Livros do Escritor

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sábado, 28 de março de 2026

Quando me for embora que horas serão?

 



Nada disto claramente escapou à mulher do colega, mais nova e atraente, até achei, por breves instantes, que me lia os pensamentos, receei, por exemplo, que me perguntasse: Ainda deve muito da louça? Já viu, a taxa de juro do visa é um autêntico roubo… E a senhora da limpeza teve cá um trabalho! Também não lhe dá jeito comer de pé… Pois, estas ridículas modas, não é? Pensamentos, assim, reconfortavam-me, afinal, dá algum jeito comer de pé? Entretanto, a campainha, uma vez mais, pela casa, agora a colega com o marido, eu, de novo, à porta para os receber, estes já os conhecia, conforme previ, a colega com uma indumentária balizada algures entre os anos oitenta e as sombras estáticas de um passeio cosmopolita, tudo para maquilhar uma ruralidade que ameaçava irromper a cada gesto, sílaba, olhar, nunca compreendi esta urgência de renegar o ontem, o marido, sempre dois ou três passos atrás, um sujeito alto, anafado, com gestos ensonados, nele, porém, a ruralidade era palpitante, se me perguntassem qual a sua profissão, desassombradamente diria taxista, havia nele uma qualquer urgência por se sentar, como se fosse a sua posição natural, o seu horizonte temático também não era muito vasto, oscilava entre, claro, a bola e motores, embora, pasme-se, fosse bancário, o que também não lhe era abonatório, mas daí a inferência pela sua posição natural, após deixá-los entrar e fechar a porta, não me escapou as posições tomadas no terreno, o taxista sentou-se no sofá, olhar bovino na televisão enquanto lhe enchia o copo, a rural da mulher foi ter com a minha à cozinha, quase ignorou a mulher do colega, mais nova e atraente, apenas se salvou o imperativo da educação, dediquei-me a colorir copos que teimavam na transparência, particularmente o do taxista, entretanto, percebi na mulher do colega uma crescente insatisfação, falavam em surdina, mas certas frases chegaram-me Não devia ter vindo… Eu sabia! Já viste, a cara que estas duas me fizeram? Parece que estão a fazer um frete! E há quanto tempo estão as duas para ali na cozinha? Devem estar a dizer das boas… Sinceramente, para que é que me vim aqui enfiar? Só tu, para me meteres num filme destes! Primeira e última, acredita! Onde já se viu uma coisa assim? Ela nem se digna a fazer sala! Coitada, está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! Da comida à decoração, tudo sabe a plástico! Pelos gestos e expressões, o colega procurava, como podia, acalmá-la, aproximei-me deles e gracejei qualquer coisa, pareceram-me ambos razoáveis, retribuíram igualmente com uma piada, eu próprio comecei a inquietar-me com a demora daquelas duas na cozinha, por breves instantes, invejei aquele olhar bovino que contemplava a televisão, num estar para além de tudo, enquanto transparecia, uma vez mais, o copo, creio que se lhe perguntasse onde estava a rural da mulher, ele não sabia e tão pouco se importava… Como disse há pouco, invejei aquele olhar bovino, num estar para além de tudo. Por fim, elas deixaram a cozinha, povoaram a mesa com o propósito deste serão, não sei porquê, mas uma imagem da infância levantou-se diante do meu pensar, a lareira da minha avó, quando as suas mãos pousavam os frutos da sua manhã de labor, e uma frase, dita há pouco em surdina, regressa-me está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! De facto, daquelas travessas não emanava qualquer aroma (Da comida à decoração, tudo sabe a plástico!),  porém, da cozinha da minha avó, lá longe, na aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado… Elas resolveram estabelecer um diálogo muito particular, achei despropositado, o colega ainda tentou um princípio de conversa, o que se lhe compreendia em distracção compensava com uma fortíssima dose intuitiva, daí que os seus esforços, por uma hipotética conversa, não tivessem passado exactamente de um princípio de intenções, talvez começasse a vislumbrar, pelo soalho, as máscaras caídas das colegas, é possível, poucas são as mulheres que gostam de sombras, sobretudo de mulheres mais novas e atraentes, neste ponto, confesso que me chocou o facto de nenhuma delas disfarçar o azedume, nem a educação sobreviveu, nem a etiqueta, nada, apenas o meu espanto silenciado pela estranha que olhava diante de mim, malgrado dormir com ela há mais de quinze anos… Por fim, os miúdos, em poses e modos robóticos, assim que entraram, o meu olhar procurou o rosto da mulher do colega, mais nova e atraente, li-lhe somente indulgência perante aqueles gestos teatralmente contidos, até no tom de voz se denotava obediência a um guião escrito por outra mão, dei, de repente, por mim a pensar Porquê tudo isto? Quanto de nós está nesta sala? Tão pouco, tão pouco… Acho que nem os pés chegaram a entrar. Partimos para tão longe, assim que a hora deste absurdo jantar chegou, que deixámos para aqui os corpos à pressa, desengonçados, desanimados, entregues a uma lenta corrente sem prenúncio de uma qualquer foz amanhecida… De novo aquela frase está tudo tão artificial que se esqueceu de dar alma às coisas! O colega e a mulher, mais nova e atraente, encaminharam-se para a porta, de certa forma, na velocidade dos seus gestos e na opacidade das suas expressões, percebia-se o cansaço de segurar as máscaras, começavam a ceder, adeuses de ocasião e, por fim, partiram, percebi-lhes leveza na passada, elas nem à porta vieram para se despedir, regressei à sala, o taxista já ressonava, elas continuavam em sussurros indignados pela mulher do colega, mais nova e atraente, os miúdos no quarto com o vício do hoje, olho as travessas, praticamente intactas, mas tão vazias de alma… Imagino o colega, com a sua mulher, mais nova e atraente, a parar numa rulote, cada um a pedir o seu hambúrguer, depois, enquanto os ombros se tacteiam, olham o mar e saboreiam a inesperada refeição, talvez ainda haja tempo para um beijo quente e renovar juras de amor, talvez… Pelo menos, era o que eu faria, enquanto, lá longe, na aldeia, o mundo ficava bem mais perfumado…          

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