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Mensagens
A mostrar mensagens de janeiro, 2021
Há noites que nos engolem a alma
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Deixou cair a pesada mochila, com uma incontida expiração de alívio, num dos degraus, sem precisar qual, e, de seguida, sentou-se. Ladearam-no três ou quatro colegas de ofício, e pensaram a noite. Concluíram o fraco pecúlio de hoje, e, já luzes da cidade acesas, decidiram-se pelas arcadas ao cimo dos degraus. Antes da mochila ao ombro, ele pára, apenas para inspirar, e inicia a vitória dos seis ou sete degraus que o separam do anunciado repouso. Os colegas já de sacos-camas estendidos, ele ainda na perplexidade do momento. Sim, primeira noite de estrelas, no olhar, e de lajes, nas costas. A diligência dos outros denotava o dia da partida do lar. Ele ainda com movimentos renitentes, uma delas em seu auxílio, a esteira, depois o saco-cama, um sorriso aquecido que contrastava com o frio galopante da madrugada. As sandes do almoço já distantes. Resolvem partilhar os créditos do dia. Dois partem em busca de mais sandes. Os restantes permanecem sob as arcadas, na salvaguarda dos aposentos. E...
O Silêncio do Verbo
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Hoje, precisamente nesta noite, regressa aquela rua. Há quanto tempo dali partira? Certamente que há muito. Pelo caminho, recolhe possibilidades. Deposita-as num saco de plástico, com o logotipo de uma superfície comercial desbotado, furos em vários pontos, e numa ameaça de ruína latejante. Todas as noites acolhe o que outros se recusam a mastigar. Assim é a vida: um ciclo infatigável de sementeira e recolha. Já conhecia os hábitos de alguns quarteirões. Quase lhes conhecia as vidas. Sim, de certa forma, era-lhes íntima. Sabia-lhes as preferências, os hábitos, os cheiros, e, acima de tudo, os limites. Sim, verdadeiramente só conhecemos alguém na emanação de uma transparência. E esta viaja por zonas recônditas, de luz difusa, com vozes sussurrantes, e gestos contidos… Havia prédios mais generosos. Ela sorria àquela abundância: meia banana por mastigar, um pedaço de carne com o osso ainda coberto, um iogurte, apesar dos vestígios salivados, aquém do fim, uma camisola apenas abras...
Há lugares onde os pássaros não pousam
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Caminhavam passos de incerteza. Como se hesitassem no destino. Iam pelos passeios da cidade, apoiando-se, como se, à vez, as forças se extinguissem, uma delas, com um papel amarrotado na mão, olhava portas e números. A outra, mais sobre si, como se procurasse compreender o mapa que ali a conduzira. Um vento de inverno arrefecia passos, mas despertava o pensar. Cruzavam-se com gente de ar desiludido, invernal, também de casacos, cores da noite, e de semblante opaco – como se detivessem um crédito, por sanar, sobre a existência. Mas o olhar delas detinha-se mais em números de porta do que em rostos. Por fim, uma porta coincide com o papel amarrotado. Antes da campainha, inspiram e olham à volta. Como se, sim, porventura um vento de outra direcção. A porta abre-se com um estalido demasiado metálico. Ambas num sobressalto disfarçado. Sobem seis degraus, sem acender a luz, a claridade da rua era-lhes suficiente. Hoje sentiam a doçura da obscuridade. Há momentos assim: geralmente env...
O Belo viaja com o Longe
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Qual foi a última vez em que acordei para nascer? Numa manhã ida, talvez demasiado ida, difusa numa memória tão cansada de o ser. Acordar com o sopro do novo… E a criança a descer os degraus, ainda na obscuridade, a sentir aquela frescura no ar pretérita da luz, abre a porta, branca, de madeira, sai para um quintal, ora em sombras, ora sob uma esperança iluminada de não sei bem o quê, como se essa revelação, talvez de tão nítida, soasse como um fechar de porta, sim, afinal, é apenas aquilo, nada mais, e, ainda há pouco, podia ser tudo… Quem nos traz a promessa? A criança, agora, atravessa o quintal, como se para mais perto da luz, ainda aquém de lestes (que idade teria?), sobe uma decrépita escada de madeira, encostada a um muro, e, no cimo, vê. No horizonte, de montes não longínquos para o olhar, nascia uma evidência: a de um começo. E a de um fim. A escuridão agora reduzida a ténues sombras. Sim, algumas alturas a resistir àquele abraço da evidência. Nisto, um hino intemporal...