciar o gesto, a preguiça ou amnésia de modos tê-lo-á derrotado, ela manteve-se impassível, aprisionada naquele diminuto écran, não me recordo há quantos minutos chegaram, tenho bem presente que nem uma palavra trocaram, cada um tinha, diante de si, uma ignorada chávena de café, continuavam sob hipnose, haviam dobrado meio-século há uns anos, logo, cresceram e somaram bastas vivências sem aquele cárcere, como era possível terem-se deixado enredar em tamanho logro?! Confesso a minha total incompreensão… Um objecto, cuja amplitude de funções, nem uma década de existência soma, de repente, engoliu quase todas as almas do mundo, havia outras mesas, demasiadas, onde o cenário se repetia, àquela hora da tarde um aroma a café e doces pelo ar, parecia também soletrar Seja bem-vinda a casa, há lugares, neste mundo, que sempre estiveram à nossa espera, este é, sem dúvida, um deles, os cafés arrefeciam, o frémito dos seus dedos, naquele rectângulo, não, pensei em que momento a palavra teria morrido entre eles, nem se apercebiam do tempo a passar, do arrefecer dos cafés, de um dia o vazio deixado por uma partida, só aí, quem sabe, a compreensão do tanto que fica por dizer, pode ser uma repetição, que seja, há frases que sabem sempre a primeira vez, neste momento, estava para além do espanto, não se vislumbravam tréguas no horizonte com os rectângulos, nem se olhavam há bem mais de quinze minutos, quanto mais conversar, reparei numa velhota, enviuvara há uns anos, que, todos os dias, àquela hora, vinha pelo pão saído do forno, levava duas ou três carcaças, pagava sempre com moedas, um esforço, não sei se da vista ou do bolso, em as aglomerar, percebi, logo da primeira vez que nela reparei, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, somos tão estranhos, o olhar dela, não obstante as trevas que a vida lhe lançou ao caminho, agora mais esbatido, iluminava-se assim que encontrava o empregado, de bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, não me recordo bem quando ou quem, se foi de manhã ou de tarde, a verdade é que ouvi comentar que as duas ou três carcaças eram o jantar e também o pequeno-almoço, do dia seguinte, da velhota, observações assim fazem-nos parar e reflectir, pois, era ossuda e magra, o regresso à terra denotava-se no seu minguar, apesar de tudo, o rosto benévolo pontuado com um sorriso, um café é o centro do mundo, não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros, não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o meu curso, regresso à mesa mais próxima, bem diante de mim, os cafés permaneciam intactos, nunca gostei de beber café frio, cada um deles permanecia no seu isolamento sob os ditames do rectângulo, piedade e ira perpassaram-me pelo espírito, neste ponto, senti-me numa crescente distância, pensei que, se morresse por estes dias, partiria sem muita saudade, como foi possível este ser, de duas patas, cair em tamanho ardil? E as suas expressões enquanto, com avidez, para ali se consomem: total concentração, ar de pensador, ansiedade, riso, apreensão, enfim, todas as cambiantes da existência se reflectem naquele rectângulo… Decorreram cerca de vinte e seis minutos, desde que se sentaram à mesa, nem uma palavra trocaram, já nem falo de se olharem, estamos, creio, no términus do processo de desumanização. Não consegui olhar mais, senti-me a asfixiar, levantei-me, peguei nos livros e saí para o ar entardecido da cidade, como precisava de respirar, andei um bom bocado, precisava de aquietar o pensamento…

quarta-feira, 6 de maio de 2026

A consciência olha-nos sempre de uma janela alta

 


Um entardecer de Verão, não sei porquê, traz consigo um sentir de promessa, talvez por se alongar no gesto de adeus, talvez pelo calor que brota do solo rumo ao céu anoitecido, talvez pela lentidão cansada dos nossos gestos, talvez por nos termos esquecido de como saber olhar as coisas, acho que é mais por aqui, afinal, desde há muito que me sinto estrangeiro em terras longínquas, à minha volta o absurdo impera, enquanto, em mim, a apatia ganha terreno… Estacionei o carro no possível de sombra, apesar de, no horizonte, já vislumbrar a face da noite, aquela mancha verde, que rodeava o edifício branco, agora ainda mais branco pela recente pintura, sabia-me bem ao olhar e ao pensar, pois, só sentimos pelo que temos de menos, enquanto me encaminhava para a larga entrada, olhei a sua janela, no primeiro piso, não a vi, nem sequer a sua mão em saudações, talvez estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, agora que penso nisso, de facto, doze metros quadrados! Quase toda a sua vida numa quinta, ia para além de um hectare, a casa enorme, dois pisos, perto de uma dezena de quartos, um legado dos pais, enquanto criança só no Verão enchia, tios, primos, mais primos que, de tão distantes, mantinha-se o pudor desta familiaridade, em adulta, só com os netos um vislumbre de Verões passados… Os netos não são o futuro, mas sim o ansiado regresso ao passado, com eles reaprende-se a olhar as coisas antes do derradeiro adeus. Uns no início da caminhada, outros no fim, daí a compreensão, daí a empatia. Entre eles, os esquecidos na sua desamparada distracção, limitam-se a somar subtraídos dias, sem memória do início, e sem consciência do fim que corre ao seu encontro, uma corrida silenciosa, furtiva, discreta, por lugares sombreados muito para além de um pensar quotidiano. No fim, fica-nos sempre, de cada um que se cruza connosco, nesta coisa chamada viver, pelo menos a imagem que se cola a uma impressão, depois, claro, cada um tece os seus juízos, para mim, ela permanece intemporalmente naquela infinita varanda (só uma criança compreende o infinito), mão em saudações para o nosso carro que se aproximava, e um sorriso que nos ensinava o que é regressar.

Agora, doze metros quadrados! Como pode ali caber uma vida? E logo a sua! De uma infinita varanda (só uma criança compreende o infinito) para uma janelinha despida (nem sequer a sua mão em saudações), cumprimento a recepcionista, que também tinha outras funções, há lugares assim, onde assimilamos as regras sem direito a réplica, como um quadro que nos é apresentado, sem vislumbre de esboço, ou aceitamos ou simplesmente partimos, mas a necessidade… Neste caso, permanece no primeiro-andar, talvez estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, que possibilidade de escolha se apresenta aos oitenta e cinco anos? Subo os dois lanços de escada, depois, o corredor, comprido, muito comprido, o chão a reflectir as luzes do tecto, tudo numa limpeza quase a raiar a impessoalidade, um silêncio de fim sobre as coisas, como se a vida tivesse partido para outras paragens, aqui e ali um quadro, insuficientes para disfarçar aquela melancolia respirável, bato ao de leve na porta, as molas da cama traduzem o esforço de se erguer, talvez estivesse absorta com um livro, talvez olhasse, da varanda de si, o que lá vai, talvez, a porta abre-se com um sorriso que nos ensina o que é regressar. E eu já não sou o eu de hoje, mas o de ontem, quando, pela janela do banco de trás, via a sua mão em saudações para o nosso carro que se aproximava, é curioso, nesse indefinível instante, ela também não a de hoje, mas a de ontem, por fim, tudo se dilui e regressamos à incómoda e fria circunstância do hoje, para restabelecer a familiaridade sempre aquelas frases impressas num sempre desbotado guião, Então, como tem passado? Essa saúde, como vai? Não se tem esquecido de tomar a medicação, certo? Quando, em verdade, queria perguntar-lhe o porquê de não ter visto a sua mão em saudações à janela. E que saudades de lhe ver a mão em saudações para um carro que se aproximava, e aquele sorriso que nos ensinava a regressar, a velha esquivou-se, como sempre, habilmente àquele desbotado guião, nunca teve paciência para teatralizações, optou pela cadeira e indicou-me um banco, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, olhou-me, neste ponto, não sei se sentia desconforto ou serenidade, partir não podia, o seu olhar ia longe, Ainda não te decidiste, pois não, meu filho? Às vezes, tinha a impressão de que não a visitava, pelo contrário, acho que me vinha ver, pensei em responder-lhe (Como sabe, Avó?), mas era uma resposta cansada, um regresso desnecessário à meninice, de facto, não, não me havia decidido, sentia-me tão perdido, ela continuava a olhar-me, acrescentou, Sabes, és dos poucos que ainda se lembra do caminho até aqui. Não censuro os teus irmãos, não penses isso, até compreendo, nunca há tempo para nada nisso a que vocês chamam vida… O que diria minha filha se vos visse? Nem um casamento sobreviveu! A sua voz apenas eco do seu pensar, apesar da idade, mantinha a sua inalterável postura, Às vezes, penso, para que é que se casam? Sabes, isto de viver é uma enorme canseira. No fundo, andamos para aqui, dez, vinte, de repente, quarenta, num ligeiro salto já estamos nos sessenta, um piscar de olhos, e vão oitenta e cinco anos, pois é… O problema é que, grande parte do tempo, fugimos da vida, arranjamos todo e qualquer subterfúgio para não olhar a vida nos olhos. Não, não me perguntes porquê. Isto acontece e ponto. Já deves ter consciência disto, certo? Como se fosse uma evidência desacreditada… Olhar a vida nos olhos! Ainda me lembro, a primeira vez, do alto daquela varanda, em que vi o teu avô. Sabes, não penses que foi assim há tanto, para mim, foi ontem. A vida é isto: nós e o tempo; cada um com o seu; no fim, o que resta é a memória, como cinzas a testemunhar um calor desaparecido… Não te demores a decidir, o tempo é um viajante apressado, e sempre a nossa angústia de não lhe sabermos o destino. Se não me arrependo de nada? Meu Deus, só os tolos dizem que não, repara, hoje as pernas pouco vão além deste quartito, ao menos, estas árvores em volta acalmam-me o pensar (nisto, levantou-se e foi até à janela), sabes, gostava de ter fugido menos da vida, e como conheci gente bem mais veloz… Mas respondo por mim. É estranho, olho-me dentro desta carcaça, por vezes não me reconheço ao espelho, porque no pensar continuo a menina que, do alto daquela varanda, viu ontem o teu avô pela primeira vez.


 

domingo, 3 de maio de 2026


 Como é invernoso aquele momento em que nos arrogamos no papel de juízes sobre quem nos colocou a caminhar pela terra…

in Nuvens passeantes pelas águas