Para estudar, ia a um café próximo, apesar da curta
distância não encontrava muitos estudantes, era frequentado sobretudo por
moradores do bairro, na sua maioria idosos, tinha aquele ambiente tão típico de
um café cosmopolita, um entra e sai constante, a máquina de café no seu incessante
estalido mecânico, a multiplicidade de vozes que se convertiam num rumorejar
permanente, no entanto, imperceptível, era incapaz de estudar em silêncio, as
vozes que me habitam ameaçavam tragar-me, cada um lá encontra a sua forma de
trabalhar, tinha duas ou três mesas da minha preferência, só ali as vozes se
aquietavam e permitiam que mergulhasse nos livros, quando, por este ou aquele
motivo, não me conseguia concentrar, observava, um acto em desuso, requer
serenidade e inteligência, os livros abertos sobre a mesa, o pensar não se
aquietava, olhei em volta, na mesa mais próxima, bem à minha frente, um casal
de meia-idade, ela nitidamente refém da moda, ele não tanto, um estilo mais
descontraído, apesar de cumprir os requisitos elementares, ténis de uma
multinacional, por exemplo, tinham acabado de se sentar e colocaram
simultaneamente, numa harmoniosa coreografia, os rectângulos do hoje sobre a
mesa, o empregado aproximou-se para recolher os pedidos, um sujeito de bigode,
sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, em certa
ocasião reparei num símbolo, tatuado no antebraço, reportante a contextos muito
pouco recomendáveis, quem trabalha a sério, arregaça as mangas, foi o que me
permitiu visualizar, a sua irrepreensível conduta dever-se-ia a uma radical
mudança das suas pisadas? Não sei, apenas suposições minhas, jamais ousaria
questionar tal, há pessoas, sem sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam
no nosso coração, como há outras que somente nos turvam o olhar, somos tão
estranhos, tinha uma expressão indulgente que imanava Seja bem-vinda a casa,
tão raro, num lugar deste mundo, sermos assim recebidos, nunca lhe denotei
um azedume, e tantos o merecem, assim que se afastou da mesa com o pedido, ela,
quase sem se aperceber, num claro automatismo, pega no rectângulo como se
oxigénio, logo um ar compenetrado, talvez, por ali, desvelasse os grandes enigmas
da existência, nós, comuns mortais, muito aquém de expressões compenetradas, rectângulos
como se de oxigénio, ele ainda se deteve, por uns instantes, a olhar em volta,
por meras fracções de segundos pareceu-me, creio ter sido uma impressão,
vislumbrar-lhe condescendência no olhar a contemplá-la, por fim, também
capitulou e pegou no seu rectângulo, assim ficaram, cada um absorto e inclinado
para o objecto na palma da mão, o empregado regressou com os cafés numa
bandeja, colocou-os suavemente, como era seu timbre, na mesa, nenhum deles teve
a educação de pousar o rectângulo, pareceu-me vê-lo a indiciar o gesto, a
preguiça ou amnésia de modos tê-lo-á derrotado, ela manteve-se impassível,
aprisionada naquele diminuto écran, não me recordo há quantos minutos chegaram,
tenho bem presente que nem uma palavra trocaram, cada um tinha, diante de si,
uma ignorada chávena de café, continuavam sob hipnose, haviam dobrado
meio-século há uns anos, logo, cresceram e somaram bastas vivências sem aquele
cárcere, como era possível terem-se deixado enredar em tamanho logro?! Confesso
a minha total incompreensão… Um objecto, cuja amplitude de funções, nem uma
década de existência soma, de repente, engoliu quase todas as almas do mundo,
havia outras mesas, demasiadas, onde o cenário se repetia, àquela hora da tarde
um aroma a café e doces pelo ar, parecia também soletrar Seja bem-vinda a
casa, há lugares, neste mundo, que sempre estiveram à nossa espera, este é,
sem dúvida, um deles, os cafés arrefeciam, o frémito dos seus dedos, naquele
rectângulo, não, pensei em que momento a palavra teria morrido entre eles, nem
se apercebiam do tempo a passar, do arrefecer dos cafés, de um dia o vazio
deixado por uma partida, só aí, quem sabe, a compreensão do tanto que fica por
dizer, pode ser uma repetição, que seja, há frases que sabem sempre a primeira
vez, neste momento, estava para além do espanto, não se vislumbravam tréguas no
horizonte com os rectângulos, nem se olhavam há bem mais de quinze minutos, quanto
mais conversar, reparei numa velhota, enviuvara há uns anos, que, todos os
dias, àquela hora, vinha pelo pão saído do forno, levava duas ou três carcaças,
pagava sempre com moedas, um esforço, não sei se da vista ou do bolso, em as
aglomerar, percebi, logo da primeira vez que nela reparei, há pessoas, sem
sabermos muito bem o porquê, que logo se sentam no nosso coração, somos tão
estranhos, o olhar dela, não obstante as trevas que a vida lhe lançou ao
caminho, agora mais esbatido, iluminava-se assim que encontrava o empregado, de
bigode, sorridente, com uma educação ímpar, já caminhava pelo Outono da vida, não
me recordo bem quando ou quem, se foi de manhã ou de tarde, a verdade é que ouvi
comentar que as duas ou três carcaças eram o jantar e também o pequeno-almoço,
do dia seguinte, da velhota, observações assim fazem-nos parar e reflectir,
pois, era ossuda e magra, o regresso à terra denotava-se no seu minguar, apesar
de tudo, o rosto benévolo pontuado com um sorriso, um café é o centro do mundo,
não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros,
não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o
meu curso, regresso à mesa mais próxima, bem diante de mim, os cafés
permaneciam intactos, nunca gostei de beber café frio, cada um deles permanecia
no seu isolamento sob os ditames do rectângulo, piedade e ira perpassaram-me
pelo espírito, neste ponto, senti-me numa crescente distância, pensei que, se morresse
por estes dias, partiria sem muita saudade, como foi possível este ser, de duas
patas, cair em tamanho ardil? E as suas expressões enquanto, com avidez, para
ali se consomem: total concentração, ar de pensador, ansiedade, riso,
apreensão, enfim, todas as cambiantes da existência se reflectem naquele
rectângulo… Decorreram cerca de vinte e seis minutos, desde que se sentaram à
mesa, nem uma palavra trocaram, já nem falo de se olharem, estamos, creio, no
términus do processo de desumanização. Não consegui olhar mais, senti-me a
asfixiar, levantei-me, peguei nos livros e saí para o ar entardecido da cidade,
como precisava de respirar, andei um bom bocado, precisava de aquietar o
pensamento…
Livros do Escritor
sábado, 9 de maio de 2026
Os factos da vida
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