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A mostrar mensagens de março, 2026

Quando me for embora que horas serão?

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  Nada disto claramente escapou à mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos, assim, reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha, uma vez mais, pela casa, agora a colega com o marido, eu, de novo, à porta para os receber, estes já os conhecia, conforme previ, a colega com uma indumentária balizada algures entre os anos oitenta e as sombras estáticas de um passeio cosmopolita, tudo para maquilhar uma ruralidade que ameaçava irromper a cada gesto, sílaba, olhar, nunca compreendi esta urgência de renegar o ontem, o marido, sempre dois ou três passos atrás, um sujeito alto, anafado, com gestos ensonados, nele, porém, a ruralidade era palpitante, se ...
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Que horas serão quando me for embora?

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  Ainda não tinha tirado a chave do bolso, já o cheiro da comida por todo o lado, e barulho de panelas, louça, quase instintivamente olho o relógio, pouco passava das dezassete, contudo, ela nisto, passou-me, confesso, a ideia de virar costas e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, há quanto me foge um momento assim? Talvez há demasiado… Regresso-me e já a chave a cumprir-se, logo ela Até que enfim! Mas não sabes que dia é hoje? Não fiques para aí parado! Tira o casaco e vem ajudar-me… Anda! Despacha-te! Não te esqueças que, daqui a nada, tens de ir buscar os miúdos à escola… Ela debitou mais frases, muitas mais, não, não lhe ouvi um Boa tarde, nem sequer um singelo Como estás? Ou então Como foi o teu dia? Nada! Só me ficou o Despacha-te! Eu, que ainda há pouco, pensava em virar costas e sentar-me placidamente a uma esplanada na companhia de um cigarro e de memórias, a verdade é que chegamos a um momento na vida e, simplesmente, deixam...
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  Inicio a compreensão do tempo: só importa o que, no fim, perdura em nós… in Nuvens passeantes pelas águas

A porcachona e o tintim – epílogo

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  A pedido de muitos leitores, irei hoje esclarecer por onde andam estas funestas personagens e seus párias, desde já, como é evidente, não caminham por lugares muito ensolarados, não fossem personagens obscuras, a montante destas linhas pontifica um imperativo ético – de alertar incautos que se venham a cruzar com estas sinistras figuras –, bem como satisfazer a curiosidade dos leitores, de outro modo, confesso que nem uma sílaba gizaria, quanto às últimas da porcachona, parece que anda a grunhir muito pelas costas, o bugs bunny (recordam-se?) também caiu nesse erro, e a coisa correu-lhe mal, quase ficava com uma cenourita entalada algures, por conseguinte, é salutar para a porcachona (grunhe baixinho, muito baixinho, porcachona) e sua pocilga que ponham o único neurónio em movimento para não terminarem entalados algures pelos caminhos do mundo, fica o conselho, seria igualmente positivo que andasse com o focinho mais sorridente, quem nasce divorciado da beleza, pelo menos, qu...

Uma marquesa a caminho de Tavira

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A maior parte do tempo esquecemo-nos de viver o presente, preocupações, sonhos por realizar, cansaço, a voragem do dia-a-dia, enfim, o drama da vida contemporânea, no entanto, só quando um facto, iniludível e dramático, se anuncia no amanhã, é que fincamos os pés no presente, saboreando cada instante, como se o futuro apenas uma ilusão, há décadas que ocupava, através de um subaluguer, uma salita, se assim se pode denominar uma divisão, de oito metros quadrados, numa cave, quase inteiramente ocupada por uma marquesa, onde mitigava dores articulares, endireitava colunas e derramava o seu “saber”, bom, este último conceito é, sem qualquer dúvida, bastante controverso, não por acaso era conhecido como o Mestre, havia quem, de facto, se deitasse na marquesa só para ouvir as suas histórias, únicas, inolvidáveis, dignas de figurar em qualquer compêndio de actos de bravura, as más-línguas, como é evidente, escarneciam e questionavam a sua veracidade, pura inveja, nada mais, quem, no seu per...
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  ...  as grandes lições da existência gravam-se sempre mais na alma do que na carne... in Nuvens passeantes pelas águas

Finitudes

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  O mais curioso de tudo é que fomos lá juntos, quase parecia uma segunda lua-de-mel, os preparativos, passaportes, a escolha do fim-de-semana, os miúdos com a minha mãe, a viagem, assim que aterrámos, uma chuva miudinha omnipresente, pelo rosto, pelas roupas, ele “Já estou com saudades do nosso sol”, limitei-me à ternura de lhe dar a mão, assim silenciava angústias, ele, como sempre fazia, segurou-a num sentir feito gesto, após o aeroporto, a chegada ao hotel, a chave, elevador, o quarto (talvez alguém se tivesse esquecido de um sonho na almofada, não sei porquê, mas sempre desejei encontrar, nem que fosse por uma vez, um sonho abandonado. Tantas coisas largadas no mundo, mas ninguém se esquece de levar os sonhos consigo!), por fim, abrir malas, só depois, muito depois, um passeio já sob candeeiros iluminados, caminhávamos não pelas ruas novas para o nosso olhar, mas, no fundo, pelas interrogações que o amanhã nos apresentava. Há uns meses, sem nada me dizer, não sei se por afirma...
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  "... estava sentada, num longo e desumanizado corredor, a humanidade, num hospital, só se circunscreve a alguns gestos, não é verdade?" in Nuvens passeantes pelas águas