Quando me for embora que horas serão?
Nada disto claramente escapou à mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos, assim, reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha, uma vez mais, pela casa, agora a colega com o marido, eu, de novo, à porta para os receber, estes já os conhecia, conforme previ, a colega com uma indumentária balizada algures entre os anos oitenta e as sombras estáticas de um passeio cosmopolita, tudo para maquilhar uma ruralidade que ameaçava irromper a cada gesto, sílaba, olhar, nunca compreendi esta urgência de renegar o ontem, o marido, sempre dois ou três passos atrás, um sujeito alto, anafado, com gestos ensonados, nele, porém, a ruralidade era palpitante, se ...