Mensagens

A mostrar mensagens de junho, 2026

Opúsculo

Imagem
  “Porquê essa coisa de estar permanentemente a juntar palavras? Há quanto fazes isso? E, já agora, para quê?!”, não me recordo do instante em que a deixei de ouvir, a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, havia, da sua parte, uma nítida acrimónia com este meu lado de correr atrás de palavras, “Receias algo? Que possa contar alguma história nossa?”, foi a sua vez de concluir que a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, “Tenho lá tempo para receios! E a quem interessaria alguma história nossa? Só não compreendo a razão de perderes tanto tempo a juntar palavras, palavras e palavras… Ainda por cima, não te conheci assim…,” como lhe conseguia explicar algo que, em verdade, me ultrapassava por inteiro, não se exprime um desígnio, concretiza-se, “Tens olhado à tua volta? Em que mundo andas? Lamento informar-te, mas já ninguém lê! O mundo está inclinado para um rectângulo!!! Quer paliativos, pensos-rápidos, distr...
Imagem
A verdade é que a compreensão da vida é também a compreensão da ironia… in Nuvens passeantes pelas águas
Imagem
 ...  não julgues que gosto de livros, desde já te afirmo que os considero aborrecidíssimos, nada pode substituir a vida, todas as descrições de beijos escritas estão sempre aquém de lábios sedentos que se tocam... in Nuvens passeantes pelas águas

Cão velho tem olhar de sábio

Imagem
  Desde há umas semanas, que denoto um crescente distanciar pelos passeios, quando o procuro, atrás de mim, lá vem, na sua trémula passada, com o olhar verbaliza “Sempre andei à tua frente, agora é a tua vez de esperar… Não, não consigo andar mais rápido… O tempo é uma coisa tramada, e o nosso corre bem mais depressa…,” quando se punha com esta temática, eu atrás de palavras, não para lhe responder, mas para dar sentido a uma dor que me ameaçava lançar por terra, os olhos esbranquiçados de idoso, quando há tão pouco cintilavam uma desmedida alegria, correrias, sem amanhã, passeio fora, em certa ocasião, a estrada, um carro, a brancura do pêlo manchada de vermelho, o acontecer ultrapassa-nos sempre, embora persistamos em teimosias de tédio e fastio, as duas patas dianteiras com ligaduras, o olhar cabisbaixo, embora, quando me viu, ainda deitado na marquesa, em esforços para se levantar e vir ao meu encontro, o leque-traseiro traduzia, na perfeição, a sua desmedida alegria, ainda n...
Imagem
- Fica algum ressentimento? - Ainda vais a tempo de aprender que um bom coração demora a eternidade para se cicatrizar… Evita magoá-los, cedo aprendi que os ventos sabem o caminho de volta… Adeus, se passares por uma certa praia, usa uns brincos de prata que alguém te ofereceu depois de soletrar palavras de amor… in Nuvens passeantes pelas águas
Imagem
  Também resolveste aparecer nesta minha nocturna caminhada? - Pelos vistos… Já te apareceu muita gente? - Apenas os necessários. Há quem defenda que o mesmo sucede nos nossos dias sob o céu: cada um que nos surge ao caminho traz uma aprendizagem. Duvido muito sinceramente da validade deste raciocínio, cruzei-me com tanta porcaria que só serviu para desaprender ou perder a fé no bicho-homem (...) in Nuvens passeantes pelas águas
Imagem
 
Imagem
... um café é o centro do mundo, não havia melhor sala de aula, não compreendo como deixámos de olhar os outros, não há melhor leitura, olhando para trás, foi ali que verdadeiramente tirei o meu curso... in Nuvens passeantes pelas águas

Eu mais eu igual a qualquer coisa de indefinível

Imagem
  Sempre que sexta-feira, fim de tarde, Despacha-te começa a repetir-se lá por casa, a voz de minha mãe num volume crescente, os meus nervos em parelha com a sua volumetria, eu perdida atrás de objectos que insistem, não sei porquê, em esconder-se de mim quando estou refém da pressa, percorro as escassas divisões da casa que, em momentos assim, se me afiguram planícies de horizontes inalcançáveis, uma vez mais Despacha-te, outra ainda, Despacha-te, nisto a campainha, apresso-me a atender, já sei que voz me aguardava, Sim, despacha-te, tenho o carro mal estacionado, meu pai também com o recorrente despacha-te, peguei na mochila que, entretanto, pousara no sofá, dirigi-me para a porta, antes de a alcançar, a voz de minha mãe antecipa-se, Olha lá, nem te despedes? Não desacelero o passo, secamente respondo-lhe, Afinal, não tenho de me despachar? Percebo que fica, nas minhas costas, a ruminar qualquer coisa, já não me interessa, a porta, o elevador, a rua, o carro do meu pai em segu...
Imagem
  ... o problema é que nunca olhamos o outro, olhamos, sim, o que nele vemos de nós... in Nuvens passeantes pelas águas
Imagem
 
Imagem
 

Cesto de papéis

Imagem
  Bem sei que hoje quase não há cestos de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e, raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir, parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos desarrumou as coisas. É mais ou menos assim que me sinto, quando se subtraem ou se alteram paisagens do passado. Mais doloroso que nos subtraírem o futuro, é roubarem-nos o passado. Porque aí tiram-nos as certezas: do que foi, ou julgávamos ter sido… De certa forma, é correcto afirmar que uma frase silenciada tem como destino um qualquer cesto de p...
Imagem