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A mostrar mensagens de agosto, 2024

O pântano da alternadeira

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Já ouvi, em tempos, alguém afirmar que as rameiras ajudam à sobrevivência de muitos casamentos, pois, é possível, à luz desta premissa, hoje vamos falar de “O Pântano”, uma conhecida casa-de-alterne, gerida, como é natural nestes contextos, por uma hábil alternadeira, dizem as más-línguas que, há uns anos, soube ardilosamente envolver-se com um velho, de carácter deveras manhoso, dizia-se, por aquelas bandas, que a preparou cuidadosamente para o cargo, era uma mulher baixa, com umas ancas de égua, um rosto de suína deveras desagradável, o cabelo, se assim se podia denominar, uns fios sebosos num constante desalinho, quanto à indumentária, o normal de uma alternadeira, uma efémera tentativa de parecer o que não é, dos pés à cabeça nada lhe assentava condignamente, a rotunda volumetria apenas um desafio para as costuras, não havia dia em que o velho, de carácter deveras manhoso, não fosse visto a entrar na casa-de-alterne, apenas ia para contabilizar os proveitos, há muito que a natur...

Espera, ainda não te contei tudo…

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  Os outros viam-na como uma inclemente predadora, voraz, insaciável, à espera de uma incauta presa, ela, por seu lado, apenas em busca de um ouvido para relatar as últimas façanhas do filho, como as coisas se alteram mediante a perspectiva: de um lado o terror, do outro a carência; àquela hora da manhã, sem se aperceber, assim que um pé no passeio, ajeitava de imediato a gola do casaco, a brisa outonal assim o exigia, o Verão afigurava-se-lhe agora um longínquo ponto ido, quase nas margens da memória, ela não se dava bem com o frio, embora gostasse das roupas exigidas, permitia-lhe mais variedade, e a indumentária é-lhe um tema caro, a paragem-de-autocarro fica, mais ou menos, a duzentos metros da porta do prédio, estuga o passo   quase de forma mecânica, ou talvez para se aquecer, para o autocarro ainda faltavam quinze minutos, assim que a paragem no seu horizonte, do outro lado da rua, emerge-lhe um terror muito subterrâneo que a faz, de forma imperceptível, refrear a pas...
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  No fundo, todas as histórias de amor são belas, por serem raras, não fosse o amor o mais raro bem deste mundo... in Vazios

Vazios

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  Há uns dias, não sei porquê, parei e olhei para um lugar significativo desta minha passagem pelo aqui, de facto, ignoro a razão de o ter fixado precisamente naquela tarde, pois ali passo de vez em quando, mas não me quero perder, como dizia olhei para um lugar significativo desta minha passagem pelo aqui, estive, há uns anos, ali por um imperativo-social, religioso e, acima de tudo, do sentir, o meu olhar de hoje vislumbrava o lugar onde se tiraram múltiplas fotos, à minha volta mais de uma centena, entre familiares, amigos, conhecidos, desconhecidos e até inimizades – também era um imperativo-social –, disse há pouco que olhei para um lugar significativo desta minha passagem pelo aqui, talvez não seja bem assim, quando o meu olhar percorreu aquela escadaria, encimada pelas pedras que nos relembram a existência de Deus, eu procurava reconstruir, pelo menos, uma das múltiplas fotos ali tiradas naquele dia, porém, foi-me impossível, tentei, voltei a tentar, esforcei-me de novo,...
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  Creio ser tarde para tudo! Nós somos apenas memória! Só aí respiramos. in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã

Teatro

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  Estou, da janela, com a rua deserta e anoitecida, sabes, cada vez gosto mais de olhar ruas desertas e anoitecidas, já viste mais verdade no mundo? O resto é apenas teatro, e de fraca qualidade, duvidas? Agora tudo de férias, conceito mais estranho, se a maioria nem trabalha, férias de quê? Repara, o próprio conceito se dilui no circo de fotos e publicações, nas redes-sociais, com o destino mais exótico, longínquo, luxuoso, a foto mais ovacionada, por regra com uma generosa dose de carnes à mostra, em posições artificiais, sorrisos postiços, e uma efémera tentativa de exteriorizar “Estou no paraíso e sou tão feliz…” Não é necessária muita sabedoria para se compreender que o paraíso não é deste lado, daí a minha crescente inclinação por contemplar ruas desertas e anoitecidas, já viste mais verdade no mundo? Creio que, no fundo, fogem de si mesmos, apenas e só, e o sorriso de cada foto é diametralmente oposto à felicidade sentida, não duvides, lembro-me de um conhecido, não, não m...
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... nós somos a soma de momentos, mas a poucos regressamos, esses são os que perduram e iluminam a palavra saudade… in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã

Um olhito-transviado e maroto

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  Há personagens, com que nos cruzamos neste somar de dias, que, por este ou aquele motivo, nos parecem familiares: rosto, voz, gestos, situações, em alguns casos apenas a sensação de familiaridade, e a dúvida da sua génese; noutros identificamos logo por se assemelharem a personagens de cinema ou de televisão, esta personagem, por acaso, tinha o seu sósia noutra arte: na banda-desenhada! Tudo por causa do seu essencial par-de-óculos! Sempre que se invoca alguém, por muitas particularidades que haja, primeiramente surge o rosto, de seguida a voz (factualmente: visão, audição, os dois mais relevantes sentidos), neste caso, o rosto estava engolido pelas lentes-escurecidas , um pouco abaixo, a típica bigodaça destes lados, se me perguntassem a cor dos seus olhos, apesar de nada me interessar, não teria resposta, tal o hermetismo daquelas lentes, para o leitor não pensar que me distraí, esclareço já que o seu sósia, na banda-desenhada, é o director de um certo jornal, permanentement...
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  ...  talvez escrever seja o respirar da minha alma... in Esta estranha coisa de juntar palavras

Esta estranha coisa de juntar palavras

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  Uma das ambições que, desde cedo, guardei para mim, foi a de escrever um livro, concretamente um romance, desconheço a sua génese, talvez não se distancie tanto assim daquele lugar-comum que cada homem, nesta sua passagem, deve: “Plantar uma árvore, escrever um livro e fazer um filho”; quando ouvia, em miúdo, isto, de mim para mim o maior desejo inquestionavelmente estava com o livro, lá por casa, com demasiada insistência, empurravam-me para a leitura, o problema é que nunca gostei de ser empurrado e muito menos que meçam forças comigo, por conseguinte, durante muitos anos andei afastado de capas, lombadas, contracapas e páginas, sempre que, ao serão, reforçavam a pertinência da leitura, simplesmente respondia: “Ler é perda de tempo! O importante é viver!” E não estava errado, como se pode derramar numa folha de papel o que não se viveu? O gosto pelo livro veio mais tarde, foi preciso um Mago para o despertar, e, até à minha última expiração, estar-lhe-ei grato, assim como ao...
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  Quanto já perdeste no aquém por tanto olhares a distância? Nunca serás feliz nessa demanda pela perfeição! in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã

As toneladas do pensar inclinam-me para a terra

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  Há uns dias, apercebi-me desta evidência: sempre que o pensar num torvelinho, eu a olhar o chão do mundo, como se precisasse de um lastro para não me afundar de vez… Pois, de facto, o pensar pesa-me toneladas, como gostava de, pelo menos, livrar-me de algumas, aligeirar este pesaroso fardo que, a cada instante, me ameaça esmagar de encontro à terra, andava eu nisto quando, de repente, surge a imagem de uma velhota, amiga da família , há uma altura na vida, não sei porquê, que todos os adultos nos parecem velhos, como se falassem uma linguagem distinta e simultaneamente vivessem num mundo lá muito deles, aborrecidíssimo, onde só há lugar para telejornais, inflacção, problemas e mais problemas , enfim, tudo aquilo que uma criança abomina – o esbater das cores do mundo –, como dizia, há uma altura na vida, não sei porquê, que todos os adultos nos parecem velhos, e, apesar de haver décadas de diferenças entre eles, tudo nos passa despercebido, por um simples facto: são adultos - fa...

Que rosto contemplarei quando fechar os olhos pela última vez?

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  Percebi, há pouco tempo, que sou eu que procuro o mundo e não o mundo que me procura. Chegar a esta conclusão teve, claro, o seu quê de amargura, nunca é fácil percebermos, de repente, que a nossa campainha deixou de soar. Reconheço que já ando para aqui há algum tempo, não é que esteja para além dos limites, pelo contrário, ainda estou aquém dessas metas, contudo, muitos da minha leva já embarcaram na derradeira viagem. Ao contrário de outros, não a receio, tenho uma inesgotável curiosidade em saber onde me conduzirá, sempre ouvi falar em tantos destinos, desde horizontes de nuvens e criaturas aladas, a intermináveis fogos acompanhados de gritos lancinantes, outros dizem que se trata de uma pausa, para aqui regressar com outras vestes, há ainda quem defenda que tudo acaba, como se mergulhássemos numa noite imensa, onde não houvesse mais nada, nem nós mesmos, confesso que esta visão sempre me assustou um pouco, pelo absurdo da coisa, lembra-me, em certa medida, aqueles filmes que...
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  Às vezes pergunto-me o que é melhor na vida: se ter tacteado o céu e cair por terra ou se nunca do chão tirar os pés? in O lento esvoaçar das cortinas pela manhã