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A mostrar mensagens de janeiro, 2020

Quanto tempo dura uma sombra?

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De repente, vejo-me diante deste estranho, com um aspecto frágil, delicado mesmo, e a questão (“Então, o que a traz cá?”) suspensa entre nós, embora só me pese a mim, quase me ensurdece (“Então, o que a traz cá?”), eu opto por olhar à volta, não me passou despercebido o silêncio da divisão, convidativo ao fluir da palavra, embora talvez um pouco artificial, uma vez que, lá fora, a dessintonia habitual da hora citadina, era uma sala agradável, um pedaço de lar ali colocado, as cores suaves, das paredes aos objectos, ao centro pontificavam dois cadeirões, de frente um para o outro, num convite implícito ao diálogo, assim que os vi, nasceram-me palavras... 
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… não vivemos, vamos morrendo, mais lenta ou rapidamente, esta é a realidade... in Divagações

Ao Sabor de um Eléctrico pelas ruas da Cidade

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São sete da manhã. Ele permanece ainda deitado. Chegara a dormir? O estore corrido não consegue travar o anúncio de dia. Levanta-se, numa dificuldade crescente do acumular dos dias. Mas, sim, levanta-se. Após arranjar-se, e antes que o silêncio da casa lhe ensurdeça a razão, senta-se num banquito de madeira para comer um copo de leite e um bocado de pão com marmelada. É uma casa pequena. Da cozinha avista a cama por fazer, e os bibelôs empoeirados por cima da televisão. Primeiro, sorve um pouco de leite. Não sabe porquê, mas sempre se habituou em jejum a ingerir primeiro líquidos. Talvez por ser mais digerível. Só depois vem o pão da véspera acompanhado com um poucochinho de marmelada. Mastiga, também, com a dificuldade do tempo acrescido, no ensurdecedor crescente silêncio da casa. Por fim, embrulha tudo e repõe nos sítios. Ao abrir o frigorífico, sempre se espantou com o excesso inato de prateleiras. Afinal, o dele emanava a brancura do vazio. Sempre foi assim. Até em anos ...
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Divagações

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A partir de hoje, se me perguntarem porque escrevo, responderei: porque a vida não me chega! É um facto: a vida não me chega! Aqui chegado, continuo sem lhe encontrar um sentido, quanto mais o Sentido, tantas teorias, da religiosidade às filosofias, porém, nada que, no quotidiano, mitigue uma extenuada questão regressada na voragem do acontecer: O que ando aqui a fazer? Se me perguntassem a coisa de uma outra forma (Gostas da tua vida?), a minha resposta seria pronta: Não! Quem responde o inverso (seja pela instaurada tirania do maldito politicamente correcto, para não ferir susceptibilidades próximas, pela ditadura do sorriso, a fraqueza de não reconhecer erros…), mente ou mente-se...

Uma janela para qualquer coisa de bom

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A primeira vez que ali entrei, pela mão dos meus pais, teria os meus sete ou oito anos, desde logo, fascinou-me a grandiosidade e a beleza do espaço, pude contemplá-lo demoradamente porque havia uma fila considerável, compreendi, pelas rasgadas janelas, um verde, lá fora, a relembrar-me aventuras em paragens longínquas, enredos de cinema ou banda-desenhada regressaram-me à vista de tão luxuriante paisagem, quando chegou a nossa vez, uma voz sussurrou-me (não me recordo se meu pai ou minha mãe), “Agora escolhes quatro variedades”, eu, atónito, a contemplar as múltiplas iguarias, algumas pela primeira vez, hesitante, renitente, a voz insistia: “Escolhe quatro variedades”, quase tacteando lá procedi à minha selecção, depositaram-me o prato no tabuleiro (não me recordo se meu pai ou minha mãe), seguiu-se a escolha da sobremesa, o meu olhar, não sei porquê, perdido numa iguaria verde, nunca vira um doce com tal coloração, com a exigida educação (sim, houve tempos em que a educaçã...
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Tem de haver uma Biblioteca no Céu

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Conheci-o já adulto. Sim, porque só conhecemos alguém, quando compreendemos as suas paixões. E para compreender as do meu Tio, levei o meu tempo. E esse exigiu a maioridade. Recordo-me, com nitidez, a sua forma de receber. Com elevada cortesia, convidava-nos a entrar, e apontava-nos, com a sua mão direita, o fundo do extenso corredor à direita. Aí chegados, entrávamos no seu mundo: um mundo de papel, de silêncio, de saber, de sonhos… E foi aí, que me deu a conhecer o sublime da essência humana. Sentava-se, na sua secretária, diante de mim, e dissertava acerca da temática mais relevante para o momento. Por vezes, parava, para ir em busca de um qualquer texto que, oportunamente, ilustraria, na perfeição, as suas palavras. E como era extenso o seu universo de papel! O seu olhar, acompanhado pela mão, percorria lombadas e lombadas e lombadas. Por fim, regressava sempre, num triunfo silencioso, com o volume desejado. Sentava-se. Olhava o livro com uma familiaridade quase orgânica. C...

O Verão é um lugar lá atrás

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Há palavras que fatalmente nos remetem para tempos e lugares, Verão é uma delas, hoje, quando a ouço, limito-me a olhar para um tempo em que vivia o presente, foi tão precoce este desaprender, não me recordo do momento, apenas do seu carácter matinal na minha vida, lamento-o bastante, talvez por isso hoje queira regressar a um tempo onde o passado estava à distância de um olhar e o futuro apenas um sonho por sonhar, há felicidade maior que respirar o instante? A angústia, assim sendo, não advém da ignorância, mas da consciência de tão precoce desaprender, e a amarga compreensão da impossibilidade desse regressar, há quem o tente através de retornos e recriações estéreis, não sei se chegam a entrever o malogro dos seus esforços ou o ridículo do itinerário, embora, por estes dias, ridículo seja um vocábulo em desuso, tal a proliferação da sua essência, mas quando ouço Verão, limito-me a olhar para um tempo em que vivia o presente, e para uma terra, de casinhas brancas, que contem...

Por favor, diga-me que sim

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Chegaram ao centro comercial, como é habitual ao sábado, por volta das 3 da tarde. Apesar da idade do carro, a estima dele não esmorece. Ainda por cima, como ele costuma dizer, sempre que pode trata de o abonecar. Já lhe mudou a dianteira e consequentes novas ópticas. O anoitecer, para ele, ganhou um novo desígnio: afinal, a estrada passou para uma tonalidade algures entre o azul e o roxo. E não esquecer a traseira… Mas já chega de carros. Afinal, acabaram de o estacionar, e, ao sair, ele não evita bater com a cabeça no terço, pendente do retrovisor, que a mãe o obrigara a colocar, sob promessa. Ela saía com mais solenidade: não só pelos saltos, como pelo carácter da ocasião. Antes de as portas se lhes abrirem de par em par, com a promessa de um triunfalismo nunca chegado, ele prime o botão da chave, e escuta o guincho metálico do carro, observa o reflexo das luzes nos vidros, e incha o peito por uma confiança revigorada. Ele dá-lhe a mão. Com a outra ajeita o boné. Enverga u...
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Quantas vezes se Morre e Nasce ao longo da Vida?

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O cortejo negro, num passo lento e doloroso, contrastava com o azul demasiado azul, talvez pelo seu convite à alegria, do céu. Não era um cortejo muito longo. Também não se esperava que o fosse. Mas no íntimo de cada um, latejava uma indizível revolta pela exiguidade do mesmo. Afinal, tratava-se de uma última homenagem. E, para essa, todos são convidados. Ela ia amparada (não se recorda por quem), a olhar um vazio, talvez não olhasse, mas começasse a sentir. Por fim, os passos cessaram. Algo desceu (um regresso?), ouviu palmas (soaram-lhe estridentes, despropositadas, ocas), e o som (inesquecível) de pás e terra, terra a cair em madeira, e este som ecoou nas suas raízes, como um grito secular mudo, e ela estremeceu, sentiu-se cair, agarrou-se à falésia anónima do ombro que a ladeava… Quando, por fim, abriu os olhos, só terra. Da madeira, nem sinal. Olhou o rosto dos homens das pás. Ostentavam um rosto condizente com a mecânica dos seus movimentos. Nutriu compaixão, afinal que sen...