Um entardecer de Verão, não sei
porquê, traz consigo um sentir de promessa, talvez por se alongar no gesto de
adeus, talvez pelo calor que brota do solo rumo ao céu anoitecido, talvez pela
lentidão cansada dos nossos gestos, talvez por nos termos esquecido de como
saber olhar as coisas, acho que é mais por aqui, afinal, desde há muito que me
sinto estrangeiro em terras longínquas, à minha volta o absurdo impera,
enquanto, em mim, a apatia ganha terreno… Estacionei o carro no possível de
sombra, apesar de, no horizonte, já vislumbrar a face da noite, aquela mancha
verde, que rodeava o edifício branco, agora ainda mais branco pela recente
pintura, sabia-me bem ao olhar e ao pensar, pois, só sentimos pelo que temos de
menos, enquanto me encaminhava para a larga entrada, olhei a sua janela, no
primeiro piso, não a vi, nem sequer a sua mão em saudações, talvez estivesse
deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados não tinha
muito por onde escolher, agora que penso nisso, de facto, doze metros
quadrados! Quase toda a sua vida numa quinta, ia para além de um hectare, a
casa enorme, dois pisos, perto de uma dezena de quartos, um legado dos pais,
enquanto criança só no Verão enchia, tios, primos, mais primos que, de tão
distantes, mantinha-se o pudor desta familiaridade, em adulta, só com os netos
um vislumbre de Verões passados… Os netos não são o futuro, mas sim o ansiado
regresso ao passado, com eles reaprende-se a olhar as coisas antes do
derradeiro adeus. Uns no início da caminhada, outros no fim, daí a compreensão,
daí a empatia. Entre eles, os esquecidos na sua desamparada distracção,
limitam-se a somar subtraídos dias, sem memória do início, e sem consciência do
fim que corre ao seu encontro, uma corrida silenciosa, furtiva, discreta, por
lugares sombreados muito para além de um pensar quotidiano. No fim, fica-nos
sempre, de cada um que se cruza connosco, nesta coisa chamada viver, pelo menos
a imagem que se cola a uma impressão, depois, claro, cada um tece os seus
juízos, para mim, ela permanece intemporalmente naquela infinita varanda (só
uma criança compreende o infinito), mão em saudações para o nosso carro que se
aproximava, e um sorriso que nos ensinava o que é regressar.
Agora, doze metros quadrados! Como
pode ali caber uma vida? E logo a sua! De uma infinita varanda (só uma criança
compreende o infinito) para uma janelinha despida (nem sequer a sua mão em
saudações), cumprimento a recepcionista, que também tinha outras funções, há
lugares assim, onde assimilamos as regras sem direito a réplica, como um quadro
que nos é apresentado, sem vislumbre de esboço, ou aceitamos ou simplesmente
partimos, mas a necessidade… Neste caso, permanece no primeiro-andar, talvez
estivesse deitada, com um livro, ou com a televisão, em doze metros quadrados
não tinha muito por onde escolher, que possibilidade de escolha se apresenta
aos oitenta e cinco anos? Subo os dois lanços de escada, depois, o corredor,
comprido, muito comprido, o chão a reflectir as luzes do tecto, tudo numa
limpeza quase a raiar a impessoalidade, um silêncio de fim sobre as coisas,
como se a vida tivesse partido para outras paragens, aqui e ali um quadro,
insuficientes para disfarçar aquela melancolia respirável, bato ao de leve na
porta, as molas da cama traduzem o esforço de se erguer, talvez estivesse
absorta com um livro, talvez olhasse, da varanda de si, o que lá vai, talvez, a
porta abre-se com um sorriso que nos ensina o que é regressar. E eu já não sou
o eu de hoje, mas o de ontem, quando,
pela janela do banco de trás, via a sua mão em saudações para o nosso carro que
se aproximava, é curioso, nesse indefinível instante, ela também não a de hoje,
mas a de ontem, por fim, tudo se dilui e regressamos à incómoda e fria
circunstância do hoje, para restabelecer a familiaridade sempre aquelas frases
impressas num sempre desbotado guião, Então,
como tem passado? Essa saúde, como vai? Não se tem esquecido de tomar a
medicação, certo? Quando, em verdade, queria perguntar-lhe o porquê de não
ter visto a sua mão em saudações à janela. E que saudades de lhe ver a mão em
saudações para um carro que se aproximava, e aquele sorriso que nos ensinava a
regressar, a velha esquivou-se, como sempre, habilmente àquele desbotado guião,
nunca teve paciência para teatralizações, optou pela cadeira e indicou-me um
banco, em doze metros quadrados não tinha muito por onde escolher, olhou-me,
neste ponto, não sei se sentia desconforto ou serenidade, partir não podia, o
seu olhar ia longe, Ainda não te
decidiste, pois não, meu filho? Às vezes, tinha a impressão de que não a
visitava, pelo contrário, acho que me vinha ver, pensei em responder-lhe (Como sabe, Avó?), mas era uma resposta
cansada, um regresso desnecessário à meninice, de facto, não, não me havia
decidido, sentia-me tão perdido, ela continuava a olhar-me, acrescentou, Sabes, és dos poucos que ainda se lembra do
caminho até aqui. Não censuro os teus irmãos, não penses isso, até compreendo,
nunca há tempo para nada nisso a que vocês chamam vida… O que diria minha filha
se vos visse? Nem um casamento sobreviveu! A sua voz apenas eco do seu
pensar, apesar da idade, mantinha a sua inalterável postura, Às vezes, penso, para que é que se casam?
Sabes, isto de viver é uma enorme canseira. No fundo, andamos para aqui, dez,
vinte, de repente, quarenta, num ligeiro salto já estamos nos sessenta, um
piscar de olhos, e vão oitenta e cinco anos, pois é… O problema é que, grande
parte do tempo, fugimos da vida, arranjamos todo e qualquer subterfúgio para
não olhar a vida nos olhos. Não, não me perguntes porquê. Isto acontece e
ponto. Já deves ter consciência disto, certo? Como se fosse uma evidência
desacreditada… Olhar a vida nos olhos! Ainda me lembro, a primeira vez, do alto
daquela varanda, em que vi o teu avô. Sabes, não penses que foi assim há tanto,
para mim, foi ontem. A vida é isto: nós e o tempo; cada um com o seu; no fim, o
que resta é a memória, como cinzas a testemunhar um calor desaparecido… Não te
demores a decidir, o tempo é um viajante apressado, e sempre a nossa angústia
de não lhe sabermos o destino. Se não me arrependo de nada? Meu Deus, só os
tolos dizem que não, repara, hoje as pernas pouco vão além deste quartito, ao
menos, estas árvores em volta acalmam-me o pensar (nisto, levantou-se e foi
até à janela), sabes, gostava de ter
fugido menos da vida, e como conheci gente bem mais veloz… Mas respondo por
mim. É estranho, olho-me dentro desta carcaça, por vezes não me reconheço ao
espelho, porque no pensar continuo a menina que, do alto daquela varanda, viu
ontem o teu avô pela primeira vez.

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