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A mostrar mensagens de março, 2020
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… persisto a olhá-la, aparentava a minha idade, ia na direcção das ruas pedonais, antes de se diluir por completo do meu horizonte, era o único que ainda lhe acompanhava os passos, olhou para trás como se perguntasse pelos meus sonhos. in Deslumbramento

Só espero que encontres um lugar onde reclinar a cabeça

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A primeira vez que nos cruzámos foi num dia demasiado chuvoso, logo pela manhã, estava eu de saída para o trabalho. Como sempre, saía em cima da hora. Estranho hábito este da lusitanidade: o de nunca se adiantar; como se as coisas do mundo, de uma forma sublimada, aguardassem por aquele que há-de chegar. Mas voltando a essa manhã, em particular. Não foi necessário abrir os estores, para compreender o uso de gabardina e de guarda-chuva. O barulho foi-me suficiente. Mas, assim que abri o estore do meu quarto, apercebi-me da aflição pintada de cinzento, de quem procurava, àquela hora, mobilizar-se entre ruas de rios, passeios cobertos de copas negras, filas metálicas pintadas de luzes, tudo sob o compasso da incessante água em queda e de uma contínua oscilação surda nos vidros das viaturas. Ao deixar a janela, deparo-me com a minha cama, ainda quente, ainda desfeita, que me lança um grito ensurdecedor, de sereia abandonada, e eu prestes a naufragar, talvez devido ao temporal ...
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Havia nele, simultaneamente, uma alegria contagiante e uma tristeza melancólica, tão estranho… Por vezes, dava-lhe, subitamente, para revisitar lugares do passado, como se vivesse em vários tempos, não sei se me faço entender… Talvez fosse o contrário, e quisesse apenas trazer o ontem ao hoje. in Harmonia

Rua das Almas

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De que é que tenho medo? Não sei… Bom, no fundo, de tanta coisa… Depois vai-se a ver e, num repente, perco-os a todos e atiro-me de cabeça à primeira ilusão, depois magoo-me, e já foram tantas vezes, daí o cansaço, percebes, certo? Para quê juntar-me agora? Faz algum sentido? Não, não quero ficar sozinha, mas não vou deixá-la nesta fase, nem à rua consegue ir sozinha, acho que me mente, parece ver cada vez pior, já nem lhe pergunto pelas legendas, chega de testes, para quê carregar na dor? Sim, é verdade, é mesmo estupido, ultimamente refugia-se nas novelas, ao menos aí fica escudada de legendas, ninguém a chateia...

Um Encantado e Lento Entardecer

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Um final de tarde (Verão?) numa esplanada. Talvez pela época estival, àquela precisa hora, onde um prenúncio de despedida ecoa no silêncio arrastado das lentas e arfantes sombras do mundo, haja, em cada rosto, a resignação sentida de uma derrota partilhada. Para onde se debruça aquela esplanada? Para o omnipresente azul líquido da terra? Ou para o das alturas? Ou será que se debruça sobre o interior amenizado, talvez pelo cansaço da derrota, daqueles que, sentados, ocupam um lugar, que julgam seu, no mosaico de uma contemporaneidade sempre fugidia? Um entardecer de Verão relembra um comboio que parte (para onde?), numa lentidão demasiado dolorosa, de uma qualquer estação, talvez porque esse compasso arrastado nos relembre despedidas. Eles ali estão. Partilham uma mesa. Cada um a saborear o seu gelado, com sabores diferentes. Sim, para partilhas já chega a mesa. Chegaram há algum tempo. Num passo arrastado. Depois de escolherem os sabores, precipitaram-se sobre as cadeir...
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O lento esvoaçar das cortinas pela manhã

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Uma vez ela leu que a vida de um casal se escreve na cama, a frase demorou-se nela, chegou a pousar o livro para digeri-la devidamente, anuiu passado o necessário, de facto era tão verdadeira (“A vida de um casal escreve-se na cama”), a sua actual circunstância é um espelho dessa verdade, amarga no presente, por vezes, ansiamos tanto por mudança, novidade, rupturas, como se implorássemos ao tempo que estugasse o passo, e numa inesperada manhã, diante da nossa total impreparação, a vida, desdenhosa, altera-nos radicalmente o viver, da janela do quarto ela olha o possível, nada onde se lhe demore a vista, ainda menos o pensar, em si levanta-se a memória com o aroma a café quente, como é distinto o cheiro a café quente comparando com enfraquecido e inerte aroma a café frio, o perfume do café quente é digno de todas as manhãs do mundo, há quem diga que Deus bebeu uma chávena de café quente para se inspirar na criação de tudo, pois, é possível, mas, neste momento, em pé, ela ol...

Quantas vezes nos cruzamos na vida (para depois nem um adeus)?

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Àquela hora a sala estava cheia. Afinal, era uma da tarde. Ele ocupava a mesa de sempre. Olhos no prato. Não bem no prato. Em qualquer outra coisa. No ar, múltiplas vozes numa só conversa, talvez, no fundo, se trate de uma só voz, sempre demasiado alto, que se desdobra pelas diversas mesas, num assunto oco, balizado entre o queixume e a projecção. E ele a olhar para a comida, sem qualquer vestígio de apetite. Só sente sede. A sua afinidade está com o copo. Tem sede de se esquecer (de si?)... Ainda não levara o garfo à boca, e a garrafa em metade. Agora roda o copo, vazio por enquanto, firme na mesa, com o médio e o polegar. Roda, e roda, e roda… E no copo, não se consegue encontrar, nem agora, nem em momentos idos. Pega na garrafa. O copo, desta feita, escarlate. Sim, agora vê-se um pouco. Um sorriso, embora de há muito. Na mão, um saco transparente com pipocas. Ela ocupada com o algodão doce. Cor-de-rosa, sim, lá está. E, na frente deles, um carrossel, num apelo, sem lugar ...

A sabedoria dos avós

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Hoje apenas uma memória, se me perguntassem quando a última vez que o senti, não poderia responder, em verdade, não me recordo, apenas tenho a certeza de que, com o tempo, foi à minha volta rareando o cheiro a terra molhada, como eu gostava, após uma chuvada, em mim e à minha volta desse aroma que se levantava da essência das coisas, por momentos, breves de facto, parecia que homem e natureza se reencontravam, e um sentir de regresso à casa de sempre, há tanto que não sinto o cheiro a terra molhada, nem mesmo quando chove dias a fio, embora já não chova assim muito, hoje tudo é uma outra coisa, de repente, outro aroma levanta-se-me na memória, o cheiro a lareira, a musicalidade do crepitar da lenha fazia-se acompanhar pelo conforto do calor e o consequente terror das cinzas, contudo, por muitas que tenha presenciado, em mim só reside o aroma da lareira da casa dos meus avós...
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A Solidão de uma Música Partilhada

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De onde vinham? Àquela hora tardia? Afinal, que horas eram ao certo? Não se sabe. De facto, não se consegue perceber que horas marca o mostrador do carro, naquela peculiar tonalidade a atirar para o alaranjado. A cidade sob um manto de silêncio. Do rio, emerge uma neblina com auspícios de conquista. No ar, um temor de ecos. O carro procura a jusante de um lar (feliz?). São raros os faróis circulantes. Apenas, e por uma vez, o eco demasiado metálico, pontuado por assobios cansados de tanto os repetirem, de um camião de recolha dos excessos. À passagem do digno centro da cidade (todo o centro reveste-se de uma dignidade indizível), vislumbram-se sombras (muitas) sob arcadas graníticas, que ora se expõem, num canto doloroso de sereia naufragada, ora se recolhem no corar inoportuno de uma menina esquecida (ainda terão a memória desta?). Na rua contígua às arcadas, algum trânsito, apesar da hora. Viaturas com único tripulante, de olhar fixo nas trémulas sombras, talvez outros nau...
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Uma Secretária à Sombra

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O quarto cheira a solidão. Sim, aquele quarto em particular. Será um quarto? Bom, trata-se de uma divisão da casa. Mas a que não deram a finalidade de quarto. Deram-lhe uma outra. Tem uma secretária e livros, livros, e mais livros… Na secretária, papéis agora arrumados. Quem ocupa esta divisão? E de quem é a casa? Sombras, agora sombras. Regressemos a esta divisão específica. À secretária com os papéis arrumados, aos livros, ao estore corrido, às luzes apagadas (sobretudo a do candeeirozito da secretária, que dava aquela tonalidade esverdeada), a cadeira arrumada que proclama, no desconforto de um grito, o vazio desolador de uma partida. Quem partiu? Quem ali vivia? De quem era aquela casa? Não nos interessa a casa. Somente aquela divisão. A dos livros, a da secretária. Mas a casa… Não! Interessa-nos, apenas, onde vivem as ideias. E uma casa sem livros é uma casa sem ideias. E de pobreza, estamos conversados. Será tarde, lá fora? Sim, talvez entardeça, anunciam as e...
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… uma vez alguém escreveu ou disse, já não me recordo, “Saber sair de cena é uma arte”, não podia estar mais certo, no fundo, há algo que nos pertence por inteiro: a vida que nos resta… Se arranjar forma de descobrir que o sol lá fora brilha tanto como o de ontem, seria tão bom, não acha? in A face demorada da tarde