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A mostrar mensagens de maio, 2025

O respirar da noite

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  Saía com o cão, todas as noites, à mesma hora, no passeio, logo à entrada do prédio, um casal de namorados, ela sua vizinha, abraçados, em juras de amor eterno, olhou-os com indulgência, sabia que, à maioria, um casal de namorados apenas suscita azedume e inveja, pelo sentir jamais reencontrado, ao contrário, ele em compaixão pela magia que iriam inevitavelmente perder, tarde ou cedo a vida encarregar-se-ia de lhes subtrair aquelas juras de amor eterno, a insaciável vontade de permanecerem abraçados, o perder-se no olhar do outro, como se uma inevitabilidade o esboroar daquele encantamento, de imediato, ambos cumprimentaram-no, retribuiu, a vizinha não resistia a umas festas no cão, o rapaz mais contido, em verdade, nunca olhamos para um casal de namorados, mas sim para a nossa história de então, a indulgência dele era fruto da saudade daquele sentir, apenas isso, como a tentou reencontrar, tudo em vão, demorou tanto a compreender este facto, e como sofreu, ainda a tempo resolv...
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Anúncio Televisivo: "O lento esvoaçar das cortinas pela manhã"

 
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Consolação II

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  À angústia do último quadrado de chocolate somava-se o iminente confronto de olhares com a mãe, sentada, diante da televisão, no sofá, parecia aguardá-la, como se para lhe relembrar a derrota por, há cerca de quinze anos, afirmar “Só aqui regresso, para vos visitar…”, entretanto o pai tornou-se uma memória, partira, de madrugada, há uns anos, os médicos, quando desconhecem a causa, “Complicações de vária ordem…,” em verdade, muitos partem por cansaço, simplesmente já não lhes apetece vislumbrar a manhã seguinte, fadiga por esperar que tudo uma outra coisa, quando a realidade sempre num estatismo repetitivo e exasperante, em alguns aspectos apenas para pior, ela evitava olhar as diversas fotografias do pai expostas lá por casa, sobre camilhas ou destacadas em prateleiras, curioso o facto de a mãe omnipresente a seu lado em todas – reflectiu neste tema em criança: o pai não teria uma existência própria? Lá compreendeu, com o tempo, que a vida de um casal obedece a um respirar on...

Uma janela onde nunca anoitece

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  É inegável que ele mudou desde que… Sempre achei que as evidências existem por alguma coisa, daí que não valha a pena virar costas ao óbvio, nunca apreciei particularmente aqueles rostos invernosos que se procuram esconder com artifícios primaveris, como se fosse possível sublimar cada traço de uma existência, mas, como dizia, é inegável que ele mudou desde que, pois, de facto, quando agora saio de manhã, ainda fica a dormir, agarro, em cada gesto, o possível de silêncio para que perdure aquele sono, foi há pouco mais de um ano, chegava sempre perto da hora de jantar, as miúdas já na mesa, assim que ouviam a chave, os bancos a ressoar pela casa, as duas numa corrida ao seu encontro, um rito diário que cessou naquele fim de tarde, esperou que terminássemos o jantar, as miúdas na cama, contudo, pela demorada nervoseira ao abrir hoje a porta, percebi-lhe a dificuldade de um fardo imprevisto, após dois cigarros inquietos na varanda, veio para dentro, olhou-me, eu sentada, à espera ...

A linguagem do olhar

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  “Sabes, ando para aqui com uma ideia de… Sei lá… De virar costas a tudo…,” “Recomeças com as tuas crises! Nada de novo…,” “Não, desta vez é diferente! Sinto-me enfadado de tudo… Olho para as coisas, à minha volta, e só um enorme bocejo…,” “Quantas vezes te ouvi isso… É uma fase, como muitas que atravessaste, verás…,” “Enganas-te! Há uns dias, dei por mim a dar uma volta pelo porto, vê bem onde me levaram os pensamentos: ao porto! Andei por lá, a sentir o apelo da partida, olha que é irresistível, quando vi a oportunidade, não hesitei, subi a um navio-mercante atracado, por acaso ninguém me viu, só para olhar o meu quotidiano de um espaço que, de um momento para o outro, ruma para um lugar que nem a nossa imaginação alcança…,” “Sonhas em partir para um lugar que nem a imaginação alcança, eu sonho em chegar ao final do mês sem me endividar…,” “Sempre foste realista, apreciava essa tua faceta, de certa forma, enternecia-me, talvez por não a possuir, mas também não a desejar,” “Não...

Uma expressão a resvalar para o beicinho

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Teve de estacionar longe, compreensível pela hora tardia, com os anos as prioridades também mudam (quem diria que um lugar-vago, para arrumar o carro, assumiria contornos quiméricos?), desceu a rua, de mãos nos bolsos, olhar na calçada, em verdade, arrastou-se passeio abaixo, as solas dos sapatos não se chegavam a descolar do chão, por fim chegou ao destino, olhou pela montra para verificar se ainda por lá clientes, pareceu-lhe não haver muitos, resolveu entrar, o amigo apercebeu-se da sua presença e saudou-o, sem retirar as mãos dos bolsos retribuiu o cumprimento com uma anuência do rosto, embora a sua expressão apenas traduzisse um irreprimível desejo de partilha de uma dor demasiada, sentou-se, mais concretamente deixou-se cair, numa, das duas cadeiras, da entrada, a mão, em incessantes passagens pelo rosto, revelava a sua angústia, na mesita, bem à sua frente, duas ou três revistas com o prazo de validade expirado há anos, o amigo olhou-o com apreensão, a perspectiva de um  ...

As coisas nunca ficam onde as deixámos…

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  Há um momento, na vida de todos, onde se dá a compreensão se partilhamos os mesmos sonhos que os pais, de uma outra forma, se aquilo que queremos ou chegamos a ser equivale aos seus anseios, este momento aportou cedo na sua vida, ainda na meninice, lá por casa “ Tens de ser doutor… Tens de ser doutor… Tens de ser doutor…”,   mas que raio é isso de doutor, ele queria é ser um super-herói, agora doutor, para salvar a humanidade, viver uma existência aventureira, de constante perigo, ser ovacionado por todo o mundo, comparar este seu anseio com uma vida comezinha, incógnita, aborrecidíssima, que obriga ao consumo e consumo de livros, exames, mais exames, e exames ainda, anos de faculdade, havia sequer comparação possível? Começou, nesta fase, a olhar os pais com desconfiança, será que era assim tão amado como muito gostavam de propalar? Não era uma questão de somenos, aqui abriu-se-lhe a primeira crise existencial, e uma hipótese começou a tornar-se nítida – ter sido resgatado ...
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