Livros do Escritor

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terça-feira, 30 de junho de 2026

Opúsculo

 


“Porquê essa coisa de estar permanentemente a juntar palavras? Há quanto fazes isso? E, já agora, para quê?!”, não me recordo do instante em que a deixei de ouvir, a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, havia, da sua parte, uma nítida acrimónia com este meu lado de correr atrás de palavras, “Receias algo? Que possa contar alguma história nossa?”, foi a sua vez de concluir que a questão deve ser sempre singular, impõe-se-lhe uma dignidade contemplativa, “Tenho lá tempo para receios! E a quem interessaria alguma história nossa? Só não compreendo a razão de perderes tanto tempo a juntar palavras, palavras e palavras… Ainda por cima, não te conheci assim…,” como lhe conseguia explicar algo que, em verdade, me ultrapassava por inteiro, não se exprime um desígnio, concretiza-se, “Tens olhado à tua volta? Em que mundo andas? Lamento informar-te, mas já ninguém lê! O mundo está inclinado para um rectângulo!!! Quer paliativos, pensos-rápidos, distracções para as dores da alma, jamais parar, olhar-se a um espelho e, por fim, pensar-se…”, “Eu não escrevo para os outros, escrevo para mim… É o respirar da minha alma! Por acaso, inspiras e expiras pelos outros?,” “Quando se ama, pode dizer-se que sim…,” “Acabaste de correr atrás de palavras para me responder…,” “É possível, mas não me sentei, horas e horas, diante de uma folha em branco, tolhida, à espera de uma invisibilidade que me faça pegar numa caneta, para calar aquela obscena brancura que me ameaça tragar…,” “Não compreendo esse desvario com o facto de eu escrever! Seria melhor outro vício? Bebida? Droga?”, “Argumentação infantil, esperava mais, confesso, estamos, desde o início, creio teres compreendido, a falar de tempo… Só devemos dedicar, esse tão precioso bem, subtraído a cada instante, ao que amamos,” “Quem te diz que não amo a escrita?”, “Não se ama uma obrigação…”, “Aí te enganas ou talvez não… É um imperativo de uma outra ordem…”, “Há quem já coloque o seu nome como autor de um texto elaborado por aquela estupidez que será o nosso fim… Tens consciência disso? Vivemos a era do Faz de conta…,” “Calma, tenho isso bem presente no meu horizonte! Os medíocres, hoje, mais do que nunca, fazem de conta que são uns excelsos profissionais, os compinchas fingem acreditar e retribuem de igual forma, velando a sua mediocridade com o faz de conta… Assim se somam os dias, em todos os sectores, desta apatetada sociedade: faz de conta de que está tudo bem, faz de conta de que não és desgovernada por marginais, faz de conta de que não te mobilizas a comprimidos, faz de conta de que és muito feliz, faz de conta de que és muito ocupada, faz de conta de que tens muitas posses, faz de conta de que és muito solicitada, faz de conta de que és segura de ti, faz de conta de que gostas de todos à tua volta, faz de conta de que és muito bem-sucedida, faz de conta de que só sabes sorrir… Por aqui o perigo maior e a ameaça de, a qualquer instante, a máscara cair…”, “Está tudo muito certo, mas que tem tudo isso a ver com a quase total escassez de leitura?! Reflecte na quantidade de autores obnubilados ou a caminho da sombra… Quem hoje, de facto, lê os clássicos?! Pensa, por exemplo, a esta hora, pelo mundo, quem estará a ler um contemporâneo que valha a pena? Esquece os escrevinhadores de pacotilha, qualquer jumento vai, rua abaixo, com o tijolo debaixo do bracito, julgando fazer uma bela figura, embora, como bem sabes, desde tempos imemoriais, seja um número demasiado plural… Tudo se concertou, à nossa volta, para a preguiça de corpo e mente, por conseguinte, quem ousa desconstruir, peça por peça, um monumento literário?! Até faço um cartaz: PROCURA-SE”, “Denoto que perdeste a fé. Há uns dias, não por acaso, num contexto que apelava à diversão, olho para o lado e vejo um tipo a ler um dos gigantes russos…”, “Era novo?”, “Não.”, “Pois, lá está, ainda respira nele o vislumbre de um mundo ido. É esse respirar que o faz pegar num monumento literário e procurar, com uma minúcia de relojoeiro, desconstrui-lo peça por peça… Quem é o jovem, do hoje, com arrojo para tal??? Tanta imagem matou-lhes a imaginação!!! E talvez não seja um acaso… Podes escrever para ti, não discuto isso, contudo, nunca te esqueças: escreves para o ontem, jamais para o amanhã! O amanhã, tal como o hoje, pertence à imagem e aos escrevinhadores de pacotilha…”, “És profeta?”, “Não, sou mulher.”, “Não obstante o teu argumentário, sou habitado por um outro respirar, que me impele a juntar palavras, e palavras, ainda mais palavras… Se serão lidas? Não me interessa, pelo menos, consigo olhar-me a um espelho. Achas pouco? Para mim, é o tudo.”, “Claro que não acho pouco, considero até bastante, agora lembra-te: só no ontem encontrarás eco! O hoje traduz-se na fragilidade de um desses rectângulos que é incapaz de cair na dureza da realidade, precisa de uma salvífica película, assim perspectivam o mundo em redor, através de um filtro, que lhes esbate a dor e entorpece o pensar…”, “Há pouco esqueci-me desta: faz de conta que somos muito inteligentes… Não sei onde isto desaguará, espero, com sinceridade, não estar por aqui muito tempo…”

Pedro de Sá

(29/06/26)

 

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