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A mostrar mensagens de dezembro, 2025
Purgatório
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Apesar de em despedidas do Outono da vida, desconhecia que sonho e pesadelo são faces da mesma moeda, quis terminar a sua caminhada profissional naquele lugar, guiado pelo sentir de um regresso a “casa,” também ignorava que as coisas nunca ficam onde as deixámos, até ao último expirar por aqui se aprende, não fosse esta existência a verdadeira escola, uns mais à frente, outros eternos repetentes, há inevitavelmente os familiares das cábulas, por bem votados ao malogro na hora final, esta decisão, de terminar a sua caminhada profissional, naquele lugar, foi há uns bons anos, talvez a ânsia de reencontrar os passos do pai, embora, de forma insistente, a voz materna, volta e meia, “Aquilo é uma tropa fandanga comunista… Aquilo é uma tropa fandanga comunista… Aquilo é uma tropa fandanga comunista…”, antes de se oficializar o regresso, chegou a lá entrar como mediador de um litígio burocrático, lírico como sempre, ignorava outro facto: “Não se joga limpo num lodaçal”; foi gozado e e...
Um dia todos acabamos por cair
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O céu… Apenas o céu, não parecia assim tão longe, como se uma viagem que finda, à sua volta, vozes, mas parecia-lhe que à volta de um outro, afinal, a sua viagem finda no azul que contempla agora tão próximo, é estanho, o azul das alturas sempre lhe pareceu tão longínquo, quase uma irrealidade, e agora diante de si, tangível, de facto, a viagem finda, como se da carruagem percebesse a estação, levanta-se, aguarda apenas que se imobilize para então se apear, e o resto tão longe, como, no fim, tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o céu… Nisto, uma voz sumida, proveniente de um qualquer canto de si, sussurra Não te levantes, não te levantes… Nem penses nisso! Sem perceber o porquê, deixa-se estar, compreende que está caído no chão do mundo, a olhar o azul das alturas, mas desconhece a razão da queda, um calor súbito convida ao repouso, deixa-se ir, há quanto uma paz assim? O resto tão longe, como, no fim, tudo se torna uma imensa distância, pois, o céu, apenas o...
A Porcachona e o Tintim II
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A pedido de muitos leitores, hoje vou dar conta do paradeiro destas sinistras figuras, a Porcachona (uma obesa, com o cabelo pintado de amarelo, que arranha castelhano, divorciada, mais que previsível, quem aguentaria, por muito tempo, a Porcachona?) e o Tintim (um boneco que ambicionava ter o dom da escrita, destino vilão que não lhe conferiu tal dádiva, é vê-lo andar diariamente com um livrito debaixo do braço, sempre confere um ar erudito, a melhor definição deste boneco proveio de um “dito seu amigo”: “É como a cortiça, está sempre à superfície), que tanta emoção despertaram, a crónica anterior serviu para as apresentar e reflectir no seu modus operandi, por estes dias, o boneco é visto em diálogos sussurrados, só muda de interlocutor, talvez questione se é assim tão dramático ou inabitual o facto de usar umas cuequinhas do Tintim, uma questão merecedora da devida reflexão, quem passe por perto nem uma sílaba ouve, um tema sensível compreende-se, do foro mais que íntimo, a...
Leveza
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Ainda hoje, aquela é uma memória quente, sem dúvida, passei lá há uns dias, por acaso, regressava do trabalho, um acidente a bloquear a estrada fez-me sair do meu percurso normal. É curioso, olhei o lugar e parece que nunca ali vivi, tal a indiferença com que me fitou, nesta vida há momentos em que duvidamos até de sermos, este foi um deles, a praceta sem um vislumbre de verde, numa humanização desumanizada, sempre à sombra, por ali a luz sempre foi escassa, de manhã ou de tarde, tal a altura dos prédios e a desarmonia das formas, tudo num tortuoso urbanístico do alcatrão do estacionamento às antenas dos telhados, reparei, sem qualquer espanto, que em quatro ou cinco janelas, de casas diferentes, Vende-se ou Arrenda-se eram palavras de ordem, normal por ali, as casas tão pequenas, rápidos apeadeiros nesta jornada de nome vida , desacelerei para ver a janela onde, num certo tempo, olhei de dentro para fora, não conseguia, pois, a desarmonia das formas, logo, atrás de mim, uma b...
Suave doçura
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Parecia outro, não sei porquê, assim que um cão, gato, até pássaros, por perto, os gestos serenavam, sorria, gesticulava-lhes, creio, com sinceridade, que conversava com os bichos, prontamente em busca de comida, como se uma inextinguível dívida, diante dos bípedes, proclamados de humanos, rosto fechado, azedume e desprezo, com o tempo agravou-se, por norma é o que sucede, há uns dias, uma vizinha não hesitou e, com a devida indignação, abordou-me “Olhe, desculpe a frontalidade, estou muito desgostosa com o seu marido, há uns dias, estava eu a passear o meu Petsi, cruza-se connosco, prontamente se baixa em festas, carinhos e risos para o cão, sabe como é o meu Petsi, sempre gostou muito de atenções, quando se ergueu, virou costas, seguiu caminho e nem se dignou a me cumprimentar, creio que nem sequer me olhou, se é que me viu”, “Deixe lá, deixe lá, não ligue, desde há uns tempos que lhe deu para isso…,” “Afinal, somos vizinhos há quantos anos? Cumprimenta o meu cão e ignora-me ...
A Nininha II
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Lembram-se da Nininha, essa mesma, aquela personagem rasteira, maldizente, sabuja, até de estatura não se distancia muito do chão, o focinho está a meio-caminho entre uma mulher-a-dias e uma freira arrependida, a indumentária também oferece o seu contributo para este quadro, mobiliza-se por sombras e esquinas, pois bem, há novidades, desde logo, a que mais saltou à vista foi o retirar da bandolete, chocante, dramático, dilacerante, sem dúvida, esperemos que a anterior crónica não tenha contribuído para tal desfecho, mesmo assim, a ruralidade não a larga, pois, há coisas que se colam à pele, ajeitou, à sua maneira, claro, a disforme massa grisalha que lhe preenche o cocuruto, não sei que desarranjo foi aquele, apenas acentuou os farrapos esbranquiçados, o efeito final é de uma ratazana assustada a farejar em busca do esgoto mais próximo, lá se foi o focinho a meio-caminho entre uma mulher-a-dias e uma freira arrependida, como as coisas mudam no espaço do viver, e a bandolete, me...
O Bugs Bunny
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Caros leitores, as minhas desculpas por, nestas últimas crónicas, retratar desprezíveis e sinistras figuras, desde uma Porcachona, a um autêntico boneco que usa cuecas do Tintim, passando por uma perna-de-presunto com laivos de “dona do pedaço,” não se preocupem, voltarei, em breve, aos vôos que sempre me nortearam a escrita, falta-me só retratar uma desprezível e sinistra figura, embora com uma notória aparência de desenho-animado, assim que me apresentaram, logo o meu olhar perdido naquelas mais que proeminentes dentuças, como é óbvio, era-lhe impossível fechar a boca, confesso não lhe ter ouvido uma sílaba, fascinado que estava naquele subir e descer das favolas, bem diante do meu rosto, e eu sem uma cenoura para…, senti-me o maior dos pecadores, como era possível tamanha falha, as favolas, bem diante do meu rosto, subiam, desciam, subiam, desciam, subiam, desciam, e eu sem uma mísera cenoura para sossegar aquele frémito, a indumentária também não me passou despercebida, o c...