De vez em quando, regresso-me àquele lugar, não sei
porquê, no acaso do dia, a imagem irrompe pelo meu pensar, e ali me fico, de
novo, como se nunca tivesse partido, a luz peculiar, a harmonia dos sons, a
doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante da
minha circunstância. Quando férias, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma
possibilidade, ela, de imediato, refuta, sempre com a mesma argumentação, de
tão repetida, já lhe conheço a sequência, as noites frias, a escassez de
diversões, a água gelada, o vento, sempre o vento, constante, no fundo, é mais
uma brisa, mas ela, logo, a exponenciar a coisa, por vezes, devido à convicção
das suas afirmações, quase acredito que um desconfortável vento frio no lugar
de uma reconfortante brisa do entardecer. Mas, como é sabido, qualquer
relacionamento é um incessante confronto por uma ascensão face ao outro, por
muito que se argumente em contrário, para se sentir é preciso ser-se, e só se é
na afirmação, naquilo que nos adiciona, contudo, há muito que capitulei neste
digladiar, não me recordo em que momento percebi a minha erosão, regra geral,
estas coisas revelam-se nos aspectos mais ínfimos do existir, precisamente os
que não olhamos, ou que só percebemos tardiamente, era mais ou menos por aqui
que eu andava, a rotina de cada dia só me suscitava, de véspera, um prolongado
bocejo, há tanto que novidade era uma
palavra estrangeira no meu léxico, uma dessas que gradualmente colocamos na
margem por não consubstanciarem a nossa realidade quotidiana, como esses
objectos atirados para os fundos de uma despensa, por escassez de uso ou uma
inutilidade súbita, porém, se um acaso me surgia ao caminho, e eu teria de me
desviar da minha rota diária, pois, a tal que me suscitava, de véspera, um
prolongado bocejo, logo uma inquietude me invadia, como se estivesse de partida
para um lugar inóspito, sem vislumbres de regresso, não foi da primeira, nem da
segunda vez, confesso, que me apercebi deste meu paradoxo, levou o seu tempo,
como tudo nesta vida, queria tanto uma coisa, mas assim que se me apresentava
ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse logo esvaído, o
olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal que me suscitava,
de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Nesses momentos, que
satisfação regressar àquele lugar, como se nunca tivesse partido, a luz
peculiar, a harmonia dos sons, a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, e eu
também uma parte daquele todo, ali sabia-me em casa, há cada vez menos lugares,
neste mundo, com sabor a lar, sempre que o tema férias lá por casa, o destino a
escolher, eu, sub-repticiamente, tento elencá-lo como uma possibilidade, ela,
de imediato, refuta, com a batida sequência de argumentos, inicia, então, a
apologia daquela costa mais a Sul, para onde converge quase toda a espécie
lusitana no mês de Agosto, já lhe conheço a sequência, as noites quentes, a
abundância de diversões, a água tépida, a escassez de vento, eu nem
contrapunha, limitava-me a recordar o último Agosto, nem por acaso ali passado,
naquele lugar a Sul, os preços com números mais robustos, a quantidade de gente
e carros, à minha volta, só me trazia à memória um banal dia de trabalho, mesmo
a arquitectura disforme dos edifícios, o predomínio de betão em qualquer
horizonte olhado, o barulho, por todo e qualquer canto, num absurdo crescente,
e filas e mais filas, para comer, compras, estacionar, mais filas ainda, pois,
eu, não raras vezes, a pensar Será este
um banal dia de trabalho? Afinal, quem pode chamar isto de férias? A certa
altura, refugiei-me em mim, pelos miúdos mantive o mínimo de lisura, sabia que,
lá bem no fundo, ela se tinha apercebido do seu erro, já não era mau de todo,
confessá-lo é que seria coisa bem diferente, em momentos assim, mantinha a sua
postura impassível, reparava que os seus gestos quotidianos, fosse com os
miúdos, consigo mesma, se alongavam um pouco mais, o que denunciava, sem
qualquer dúvida, um laivo de teatralidade, pois, só representa quem se esconde…
Não raras vezes, nestes últimos anos, dou por mim a olhar à minha volta e, no
horizonte, de mim para mim, apenas emerge a palavra: incompreensão. Como pode um tempo, supostamente destinado a
repouso, ser consumido numa voracidade tal? Sem sequer haver um resquício de
mudança de cenário? O rectângulo do hoje omnipresente à mesa, à beira-mar, na
esplanada, aquando do gelado vespertino, nas compras, durante o jogo de
raquetas na areia, no alto da falésia, como testemunha ocular de que ali
efectivamente se esteve, no fundo, a atestar a pegada do hoje, e a palavra incompreensão, uma vez mais, a toldar-me
horizontes. Volta e meia, ela com os miúdos, a estender-me aquilo, a atropelar
palavras Vá! Despacha-te! Vê lá se nos
apanhas a todos! Achas que ficou bem? É melhor tirares outra… Outras vezes,
à mesa, eu em espanto perante alguém, que, por acaso, me fez deslocar a um
altar e proferir juras de amor eterno, que fotografa, quase em êxtase, a sua
refeição, os miúdos, são dois, diferença de ano e meio, também com aquela coisa
nas mãos, jogos e mais jogos, alheados da sua circunstância, de si mesmos, dos
outros, de existir, até há bem pouco, eu ainda vociferava que, à mesa, nem
pensar estar com aquilo, porém, ela, de imediato, em socorro deles (Deixa-os estar! Queres o quê? Que fiquem
ignorantes com as tecnologias? Pelo menos, estão aqui sob a nossa vista. Não
andam por aí a fazer disparates… Anda! Deixa-os estar… Lembra-te: o mundo já é
outro!), não podia estar mais errada, nunca os achei tão distantes,
contudo, há muito que capitulei neste digladiar, não me recordo em que momento
percebi a minha erosão, regra geral, estas coisas revelam-se nos aspectos mais
ínfimos do existir, precisamente os que não olhamos… Mas aqui estamos os
quatro, num Agosto irrespirável, neste lugar a Sul, os preços com números mais
robustos, a quantidade de gente e carros, à minha volta, só me traz à memória
um banal dia de trabalho, mesmo a arquitectura disforme dos edifícios, o
predomínio de betão em qualquer horizonte olhado, o barulho, por todo e
qualquer canto, num absurdo crescente, e filas e mais filas, para comer,
compras, estacionar, mais filas ainda, continuo sem conseguir desacelerar o
pensamento, nem um pouco, e como eu preciso repousar de mim! Que saudades
daquele lugar, acho que nunca dali parti, a luz peculiar, a harmonia dos sons,
a doçura leve do ar, tudo a envolver-me, porém, sei-me no desconforto distante
da minha circunstância, a olhar rostos velados por aquele rectângulo, nem ouso
uma frase, levanto-me, ela nem repara, os miúdos ainda menos, vou até à
varanda, o dia legou os despojos de calor à noite que se aproxima em passos
hesitantes, nem uma brisa a relembrar outras paragens, o próprio tempo parecia
recuperar o fôlego para a sua obstinada caminhada, esvoaçam por todo o lado as
aves do estio, recordo as vezes em que quis tanto uma coisa, mas assim que se
me apresentava ao caminho, eu olhava-a com o fastio de um idoso, o interesse
logo esvaído, o olhar saudoso em volta pela minha rotina diária, pois, a tal
que me suscitava, de véspera, um prolongado bocejo, e sabia-me perdido. Hoje, o
que mais me intriga é a morte do desejo, porque a seguir vem o sonho… E como é
trágica a morte de um sonho! Quanto de nós fica nessas cinzas tristemente
arrefecidas? Demasiado, sem dúvida. Se ao menos o meu olhar, por uns instantes,
num voo desses viajantes entardecidos.

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