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A mostrar mensagens de maio, 2026

Carne-podre aos cães e às cadelas

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  Chegou aquela altura do ano, neste canil, onde cada rafeiro verá se tem ou não recompensa pelos seus préstimos, entre as gratificações está o lugar que ocupam (ter cobertura, ser mais próximo da comida, entre outras regalias…), os passeios pelos campos adjacentes, muito apreciado entre os rafeiros – pois, de facto, neste canil só há rafeiros, mas todos têm direito à vida, como é sabido –, o número de desparasitações anuais, as possibilidades de adopção, para aceder a este leque de benesses, os rafeiros têm imperativamente de demonstrar a sua subserviência aos donos, neste caso, um casal, constituído por um idoso e uma mulher de meia-idade, a porta do canil abre-se, os rafeiros logo com as orelhas em alerta, surge-lhes a figura dela a arrastar um saco, o idoso uns passos atrás, velado por uma sombra, uma autêntica criatura das trevas, pelos ares do canil um pestilento cheiro a putrefacção, ela abre o saco e atira o primeiro pedaço de carne-podre, cai ao pé de uma cadela de nome Po...

Ali onde não há ontem nem amanhã

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  De vez em quando, regresso-me àquele lugar, não sei porquê, no acaso do dia, a imagem irrompe pelo meu pensar, e ali me fico, de novo, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da minha circunstância. Quando férias, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela, de imediato, refuta, sempre com a mesma argumentação, de tão repetida, já lhe conheço a sequência, as noites frias, a escassez de diversões, a água gelada, o vento, sempre o vento, constante, no fundo, é mais uma brisa, mas ela, logo, a exponenciar a coisa, por vezes, devido à convicção das suas afirmações, quase acredito que um desconfortável vento frio no lugar de uma reconfortante brisa do entardecer. Mas, como é sabido, qualquer relacionamento é um incessante confronto por uma ascensão face ao outro, por muito que se argumente em contrário, para se sentir é preciso ser-se, e só se é na afirmação, n...
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  - Humor e beleza nasceram para se partilhar… Riso e deleite, no singular, estão condenados à esterilidade. Não concordas? in Nuvens passeantes pelas águas
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O manguinhas-de-alpacas

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  Hoje regresso a esta figurinha, no fundo, bem ou mal, todos conhecemos um manguinhas-de-alpacas, as próximas linhas corroboram este facto, as últimas desta figurinha é que, através de uma lista única (veja-se bem o arrojo, lista única…), se candidatou a um lugarzito onde obterá mais visibilidade, todo o manguinhas-de-alpacas deseja palco, é-lhes inato, para o efeito, até convidou o nosso conhecido tintim, pois, esse mesmo, o que tanto se bamboleia a andar e muito anseia por um beliscão nas nalgas, quiçá seja desta com o manguinhas, em tempos dúbios, nada como piscar o olho a todos os sectores do eleitorado, não vá haver entre os votantes mais homossexualidades reprimidas, pelo que se avizinha, o manguinhas tem via-aberta para o ambicionado lugarzito onde, por fim, obterá mais visibilidade, talvez, desse modo, prestem a devida atenção às suas sempre sapientes palavras, é vê-lo, quando puxa pelo verbo, o rosto em solenidade, como se dali adviessem verdades seculares há tanto ansi...
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Os factos da vida

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  Para estudar, ia a um café próximo, apesar da curta distância não encontrava muitos estudantes, era frequentado sobretudo por moradores do bairro, na sua maioria idosos, tinha aquele ambiente tão típico de um café cosmopolita, um entra e sai constante, a máquina de café no seu incessante estalido mecânico, a multiplicidade de vozes que se convertiam num rumorejar permanente, no entanto, imperceptível, era incapaz de estudar em silêncio, as vozes que me habitam ameaçavam tragar-me, cada um lá encontra a sua forma de trabalhar, tinha duas ou três mesas da minha preferência, só ali as vozes se aquietavam e permitiam que mergulhasse nos livros, quando, por este ou aquele motivo, não me conseguia concentrar, observava, um acto em desuso, requer serenidade e inteligência, os livros abertos sobre a mesa, o pensar não se aquietava, olhei em volta, na mesa mais próxima, bem à minha frente, um casal de meia-idade, ela nitidamente refém da moda, ele não tanto, um estilo mais descontraído,...

A consciência olha-nos sempre de uma janela alta

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  Um entardecer de Verão, não sei porquê, traz consigo um sentir de promessa, talvez por se alongar no gesto de adeus, talvez pelo calor que brota do solo rumo ao céu anoitecido, talvez pela lentidão cansada dos nossos gestos, talvez por nos termos esquecido de como saber olhar as coisas, acho que é mais por aqui, afinal, desde há muito que me sinto estrangeiro em terras longínquas, à minha volta o absurdo impera, enquanto, em mim, a apatia ganha terreno… Estacionei o carro no possível de sombra, apesar de, no horizonte, já vislumbrar a face da noite, aquela mancha verde, que rodeava o edifício branco, agora ainda mais branco pela recente pintura, sabia-me bem ao olhar e ao pensar, pois, só sentimos pelo que temos de menos, enquanto me encaminhava para a larga entrada, olhei a sua janela, no primeiro piso, não a vi, nem sequer a sua mão em saudações, talvez estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, agora que p...
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  Como é invernoso aquele momento em que nos arrogamos no papel de juízes sobre quem nos colocou a caminhar pela terra… in Nuvens passeantes pelas águas