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A mostrar mensagens de maio, 2022
Os números não choram
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A campainha soou como se procurassem outra morada. Ela esperava aquele toque mais tarde, encaminhou-se para a porta, o primeiro passo saiu contrariado, o segundo mecânico, do terceiro nem se apercebeu, o quarto já conformado, antes de abrir, olhou o marido na moldura plástica, transparente, em cima da camilha, a gravata ligeiramente torta, ela sempre com vontade de endireitá-la, mas a moldura a impossibilitar, antes, ele ainda a seu lado, a virar-se para ela, Está bem posta? , logo, passos de corrida, os braços estendidos em seu socorro, a verticalizar correctamente aquele enfeite que caracteriza qualquer senhor que se preste como tal, a suspirar pela aparente ilusão do que foi, por fim, a porta, três crianças correm ao seu encontro, ela baixa-se para as receber, embora lhe custe, os joelhos, a ciática, talvez já devesse estar também numa moldura, e assim ajeitar a gravata do marido, as falas das crianças atropelam-se, o som em crescendo, uma guerra jamais declarada pela atençã...
E se de uma janela nem horizonte…
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Ela assoma à janela. Apenas olha para baixo. Espera pelo baque da porta do prédio, um som indistinto entre vidros e alumínios, e depois surge a figura dele, lá vai, numa passada em que se lê o saber da amargura do destino, mas obstina-se, lá vai, sempre, àquela hora, como se um rito, lá vai, ela mão no vidro, a sentir aquela frieza que traz consigo sempre a memória do real, a mão em adeus, ou num apelo, mas ele sempre, lá vai, a dobrar a esquina, até que, por fim, apenas uma mão no vidro. Horas antes, entrara em casa, com aquela expressão peculiar de quem se quer saber a sós, senta-se no sofá, nisto, a campainha, ela e a irmã em corridas para a porta, passam por ele como se nada, aguardam já de porta aberta, nas suas costas apenas sofá e jornal, o elevador, uns braços cansados pousam a subsistência que ameaça as ténues margens plásticas dos sacos, ouve-se uma expiração com o comprimento da fadiga, ajoelha-se, as irmãs de novo em corrida, os braços cansados agora abrem-se num sorr...
Um amanhecer nunca se repete
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O que leva aquela mulher a sair de casa a estas horas? Lá vai ela, um saco de plástico na mão direita, um casaco vestido na pressa de acautelar frios e ventos da noite, na sala da sua casa, uma luz apaga-se enquanto o estore sobe, uma silhueta reflexiva segue-lhe os passos, talvez mais próxima da apreensão, atravessa a rua, vira à esquerda, desce uma escadas, e dilui-se num horizonte sem luar… Ao mesmo tempo que ela deixava a entrada do prédio, um comboio desacelerava à vista de uma estação, na segunda carruagem, um sujeito levanta-se num esforço de equilíbrios, também de casaco, embora, pelos visíveis passos do tempo, apenas um sorriso tímido para aquelas noites demasiado lentas, caminha, agora, passos do possível, sempre que pode, uma mão estendida numa súplica muda por um apoio, os escassos passageiros já com a distância, na pressa de um regressar por se saberem talvez esperados, ele sempre com o possível de si, a deixar a estação, a alcançar o passeio, de novo a contorcer-s...
E atravessar uma estrada, não é atravessar um oceano
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Acho que nunca me reconheci num espelho , pensava ele, àquela hora, no sempre arrastado regresso, sim, regressar é um acto de lentidão, lá ia, passeio fora, na dúvida das idades, talvez porque a idade tem a cor do pensar e nunca a do rosto, ainda há pouco, no quiosque, a tratarem-no por O que vai ser, caro senhor? E ele a estranhar, afinal, naquele momento, com os seus dez anos, perdia-se com a capa, de cores quentes, de uma revista agora em reedição, onde não havia espaço para a palavra limite e os conceitos éticos elementares exibiam-se ao peito, por ali, apenas se velava o rosto, mas ele também nunca se reconheceu num espelho, à hora do almoço, a insistência demasiada do telefone, pelo toque adivinha-se o emissor, a mulher, a natação da filha, a mochila já à entrada, ela, a essa hora, uma reunião na escola da outra filha, a repetição com a mochila, logo a resposta, Sim, sim, não te preocupes, não me esqueço, mecânica, artificial, no fundo, a ocultar, sempre, um outro sentido...
Há muito tempo
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Há muito tempo, um homem foi presenteado com uma porção de território no norte de uma península. Foi um reconhecimento pelo seu labor. Desse modo, decidiu ir para lá viver. Casou e teve um filho. Quem o conheceu, dizia que era um homem de princípios. O território que lhe foi oferecido, no norte da península, estava apartado a Oeste por mar, a Norte e a Este por um conjunto de reinos deveras hostis, e a Sul por gente de terras distantes que rezava ao mesmo Deus, mas não ao mesmo profeta. Após a sua morte, mãe e filho desentenderam-se. A mãe quis pacificar-se com um dos hostis reinos de Este, o filho não, e, na sequência desta divergência de opiniões, o filho resolve apelar à força. O resultado, claro está, é um dos fados mais antigos do homem, e de escarlate se pintou a terra, a Este, e, depois, a Sul. E a porção de território, no norte da península, herdada por seu pai, crescia sob a vertigem daquele fado de tão pretérita melodia. A este filho, que tanta terra adicionou à original geog...