Bem sei que hoje quase não há cestos
de papéis, e os poucos sobreviventes habitam, com certeza, em lares onde a sua
missão há muito não é cumprida, não por culpa própria, como é evidente, mas
pela idade de quem os olha. Sempre que via uma secretária, sabia que, por baixo
ou ao lado, lá estaria o inevitável cesto de papéis, como se fosse um facto da
ordem do existir. Hoje, por muito que me custe, as coisas alteraram-se, e,
raramente, por baixo ou ao lado de uma secretária, se encontra um cesto de
papéis. É sempre difícil lidar com uma alteração na ordem do existir,
parece-nos que, de repente, alguém invadiu a casa do nosso viver e nos
desarrumou as coisas. É mais ou menos assim que me sinto, quando se subtraem ou
se alteram paisagens do passado. Mais doloroso que nos subtraírem o futuro, é
roubarem-nos o passado. Porque aí tiram-nos as certezas: do que foi, ou
julgávamos ter sido… De certa forma, é correcto afirmar que uma frase
silenciada tem como destino um qualquer cesto de papéis da nossa alma. E como o
meu está cheio! Com o tempo, aprendemos o silêncio, é uma aproximação lenta, os
anos passam, nós mudamos, não é o mundo que muda, sempre esta ilusão, e, de
repente, respiramos fundo pela harmonia de nos sabermos em silêncio, o resto
estridente do mundo já numa distância imensa, nós naquele instante de
serenidade, talvez permita vasculhar o cesto de papéis da nossa alma, meu Deus,
o que para aqui vai! Não sabia que ficara tanto por dizer… Baixo-me junto do
cesto, está quase a abarrotar, talvez seja melhor sentar-me, sim, sem dúvida,
começo a vasculhar papéis, enfio o braço quase até ao fundo, retiro daí uma
folha amarfanhada, reparo na evolução da minha caligrafia pelo tempo, afinal,
já em criança silenciava sentires… De repente, não sei de onde veio, irrompe, no
caminho do meu pensar, a imagem daquele cão a examinar passeios anoitecidos
numa minúcia detectivesca, dois passos atrás, em esforço pela trela, ela
seguia-o quase numa devoção religiosa, saíam sempre à mesma hora, via-os da
janela, para mim, sempre a rapariga do cão, não sei porquê, enternecia-me,
havia tanta feminilidade em cada gesto seu, apreciava-lhe a lenta suavidade de
ajeitar os cabelos para trás da orelha, um gesto tão repetido, mas para mim
sempre novo, não me cansava de o rever, as ruas, àquela hora, já iluminadas
pelos lamuriosos candeeiros nocturnos, sabia-lhes a rota, iam até ao final da
praceta, cerca de centena e meia de metros, e regressavam, ela dois passos
atrás, em esforço pela trela, até que, certa noite, um sujeito, à mesma hora, também
com um cão, mas apenas um passo atrás, não se lhe denotava esforço pela trela,
o primeiro contacto foi ao nível do passeio, pararam, olharam-se, por fim,
cheiraram-se, as caudas ininterruptas, como leques, ela, uma vez mais, a
ajeitar os cabelos para trás da orelha, contudo, desta vez, foi célere, como
sempre acontece nestas ocasiões, as palavras trocadas tinham como pano de fundo
os ininterruptos leques abaixo dos joelhos (Não
se preocupe que não morde! É menino ou menina? Ainda é novinho, certo? A minha
também não. É muito meiguinha e sociável. Tenho-a há três anos, foi-me dada com
dois meses…), por norma, é este tipo de frases que se ouvem quando duas ou
mais trelas se imobilizam, com uma ou outra variação, de vacinas, a escalada
dos preços na saúde dos amigos de quatro patas, a biografia do leque pelos
joelhos, algumas dignas de um fado nocturno, e pouco mais, muito pouco mesmo,
porém, não sei porquê, entre aquelas duas trelas imobilizadas sobre lamuriosos
candeeiros nocturnos, percebi, de imediato, que havia muito por dizer, enquanto
ao nível da calçada os farejares se harmonizavam, as trelas assumiram a mesma
direcção, nas noites seguintes, os cerca de cento e cinquenta metros, até ao
final da praceta, passaram a ser cumpridos em diálogo, mais duas solidões que
se extinguiram, reparei, por mais de uma vez, que ela se esquecia de ajeitar os
cabelos para trás da orelha, ficava com a melena a ocultar-lhe parte do rosto,
mas nunca do sorriso.

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