Livros do Escritor

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sábado, 9 de maio de 2026

Os factos da vida


 

Para estudar, ia a um café próximo, apesar da curta distância não encontrava muitos estudantes, era frequentado sobretudo por moradores do bairro, na sua maioria idosos, tinha aquele ambiente tão típico de um café cosmopolita, um entra e sai constante, a máquina de café no seu incessante estalido mecânico, a multiplicidade de vozes que se convertiam num rumorejar permanente, no entanto, imperceptível, era incapaz de estudar em silêncio, as vozes que me habitam ameaçavam tragar-me, cada um lá encontra a sua forma de trabalhar, tinha duas ou três mesas da minha preferência, só ali as vozes se aquietavam e permitiam que mergulhasse nos livros, quando, por este ou aquele motivo, não me conseguia concentrar, observava, um acto em desuso, requer serenidade e inteligência, os livros abertos sobre a mesa, o pensar não se aquietava, olhei em volta, na mesa mais próxima, bem à minha frente, um casal de meia-idade, ela nitidamente refém da moda, ele não tanto, um estilo mais descontraído, apesar de cumprir os requisitos elementares, ténis de uma multinacional, por exemplo, tinham acabado de se sentar e colocaram simultaneamente, numa harmoniosa coreografia, os rectângulos do hoje sobre a mesa, o empregado aproximou-se para recolher os pedidos, um sujeito de bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, em certa ocasião reparei num símbolo, tatuado no antebraço, reportante a contextos muito pouco recomendáveis, quem trabalha a sério, arregaça as mangas, foi o que me permitiu visualizar, a sua irrepreensível conduta dever-se-ia a uma radical mudança das suas pisadas? Não sei, apenas suposições minhas, jamais ousaria questionar tal, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, como há outras que somente nos turvam o olhar, somos tão estranhos, tinha uma expressão indulgente que imanava Seja bem-vinda a casa, tão raro, num lugar deste mundo, sermos assim recebidos, nunca lhe denotei um azedume, e tantos o merecem, assim que se afastou da mesa com o pedido, ela, quase sem se aperceber, num claro automatismo, pega no rectângulo como se oxigénio, logo um ar compenetrado, talvez, por ali, desvelasse os grandes enigmas da existência, nós, comuns mortais, muito aquém de expressões compenetradas, rectângulos como se de oxigénio, ele ainda se deteve, por uns instantes, a olhar em volta, por meras fracções de segundos pareceu-me, creio ter sido uma impressão, vislumbrar-lhe condescendência no olhar a contemplá-la, por fim, também capitulou e pegou no seu rectângulo, assim ficaram, cada um absorto e inclinado para o objecto na palma da mão, o empregado regressou com os cafés numa bandeja, colocou-os suavemente, como era seu timbre, na mesa, nenhum deles teve a educação de pousar o rectângulo, pareceu-me vê-lo a indiciar o gesto, a preguiça ou amnésia de modos tê-lo-á derrotado, ela manteve-se impassível, aprisionada naquele diminuto écran, não me recordo há quantos minutos chegaram, tenho bem presente que nem uma palavra trocaram, cada um tinha, diante de si, uma ignorada chávena de café, continuavam sob hipnose, haviam dobrado meio-século há uns anos, logo, cresceram e somaram bastas vivências sem aquele cárcere, como era possível terem-se deixado enredar em tamanho logro?! Confesso a minha total incompreensão… Um objecto, cuja amplitude de funções, nem uma década de existência soma, de repente, engoliu quase todas as almas do mundo, havia outras mesas, demasiadas, onde o cenário se repetia, àquela hora da tarde um aroma a café e doces pelo ar, parecia também soletrar Seja bem-vinda a casa, há lugares, neste mundo, que sempre estiveram à nossa espera, este é, sem dúvida, um deles, os cafés arrefeciam, o frémito dos seus dedos, naquele rectângulo, não, pensei em que momento a palavra teria morrido entre eles, nem se apercebiam do tempo a passar, do arrefecer dos cafés, de um dia o vazio deixado por uma partida, só aí, quem sabe, a compreensão do tanto que fica por dizer, pode ser uma repetição, que seja, há frases que sabem sempre a primeira vez, neste momento, estava para além do espanto, não se vislumbravam tréguas no horizonte com os rectângulos, nem se olhavam há bem mais de quinze minutos, quanto mais conversar, reparei numa velhota, enviuvara há uns anos, que, todos os dias, àquela hora, vinha pelo pão saído do forno, levava duas ou três carcaças, pagava sempre com moedas, um esforço, não sei se da vista ou do bolso, em as aglomerar, percebi, logo da primeira vez que nela reparei, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, somos tão estranhos, o olhar dela, não obstante as trevas que a vida lhe lançou ao caminho, agora mais esbatido, iluminava-se assim que encontrava o empregado, de bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, não me recordo bem quando ou quem, se foi de manhã ou de tarde, a verdade é que ouvi comentar que as duas ou três carcaças eram o jantar e também o pequeno-almoço, do dia seguinte, da velhota, observações assim fazem-nos parar e reflectir, pois, era ossuda e magra, o regresso à terra denotava-se no seu minguar, apesar de tudo, o rosto benévolo pontuado com um sorriso, um café é o centro do mundo, não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros, não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o meu curso, regresso à mesa mais próxima, bem diante de mim, os cafés permaneciam intactos, nunca gostei de beber café frio, cada um deles permanecia no seu isolamento sob os ditames do rectângulo, piedade e ira perpassaram-me pelo espírito, neste ponto, senti-me numa crescente distância, pensei que, se morresse por estes dias, partiria sem muita saudade, como foi possível este ser, de duas patas, cair em tamanho ardil? E as suas expressões enquanto, com avidez, para ali se consomem: total concentração, ar de pensador, ansiedade, riso, apreensão, enfim, todas as cambiantes da existência se reflectem naquele rectângulo… Decorreram cerca de vinte e seis minutos, desde que se sentaram à mesa, nem uma palavra trocaram, já nem falo de se olharem, estamos, creio, no términus do processo de desumanização. Não consegui olhar mais, senti-me a asfixiar, levantei-me, peguei nos livros e saí para o ar entardecido da cidade, como precisava de respirar, andei um bom bocado, precisava de aquietar o pensamento…

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